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Um exemplo de “documentação escolar”.

O trabalho de faculdade de Tomas Nilsson, é um exemplo de como um incontável número de trabalhos “escolares” são criados, nem sempre guardados e, pior, não compartilhados.  O de Tomas, conta a história de chapeuzinho vermelho. A frase mais que gasta sobre nossa época e o ” acúmulo de conhecimento” não seria possível, se dependermos dos conhecimentos contidos nos trabalhos escolares. Está claro que há, sim uma enorme preservação da documentação escolar: trabalhos são premiados, o youtube tem aproximadamente 4510 vídeos descritos com esses termos, mas isso não é nem de longe o possível. O Brasil está inserido na comunidade científica, onde os trabalhos “escolares” mais complexos, como monografias, dissertações e teses, são, em sua maioria, documentados, preservados e indexados em base de dados.

Toda educação vem da cultura.

As tecnologias têm desenvolvimento mais acelerado que as sociedades que as criam. Isso quer dizer que a medida que se tornam complexas, escapam ao entendimento de seus próprios criadores. Assim, os criadores do disco de vinil, baseado na tecnologia da agulha para produzir som, jamais poderiam pensar que o uso propositado de um defeito, o scratch, seria incorporado pelos fabricantes dos toca-discos atuais, com seus sistemas hidráulicos de equilíbrio que permitem o contato manual com o disco sem perda de controle da sonoridade, ou efeito, pretendida.

Não podemos saber exatamente de onde vêm a invenção da roda. No entanto, seus usos são tantos e tão diferentes, que pode-se dizer que há neles um princípio, neste caso, o de circular. Mas ai, entra em questão uma ilusão da linguagem que pensa o princípio como existente antes da sua concepção. O verbo “rodar”, para objetos em contato com o solo, não poderia existir antes da roda…Hoje em dia, da mesma forma, já é possível dizer que “dar um nó em luz” não é algo figurado.

Essa rapidez das tecnologias em relação à sociedade, acontece de maneira mais intensa na educação. Isto porque o conhecimento científico está gerando objetos tecnológicos numa escala ais rápida que a escola consegue incorporar em seu discurso. As mudanças que as tecnologias sofrem, porém têm uma origem: a cultura. Por cultura, se entende as práticas que os grupos têm sobre seu ambiente, incluso nestes, os objetos tecnológicos disponíveis para tais práticas.

Os usos que os toca-discos tiveram foram variando segundo as práticas culturais que utilizavam estes objetos tecnológicos. Se o uso de arranhões mudou uma parte da música mundial, criou uma cultura planetária, e instituiu um novo padrão de objetos tecnológicos( as pick-ups dos DJs) as escolas, tanto de engenharia de som, quanto os conservatórios musicais, ainda não adotaram totalmente tal transformação. Há outros objetos tecnológicos que tiveram um profundo impacto. O vídeo, o telefone celular, o computador… Acontece que agora um objeto tecnológico de tipo diferente, com uma história de uso social com mais de dez anos, está literalmente agregando todos os outros: a internet.

Mais que um objeto, a internet é um conjunto, em escala global, de muitos equipamentos. Uma rede. Tal inovação permitiu que a educação pensasse daqui em diante, com sua lógica,  em coisas como “educação à distância”, “tele-aprendizado” e outros temos que dessem conta da contradição de situações de aprendizagem que prescindiam da tecnologia tradicional da escola: o quadro negro na sala de aula, cadeira enfileiradas, livros escolares. Todos esses objetos ficaram obsoletos com a internet.

Quando se fala em “Educação e Tecnologia” não se discute o fato de que “educação pública” é uma forma de tecnologia de aprendizado, um conceito ocidental recente. A maioria das culturas não possui um equivalente para tal atividade. Esta, aqui também no ocidente( os países de matriz cultural européia, com também é o caso do Brasil) não surgiu para o bem da população mas por demanda do capitalismo…

Enfim, As mudanças culturais (como a demanda por mão de obra qualificada) ocorrem sempre adiante da educação. Educação é tecnologia, e tecnologia é reflexo das práticas culturais. Isolar a educação numa redoma de “conteúdos curriculares”não se se mostrou ineficaz, como também excludente. Ainda não  existe uma grade curricular que englobe as imensas diferenças que existem nas sociedades modernas, todas elas desesperadas por “mão de obra” qualificada, ou educada…Não reconhecer que toda educação deve ser retirada da vida, e não apenas dos “conteúdos programáticos” ajuda, em muito, a perpetuar a exclusão que submete milhões de pessoas ( tanto alunos quanto professores) ao fracasso.

A inclusão de propostas de educação no Plano Nacional de Cultura, é uma esperança, mas não podemos esperar muito. Segundo a coordenação de cultura digital do MinC, “10 das 32 propostas finais da #iicnc atrelam as necessidades da cultura às da educação ” o que evidencia que uma, sem a outra, não se completam. Não pode haver educação dissociada da vida, da cultura. Por outro lado, não pode haver cultura, sem saber acumulado, sem sistematização das experiências…sem um esforço conjunto.

