O bordão acima marca, talvez, a mudança na concepção do fazer audiovisual de hoje com o que era feito antigamente. Glauber Rocha, quando almejou a democratização do acesso à produção de vídeo, vivia em uma realidade em que o custo para tanto era muito alto. Mas ele acreditava que não se precisa de uma produção gigantesca para conseguir desenvolver um trabalho audiovisual. É apenas ter uma ideia e sair gravando.

Essa ponte entre a frase e a realidade só apareceu para mim ao ler parte do livro Cultura Digital.br, organizado para servir de base ao Seminário Internacional do Fórum de Cultura Digital Brasileira, em que o entrevistador suscita a comparação.

Outra imagem interessante que surge na parte de Arte e Tecnologia do livro é a explicação de que as tecnologias são extensões dos sentidos humanos. O que é uma câmera? Ela pode ser vista tanto como uma limitação do olhar (uma vez que é o mundo por meio de um quadro), quanto a ampliação da percepção (já que não é só a retransmissão da imagem, mas a modificação do que é captado por meio de zoom, filtros de câmera, edição de cores).

Reproduzo abaixo a alusão que Jane de Almeida, quando entrevistada, fez para o livro:

E como você vê o impacto dessas novas tecnologias na cultura?

Existe uma entrevista do Jean-Luc Godard em que ele é perguntado: se um habitante de Sírio chegasse aqui na Terra, como é que ele explicaria a esse habitante o que é o cinema? A pergunta está se referindo neste momento a uma ficção científica escrita pelo Voltaire que se chama Micromegas. Nessa obra, um habitante enorme de Sírio chega ao planeta Terra, que é um planeta pequeniníssimo. Logo que ele chega, vê uma pocinha de água, que é o Mar Mediterrâneo, e nessa pocinha de água existe um barco com vários filósofos. Ele faz perguntas para esses filósofos e fica muito impressionado como é que esses terráqueos conseguem medir tão bem se eles são tão insignificantes em termos de tamanho. Micromegas pergunta: “quantos sentidos vocês têm?” E os filósofos respondem: “nós só temos cinco sentidos”. Aí ele diz: “Nossa, nós temos mais de 2.000 sentidos, como que se pode compreender o mundo só com cinco sentidos”. O Godard captura essa questão dos sentidos e fala assim: “Eu responderia que é uma máquina que nos ajuda a ver coisas que nós não podemos ver, a ver de perto aquilo que a gente não poderia ver, a ver de longe aquilo que a gente não poderia ver”. Existe uma figura interessante, que na realidade é da linhagem do Walter Benjamin, do inconsciente ótico, daquilo que a gente não via antes se não tinha a máquina do cinema. Isso sempre me remete a computador. Que sentidos nós estamos ativando, reativando, processando, construindo a partir dessa máquina, a partir desse mecanismo? Talvez seja esse ponto quando eu penso no computador como máquina. Existe uma cultura que emerge a partir dessa máquina especificamente. (in pág. 182)

Se antes, à época de Glauber, essa extensão do sentido estava restrito a uma pequena elite cultural, hoje qualquer um pode provê-la. A democratização desse tipo de maquinário trouxe modificações também no próprio fazer.

A captura já em digital possibilitou com que se edite o que está sendo filmado simultaneamente à captura, modificando completamente a relação entre o cinegrafista e a produto audiovisual. Não se precisa mais revelar a película. Não se precisa mais economizar em quadros. Não se precisa gastar fortunas para gravar pequenos vídeos.

E o próprio formato das câmeras atuais fazem com que até a forma de captação seja modificada. São poucas as pessoas que ainda colocam um olho atrás da câmera para captar uma imagem. Fotografa-se com o corpo, com o movimento, com o gesto. As situações captadas são muito mais naturais, menos posadas, menos enquadradas, mais artísticas.

As instituições de ensino de foto ou vídeo, por exemplo, sempre fazem alusão ao olhar do artista. Ou seja, treinam os seus alunos para que eles desenvolvam um olhar único, singular, sobre o mundo. A câmera, desde o começo, surge realmente como uma extensão do sentido humano, mas com a facilidade de ser manipulável.

Mas será que não devemos pensar na fotografia ou vídeo como a própria extensão da expressão corporal?

O trabalho do fotógrafo cego Evgen Bavcar é um exemplo de como a linguagem deve ser mudada. Ele consegue fazer imagens fabulosas apenas com o som ou indicações de outras pessoas. O irônico é que, no trecho do documentário Janela da Alma, que discuste o conceito de olhar e para o qual o artista é entrevistado, ele aparece colocando sua câmera em frente ao seu olho.

Qual será o nosso olhar atual?

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