Estratégias para Moral e Cívica… e a Fé

Disco Eu Te amo meu BrasilAo ler a matéria do Guilherme Freitas Laços entre religião e Politica no Globo de hoje 4/5/2013, onde a pesquisadora Christina Vital em seu livro “Religião e política: uma análise da atuação dos parlamentares evangélicos sobre os direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil”, em sua entrevista relata as estratégias da bancada evangélica sobre seus anseios no poder, lembrei das estratégias do regime militar pelas quais passamos com o tema da Moral e Cívica.

Em 1970 já faziam dois anos que tinha me mudado para São Paulo, os três primeiros vivi em minha cidade natal João Pessoa, mais três anos em Recife. Minhas férias escolares eram divididas entre Riosde Janeiro (avós paternos) e João Pessoa (avós maternos). Assisti a final Brasil  4 X 1 Itália no dia 21 de junho de 1970 na casa do vô Raul Córdula, tinha eu meus oito anos, achava o máximo cantar “90 milhões em ação, pra frente Brasil do meu Coração”, eu via de fato todo mundo de mãos dadas empurrando a seleção, não imaginava a propaganda subliminar que tinha por causa daquele ufanismo que se juntava a outras duas músicas que faziam parte da propaganda do regime militar de Geisel. A seleção ajudava o Brasil, o país do Futebol, a outra música era  Esse é um país que vai pra frente, na vinheta animada tinham todos os tipos étnicos, campesinos e metropolitanos. E a terceira música era Eu te amo meu Brasil, musica e letra de Dom, da dupla Dom e Ravel. Nos links percebam que todas eram cantadas pelo Os incríveis, que era um grupo da jovem Guarda e que faziam parte da estratégia do regime em atingir aos jovens, apesar das músicas serem marchinhas. Observem se essa estrofe fosse cantada hoje…

“As tardes do Brasil são mais douradas
Mulatas brotam cheias de calor
A mão de Deus abençoou
Eu vou ficar aqui porque existe amor
No carnaval os gringos querem vê-las
No colossal desfile multi-cor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar amor”

Qual seria a reação do movimentos feministas e negras em relação a letra. Enfim era assim que aquele governo machista colaborou para criar esteriótipos que até hoje não conseguimos mudar, futebol, praia e mulata. Pode acreditar que na COPA 2014 os gringos continuarão querendo vê-las no colossal desfile multi-cor.

Felizmente a educação em casa era feita com músicas de protestos, Vandré, Chico, Milton, Violeta Parra, Mercedes Sosa, sambas paulistanos de Adoniram e Eduardo Galeano e As veias abertas da América Latina e muito teatro, Oficina, Ruth Escobar, jornadas do Teatro Opinião, Plinio Marcos.

O pacote das três músicas citadas fazia parte de um projeto educacional chamado “Campanha de Educação Cívica” criada pelo Rasputin da Ditadura o General Golbery do Couto e Silva que foi um dos criadores do golpe, criou o IPES Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, a primeira rede de grampos telefônicos no Rio de Janeiro com mais de 3 mil telefones, nas palavras do pesquisador Almir do Santos “No dia 29 de novembro de 1961 o IPES passou oficialmente a existir. Seus objetivos aparentes eram: a) estimular a educação cultural, moral e cívica do povo brasileiro; b) estimular, por meio de pesquisa, o crescimento econômico, o bem estar social e o fortalecimento do regime democrá-tico. Com esses objetivos, seu lançamento foi aplaudido pela grande imprensa (o Globo, o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, entre outros). Entretanto, o seu verdadeiro objetivo era: estimular uma reação empresarial à tendência esquerdista da vida pública.”Depois de sair do governo Castello Branco criou e foi o primeiro dirigente do famigerado SNI Serviço Nacional de Informação,

Da mesma forma que Golbery criou uma estratégia de condução do poder no regime militar, muito bem amparado pelas instituições, mídia, empresariado, militares, serviços de informação, percebam que a bancada evangélica (com seus 90 deputados, quase 1/5 do Congresso) constrói seu sistema, utilizando as redes sociais, a mídia (deles), ocupando as comissões, não precisamos falar de “voce sabe quem” (como diriam em Harry Potter). Paralelos e ações semelhantes utilizando a Moral e a Fé para um outro projeto, no meu ponto de vista perigoso, me lembro de Lula, então presidente, na I Conferência Nacional LGBT, onde em seu discurso alertou ao movimento, que as conquista até aquele momento iriam sofrer grandes repercussões e entraves… pois então.

 

 

 

Esta entrada foi publicada em Ditadura. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*