Posts Tagged ‘ Patrimônio

Ainda sobre o mal do Arquivo….

Publicado no JC e-mail 4183, de 21 de Janeiro de 2011. Sexta-Feira, 21 de janeiro de 2011

O Arquivo (vivo?) da Nação, artigo de José Maria Jardim

“É um retrocesso político, gerencial e científico a transferência do Arquivo Nacional para o Ministério da Justiça. Essa inadequação, vale lembrar, seria a mesma em qualquer outro ministério”

José Maria Jardim é professor da Escola de Arquivologia da Unirio. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

No Brasil, a idéia de arquivo é associada, com muita frequência, a de arquivo morto. A expressão “virou arquivo” designa as pessoas que, por alguma razão, foram silenciadas por seus assassinos. “Arquivo” e “morte” são termos associados por grande parte da sociedade brasileira, especialmente aquela que mais sofre com a falta de informações relevantes para o exercício dos seus direitos. “Arquivos” têm sido “mortos” sistematicamente ao longo da história do Brasil, especialmente no e pelo Estado brasileiro. O reencontro com a democracia nos anos 1980, trouxe um sopro de vitalidade inédita para nossos arquivos públicos, órgãos tradicionalmente “mortos” na estrutura da nossa administração pública. Afinal, sem arquivos plenos de vitalidade, dinâmicos e facilmente acessíveis pela sociedade, como o Estado pode ser transparente? E sem transparência do Estado, qual democracia almejamos construir e ampliar? Os arquivos públicos são territórios do Estado a serviço da sociedade, da democratização da informação governamental e do exercício do direito do cidadão à informação e à memória. Seu papel como infraestrutura para a transparência da administração pública é imprescindível para que a sociedade controle a atuação do Estado e do governo. Os arquivos públicos não são apenas um depósito de documentos. São instituições com múltiplas facetas: cultural, científica, administrativa, etc. É agência de transparência do Estado e território de construção da memória coletiva e, ao mesmo tempo, infraestrutura para a produção de conhecimento científico. Os arquivos públicos dos governos mais avançados em termos de transparência e interação social são infraestruturas governamentais de informação para o Estado e a sociedade. Trata-se de órgãos supraministeriais com múltiplas funções de apoio à gestão pública e à produção de conhecimento científico e tecnológico. São territórios da memória coletiva, cultura e cidadania. Não por acaso, o primeiro Arquivo Nacional criado foi o da França, em 1790, logo após a Revolução Francesa. A ideia de organização e, sobretudo, de publicidade dos documentos do governo por um tipo de instituição até então inexistente tem suas bases na construção do novo regime. Esse é um marco da história dos arquivos e da Arquivologia. O arquivo público é neste momento instrumento da administração do Estado. Ao longo do século XIX, a formação dos Estados Nacionais traz em seu bojo a construção de identidades nacionais para as quais é imprescindível uma “memória nacional”. Os arquivos públicos passam também à condição de depositários e construtores dessa memória nacional. São, nesse momento, território da História. A criação do Arquivo Público do Império brasileiro estava prevista na Constituição de 1824, mas a fundação só ocorreu em 1838, aliás o mesmo ano de criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Como chama atenção a historiadora Célia Costa, autora da tese de doutorado intitulada “Memória e administração: o Arquivo Público do Império e a consolidação do Estado brasileiro”, o acesso aos documentos no Arquivo Público do Império era garantido estritamente ao governo ou usuários que fossem indicados pelo imperador. Ao contrário dos arquivos nacionais europeus, a historiadora nos lembra que o Arquivo Público do Império caracterizou-se muito mais como espaço do segredo do Estado, perspectiva procedente do período colonial, do que como um órgão envolvido nos processos de construção da história nacional. O nome “Arquivo Nacional” só foi adotado em 1911. Ao longo da República, o Arquivo Nacional, como os demais arquivos públicos do país, sobreviveram na periferia do Estado. Eram voltados quase exclusivamente para a guarda e acesso de documentos considerados, sem parâmetros científicos, como de “valor histórico”, ignorando-se a produção documental que resultava de um Estado com funções cada vez mais amplas. Neste cenário, os documentos eram acumulados ou eliminados – quase sempre sem critérios científicos – nos serviços arquivísticos do Estado. Tal ocorreu – e ainda ocorre em vários setores do Estado brasileiro – em função da inexistência de políticas públicas arquivísticas. A ruptura da visão de arquivo público como apenas um depósito de