O som de um pincel passando pela pele. De um lápis percorrendo os contornos dos olhos. Do algodão raspando na porosidade da pele enrrugada pelos anos. Do rímel juntando os cílios para aprofundar um olhar. É o ato de se maquiar casado com a amplitude dos sons dos utensílios raspando a pele.

Essa performance realizada por Vivian Caccuri mostra quão intímo pode ser o processo de esconder defeitos ou realçar qualidades na pele. Artista e público se isolam em um determinado local, com fones de ouvido, para a seção. O maquiado (público) troca confidências com o maquiador (artista) sobre onde estão os defeitos, ao mesmo que ambos escutam o utensílio passar por sua pele para resolver o problema.

Eu vou mudando o som que essa superfície da pele passa para a escuta. Eles adquirem uma textura metálica, uma textura arenosa. Eu peguei um elemento que é do mundo do consumo, que é a maquiagem, tanto para criar uma relação de intimidade com essa pessoa – porque quando você maqueia alguém é uma situação íntima; você não é mais uma pessoa estranha -, quanto aumentar essa experiência do toque da pele do rosto através da escuta, que é, normalmente, um toque que não se escuta. Não tem nenhum grande objetivo com isso. É mais criar situações onde tem uma experiência perceptiva diferente, não muito cotidiana.

A tecnologia, neste caso, surge como a ativadora desta mudança de percepção. Ela é apenas um meio para se conseguir chegar ao fim determinado pela performance. Em nossa conversa, Vivian ressaltou que suas obras, sem contexto, não podem ser consideradas como arte digital. Para ela, artemídia tem muito mais a ver com a exploração da mídia do que da própria arte – o que não aconteceu em seus trabahos. Claro que, quando colocadas lado a lado com obras realmente digitais, elas fazem sentido por ainda sim envolverem outras mídias.

Um exemplo bem interessante que Vivian deu foi uma obra de Cildo Meireles em que ele grava um LP (disco de vinil) usando os dois canais de áudio. Em cada um, uma coisa diferente. No primeiro, gravou o discurso de uma tribo indígena sobre o massacre que havia ocorrido em sua aldeia. No outro, captou o depoimento dos brancos, das pessoas envolvidas nos assassinatos. O público, então, podia modificar a importância de cada lado alterando o potenciômetro. Ou seja, enquanto você mexe os canais, o discurso dos índios pode estar na primeira camada, enquanto o dos brancos fica subjulgado a segundo plano. E vice-versa.

Você vê que esse é o problema da mídia. O potenciômetro que escolhe um canal ali do vinil é uma ferramenta que faz o trabalho acontecer. Mas você vê como a proposta dele tem pertinência com esse… Ele conseguiu visualizar uma situação onde o conteúdo do LP seria completamente aproveitado, e a significação daquilo estaria nesse mix que você faz

Ela é uma artista que trabalha com a percepção dos sons, da escuta. Não é música, mas a exploração do sentido e ao que isso remete. Vivian avisa que o que mais a interessa é o contexto macro, da memória e da história por trás de determinados sons.

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