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Tudo muda rápido, o agora é a memória.

Já houve muitas iniciativas para discutir a memória. Já houve muitas discussões. Já se ouve, que haverá novas discussões. Todas elas são necessárias, mas seria importante, na mesma medida, que os resultados se traduzissem em práticas. Eu havia pensado que nesta segunda edição do Fórum, seria interessante que se fizesse um apanhado do que realmente se conseguiu em termos das discussões sobre acervos digitais no Brasil. Para começar, dentro de casa.  Claro está que a figura abaixo, mostra o quanto temos que discutir ainda. Mas estamos, ao menos, cientes. Mais por vir.

Waybackmachine, o acervo de páginas da do Internet Archive

O momento atual é o de que linhas de financiamento, recordes de bilheteria e número de filmes produzidos no Brasil aumentam.  Em todas as outras esferas de produção de conteúdos, em todas elas, o cenário é semelhante: na musica, nas artes plásticas, no teatro, na dança, nos games, no vídeo, no mercado editorial…nuca se produziu tanto. Contudo, os acervos, e sua parte mais sensível, seus conteúdos, têm o real inconveniente se serem esquecidos. Real porque o que sabemos do passado, é aquilo, e somente aquilo, que foi preservado. Inconveniente porque, antes de tudo trata-se, literalmente, de uma questão de conveniência.

Os bisões das cavernas de Lascaux, na França, relíquias consagradas que devem ser preservadas, foram tidos por muitos anos, desde sua descoberta em 1940, como prova incontestável de uma linha de evolução da espécie humana. Assim, na Europa, estaria o ápice de uma era, na qual se dá, segundo essa ótica, o nascimento do simbolismo humano.Ocorre que em 2002, foi localizada em Blombos, na África do Sul, outra prova, igualmente incontestável, de que o simbolismo localizado nesse lugar, foi o que deu possibilidade da existência de Lascaux. Tal mudança, rápida em termos históricos, vem junto com outras de natureza arqueologicamente semelhante.

Aqui, no Brasil, onde as mudanças na cultura digital não são menos rápidas, os destinos dos acervos, no que tange ao uso e aos procedimentos ( o que implica questões de guarda, tecnologias, direitos autorais, legislações , tramites jurídicos, relações econômicas…) está sendo também discutido:

Será possível observar discussões sobre a Memória no Fórum 2010. O  que consta da ata acima, se for discutido, será uma reação da sociedade civil, além de conveniente, da mesma forma, rápida. As tecnologias livres, como os padrões de arquivos ou softwares, foram alvo de discussões do Seminário sobre Acervos Digitais, em 2010,  do Fórum da Cultura Digital Brasileira, em 2009, do Seminário Vias da Cultura, em 2009, do Seminário do CGI.br em 2007, e outras, menores em tamanho , mas não em relevância, ocorreram, e outras ocorrerão. Os acervos, esses, vão surgir, um pouco mais lentos. Qual é a participação dos movimentos que compõe os grupos interessados em acervos, nestes assuntos já em discussão? Tudo muito rápido.

Toda educação vem da cultura.

As tecnologias têm desenvolvimento mais acelerado que as sociedades que as criam. Isso quer dizer que a medida que se tornam complexas, escapam ao entendimento de seus próprios criadores. Assim, os criadores do disco de vinil, baseado na tecnologia da agulha para produzir som, jamais poderiam pensar que o uso propositado de um defeito, o scratch, seria incorporado pelos fabricantes dos toca-discos atuais, com seus sistemas hidráulicos de equilíbrio que permitem o contato manual com o disco sem perda de controle da sonoridade, ou efeito, pretendida.

Não podemos saber exatamente de onde vêm a invenção da roda. No entanto, seus usos são tantos e tão diferentes, que pode-se dizer que há neles um princípio, neste caso, o de circular. Mas ai, entra em questão uma ilusão da linguagem que pensa o princípio como existente antes da sua concepção. O verbo “rodar”, para objetos em contato com o solo, não poderia existir antes da roda…Hoje em dia, da mesma forma, já é possível dizer que “dar um nó em luz” não é algo figurado.

Essa rapidez das tecnologias em relação à sociedade, acontece de maneira mais intensa na educação. Isto porque o conhecimento científico está gerando objetos tecnológicos numa escala ais rápida que a escola consegue incorporar em seu discurso. As mudanças que as tecnologias sofrem, porém têm uma origem: a cultura. Por cultura, se entende as práticas que os grupos têm sobre seu ambiente, incluso nestes, os objetos tecnológicos disponíveis para tais práticas.