documentos e a adoção de um novo modelo de gestão envolvendo todo o ciclo documental, desde a produção até a eliminação ou guarda permanente, só ocorrerá, em diversos países, após a década de 50 do século passado. No Brasil, a Lei 8.159 de 8 de janeiro de 1991 garante o marco legal para essa concepção, incluindo também os arquivos estaduais e municipais. Além de suas atribuições em relação aos documentos federais, o Arquivo Nacional deve ainda implementar a política nacional de arquivos, a ser definida pelo Conselho Nacional de Arquivos (Conarq). Esse Conselho, subordinado ao Arquivo Nacional, é o órgão central do Sistema Nacional de Arquivos. O Arquivo Nacional teve grande protagonismo nesse processo, a partir dos anos 80 e 90, influenciando arquivos estaduais e municipais. No entanto, de modo geral, nossos arquivos públicos permanecem periféricos no Estado e pouco visíveis à sociedade. Ainda se caracterizam mais como reserva de opacidade do que de transparência. Não se altera uma cultura de opacidade do Estado em apenas três décadas. A maior parte dos nossos arquivos públicos segue socialmente pouco visível. Na Europa e Estados Unidos, a abertura crescente dos arquivos a um uso social mais amplo ganha terreno após a II Guerra Mundial. Procura-se cada vez mais superar a ideia dos arquivos como espaços acessíveis apenas a eruditos e cientistas. Por outro lado, as crescentes demandas sociais pelo direito à informação colocam os arquivos no epicentro das políticas públicas de transparência. A democratização do acesso aos arquivos tende a ser cada vez maior e diversificada, mesmo nas sociedades cujo regime democrático já se encontra mais consolidado. As demandas sociais pelos arquivos se ampliam e mudam com o uso crescente das tecnologias da informação e comunicação. Novas fronteiras vêm sendo conquistadas pelos arquivos, ampliando-se a sua interatividade com a sociedade mediante programas de difusão via web, incluindo, mais recentemente, o uso cada vez maior das redes sociais. Essa perspectiva tem orientado os caminhos do Arquivo Nacional do Brasil desde a década de 80. Talvez poucas instituições públicas brasileiras tenham passado por um processo de modernização tão intenso e em tão pouco tempo, influenciando ações semelhantes nos planos estadual e municipal. Esse “dever de casa” encontrava limites no fato do Arquivo Nacional ser subordinado, há décadas, ao Ministério da Justiça. Ao ser vinculado à Casa Civil da Presidência da República, em 2000, o Arquivo Nacional adquiriu melhores condições – especialmente políticas e orçamentárias – para avançar num novo modelo de gestão das informações governamentais. Beneficiou-se diretamente desse novo cenário o Conselho Nacional de Arquivos, subordinado ao Arquivo Nacional, responsável pela política nacional de arquivos. Neste sentido, é um retrocesso político, gerencial e científico a transferência do Arquivo Nacional para o Ministério da Justiça. Essa inadequação, vale lembrar, seria a mesma em qualquer outro ministério, dada a abrangência de atuação da instituição em todo Executivo Federal. Esse novo destino institucional provavelmente comprometerá frontalmente a dimensão nacional do Conselho Nacional de Arquivos. Setores diversos da sociedade brasileira, representantes do mundo acadêmico e de associações profissionais, vêm expressando seu descontentamento face a essa decisão. Ainda que fosse mantido na Presidência da República, seriam muitos os desafios a serem enfrentados pelo principal arquivo público do país para atuar plenamente na gestão das informações governamentais e torná-las acessíveis à sociedade brasileira. A política nacional de arquivos ainda está por se definir. O Sistema Nacional de Arquivos não foi operacionalizado. O Arquivo Nacional encontra-se distante do que pode e deve vir a ser, embora tenha acumulado suficiente vitalidade para deixar de ser um “arquivo histórico” do século XIX e projetar-se como um centro de informações governamentais do século XXI. Ao ser excluído da Presidência da República e inserido no Ministério da Justiça, o Arquivo Nacional protagonizará, uma vez mais, o velho e ainda insuperado drama brasileiro de periferização dos arquivos do Estado e sua inevitável invisibilidade social. O Arquivo Nacional provavelmente não morrerá porque, de alguma forma, aprendeu a sobreviver perifericamente ao longo da sua história, mas certamente será um órgão aquém de suas transformações recentes, de suas atribuições legais e da democracia que buscamos.

O mal do arquivo: Derrida e a Cultura Digital Brasileira.

“A democratização pode sempre ser medida por esse critério essencial: a participação e o acesso ao arquivo, sua constituição e interpretação”
Jaques Derrida, o Mal do Arquivo.

