WebJ. Ou WebJockey. É este conceito que a artista e pesquisadora Giselle Beiguelman discutiu em sua obra egoscópio, de 2004. Nela, qualquer um poderia mandar mensagens, fotos e animações em flash para aparecer em um telão como se fosse uma “grafitagem eletrônica”.
O título da obra também levanta outras discussões. Não só se pode escolher o que será projetado em uma galeria de arte, como isso demonstra o caráter um tanto quanto vaidoso de nossa parte. Afinal, é parte de uma pessoa que é mandada para compor a obra. É a sua curadoria de milhões de opções que será mostrada junto a tantas outras escolhas. É o seu ego visto por um público diversificado e temporário.
A arte digital trouxe diversas mudanças no que conhecemos sobre a produção artística. Precisa-se pensar em estéticas de transmissão, de desempacotamento, comunicacionais para criar uma obra de arte que atingirá uma pessoa em um local completamente desconhecido.
Conversei com Giselle, além de para ter uma gravação com suas palavras sobre o que é o cibridsimo, para entender o contexto em que o fazer digital artístico está inserido. Ela levanta questões interessantes de como essa mídia ubiqua deve ser pensada de uma forma diferente do que acontecia nas outras mídias, como o rádio e a televisão.
Quando eu estou no meu computador, ou eu disponibilizo uma obra de webart para desktop, eu tenho que levar em consideração que as cores que eu vejo no meu desktop não necessariamente serão vistas no seu desktop, mesmo que nós tenhamos o mesmo equipamento. Depende da configuração, da sua placa, de como você quer ver, enfim… isso em uma escala mini-micro. Mas depende também de uma escala macro, da internet mesmo, que é a quantidade de pessoas que tiverem acessando o meu site, a quantidade de pessoas que estão acessando o seu provedor de acesso.”
Se antes era preciso estar em uma determinado local e em uma hora específica para conseguir ver um filme (o que acontece com o cinema), a televisão destruiu com essa obrigatoriedade do espaço. A internet, por sua vez, conseguiu acabar com ambos os conceitos, tanto temporal, quanto espacial. O conteúdo pode ser acessado a qualquer momento, de qualquer lugar, desde pelo celular, quanto pelo seu computador pessoal do escritório.
O que isso traz de diferente para os artistas digitais? Para Beiguelman, isso mexe até com o ego do próprio autor. A obra dele, que antigamente tinha espaço reservado em galerias e museus e com público delimitado e interessado, hoje compete com todas as possibilidades da rede e da vida sem fios. Um espectador pode conferir a obra de um artista enquanto manda um e-mail, atende o celular ou escuta um outra música que de nada tem a ver com o que é mostrado. São muitos estímulos acontecendo simultaneamente. Como reter a atenção?
Giselle também discorreu um pouco sobre a pesquisa que está começando a fazer. O que lhe interessa no momento é descobrir as continuidades e rupturas que a geração atual (nascida na segunda metade da década de 80) tem em relação aos movimentos históricos anteriores. Fred Turner, da Universidade de Standford, fez um pouco isso em seu livro “From Counterculture to Cyberculture: Stewart Brand, the Whole Earth Network, and the Rise of Digital Utopianism”.
É interessante saber que críticos estão cada vez mais preocupados em contextualizar a sociedade atual tendo como base a inserção das tecnologias no cotidiano. Como diz Giselle, a geração atual é “tecnofágica”, ou seja, se apropriou dos maquinários disponíveis de tal forma que é como se tivessem devorado as ferramentas para a criação de algo novo.



