A estética gambiológica já foi discutida na entrevista que fiz com Fernando Rabelo. Para ele, o objetivo de se abrir os fios, cabos, circuitos e o que mais fizesse parte do hardware para o público é aproximá-lo da tecnologia bruta. O trabalho de Fred Paulino, porém, mostra um outro viés desta construção.

A trajetória de Paulino envolve não só a tecnologia, mas um trabalho de intervenção nas ruas de Belo Horizonte. Ele, assim como o famoso inglês Banksy, trabalha com stencils para promover algum tipo de conscientização ou questionamento político. E foi por causa dessa mistura entre intervenção e tecnologia que ele trouxe para o Brasil o Graffiti Research Lab.

Nas obras de Paulino, percebe-se uma preocupação com a estética da gambiarra diferente da de Rabelo, por exemplo. Mesmo os primeiros trabalhos, como a armadura gambiológica, vê-se uma estética muito mais trabalhada do que simplesmente cabos e fios ou partes de hardware. Há a preocupação de se colar adesivos e encaixar tudo em uma caixa de goiabada, por exemplo.

Eu acho que o mundo hoje em dia tem excesso de uso de tudo, inclusive de aparelhos eletrônicos, principalmente. A gente fica sempre se cobrando de estar sempre atualizado tecnologicamente, de estar gastando dinheiro, de ter computador sempre mais atualizado, de ter sempre o último lançamento e entender das últimas linguagens e… tudo, assim. Fora as coisas que a gente consome no dia-a-dia, né? Que são triviais. E o Gambiologia, a partir do momento que ele reutiliza todas essas coisas para transformar em objetos, ora banais ou ora mais interessantes, ele acaba questionando um pouco esse excesso de coisas que a gente usa e consome.

Durante nossa conversa, Paulino ainda fez um panorama sobre a produção artística digital mineira e brasileira. O artista apontou um movimento de descentralização das obras artísticas que me lembrou bastante o Circuito Fora do Eixo. Para ele, em breve, veremos um movimento de migração muito forte. Mas ao contrário. Em vez de os mineiros largarem seus pães-de-queijo e encararem o concreto cinza da metrópole, os poluídos paulistanos procurarão empregos em terras onde Guimarães Rosa decretou suas veredas.

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