Existe um limiar entre o que deve ser estruturado com sentido lógico e o que deve ser um mundo lúdico em algumas obras de arte. Há as obras políticas, militantes, e há aquelas em que a beleza ou a imaginação puxam o espectador para uma outra vivência.

As obras de Mariana Manhães trabalham com o lúdico e usam as tecnologias (hardware mesmo) para “corporificar” as experiências em vídeo. Os trabalhos da artista são construídos a partir de objetos do cotidiano (como bules e açucareiros), um baita trabalho de edição (ela me mostrou a timeline em um editor de vídeo e, meu, são milhares de recortes de uma mesma imagem para compor um gesto de um objeto) e liberdade à imaginação para fazer os sons – ou vozes.

Os trabalhos não nasceram para ser interativos. Por mais que eles se movimentem e pareçam chamar o público para participar, como diz a própria autora, eles são autistas.

Eu vejo um objeto desses, eu imagino… é como se a máquina fosse um vocabulário possível para ele, sabe? É meio abstrato o que eu vou falar, mas é como se a língua deles, a linguagem deles, acontecesse através desse organismo que se move por causa deles. E eles interagem só entre si. Isso também é uma coisa importante. Tem gente que acha que o meu trabalho é interativo. Ele não é interativo em uma maneira objetiva. É claro, ele interage porque o público, de uma certa forma, se insere naquela situação na qual tem coisas ali que estão conversando. Ele não entende muito bem o que está acontecendo, mas sabe que tem alguma coisa, alguma comunicação que ele não entende de primeira, mas tem algo acontecendo ali. Ele se insere no trabalho, mas ele não é um trabalho interativo, em que a pessoa faz um movimento… não tem sensor de movimento. É, os trabalhos são autistas, eles só conversam entre eles.

Mariana ainda tem cuidado de criar manuais de preservação para as suas obras. E é algo que todos os artistas, principalmente os que mexem com tecnologia, poderiam ter. A preocupação de Mariana não é apenas para que a obra esteja em funcionamento quando exposta em uma galeria ou adquirida por um colecionador. Ela está pensando no futuro, quando possivelmente algumas peças usadas em seus trabalhos não possam mais ser substituídas.

E isso é um ponto também importante para os museus que começam a se interessar por esta vertente artística. As obras não devem ser apenas expostas, como se fosse somente problema do artista se elas parassem de funcionar. Elas devem ter manutenção constante. É uma lástima ir a uma exposição como o FILE e ver que, depois de dois dias, diversas obras não funcionam mais. Apenas por não haver a preocupação por mantê-las.

Se para a pintura, escultura e arquitetura existem centros apenas focados para isso, por que não começar a pensar um para a arte e eletrônica?

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