Os usos que os toca-discos tiveram foram variando segundo as práticas culturais que utilizavam estes objetos tecnológicos. Se o uso de arranhões mudou uma parte da música mundial, criou uma cultura planetária, e instituiu um novo padrão de objetos tecnológicos( as pick-ups dos DJs) as escolas, tanto de engenharia de som, quanto os conservatórios musicais, ainda não adotaram totalmente tal transformação. Há outros objetos tecnológicos que tiveram um profundo impacto. O vídeo, o telefone celular, o computador… Acontece que agora um objeto tecnológico de tipo diferente, com uma história de uso social com mais de dez anos, está literalmente agregando todos os outros: a internet.

Mais que um objeto, a internet é um conjunto, em escala global, de muitos equipamentos. Uma rede. Tal inovação permitiu que a educação pensasse daqui em diante, com sua lógica,  em coisas como “educação à distância”, “tele-aprendizado” e outros temos que dessem conta da contradição de situações de aprendizagem que prescindiam da tecnologia tradicional da escola: o quadro negro na sala de aula, cadeira enfileiradas, livros escolares. Todos esses objetos ficaram obsoletos com a internet.

Quando se fala em “Educação e Tecnologia” não se discute o fato de que “educação pública” é uma forma de tecnologia de aprendizado, um conceito ocidental recente. A maioria das culturas não possui um equivalente para tal atividade. Esta, aqui também no ocidente( os países de matriz cultural européia, com também é o caso do Brasil) não surgiu para o bem da população mas por demanda do capitalismo…

Enfim, As mudanças culturais (como a demanda por mão de obra qualificada) ocorrem sempre adiante da educação. Educação é tecnologia, e tecnologia é reflexo das práticas culturais. Isolar a educação numa redoma de “conteúdos curriculares”não se se mostrou ineficaz, como também excludente. Ainda não  existe uma grade curricular que englobe as imensas diferenças que existem nas sociedades modernas, todas elas desesperadas por “mão de obra” qualificada, ou educada…Não reconhecer que toda educação deve ser retirada da vida, e não apenas dos “conteúdos programáticos” ajuda, em muito, a perpetuar a exclusão que submete milhões de pessoas ( tanto alunos quanto professores) ao fracasso.

A inclusão de propostas de educação no Plano Nacional de Cultura, é uma esperança, mas não podemos esperar muito. Segundo a coordenação de cultura digital do MinC, “10 das 32 propostas finais da #iicnc atrelam as necessidades da cultura às da educação ” o que evidencia que uma, sem a outra, não se completam. Não pode haver educação dissociada da vida, da cultura. Por outro lado, não pode haver cultura, sem saber acumulado, sem sistematização das experiências…sem um esforço conjunto.

SXSW 2010

On Friday, March 12, one the biggest and most hyped media festivals of the year kicks off in Austin, Texas: South by Southwest 2010.

Os instrumentos inventados num determinado povo, teve melhoramentos por outro, adaptações e imitações imperfeitas, de forma independente das sociedades iniciais.

Memória, Identidade e Arquivo: a política do vazio visual.

Em geral, quando se pensa na história da ciência e tecnologia, o máximo recuo temporal que se faz, é ir até a Grécia, ou, para aqueles sem sentimentos negativos para com outros povos não ocidentais, ao Egito, Oriente Médio e alguns países da Ásia, como Índia e China.

A idéia para o primeiro post do ano, era colocar a figura de um calendário do “controverso” povo Dogon, no Mali. Com isso, pretendia falar sobre os conhecimentos científicos a sua relação com as tradições… o registro destas culturas, sua relação com o conhecimento humano. Mas ai, ao procurar, algo que me parecia evidente, se mostrou invisível. Uma busca sobre calendários relacionados ás culturas africanas, em geral, se mostrou pouco relevante, quase nula.  Parece algo irônico que a negação desse fato: o de que viemos desse continente, passe também pela negação não apenas do fenótipo africano, misto de reações diversas. Passa também pela negligência de querer saber, ou mesmo esconder, calar, omitir…

Calendários registram, ou guardam,  cada um ao seu modo, o tempo. Essa prática produz esse “objeto cultural” valioso, que é medido, vendido, gasto, retirado, acrescido, sempre de acordo com uma intenção. No caso da memória digital, que se condensa como valor cultural  tanto no passado, presente e futuro, a possibilidade de ligação desses momentos só ocorre com o arquivo. Neste dispositivo, podemos ter o que foi produzido ontem, hoje e guardar o que será produzido, além de recuperar, em tempos futuros, o que se tem guardado.

Por fim, achei não um calendário, mas a Real Sociedade  Britânica, que conduziu uma palestra do professor Thebe Medupede, um astrônomo da África do Sul, intitulada “Cosmic Africa”. Da mesma forma que manifesto aqui meu incômodo, o professor, munido de seus registros e dados, produziu um documentário com o mesmo nome. Já para os Aimarás (limítrofes entre Peru, Bolívia, Argentina e Chile) etnia a qual pertence o presidente Evo Morales, o tempo é medido de forma inversa a nossa. Assim, o que está à frente é o passado, o qual se pode ver, ao passo que, o futuro, é aquilo que está nas “costas” e não pode ser visto.

