O que há dentro de uma torre de um computador pessoal? Na obra de arte, como acontecem as ligações para determinado aparato funcionar? O que há por trás de todo o design que estamos acostumados a admirar?

Os trabalhos do artista Fernando Rabelo buscam deixar à mostra os cabos, fios, conexões e quaisquer outros aparatos usados para compor suas obras. Tudo para que o público não só se admire com os questionamentos e o funcionamento do mecanismo, quanto entenda que, dependendo, aquilo é muito simples de ser feito e está próximo do dia-a-dia de qualquer um.

Durante a nossa conversa, Rabelo contou sobre o que acha da produção de arte digital brasileira e o que considera como relevante nos questionamentos artísticos.

Eu acho que o lado artístico é um pouco diferente desse outro [educacional e comunicacional], porque é como você vai utilizar isso também. Se você usar essa máquina para gravar mesmo ou para fazer um vídeo, como que é isso? Como você vai entender a máquina para fazer…? O artístico para mim é dez vezes maior que o educacional ou outra coisa, porque ele é mais perigoso, mais arriscado e se ficar no meio do caminho você não está fazendo nada artístico.

E hoje em dia esse limiar é muito grande. É muito equipamento, muita coisa, muito efeito de Photoshop, de computador, muita câmera, muito pequenininha. Às vezes, a produção de sentido ali é uma só. Ela ainda é homogênea. Os artistas que conseguem sair disso são os que conseguem entender essas mídias e trabalha-las com uma outra ideia ou com facilidade, né? Já que hoje em dia temos câmeras pequenas – várias, você compra dez, grava dez imagens ao mesmo tempo. A câmera é pequena, então, você pode colocar em pequenos lugares que você não conseguiria antes, como fazer uma entrevista dentro de um buraco de esgoto, entendeu? De fora para dentro. Uma câmera não cabe em um buraco de esgoto, mas a pequenininha cabe. Como você vai inovar o enquadramento e não sei o quê junto com essa tecnologia, que é a arte como tecnologia e não a tecnologia como arte?

É interessante também perceber que as opiniões de Rabelo casam com as de outros dois entrevistados: Giselle Beiguelman e José Carlos Silvestre. Com a primeira, Fernando concorda sobre as diferenças entre as gerações que trabalham com arte digital. Antes, as gerações que chegaram primeiro, na década de 70 e começo da de 80, não tinham tanta familiaridade com o código como os novos possuem. Eles tinham que aprender tudo na tentativa e erro, enquanto atualmente existem diversos tutoriais e manuais online além de cursos para dar os primeiros passos em programação.

Tem uma coisa que a Giselle [Beiguelman] sempre fala, e eu concordo com ela, são as gerações diferentes. O pessoal que eu acompanho junto comigo, que já era programador, sabe programação, fazer circuito, faz tudo a mesma coisa. Outros que não sabem programar – que os mais antigos já não sabiam -, mas sabem como organizar todas as ideias, mas não sabiam como botar a mão na massa no computador ou no celular. Faziam uniões, um artista e um cientista (a maioria deles, se você for olhar, todos tem um artista e um cientista) e a gente vê o nome do artista e não do cientista. Mas sempre tinha alguém programando ou fazendo robô, só que ele quase não aparecia. Isso também para mim já é uma incógnita deste meio. “Cadê quem faz isso daqui também”? Não é sacanear, mas tem que mostrar também.

Com Silvestre, Fernando divide as teorias de Flusser sobre o programa inserido na máquina. O artista deve trabalhar com o programa da máquina para explorar a mídia o máximo possível (caindo, até, na estética do erro, que foi a tese de mestrado de Silvestre), embora não consiga sair daquilo para que a máquina foi programada. É como se todo e qualquer erro já estivesse sendo esperado pelo dispositivo, justamente por ele trazer essas possibilidades.

Se você com uma máquina fotográfica, ela vai ditar o que você está fazendo pelas inúmeras variações que tem. Você faz um monte de coisas, mas dentro da variação dela. Chegam pessoas que abrem, destróem, constróem uma outra máquina que consegue dar vários clicks por segundo, ou com o espelho ela faz duas imagens, eu não sei… que trabalha o que é uma máquina fotográfica com uma outra perspectiva porque ela não está presa no hardware.

O trabalho de Rabelo é bastante político em questionar a produção massificada de novos aparatos tecnológicos e como o design pode distanciar as pessoas desses dispositivos. A tecnologia pode e deve ser trabalhada para gerar outros significados e dinâmicas na sociedade. Não precisa ser programador ou tecnólogo para entender computação, por exemplo.

A tecnologia já faz parte da sociedade. Cabe, agora, entendê-la sem vestimentas.

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