Qual é o limite do celular? Quando propus esta pesquisa, estava considerando o aparelho como representativo da ubiquidade tecnológica e de que como nos tornamos cíbrido. Para onde você fosse, o aparelho estaria em seu bolso com uma câmera fotográfica e de vídeo e com a possibilidade de publicar online em tempo real a produção. A possibilidade de ficar em contato constante com qualquer pessoa de qualquer parte do mundo.

Para Claudio Bueno, porém, o interessante do aparelho é pensar em sua transmissão – e em como usá-la para compor obras de arte. Não é só a questão de grande parcela da população carregar para lá e para cá um aparelho de voz, mas entender como esse mecanismo pode abrir espaço para a interativdade na obra artística.

A transmissão surge neste contexto como uma participante direta da composição final do artista. Claudio citou como exemplos durante nossa conversa suas obras Casa Aberta e Estrelas Cadentes, além de um projeto ainda em desenvolvimento que foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural, o Campo Minado. Todos eles exploram os limites de transmissão que o aparelho propõe.

No primeiro, os visitantes de uma galeria podiam ver a sala do artista sendo transmitida em tempo real e eram convidados, por meio do celular, a ligar ou desligar a televisão do artista.

“O trabalho convida a pensar que situação nova é essa que se configura, seja do espaço da residência, do tipo “eu me transmito por quê?” ou “eu transmito a minha sala por quê?”. Para habilitar uma presença? Para eu estar conectado? Para parecer que eu estou acompanhado? Quando a Isabela não está trabalhando aqui comigo, eu estou aqui sozinho? Se eu me conecto ou se alguém de dentro da galeria liga a minha televisão é quase que também dizer “olha, tem mais alguém aqui junto”. Essa presença do outro que às vezes também pode ser entendida como uma presença em demasiado, do celular que eu não desliguei e que pode tocar enquanto a gente estiver falando, de um email que chegou antes de você chegar e que eu posso estar pensando nele, dessas presenças externas que acabam entrando no ambiente que seria, então, fechado, sem essas transmissões, que seria só o espaço das paredes e que essas paredes de concreto já não limitam mais, já não delimitam mais o espaço privado. Ele é permeado pelas outras presenças.”

O conceito de espaço surge em suas obras como a principal questão a ser debatida. O que é o espaço privado, de uma residência? O que o difere, conceitualmente, do espaço público?

“Eu penso o espaço por dois modos. Um é dele verticalizado, que podia ser entendido como um lugar como é a residência. Ela é um lugar que tem características próprias, tem um funcionamento próprio, tem um domínio do privado. Então, compreender de que forma esses espaços atuam com a presença das transmissões é uma situação. Uma outra é pensar a questão de espaço interativo. Esse exemplo da televisão é um deles, em que com um dispositivo móvel, por exemplo o celular, eu posso ligar ou desligar TV; eu posso derrubar um prédio colocando um explosivo que eu vou disparar remotamente; estourar, ativar ou transportar um piano. Esses espaços interativos também me interessam. De que modo o espaço é afetado? O espaço e a intenção dele agora não só como um lugar específico, mas um espaço de fluxo ou um espaço afetado pelas transmissões.”

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