O Brasil, por mais que não possua tanta infraestrutura se comparado aos EUA, por exemplo, é uma das referências quando o assunto é arte digital. A produção do país, embora ainda pequena, tem qualidade equiparada a de artistas internacionais, como os que residentes do centro de arte e tecnologia Eyebeam*, de Nova Iorque.

É o que acredita Cicero Silva, professor e pesquisador e coordenador do eixo de Arte Digital do Fórum Brasileiro de Cultura Digital. Em nossa conversa, discutimos a produção artística contemporânea e as políticas públicas do setor.

A percepção é que falta investimento em infraestrutura no país, seja em cursos bem estruturados sobre a temática ou abrindo os centros culturais públicos para pesquisa e residência de artistas em arte digital. Um dos pontos da conversa abordou o papel dessa área em envolver a comunidade e estruturar a ocupação destes espaços, que foi uma demanda surgida nos encontros promovidos pelo Fórum.

A arte digital é a única que envolve diversas vertentes artísticas de uma só vez. Texto, áudio, vídeo, fotografia, design, artes plásticas, enfim, todas podem ser usadas para a composição de obras ou intervenções. O conceito dos Media Labs, por exemplo, surge como um agregador de artistas, articulador de demandas e até revitalizador de uma determinada área. São centros em que a população tem livre acesso às ferramentas e ao material que é produzido.

“Mas qual o papel da indústria em resignificar a arte? Como que o artista vai se apropriar dos instrumentos industriais, dos aparatos industriais, pra contruir suas obras ou mesmo os softwares? Os intrumentos industriais não no sentido do século XIX, da maquinária pesada, mas do capital intelectual. Ao promover uma circulação do capital intelectual, que hoje em dia funciona no plano da abstração dos softwares, por exemplo, em um determinado espaço cultural, você amplia… a cultura serve como um catalisador, como um processo de integração entre diferenças, né? Você passar do plano do século XIX, que a gente ainda vive aqui na cidade de São Paulo, da indústria pesada, para um plano da indústria do conhecimento, da “sociedade do conhecimento“, você tem que ter uma passagem, e a Cultura é um diálogo reflexivo – e a arte digital, neste caso, ao se apropriar desses novos recursos, desses novos mecanismos, faz essa passagem.”

O que mais atrapalha para a proliferação e apropriação pela sociedade e artistas dessas tecnologias é o alto custo dos serviços. Cicero dá o exemplo da diferença de preços entre assinar um plano de banda larga em São Paulo e em Recife. E não é só o preço a diferença (já que fora das grandes metrópoles o custo sobe absurdamente), mas o custo de vida dos cidadãos das cidades. Mesmo em regiões em que os salários são mais baixos, o preço do serviço é bem mais caro para uma qualidade inferior.

E não é somente com planos para internet que o Brasil deixa bastante a desejar. Usar o aparelho celular no país também é, ainda, muito caro. Como Cicero explica no vídeo abaixo, o equipamento usado pelas companhias telefônicas são obsoletos e há falta de articulação por parte do governo para melhorar isso. Deve-se negociar com as telefônicas para que o país deixe de ter um dos piores serviços de banda larga do mundo.

* ATUALIZAÇÃO (31/05/10, às 15h49): Depois de rever a entrevista, acredito que Cicero pode ter referenciado ao E.A.T. (Experiments in Art and Technology), organização criada no fim da década de 1960 que fazia a ponte entre artistas e engenheiros para desenvolver obras artísticas envolvendo tecnologias.

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