O arquivo, o registro, a informação nunca é neutra, como discursos sobre algo, são sempre construções humanas e como tais, determinadas por suas potencialidades e fraquezas. O mais incômodo disso tudo é a posição de muitos profissionais de arquivo que vêem como irrelevantes, todas aquelas culturas que não possuem registros escritos para se constituírem em povos com historia. O filósofo alemão Hegel, escreveu em seu livro “Filosofia da História” que os africanos não tinham história, eram pré-históricos e portanto, pertenciam à infância da humanidade. Há, para ser justo, opiniões (posteriores á sua morte) que contestam, sem mostrar textualmente os argumentos.   Tudo muito triste e silenciado, mais uma vez.

Muitos profissionais da ciência da Informação, da Ciência da Computação, da História, e campos afins, não só acreditam nas palavras de Hegel, como também se esmeram para fazê-las verdade, afinal, são eles quem definem o que é documento, tecnologia, e civilização.

 Civilizações africanas antes da colonização européia

Civilizações africanas antes da colonização européia (cilque na imagem para uma resolução maior)

Quando se pensa, por exemplo, que o Império de Gana, entre muitos,  teve milhões de pessoas, antes que os europeus fossem para lá escravizar e matar, e que por isso teriam necessariamente que conhecer os corpos celestes para com isso praticar uma agricultura baseada em períodos temporais, fica-se com a questão porque isso é silenciado, quando se fala em ciência e tecnologia.

Os conhecimentos culturais dos povos não ocidentais, não raro, são objeto de desprezo. Arquivos são construções culturais, políticas. Contém aquilo que as sociedades querem preservar, esconder, ou negar.  A queima dos arquivos da escravidão ( os registros de entrada nos portos e as compras nefastas)  brasileira são um exemplo. Por sorte( ou azar de muitos arquivistas) não foram todos destruídos. Há partes na Holanda, Portugal e Noruega ( sim, os noruegueses, hoje tão civilizados, escravizaram bastante…) que mais cedo ou mais tarde, serão parte da memória do futuro. Os arquivos do período da ditadura, outro de grandeza imensa.

Conforme se sabe, o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão no mundo. Esse dado macabro de nossa história ainda ecoa quando se pensa no que se tem dessa época como memória. O futuro, sem uma visão honesta do passado, se torna repetição da mentira. Temos a chance nesse século XXI de avançar, mas isso só irá ocorrer quando o silêncio, sobre esses e outros assuntos, como a terra e os latifúndios, forem tomados como palavras livres, abertas, públicas.

A informação hodierna

Quase todas as pessoas que tiveram que pesquisar algo com o google, usam o mesmo mecanismo de busca de novo. Usa-se e repete-se o uso, criando o hábito. O problema com esse modelo de informação capitalizada, mensurável (o maior número de resultados), é que se cria uma sociedade acostumada a usar, mas não produzir; tornando aceitável e normal que a informação que ela usa seja produzida( por jornalistas, por exemplo), ao invés de se trabalhar produtivamente a própria informação. Este hábito, longe de ser um defeito, é uma condição de um modelo de vida, mais especificamente da vida urbana e atual…que “precisa” ser alimentada de informações constantes…

Visão futurista do Institute for the Future (iftf.org) DensityDesign e publicada na Wired Itália

A maneira como percebemos o que é ciência, educação, arte, política, identidade, classe, gênero e, mesmo a vida, está mudando.  As máquinas cada vez mais orgânicas e os organismos cada vez mais sintéticos não nos deixam ver que esta fusão está em curso. Somos, humanos, o critério de equilíbrio, e talvez tenha sido esse um problema. Faltou definir, não no discurso, mas na prática, o que é humano…

Desde que o Fórum da Cultura Digital Brasileira realizou seu primeiro seminário, são muitos os caminhos a serem percorridos. Estão em gestão ações ( e reações) diversas. Esse clima de “férias”serve portanto, para uma espécie de balanço. E o resultado, parcial desse balaço, foi o de que está em curso a tal mudança que foi dita acima, a dos parâmetros e valores. Mais do que isso, há, nas pessoas que a constatam, duas reações: ou convergem para a mudança, mesmo sem a certeza de onde vão, ou divergem, e se tornam críticos de coisas que não entendem, mas que também não querem mudar.

Assim, a situação atual da informação é esta: de avalanche. Não se pode mais dizer que a produção de conhecimento está nas mãos dos grandes grupos empresariais, como era nas décadas de 70, 80. Hoje, a partir da internet, aumentam as possibilidades de produção independente, mas também as responsabilidades, sobre esta produção.