Vídeo:

Entrevista:

Cicero Silva: …tudo é briga.

Thiago: Mas esse é o grande lance de trabalhar com dinheiro público, você tem que fazer toda a documentação, todo…

Cicero: Sabe, não se desce…

Thiago: Mas então, vamos pegar essa parte, já que a gente está conversando. Eu já estou gravando, tá?

Cicero: Tá.

Thiago: Assim fica uma coisa mais informal. Pensa nessa bolsa da Funarte, por exemplo, por que ela é legal? Por que, pensando em um panorama de cultura digital e de política pública que existe para cultura, por que uma bolsa assim, que é “prêmio”, focada em seis meses em uma pesquisa que envolve só a região sudeste, por exemplo, é interessante, é melhor do que as outras bolsas que eram feitas? Dá para ver que é um processo, né? Funarte faz isso, XPTA agora está fazendo isso também… acho que vem mais bolsas, pelo o que está havendo, que vão ser bem similar a essa. O que você acha dessas políticas públicas que estão surgindo agora justamente para trazer esse tipo de pesquisa, para trazer esse tipo de conhecimento e coisa do tipo?

Cicero: Eu penso que qualquer iniciativa que venha a, vamos dizer assim, criar mais pensamento, mais massa crítica e venha a desenvolver algo que precisa ser desenvolvido, que venha a dar recursos para as pessoas que queiram pesquisar campos… Acho que independente de áreas… Eu sou uma pessoa que gosta de ver as coisas sendo produzidas. Um pouco mais da produção do que da destruição da crítica, né? Eu acho que, no Brasil, a gente tem uma ideia sempre de destruição, de paralisação. Então, quando alguém faz você acha que há algo errado, tem que parar. É o nosso processo histórico. Eu penso que no caso específico dessas bolsas, na relação de arte digital, de cultura digital, Funarte… quanto mais, melhor. Você vai ter mais pessoas se dedicando à pesquisa, mais pessoas produzindo, e depois você avalia o mérito ou não da pesquisa, qual a questão que ele está tratando. Vejo isso como extrema importância. Você ter esse espaço, promover essa integração da pesquisa, promover essa integração da cultura, né? A gente fala da pesquisa, eu não estou falando da pesquisa acadêmica… eu acho legal do Ministério da Cultura, do Brasil, ter uma expressividade… Fora daqui as pessoas não entendem como que a Cultura é separada da Educação, mas é! É uma particularidade interessante, a gente tem que saber separar isso também. Acho que a Funarte desempenha um papel interessante aí no plano cultural com essas bolsas…

Thiago: Só no Brasil a Cultura é separada da Educação?

Cicero: É.

Thiago: Eu não sabia disso…

Cicero: Não só no Brasil. Você tem na França, e em alguns países da Europa que essa divisão é separada. Mas a maioria não é. Tem países, como os Estados Unidos, que não tem Ministério da Cultura. A Inglaterra não tem Ministério da Cultura. Aliás, na semana retrasada o secretário, vamos dizer assim, de políticas culturais do British Council esteve aqui e falou: “Eu não entendo como existe um Ministério da Cultura separado do Ministério da Educação”

Thiago: Nossa…

Cicero: Porque lá é Ministério da Cultura e Educação, como era no Brasil até um certo período – eu não lembro exatamente a data -, mas era o Ministério da Ciência, da Cultura e da Educação, e depois se separou forjado um pouco no molde francês. Eu penso que a cultura é um aspecto, hoje em dia, vital… A gente vê isso, é uma das sociedades contemporâneas, principalmente ligadas às grandes cidades, e essas cidades não tem mais retorno. Não tem como a gente querer voltar para a nossa vida no campo porque você vai morrer de tédio, né? Não dá, a gente pode ser um pouco pessimista em dizer que “ah, cidades não são possíveis…”, mas acho que tem retorno. A gente vai se adaptar. Mas fechando esses parênteses, eu penso que essas iniciativas no plano cultural, ligada à arte digital, à cultura digital, pela Funarte ou Ministério, são avançadíssimas no plano internacional, a gente tem poucos equivalentes…

Thiago: No mundo, né?

Cicero: No mundo. É, exatamente. Você tem instituições privadas, como a Fundação MacArthur, nos Estados Unidos, a Guggenheim, mas elas são artes em geral. E você tem algumas digital learning, que é, vamos dizer, educação digital, e algumas de arte, mas você aplica como arte geral com plano específico de pesquisar Arte e Tecnologia…

Thiago: Entendi…

Cicero: Mas não é focado.

Thiago: Mas a Funarte também é geral, é uma coisa muito mais…

Cicero: É, mas você tem um edital para Arte Digital.

Thiago: Que é um começo, né?

