Memória, Identidade e Arquivo: a política do vazio visual.
Em geral, quando se pensa na história da ciência e tecnologia, o máximo recuo temporal que se faz, é ir até a Grécia, ou, para aqueles sem sentimentos negativos para com outros povos não ocidentais, ao Egito, Oriente Médio e alguns países da Ásia, como Índia e China.
A idéia para o primeiro post do ano, era colocar a figura de um calendário do “controverso” povo Dogon, no Mali. Com isso, pretendia falar sobre os conhecimentos científicos a sua relação com as tradições… o registro destas culturas, sua relação com o conhecimento humano. Mas ai, ao procurar, algo que me parecia evidente, se mostrou invisível. Uma busca sobre calendários relacionados ás culturas africanas, em geral, se mostrou pouco relevante, quase nula. Parece algo irônico que a negação desse fato: o de que viemos desse continente, passe também pela negação não apenas do fenótipo africano, misto de reações diversas. Passa também pela negligência de querer saber, ou mesmo esconder, calar, omitir…
Calendários registram, ou guardam, cada um ao seu modo, o tempo. Essa prática produz esse “objeto cultural” valioso, que é medido, vendido, gasto, retirado, acrescido, sempre de acordo com uma intenção. No caso da memória digital, que se condensa como valor cultural tanto no passado, presente e futuro, a possibilidade de ligação desses momentos só ocorre com o arquivo. Neste dispositivo, podemos ter o que foi produzido ontem, hoje e guardar o que será produzido, além de recuperar, em tempos futuros, o que se tem guardado.
Por fim, achei não um calendário, mas a Real Sociedade Britânica, que conduziu uma palestra do professor Thebe Medupede, um astrônomo da África do Sul, intitulada “Cosmic Africa”. Da mesma forma que manifesto aqui meu incômodo, o professor, munido de seus registros e dados, produziu um documentário com o mesmo nome. Já para os Aimarás (limítrofes entre Peru, Bolívia, Argentina e Chile) etnia a qual pertence o presidente Evo Morales, o tempo é medido de forma inversa a nossa. Assim, o que está à frente é o passado, o qual se pode ver, ao passo que, o futuro, é aquilo que está nas “costas” e não pode ser visto.
O arquivo, o registro, a informação nunca é neutra, como discursos sobre algo, são sempre construções humanas e como tais, determinadas por suas potencialidades e fraquezas. O mais incômodo disso tudo é a posição de muitos profissionais de arquivo que vêem como irrelevantes, todas aquelas culturas que não possuem registros escritos para se constituírem em povos com historia. O filósofo alemão Hegel, escreveu em seu livro “Filosofia da História” que os africanos não tinham história, eram pré-históricos e portanto, pertenciam à infância da humanidade. Há, para ser justo, opiniões (posteriores á sua morte) que contestam, sem mostrar textualmente os argumentos. Tudo muito triste e silenciado, mais uma vez.
Muitos profissionais da ciência da Informação, da Ciência da Computação, da História, e campos afins, não só acreditam nas palavras de Hegel, como também se esmeram para fazê-las verdade, afinal, são eles quem definem o que é documento, tecnologia, e civilização.
Quando se pensa, por exemplo, que o Império de Gana, entre muitos, teve milhões de pessoas, antes que os europeus fossem para lá escravizar e matar, e que por isso teriam necessariamente que conhecer os corpos celestes para com isso praticar uma agricultura baseada em períodos temporais, fica-se com a questão porque isso é silenciado, quando se fala em ciência e tecnologia.
Os conhecimentos culturais dos povos não ocidentais, não raro, são objeto de desprezo. Arquivos são construções culturais, políticas. Contém aquilo que as sociedades querem preservar, esconder, ou negar. A queima dos arquivos da escravidão ( os registros de entrada nos portos e as compras nefastas) brasileira são um exemplo. Por sorte( ou azar de muitos arquivistas) não foram todos destruídos. Há partes na Holanda, Portugal e Noruega ( sim, os noruegueses, hoje tão civilizados, escravizaram bastante…) que mais cedo ou mais tarde, serão parte da memória do futuro. Os arquivos do período da ditadura, outro de grandeza imensa.
Conforme se sabe, o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão no mundo. Esse dado macabro de nossa história ainda ecoa quando se pensa no que se tem dessa época como memória. O futuro, sem uma visão honesta do passado, se torna repetição da mentira. Temos a chance nesse século XXI de avançar, mas isso só irá ocorrer quando o silêncio, sobre esses e outros assuntos, como a terra e os latifúndios, forem tomados como palavras livres, abertas, públicas.
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