O paradoxo de Boyle

O Brasil é um paradoxo. Por uma série de motivos e razões, teve sua história permeada por fatos que constituíram sua população como uma das mais receptivas do planeta. Ao mesmo tempo, essa história é contada por distâncias, afastamentos, silenciamentos, violência e ignorância. O papel do Estado, ainda não tão bem compreendido quanto o papel do Governo, tem grande responsabilidade nessa contradição. Estamos aprendendo o que é governo, mas penso que há ainda um longo caminho para compreendermos o que é Estado. Ao longo de tempos diferentes, o Estado,bem como os Governos brasileiros têm sistematicamente ignorado grande parte de imensos problemas que nos constituem como país. A reforma agrária, o monopólio das comunicações, o analfabetismo ou o trabalho escravizado são alguns. Outros, como os direitos do povo indígenas, ou quilombolas, o acesso à educação fundamental, estão sendo tratados.

São muitos os problemas, e muitas as soluções, e isso, o número de soluções, é em si, um novo problema , quando não se articulam os esforços para solucioná-los. Ocorre que uma discussão muito importante para nossa identidade, é o papel de suas instituições. As instituições podem ser de diversos tipo, governamentais, não governamentais, particulares ou públicas, com ou sem fins lucrativos. Em todas essas possibilidades, estamos falando de pessoas coletivamente organizadas.

Desde Novembro de 2009, o Fórum da Cultura Digital Brasileira, deu iniciativa a 226 formas de possibilidades. Algumas mais concretas que outras, mas todas possíveis.  Estamos num momento onde a pletora de ações dissolve o rumo das coisas. Assim, um paradoxo, outro, se coloca: a quantidade de frentes que a cultura digital abre tem se tornado tão ampla quanto a agenda abaixo:

  1. Digitalização de Acervos
  2. Laboratórios de criação artística e tecnológica
  3. Direitos Autorias
  4. Plano Nacional de Banda Larga
  5. Televisão Digital
  6. Mídia Livre
  7. Culturas Tradicionais
  8. Liberdade Religiosa
  9. Liberdade de Gênero
  10. Educação Livre
  11. Software Livre

Para fins de comodidade, mas não de importância, o item Digitalização de Acervos, assunto primário desse blog, vem como primeiro. Ocorre que só deste, foram elencados 12 itens, no início do ano, como desejáveis, e que de fato, tiveram, ainda que não muito visíveis ou publicizados, seus desdobramentos. Certamente não foram incluídas nessa lista aspectos fundamentais. Acima estão as que são mais visíveis, desta perspectiva que aqui escreve.

O Filósofo Jacques Derrida, disse uma vez que o acesso ao acúmulo de informação social, seus arquivos, são um índice do quanto essa sociedade compartilha seus valores, os materiais e os morais. A lista acima é um exemplo de uma sociedade nascente na América Latina movendo-se rumo a seu devir. Isso, o devir, é agora o que nos faz móveis, e o movimento é não linear. Essa possibilidade, que o digital tem, permite que os arquivos que estão sendo pensados, as televisões, as produções, enfim, a cultura, seja, ou lute para ser, um pouco mais livre. É complexo, muito complexo, talvez seja o tal efeito das redes…muito descentralizado, mas com pouca direção… O que, talvez não seja nem bom nem mal, se soubermos lidar com o outro nome do complexo: a diferença.

O que antes parecia impossível, lidar com a diferença de milhões ao mesmo tempo, argumento utilizado por muitos, hoje em dia não se sustenta. Um exemplo disso é o projeto Metavid, cujos autores, além de fornecerem inspiração para este post (com a frase de abertura) deram um exemplo concreto do que pode ser feito com XML, vontade política e participação coletiva. O Metavid funciona como uma espécie de observatório dos representantes do povo dos Estados Unidos, na medida que disponibiliza as transcrições das sessões realizadas e gravadas pelo canal CSPAN, uma televisão privada, mas que tem uma missão pública. Algo que ainda estamos aprendendo como equacionar à nossa maneira, por aqui.

Seriam muitos, muitos os exemplos de pequenas coisas que não têm tanta visibilidade, mas que estão em curso. Pelo contrário, há, de vez em quando, grandes anúncios, que tenham menor impacto sobre as pessoas. O tempo dirá.

Um edital sobre Acervos Digitais…

Do Observatório de Editais:

http://www.cultura.gov.br/site/2010/04/12/programa-de-incentivo-a-producao-do-conhecimento-tecnico-e-cientifico-na-area-da-cultura-2010/

12 de abril de 2010
Programa de Incentivo à Produção do Conhecimento Técnico e Científico na Área da Cultura – 2010
Inscrições até 24 de maio

Este edital tem como objeto selecionar bolsistas para o Programa de Incentivo à Produção do Conhecimento Técnico e Científico na Área da Cultura da FCRB, cuja finalidade é formar, treinar e capacitar recursos humanos em programas, projetos e atividades de pesquisa, desenvolvimento institucional, tecnológico e de referência em preservação e tratamento técnico de acervos museológico, arquivístico, bibliográfico e arquitetônico da FCRB, assim como nas áreas de pesquisa em história, direito, filologia, estudos ruianos e políticas culturais, de modo a fortalecer o cumprimento da missão institucional da Fundação, que é “promover a preservação e a pesquisa da memória e da produção literária e humanística e congregar iniciativas de reflexão e debate acerca da cultura brasileira, contribuindo para o conhecimento da sua diversidade e para o fortalecimento da cidadania.