Cicero: Que não é separado. Então, se você entrevistar outras pessoas de fora, que são da área, você vê que a gente está em um caminho bem interessante.

Thiago: Ah é? Porque eu tenho visto também… porque geralmente a arte digital aqui no Brasil é muito mais para instituição privada, né? O Itaú Cultural, por exemplo, investe bastante em Arte Digital. Era difícil conseguir ver, vindo do próprio governo, esse tipo de pesquisa, esse tipo de iniciativa. E focado nisso, uma das discussões que eu tinha visto no fórum era de realmente revalidar os espaços de instituição pública focada em arte. Por exemplo, o novo espaço da Funarte aqui em São Paulo, que é aqui do lado e praticamente não acontece nada. Você vai lá e está às moscas… algumas ou outras apresentações e tal. Este tipo de instituição, focado na arte digital, como você acha que deve ser trabalhada? Pensando também na Conferência Nacional de Cultura que saíram algumas demandas, alguns pedidos de artistas, de pessoas articuladas nisso, que questionam justamente o espaço público para esse espaço de arte, para esse tipo de produção… O que você acha que deve ser feito? O que poderia ser mudado para conseguir tanto melhorar a parte de Arte e Tecnologia, quanto reaproveitar esses espaços e pensar em uma nova produção tecnológica a partir daí? Você vê que a pauta é bem ampla, né?

Cicero: Bom… Vamos dividir em três partes, bem chato. Vou ser bem… Então, você pergunta três coisas: espaço público, esfera pública, arte e tecnologia, o papel da arte em relação à esfera pública, espaço público e cidades. Então, a gente tem três problemas aí. Primeiro, a questão dos centros das cidades em geral em um plano de administração pública. Essa prefeitura é uma catástrofe. Kassab é uma bolha e a gente tem essa tragédia no centro. Ele simplesmente fechou todas as casas, aqui no centro, de abrigos, então está todo mundo abandonado, na rua, deixou 700 pessoas… o que ele faz no centro é o contrário do que a gente vê fora daqui.

Na Espanha, França, a própria Marselha, que é uma cidade que você pensa que é “old fashion”, antiga, mas eles tem um centro de arte também. Você tem cidades como Barcelona, Madri, Oviedo, Gerona na Espanha; você tem Marselha na França; e outras que vão decidir fazer o quê com o seu centro? Revitalizá-los. A Inglaterra fez a Tate Modern na região, e hoje em dia tem a Serpentine Gallery, que eles vão fazer onde? Em parques, dispositivos, centros que você tenha uma certa intenção de revitalizar o centro e resignificar esse papel da cidade e da utilização urbana. Tendo isso em questão (o interesse de alguém de querer revitalizar e não deixar para a especulação imobiliária, como é São Paulo – que é brutal nesse sentido), a pessoa vai ter a intenção então de revitalizar, recuperar pra fazer circular e tornar a cidade mais suportável. Tendo essa intenção, você vai para um segundo momento.

Qual é o segundo momento? O segundo momento é de que forma se vai fazer isso. Com, principalmente, uma geração muito jovem que está aí e que se repensa diante das cirunstâncias do plano do trabalho, da forma como vai se sustentar, enfim, as coisas mudaram. Você tem uma geração que está no meio de um processo radical de mudança, de ocupação das grandes cidades e as ocupações de trabalho ainda estão em formação. A cultura entra aí como um eixo de sustentação dessas novas configurações da cidade. E de que forma a cultura? A cultura em geral. A arte como sendo um aspecto da cultura, né? Ou o contrário, isso é uma polêmica também, eu posso dizer que a arte é arte e a cultura é cultura e não se conversam. Mas vamos pensar assim: a arte entrando como um aspecto interessante de resignificação desses espaços. A ocupação de artistas, a utilização dos espaços públicos, como foi em Nova Iorque nos anos 70 e hoje em dia são os bairros mais bacanas… no Soho… o Village… todos ocupados por artistas.

A arte digital, especificamente… estou entrando no terceiro ponto. Por que a arte digital? Porque a arte digital é muito próxima dessa geração mais jovem dos dias contemporâneos. Ela tem, obviamente… não interprete que eu estou dizendo como você ter que mostrar a arte digital para uma geração para eles depois serem empregados na Microsoft… Não estou falando isso, entendeu? Porque às vezes as pessoas dizem: “Ah, mas você quer ‘capacitar’ as pessoas…”, não estou falando isso. Estou falando que a arte digital é sedutora para uma determinada geração, mas não estou falando “seduzir” no sentido decreto do termo, mas ela é “compreensível”, tem um âmbito ali de integração, de resignificação dos processos de imagem, de espaço, com projeções, enfim, ela tem uma certa atuação que vai aproximar essa geração que vive nesse mundo contemporâneo, digitalizado, de troca, de rede social… Ela é um “catalisador” de processos de agenciamento (se é essa expressão que eu posso falar) culturais em torno dos espaços em que ela acontece.