SXSW 2010

On Friday, March 12, one the biggest and most hyped media festivals of the year kicks off in Austin, Texas: South by Southwest 2010.

Os instrumentos inventados num determinado povo, teve melhoramentos por outro, adaptações e imitações imperfeitas, de forma independente das sociedades iniciais.

Para que serve um Acervo Digital?

Este post  tem o objetivo de fazer um balanço. Tenho como missão organizar um conjunto qualificado de ações, propostas, e conceitos relativos a Acervo, Memória, História, Identidade e Cultura Digital. Entendo que para isto, são necessários elementos de diversas áreas, perspectivas e percepções diferentes. Por exemplo, um comentário sobre o post, Na cultura digital, quem define o que é um documento? observou o seguinte parágrafo do texto:

“A variedade de ações, objetos, políticas, conteúdos, padrões, acervos, propósitos, públicos, legislações entre muitos outros aspectos que constituem e interligam esse sistema é imensa. Do mesmo tamanho, são as realidades da Comunicação, da Ciência e Tecnologia e da Educação, para ficar na esfera do Governo Federal. Soma-se a essas estruturas, outros elementos, como os econômicos, os jurídicos, e os legislativos. Esse quadro complexo, todo ele, pode ser unificado (e não necessariamente de forma centralizada) pela tecnologia Digital.”

Então o que acontece que esta questão pode ser equacionada em sua dimensão coletiva, ou sua rede, como um acervo. O número de iniciativas que estão me curso, digitalizando conteúdos das mais diversas ordens e materialidades necessita de uma discussão, ou melhor, de um diálogo.

Não há como separar a produção tecnológica de seus interesses políticos. Quando digo políticos não digo partidários, bem claro. Pois bem, acontece que as políticas de tratamento da informação nunca tiveram reconhecida, quanto mais prevista, sua real importância. Dessa maneira, a figura do bibliotecário, era pejorativamente construída como aquele que se incumbia de tratar do depósito, do arquivo, ou do acervo. Estas diferenciações não são apenas de ordem técnica, são, antes de tudo, de ordem política.

A inclusão de objetos que não se enquadram nas definições do que seja documentável. levanta essa hierarquia de modo semelhante ao das questões sobre o conhecimento tradicional. Por exemplo, porque será que as bibliotecas, os museus, as cinematecas não tem indexadas como “ciência” várias manifestações que são,m ao mesmo tempo festas populares, mas têm por motivos de construção do ritual , um expertise tecnológica?

Como já foi notado nesse blog, há esforços esparsos sobre essa questão. Contudo, há também outras esferas sociais, que nã as acadêmicas, que também estão se defrontando com essa realidade. As escolas públicas , por exemplo. Objetos como os “trabalhos escolares” precisam e estão sendo revistos. Isso implica que não apenas “redações” estão sendo feitas. Hoje em dia, há uma gama de projetos que apóiam a produção de conteúdo temático, a partir de suportes como o vídeo, a animação, a fotografia, e mesmo outras formas como a dança e o teatro. Como chamar estas produções culturais de trabalhos escolares?

Não raro, estes trabalhos, como o videogame feito por alunos da rede municipal do Rio de janeiro têm esse fim aqui que reproduzo dos comentários do próprio inventor do jogo:

Leia os comentários:

Júlio  (julio-hellsing@hotmail.com):
Apenas para corrigir meu e-mail (postando o novo) Voltamos a produção de alguns jogos, adicionem no msn para mais detalhes, o meu e-mail continua sendo o de baixo, apenas o msn mudou! Obrigado
22 de junho de 2009 – 19:49
Júlio  (scar0000@gmail.com):nenhum comentário? Bom estou aqui deixando meu e-mail para dúvidas e contatos: scar0000@gmail.com (msn tbm)

Como dá para notar. O “trabalho escolar” tinha, claramente outras expectativas. Daria para dizer isso das monografias, das dissertações, das teses…Dizer que não se trata de produção cultural, que não há aplicação de tecnologia, e que esta não pode ser potencializada, se inserida  no corpo bibliográfico dos campos tecnológicos, não é uma posição conseqüente. Isso só ocorre quando alguém estuda essa produção. O nome que vai ser dado a ela, científica, cultural, pedagógica artística, é portanto político. E já que esse termo tem o sentido de participação, de comprometimento com ações públicas, como não reconhecer essa produção nestes seus vários sentidos?

Os desafios de se pensar o que seja um Acervo Digital são dessa ordem. São complexos, em rede, e com ruído nos seus canais. Adiante. Os trabalhos escolares, as peças de arte digital, as peças de cultura tradicional, os objetos que não estão nas categorias de classificação, e portanto não são incorporadas aos acervos, estão crescendo, esse entorno de informal, ou de informação não sistematizada, precisa ser pensado como parte de uma memória cultural, pública. Os meios de expressão e a expressão desse meios são dinâmicos.