Edital

* Publicado por Geisa – Observatório dos Editais
* Categoria(s): INSCRIÇÕES ABERTAS, Inscrições Abertas
* Tags: Programa de Incentivo à Produção do Conhecimento Técnic

PNC:Digitalização de Acervos, Direitos Autorais e Banda Larga, ipsis literis.

Num momento como o que vivemos sobre as decisões públicas, não há como não postar esse trecho do documento base do Plano Nacional de Cultura, feito em um passado não muito distante. O texto  abaixo é o que foi publicado na página 47. Os links,  são da mesma forma, uma realidade em construção:

Ampliar o uso dos meios digitais de expressão e acesso à cultura e ao conhecimento

A cultura digital, disseminada pela rede mundial de computadores e tecnologias afins, muda significativamente a forma como a gestão cultural deve encarar seus instrumentos e finalidades. De um lado, os novos meios criam a possibilidade de conservar e facilitar o acesso a amplos e valiosos acervos culturais que compõem o patrimônio do Brasil e da humanidade. De outro, são apropriados por grupos e indivíduos como seu lugar de criação, de modo que o mundo digital se torna ele mesmo um novo campo onde formas de expressão e articulação das identidades são inventadas a todo o momento. O Estado deve garantir acesso universal e pleno às novas oportunidades criadas pela tecnologia.

A chamada exclusão digital diminuiu nos últimos anos no país, embora permaneça significativa. No entanto, o principal desafio para a política pública voltada à cultura digital não se esgota nos programas de inclusão. Diz respeito também à articulação institucional necessária à promoção do livre uso das ferramentas tecnológicas na experiência cultural, por meio de programas de capacitação, sem deixar de lado o apoio ao  desenvolvimento das linguagens de expressão e a oferta de conhecimentos de domínio público por meio das plataformas digitais. Uma política de digitalização de acervos é indispensável para permitir uma circulação inédita de registros de nossa memória cultural, pictórica, gráfica e textual.
Nesse contexto, a evolução da internet e da infra-estrutura de conexão em banda larga firma-se como um instrumento estratégico para novas formas comerciais e não-comerciais de compartilhamento de cultura. A adoção de novos aparatos de transferência e armazenamento da informação influencia as dinâmicas de consumo e faz surgir, em conseqüência, modelos de exploração econômica cada vez menos baseados na massificação e formas de sociabilidade e de construção de identidades independentes do espaço geográfico.

A convergência digital representa o ambiente contemporâneo de circulação da cultura, que deve ser observado sob uma perspectiva atenta à distribuição das tecnologias e às suas formas de utilização, bem como ao desenvolvimento de conteúdos, digitalização de acervos públicos e incentivos aos projetos experimentais.

A Carta de Ouro Preto 2009 da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA)

da fonte: http://abpablog.wordpress.com/

Os integrantes da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) e os participantes do 4º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, reunidos na 4ª Mostra de Cinema de Ouro Preto – CINEOP, reafirmam este evento como fórum de discussão e encaminhamento de reflexões e ações para a preservação do patrimônio audiovisual brasileiro.

Considerando:

  • a urgência do reconhecimento da relevância desse Patrimônio Cultural pelos poderes públicos, pela sociedade, inclusive pelos profissionais das atividades cinematográficas e audiovisuais;
  • a constatação do risco iminente de desaparecimento desse Patrimônio Cultural, que representa igualmente um ativo econômico e se encontra em condições desiguais de preservação nas diferentes unidades da Federação;
  • a insuficiência de uma política pública específica e sistemática que contemple o campo da preservação audiovisual no Brasil;
  • que a ABPA foi designada pelas organizações, instituições, entidades e profissionais presentes, ligados ao campo da preservação, como entidade representativa e interlocutora junto aos demais segmentos da área audiovisual, à sociedade civil e ao poder público.

Afirmam que:

  • diante da carência de recursos financeiros e humanos, e de mecanismos específicos destinados ao campo da preservação, questionam a manutenção da disparidade existente e propõem uma distribuição equânime dos recursos públicos para o setor audiovisual; e
  • destacam que existem necessidades específicas do campo da preservação audiovisual que devem ser consideradas na reformulação da Lei Rouanet, em curso, e de outros textos legais que tem por objeto o audiovisual e as políticas de Cultura.

