Talvez por causa da obra de Donna Haraway, “Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX”, tenho me questionado sobre quão naturais são as inserções das tecnologias no mundo orgânico. Até escrevi rapidamente sobre isso no blog Paisagem Fabricada, do Planeta Sustentável.
Hoje, li a reportagem (só para assinantes) publicada na revista Época sobre como portadores de necessidades especiais usam as mais novas tecnologias para tentar levar uma vida considerada comum. São paratletas com pernas ultramecânicas que possibilitam maior propulsão na hora de competir, crianças com ouvidos biônicos para curar surdez, jovens com próteses de R$ 200 mil para não cair a cada novo passo. Enfim, são diversas oportunidades e – teoricamente – milagres que são narrados e explicados no texto.
Isso está muito mais além do cibridismo que eu pretendo discutir por aqui (que é o casamento entre o on e o offline, como a realidade aumentada já mostrou ao mundo e fica cada vez mais pop), mas é a visão de um mundo ciborgue – ou a criação de um novo status social, como o “ciborguiano” – que está mais real do que se pode imaginar.
Há um trecho na compilação “Antropologia do Ciborgue” que mostra que já somos ciborgues, mas não nos damos conta. Eis:
“Nossos corpos, nutridos pelos produtos da grande indústria de produção de alimentos, mantidos em forma sadia – ou doentia – pelas drogas farmacêuticas e alterados pelos procedimentos médicos, não são tão naturais quanto a empresa Body Shop nos fazer crer. A verdade é que estamos construindo a nós próprios, extamente da mesma forma que construímos circuitos integrados ou sistemas políticos – e isso traz algumas responsabilidades” (pág. 24)
Somos, por fim, ciborgues dentro de nosso próprio cotidiano. E se agora as invenções para portadores de necessidades especiais já não soam tão distantes, em quanto tempo será que todos terão acesso a esse tipo de maquinário? Não seremos mais fortes, seremos biônicos; não seremos músicos geniais, seremos próteses supersônicas; não seremos mais gênios, seremos diversos tipos de memórias eletrônicas.
E como disse Hugh Herr, biofísico do MIT, à reportagem da revista: “um terço da população mundial tem algum tipo de deficiência. Centenas de milhões usam próteses. Lentes de contato são próteses oculares, e ninguém estranha”. É só perceber como as lentes de contato são consideradas normais para visualizar um pedacinho do que poderá porvir.
Se já consideramos pequenos utensílios eletrônicos como extensões de nossas vidas, como os celulares, por que não acoplá-los ao nosso corpo, à nossa carne, ao nosso ser? Imagina que, daqui a alguns anos, um chip acoplado a seu olho poderá gravar tudo o que você vê, da forma que você o vê, do ângulo que você se acostumou. A produção audiovisual futura, então, poderá responder a questão até então irrespondível: como é o mundo pelos seus olhos?




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