A rede trouxe possibilidades à sociedade que ainda não conseguimos mapear por completo. Identificamos uma e outra alteração, mas o impacto da internet e da web em diferentes vertentes da sociedade só será possível no futuro. A coletividade, por exemplo, até influenciou na morte da ideia romântica sobre o que é o artista.

A crítica genética estuda, desde a década de 1960, as influências que atingiram um artista para gerar determinada obra. É como se fosse o prenúncio da morte da “musa inspiradora”, da entidade divina que encarna na carne mortal do artista. Quer-se descobrir de onde surgiu determinada ideia e o que gerou.

O artista Fernando Velázquez acredita que a colaboração e a rede trouxeram também o fim desta ideia romântica. A possibilidade de se criar em conjunto, não mais isolado, faz com que caia por água abaixo os conceitos antigos sobre inspiração. Além disso, as ferramentas de rede trouxeram novos mecanismos para se compor uma obra de arte. Velázquez usa, por exemplo, Google Maps e Google Earth como meio para demonstrar sua Descontínua Paisagem.

Eu acho que hoje nos é impossível, pela facilidade que esses mecanismos nos impõem, de certa forma, perceber que até bem pouco tempo atrás era impossível você ter as plantas desse aeroporto por diversas questões, inclusive por sigilo. Então, a gente tem acesso a esse material que é uma coisa inédita. Apesar de que é banal o modo de como a gente acessa, como uma coisa muito corriqueira. Acho que todo mundo, olhando o Google Maps, deve ter passado por algumas cidades… “mas que forma bonita!”. Mesmo quando viaja de avião, você olha de cima. E esse é um pensamento que permeia muitos de nós. E em algum tempo quadrou, e eu consegui fechar essa ideia desse trabalho tentando… O elo que eu achei para construir essas pinturas era muito simples também, se traduzir um pedaço da cidade, daquela forma que já é bonita desde o espaço – que também tem seu atrativo porque se foi planificado ou não por um arquiteto, foi um apropriação das pessoas, se aquela forma foi emergente, foi auto-generativa, em uma questão social, de vida real.

A nossa conversa, que aconteceu no The Hub São Paulo, abordou também os incentivos necessários para incrementar a produção artística digital brasileira. Velázquez acredita que devam ser feitas novas formas de estímulo cultural para estimular a inovação e a experimentação.

No ano passado, quando na oportunidade do fórum que o [Instituto] Sergio Motta organizou, veio o diretor do Ars Electronica, e ele deu uma palestra que eu fiquei muito impressionado. Eu achei que ia ter muita cerimônia, ou que ia ser uma coisa… Ele foi muito lúdico no que ele mostrou, sabe? Muito lúdico. Uma abordagem da questão sem maior problema. Eu acho que às vezes a gente também fica um pouco, nós ficamos… Eu acho que existe uma preocupação muito forte, às vezes, com um conceito que quadre com a tecnologia. E eles lá, pelo menos nessa palestra, me permitiu – ou eu percebi -, se permitem uma questão lúdica, já mais de experimentar com aquilo. É uma crítica, mas desde a experimentação. Não é uma crítica que talvez nós tenhamos, de um contexto que talvez possa ser mais social, mais político ou mais… Quando me referi, no começo da resposta, à ideia de contexto, acho que é um pouco isso. Isso é uma coisa que eu tenho percebido entre a nossa diferença e a deles. Você vê que, por exemplo, dificilmente aqui, nos nossos países, você cria uma tecnologia, um processo. Isso vem de outros centros. Agora rapidamente está lá, se apropria e se instala uma base. Mas eu acho que isso se deve também a uma visão pública e de fomento.

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