Solicitam:

  • a participação da ABPA nas instâncias de decisões governamentais referentes ao setor audiovisual; e
  • como forma de contribuição direta, assento para ABPA junto ao Conselho Consultivo da Secretaria do Audiovisual – SAv-MinC, e em outros fóruns similares, estaduais e municipais.

A partir do quadro acima exposto, vimos, da mesma forma, nos manifestar a favor do reconhecimento da importância da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, e do Centro de Referência Audiovisual (CRAv), em Belo Horizonte, e apoiar publicamente os pleitos dessas instituições.

  • Cinemateca Capitólio - solicitar aos órgãos federais, estaduais e municipais, agilidade no processo de conclusão da obra civil da Cinemateca Capitólio, e sua implantação, como forma de garantir a memória audiovisual gaúcha.
  • CRAv – recomendar a continuidade das ações desenvolvidas pelo CRAv na consolidação de seu projeto institucional e recomposição de seu quadro de funcionários, gravemente afetado pela demissão dos especialistas, em janeiro de 2009.

Ressaltamos que estas iniciativas se incluem em um conjunto maior de ações de fundamental importância para a execução de uma política nacional de preservação do Patrimônio audiovisual brasileiro.

Ouro Preto, 22 de junho de 2009.

A identidade é uma prática.

Uma digressão, para dizer que a importância dos acervos públicos, qualificados por informações sobre a história desses povos é fundamental.

Olhe para você, no espelho. O que você vê, é resultado de um encontro do passado. Não seu com o espelho, mas de seus pais, os doadores genéticos, sociais e emocionais do que se amálgama na forma que você tem.  Isso, em termos antropológicos, é conhecido como etnia. O conjunto de traços físicos e sociais, que fazem com que cada povo tenha diferentes formas de viver o ambiente que habita.

Em termos culturais, ou seja, no sentido que é dado a essas práticas e crenças, existe uma palavra que define a etnia, de maneira a indicar um pertencimento ao grupo: a identidade. O  ethnos, palavra grega para povo, o pertencimento cultural, muda de acordo com a prática. Assim, uma coisa é dizer que uma pessoas tem essa, ou aquela identidade. Outra, é a própria pessoa dizer qual é sua identidade. Há ainda, uma outra possibilidade, que é a de simplesmente viver, sem nunca questionar o que é identidade…

Das três, a autonomia, (o dar nome a sí mesmo)  é a que permite a libertação, por um lado, e a construção, por outro, de um grupo cultural. Desnecessário dizer que isso gera memória. Mais importante lembrar que essa memória não é a biológica, é a histórica, feita na política cultural que a sociedade elege para preservar e estimular produtivamente.

O valor que se dá ao pertencimento a um grupo específico, é a base psicológica que justifica o que as pessoas (a sociedade) fazem para serem parte desse grupo. Por exemplo no Brasil, não há muito estímulo para fazer parte de grupos de matemática ou física, pessoas que tenham uma ancestralidade não-européia. Por outro lado, pessoas com ascendência européia, são desencorajadas a tomarem contato com aspectos como inteligência corporal, espiritualidade não-antropomórfica  (preconceituosamente subjulgada, ou indexada como “animismo”) porque se consideram, ou valoram como exógenas á sua “real” cultura.

Assim, lugares como museus, bibliotecas, centros culturais, teatros, cinemas, casas de espetáculos musicais, clubes, associações, escolas…e outros espaços sem uma denominação específica, são centros de produção cultural. Nestes, acontecem práticas que têm por objetivo, apreender um determinado conhecimento. Dá-se a esses processos, ou práticas, o nome de aquisição da informação. Aprendizagem, fruição cultural, e trabalho, ainda que vistos com distantes em suas perspectivas, em termos culturais, são faces desses processos de produção de uma visão de mundo.

A distância que separa essas denominações, é artificial, pois que toda atividade, toda prática, carrega uma técnica e, esta, tem sempre um ponto de vista. Entender isso ajuda a desmistificar coisas como tecnologia, e mais ainda, elementos culturais como a etnia. Assim, um pescador que tenha que sair somente num determinado dia, mas antes, ao entrar no barco tenha que cantar uma determinada canção e, quando chegar o peixe, agradecer com uma dança apropriada, não necessariamente é um artista.

Conceitos como informação, sentido, política, tecnologia, governo, separados pelas palavras, nesta cultura digital, como ocorre também nas culturas ancestrais, não podem mais ser pensados como independentes, desligados. Lamentavelmente, os resquícios dos séculos de escravidão, ódio e desigualdade, deixaram marcas psíquicas e físicas em muitas culturas, para não dizer em todas.

