Pegando ainda como gancho o post anterior, seguem umas aspas de Lucia Santaella, na introdução do livro Estéticas Tecnológicas:
Embora a Idade Moderna no Ocidente tenha colocado o belo e a arte em estreita correlação, Umberto Eco, didaticamente, explica-nos que a relação entre ambos não é tão óbvia quanto pode parecer. Enquanto algumas teorias estéticas modernas só reconheceram a beleza na arte minimizando a beleza da natureza, em outros períodos da história, o reverso foi verdadeiro. Nesse caso, a tarefa da arte era a de fazer bem as coisas que fazia, no sentido de servir ao propósito a que se prestava. Por isso, a arte aplicava-se não só ao trabalho do pintor, do escultor, mas também ao trabalho de um construtor de barcos, de um carpinteiro e até mesmo de um barbeiro. A noção de belas artes ou artes nobres (fines, em inglês) surgiu da necessidade de se distinguir entre esses tipos de trabalhos. Tal distinção também se fez necessária porque, mesmo quando a beleza da natureza era preferida, não era possível evitar o reconhecimento de que a arte pode retratar a natureza belamente, inclusive quando a natureza retratada aparece como perigosa ou repugnante.
Entretanto, a aliança entre o belo e a arte no Ocidente não durou tanto quanto se pensa. A partir de meados do século XIX, os sistemas artísticos instauraram rupturas indeléveis em relação à tradição herdada do Renascimento, até o ponto de colocar em questão a própria noção de arte, um questionamento que já encontrou seu clímax na obra de Marcel Duchamp, no ínicio do século XX. Daí para frente, a multiplicação de teorias estéticas, de um lado, e a atomização dos sistemas artísticos, de outro, levaram a uma pulverização de tendências teóricas e atividades de criação que não tem cessado de se expandir. As correntes estéticas, tanto no nível teórico quanto no nível da criação, foram se multiplicando, até atingir o patamar de exacerbação da contemporaneidade, o que levou Margolis a afirmar que aquilo que agora chamamos de estética não é de modo algum um ramo da filosofia, mas muito mais um sistema bastante solto de questões concernentes ao nosso interesse nas artes. (págs. 12-13)
E, ainda, considerando a discussão sobre ciborgues, segue outro techo:
O mais recente rebento das estéticas tecnológicas encontra-se na intersecção do espaço físico e virtual possibilitada pelos dispositivos móveis. Nas palavras de Leme (neste volume):
Mais do que o abandono das cidades pelas tecnologias do ciberespaço, o que estamos vendo são novas práticas de uso do espaço urbano pelo deslocamento com artefatos digitais e processos de localização por redes sem fio. A mobilidade informacional permite vivências e formas de apropriação do urbano similares à prática do ‘andar como arte’ da segunda metade do século XX. Andar com dispositivos móveis permite leituras e escritas do espaço com informação digital muito próximas da arte do andar dos situacionistas, dadaístas e surrealistas. As mídias locativas e os territórios informacionais atualizam formas de deriva pelo espaço urbano. (pág. 16)
Será que estamos voltando aos príncipios discutidos no início do século passado?