A Funarte poderia ter aqui no centro de São Paulo… mas aí, de novo, você está em São Paulo onde não se tem nenhum apoio no entorno por parte dos administradores da cidade que não se interessam. Eles querem vender os terrenos e fazer prédios em um aspecto que não tem a ver com a cultura. Mas você pode, em um plano federal, ocupar uma Funarte nesse espaço e começar com a arte digital, com a cultura digital ou com esses aspectos para produzir diferenças lá dentro desse espaço, produzir uma obra, reflexões  e citações que você atraia esse público para seu entorno, que você amplifique esses diálogos que a cultura digital trás. Ela, de certa maneira, é um fato. A arte digital e a cultura digital são os grandes fatos do século XXI, desse início desse século. Você tem uma simpatia de vários setores por essas novas mídias, por essas mídias digitais.

Thiago: É que nem eles estavam falando na Espanha, do Media Lab, lá que tem muita coisa relacionada à isso.

Cicero: Isso, exato. Mas eles tem um pensamento que é ligado à questão da reurbanização, o papel da indústria. A gente não pensa nisso. Mas qual o papel da indústria em resignificar a arte? Como que o artista vai se apropriar dos instrumentos industriais, dos aparatos industriais, pra contruir suas obras ou mesmo os softwares? Os intrumentos industriais não no sentido do século XIX, da maquinária pesada, mas do capital intelectual. Ao promover uma circulação do capital intelectual, que hoje em dia funciona no plano da abstração dos softwares, por exemplo, em um determinado espaço cultural, você amplia… a cultura serve como um catalisador, como um processo de integração entre diferenças, né? Você passar do plano do século XIX, que a gente ainda vive aqui na cidade de São Paulo, da indústria pesada, para um plano da indústria do conhecimento, da “sociedade do conhecimento“, você tem que ter uma passagem, e a Cultura é um diálogo reflexivo – e a arte digital, neste caso, ao se apropriar desses novos recursos, desses novos mecanismos, faz essa passagem.

Na Espanha, eles sabem muito bem disso. Eles já usam ou criam esses espaços para provocar exatamente essa discussão sobre esses novos aspectos da sociedade do conhecimento pelo viés da arte. Por exemplo, o sujeito que está lá em sua casa, com suas crenças do século da sociedade industrial não passaria, não conseguiria entender e ter uma vivência desse processo que significa o digital nesse sentido, já que a arte pode fazer você resignificar suas próprias questões diante de uma obra. E isso tem um impacto fundamental na mudança do papel da cidade. Mas você tem que ter uma visão, nesse campo que não é sociológico, porque também a gente pode cair na sociologia barata de dizer: “Ah, então vamos usar…”, não. É o papel da arte. A arte não é Sociologia, né? Não concordo… Você pode dar um espaço para o artista digital ocupar esses lugares, promover obviamente o papel de uma instituição que tem um papel social em relação à cultura e deixar o artista trabalhar, fazer, produzir, amparar, fomentar, auxiliar de todas as formas que você puder, não intereferindo no que ele está fazendo, mas que tenha uma relação com essa arte contemporânea digital e que isso então vá promover um diálogo com a sociedade.

Thiago: E tudo que você falou está muito ligado com o documento que saiu do Fórum Brasileiro de Cultura Digital, né? Que foram diversas demandas que… conta um pouquinho do processo do Fórum. Como é que foi, tipo, a construção tanto da plataforma, os questionamentos, disso estar envolvido também com a Conferência Nacional de Cultura, nas pré-setoriais, enfim, todo o processo que envolve esse tipo de contrução, esse tipo de demanda, por parte dos artistas da sociedade para o governo… todo o tipo de governo.

Cicero: É, bom, o Fórum foi uma experiência muito rica, muito bacana. Acho que o Rodrigo [Savazoni], o Cláudio [Prado], o Zé Murilo [do MinC], a Alcione [Carolina, do MinC], o Daniel [Hora], enfim, as pessoas que tiveram a sacada… o Álvaro [Malaguti], da RNP… O que eu tenho a dizer é que o Fórum foi uma surpresa e eu já apresentei a experiência do Fórum fora daqui… É uma surpresa geral, né? Para quem faz política pública na Espanha, nos Estados Unidos, na universidade, ver que o governo usa uma plataforma de rede social para pensar as suas próprias demandas em relação à cultura e à arte digital. A plataforma também foi usada para fazer o Marco Civil da Internet.