Memória invisivel

Vai acontecer a Conferência Nacional de Comunicação, e os movimentos sociais, os partidos políticos e indivíduos engajados no debate público das comunicações no Brasil estão se mobilizando para fazer valer um direito humano cada vez mais fundamental: a comunicação. Alguns estudos de análise do discurso dizem que  quando não há comunicação, duas coisas ocorrem: ou o ruído,ou o silêncio. Nos preparativos do processo de propostas sobre os assuntos a serem debatidos, fiz uma pesquisa nesta lista dos grupos do Rio de  Janeiro, por três palavras chave: memória, acervo e patrimônio.

Até onde pude conferir, somente a ABCCOM – Associação Brasileira dos Canais Comunitários fez a seguinte proposta:

9) Criação imediata de um acervo único no Ministério da Cultura a partir de inventário, digitalização e disponibilização de produções existentes, com a construção de modelos de grade de rede do campo público de televisão diferenciado do sistema comercial, que sejam flexíveis e que contemplem e valorizem, efetivamente, os conteúdos regionais, tendo o Cinema Brasileiro como parceiro estratégico;

Não acho que seja diferente em outros estados, todavia pode ser. É importante dizer que todo esse esforço sobre a produção, exibição e a distribuição não pode esquecer o armazenamento. Mas esquecem. Ocorre que, a medida que vai avançando a produção digital, um problema concreto de armazenagem, tanto de material “bruto” quanto de conteúdos processados  ( livros, filmes,discos, fotografias…) se acumula de maneira desordenada.

Assim, no movimento de produção, distribuição e exibição, uma etapa posterior, mas não menos importante, é a da constituição de acervos. Tanto melhor se forem acervos públicos. Para isso, são necessárias ações sobre a constituição de  acervos digitais Públicos, desdobramento de um Plano Nacional de Digitalização desses acervos.

A proposta de acervos não se limita a tudo que se pode fazer para a preservação da memória.Uma outra dimensão, tão importante quanto a constituição desses arquivos, é o uso dos que têm acesso podem fazer deles. No Brasil, há muitos casos sensíveis quando se fala de arquivos. Há muitos segredos, muitos esquecimentos e, principalmente, muitos silenciamentos

Há propostas de reação a essa situação de silenciamento. Uma, que me fez lembrar o motivo de porque não há nem muita comunicação nem muita memória no espaço público, foi esse grupo que tem pessoas dos paises aqui do sul, pensando questões desse lado do hemisfério. Fiquei pensando em como seria, se questões semelhantes do contexto brasileiro pudessem ser trabalhadas dessa forma poética.

Indexação automática de conteúdos: até onde?

Grande parte dos produtores culturais dá importância à realização e a exibição. Nos editais de produção, raramente se vê menção sobre aspectos de preservação para fins de acervo. Os filmes realizados com financiamento público têm a obrigação de uma cópia legal na Ancine. Mas esta cópia legal não se extende para outras fontes de financiamento. Embora sejam duas etapas fundamentais que têm sido incrementadas em termos de produção cultural, a realização e exibição (para não mencionar a distribuição)  não garantem a preservação do que foi feito. Acontece que, não é de hoje, que a realidade da documentação é desconhecida. Segundo este artigo aqui, até 1940, grande parte do patrimônio audiovisual se foi. Em compensação, a maior parte do que foi produzido desde então, está em condições não calamitosas, como a primeira parte do material.

Um dos motivos, talvez nem dos maiores, seja o fato de que é muito mais fácil capturar o registro do que descrevê-lo. O que acontece então é que existem milhões de imagens, de textos, musicas, videos, filmes, ou seja, milhões de horas sem descrição. Para isso, já foram tentados vários métodos de descrição automática. O mais recente deles é por meio de uma automação contraste da imagem digital. De maneira bem básica, começa ser possível fazer buscas em áudio, vídeo e texto, sem necessariamente esse material ter sido tratado, em termos humanos de informação.

Estas são imagens que ajudam a pensar a questão:

Inicialmente, as informações eram pensadas em relação aos seus suportes, então, fazia sentido produzir primeiro, e indexar depois…

Com o tempo, ou seja, com a digitalização dos conteúdos, a informação, e sua documentação se alteraram:

Quando temos um acervo de fitas de vídeo, de livros, de moedas, de ossos, de partituras, balas de canhão, potes de barro, quadros, animais empalhados…Enfim tudo que um museu como o Histórico Nacional, ou qualquer museu estadual tem, em maior ou menor grau, como indexar isso?

Como as tecnologias digitais os meios de produção cultural, várias soluções são pensadas em diversos lugares, mas, entretanto, estas não se vêem como tendo relação com outras. Por exemplo, os acervos de instituições como as televisões: públicas e privadas, não se vêem na obrigação de igualar seus bancos de dados com os da biblioteca nacional. A BN, por sua vez, não tem acesso aos bancos de dados dos museus… Assim, não há uma base de dados sobre o que se contém nos computadores desses museus, centros de cultura, institutos, fundações. Novamente, o tamanho do patrimônio brasileiro em terabytes.Todos estes são uns para os outros, e para o público em geral, estanques.

33 razões por que as bibliotecas e bibliotecários ainda se mantêm extremamente importantes

Uma discussão bem importante, e por vezes, exaltada, no campo de CI. Achei por bem colocar do jeito que ela está no blog ExtraLibris

Muitos acreditam que a era digital irá acabar com as estantes públicas e extinguir permanentemente a era centenária das bibliotecas. A desconcertante proeza e progresso da tecnologia fez até um bibliotecário prever a queda da instituição.

Ele pode estar certo.

Porém, se estiver, então a perda será irreparável. Conforme a relevância das bibliotecas entra em questão, elas encaram uma crise existencial em uma época onde elas talvez sejam mais necessárias. Apesar de sua percebida obsolescência em uma era digital, tanto bibliotecas – quanto bibliotecários – são insubstituíveis por várias razões. 33, de fato.

Eles listam as 33, e depois concluem:

Conclusão

A sociedade não está pronta para abandonar a biblioteca, e provavelmente nunca estará. Bibliotecas podem adaptar-se as mudanças sociais e tecnológicas, mas elas não são substituíveis. Enquanto que as bibliotecas são distintas da internet, os bibliotecários são os melhores profissionais para guiar acadêmicos e cidadãos para um melhor entendimento de como encontrar informação de valor online. Certamente, existe muita informação online. Mas ainda existe muita informação em papel. Ao invés de taxar as bibliotecas como obsoletas, os governos estaduais e federais deveriam aumentar os recursos para garantir melhores funcionários e tecnologias. Ao invés de galopar cegamente através da era digital, guiado apenas pelos interesses corporativos da economia da web, a sociedade deveria adotar uma cultura de guias e sinalizações. Hoje, mais do que nunca, as bibliotecas e os bibliotecários são extremamente importantes para a preservação e melhoria da nossa cultura.

Artigo original: Are Librarians Totally Obsolete?
Disponível em: degreetutor.com

A visualização da informação e os portugueses.

Não é de hoje que me pergunto, mas é algo curioso alguns dos nomes mais destacados mundialmente nos campos de Visualização da Informação, como o Manuel Lima e Business Intelligence, com a Daniela Barbosa, serem portugueses. Tudo bem, há uma brasileira, a Fernada Viegas, do Many Eyes, mas, com esse sobrenome, a distância não é assim tão grande.

O Manuel Lima, é um designer que criou um website simples e arrebatador, o visual complexity, o qual evangelizo sempre que posso. É um apanhado (708 exemplos e aumentando…) da visualização de dados nas mais diversas áreas. Vale ver, se você ainda não conhece.

No caso das estratégias de design da informação propriamente ditas, um nome é o de Daniela Barbosa.  Os especialistas a citam como um nome chave na questão dos protocolos abertos, da portabilidade e do acesso por meios de dados estruturados, utilizados na indústria. É curioso notar que não são os únicos. Como esse post não é sobre os portugueses, mas sim sobre alguns de seus cidadãos (e concidadãos históricos) o importante é notar que nem tudo que há hoje em tecnologia de ponta, é anglo saxão, ou seja, vem dos Estados Unidos.

Parece curioso por que, como sabemos, os portugueses têm uma história de tecnologia da informação antiga, desde os tempos horrendos do mercantilismo escravista, ou das “navegações” para usar um termo mais suave. Tristezas culturais à parte, é notável que essa herança e talento sejam utilizados hoje em dia para puxar os limites do conhecimento tecnológico da informação. Por exemplo, o site da IBM “many eyes, é uma forma inovadora, de disponibilizar informações dos mais diversos lugares, numa forma compartilhada, ou rede social, para ser atual. De fato, o  site agora tem uma versão  “wiki”.

Como foi postado anteriormente, houve em setembro, um congresso sobre o que pode ser classificado como antropologia da informação que discutiu questões importantíssimas relativas à Acervo, Memória, História, Identidade e Cultura Digital. Não é, nem de longe, o caso de pressupor algo “no sangue” como a brasileira Fernanda Viegas demonstra, já que não é “100% portuguesa”, mas sim, o ambiente cultural, que pode ter levado os portugueses a terem um destaque nessa área.

O uso da informação é algo político, a tecnologia nunca é isenta. Mas estes podem ser usados, como ferramentas, para muitos objetivos. Atualmente, os portugueses vêm dando um contribuição de acesso à informação que merece nota  e respeito.

Seminário Nacional do CMU discute memória e patrimônio na Unicamp

escrito por Amarildo Carnicel

[13/10/2009] Patrimônio cultural e memória enquanto bens de natureza material e imaterial compõem o pano de fundo do VI Seminário Nacional do Centro de Memória-Unicamp “Memória e Patrimônio” que será aberto nesta quarta-feira (14), às 9 horas, no Auditório do Instituto de Artes (IA) da Universidade. Com a participação de pesquisadores de diversas instituições de ensino e pesquisa do país, o evento terá como conferencista o professor emérito da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP, Ulpiano Bezerra de Meneses, um dos mais renomados pesquisadores brasileiros na área da história e da memória, que abordará o tema “Natureza, ambiguidade e dilemas do valor cultural”. A programação com mesas redondas, grupos de trabalho, apresentação de pôsteres e feira de livros prossegue nos dias 15 e 16, no IA e em mais três institutos e faculdades da Unicamp.

O evento será aberto com a participação da coordenadora da Cocen, professora Ítala M. Loffredo D‘Ottaviano e do diretor do CMU e coordenador geral do seminário, professor José Roberto Zan. A conferência de abertura será realizada às 9h30, no mesmo local. Além do professor Ulpiano Bezerra de Meneses, a mesa contará com a participação do debatedor Antonio Augusto Arantes (IFCH-Unicamp). No dia 15, às 9h30, no Auditório do IA será realizada a mesa redonda “Patrimônio Imaterial: Memória e Identidade” com a participação dos professores Samuel Araújo (UFRJ), Ricardo Lima (Centro Nacional do Folclore Popular-RJ), Edson Silva de Farias (UnB), Carlos Sandroni (UFPE) e da debatedora professora Olga Rodrigues de Moraes von Simson (FE/CMU-Unicamp). No dia 16, às 9h30, no Auditório do IA, será realizada a mesa redonda “Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural no Brasil”. Participam dessa discussão os professores Ana Lúcia Duarte Lanna (IEB-USP), Paulo César Garcez Marins (Museu Paulista-USP) Silvana Rubino (IFCH-Unicamp) e a debatedora profa. Cristina Meneguello (IFCH-Unicamp).

Os Grupos de Trabalho (GTs) serão realizados nos dias 14, 15 e 16, sempre das 14 horas às 18 horas em salas do Instituto de Artes, Instituto de Economia, Instituto de Estudos da Linguagem e Faculdade de Educação. Cerca de 150 trabalhos serão apresentados nos seguintes GTs: “Patrimônio Industrial e Identidade Urbana”, “Memória e Educação Patrimonial”, “Memória, Patrimônio e Diversidade Cultural”, “Memória, Imagens e Mídias”, “Tradição, Memória e Mercado Cultural”, “Processos de Patrimônio e Políticas Públicas” e “Patrimônio e Cidade”.

No dia 15, às 18 horas, no Instituto de Estudos da Linguagem, está programada a visita à Exposição de Pôsteres. Durante o evento, também no IEL, será realizada uma feira com cerca de 130 títulos de livros e revistas produzidos pela Área de Publicações do CMU. Os interessados poderão adquirir livros com 50% de desconto e revistas acadêmicas a partir de R$ 1,00.

Programação dos Grupos de Trabalho

1. Patrimônio Industrial e Identidade Urbana
Coordenação: Cristina Meneguello (IFCH-UNICAMP)

2. Memória e Educação Patrimonial
Coordenação: Olga R. de Moraes von Simson (FE-CMU-UNICAMP)

3. Memória, Patrimônio e Diversidade Cultural
Coordenação: Maria Elena Bernardes (CMU-UNICAMP) e Maria Carolina Bovério Galzerani (FE-UNICAMP)

4. Memória, Imagens e Mídias
Coordenação: Fernando de Tacca (IA-UNICAMP) e Amarildo Carnicel (CMU-UNICAMP)

5. Memória, Patrimônio e Indústria Cultural
Coordenação: Rita Morelli (IFCH-UNICAMP)

6. Tradição, Memória e Mercado Cultural
Coordenação: Cássia Navas (IA-UNICAMP)

7. Processos de Patrimonialização e Políticas Públicas
Coordenação: Marco do Valle (IA-UNICAMP) e Haroldo Gallo (IA-UNICAMP)

8. Patrimônio e Cidade
Coordenação: Marcos Tognon (IFCH-UNICAMP)

Mais informações sobre o seminário, como a programação geral dos GTs, podem ser obtidas pelo site www.cmu.unicamp.br/viseminario.