Acho que isso é uma experiência de um governo que entrou aí de cabeça na coisa. Não tem medo, né? Porque a primeira coisa que você faz… que nem no blog do Lula o cara tem medo do post, então aí eles fizeram uma paródia do blog. Acho que ouvir a sociedade é isso mesmo, você abrir canais… Hoje em dia há a crítica barata dizendo: “ah, mas poucos tem acesso à internet”. Não é verdade. Quase 70% da população brasileira tem acesso. O cara pode não ter conhecimento da ferramenta, mas se ele fizer um “google” vai achar onde pode dialogar. Claro que os canais precisam ser mais estimulados. Acho que isso é uma coisa social brasileira. Por exemplo, o que a gente vê um pouco, assim, que eu senti com algumas pessoas… Eu fui curador do Fórum de Arte Digital. Qual era a intenção? Promover uma discussão e capturar demandas da sociedade, de artistas ou de pessoas ligadas ao campo da arte digital. Para quê? Para promover esse campo como um dos aspectos da cultura digital. Obviamente, isso não foi fácil. Uma das coisas que acabou acontecendo é que as pessoas não concordavam – e vários artistas não concordam – em ficar sob o guarda-chuva da cultura. Eles acham que arte e cultura não tem nada a ver uma coisa com outra. Isso é uma discussão longa. A arte é uma coisa… você tem a cultura… aquela definição clássica: o que é a arte? Arte é algo que está na cultura. Ou não? Ou a cultura é algo derivado da arte? Ou nem tudo que está na cultura é arte? Ou é?

Thiago: É uma longa discussão…

Cicero: O filme de Hollywood, Avatar, é arte? Não é arte no plano dos pensamentos sobre a arte. A questão é: não é arte. Agora, o que é?

Thiago: E o que é cultura também…

Cicero: A gente começou a entrar nesse debate, e a gente chegou a alguns direcionamentos: “vamos trabalhar com esses dois aspectos: cultura e arte digital”. Você tem essa definição de cultura digital e essa definição de arte digital. Você trabalha com as duas. As duas se relacionam em determinado ponto. A experiência do Fórum foi, de certa maneira, construir. A gente conseguiu dar um grande passo na construção dessas definições, dessas separações. Por que queremos a arte digital e não a arte contemporânea geral? E nem estar sob o leque das artes visuais…

Thiago: E por quê? Acho que até hoje eu não consegui ainda entender, tipo, por que tem o… a Arte Digital…

Cicero: Porque é a mesma pergunta: por que que a fotografia é separada da arte visual? Por quê? É simples. Existe uma tecnologia que inaugura um novo processo, o outro processo. A tecnologia é um processo que resignifica todas as outras questões relacionadas às imagens até ela. A tecnologia digital. Você não tem mais dependência. Por exemplo, essa câmera. Ela não está filmando o real. Ela está filmando determinada sequências de pixels e transformando e convertendo em softwares que supostamente geram isso que você está vendo aí. Mas eu não sei o que você está vendo é o que está havendo aqui. A partir desse processo digital, tecnológico, que antes você passava pela arte eletrônica e depois… aí a gente tem aquelas afirmações do Edward Shanken que nem toda arte eletrônica é digital, e nem a arte digital nunca vai ser eletrônica.

Você tem esses processos que vão acontecendo ao longo dos últimos 20 anos para deixar e desembocar na arte digital. A arte digital é algo que se inaugura a partir de um elemento computacional; o elemento computacional não é uma mídia, não é um processo isento de transferência. Ele é algo que processa, transforma, reelabora e cria coisas que você não tinha anteriormente, por exemplo. Não é no sentido, como você tem na fotografia, que você tem um equipamento tecnologicamente ligado a lentes, aspectos de captura, cores e que você, então, vai observar determinada realidade. Até a fotografia também pode ser uma alteradora de mundos. Você pintar, interferir na foto, cria outras perspectivas de olhar, né? E o computador radicaliza com essa possibilidade. Você não depende hoje em dia nem de câmera. Você poderia fazer a entrevista comigo virtualmente. A gente construiria os nossos corpos e as nossas vozes. Eu não dependo de mais nada da realidade. Nem um milímetro. Nada. E isso é novo. O cinema não faz isso. O cinema depende do computador pra criar mundos, né? Então, assim, a foto… eu não preciso mais da realidade para a foto se eu quiser. Isso é uma transformação. A gente não está ligado. Agora a gente pode dizer: “não, mas isso é uma arte”. Não é uma arte visual exatamente como a gente tinha…

Thiago: Não “só”, né?

Cicero: Exatamente, é fotografia, mas também não é só fotografia. É um outro campo. A gente não sabe definir. Particularmente, eu não gosto do conceito de arte digital. Se você quer saber, eu prefiro “Arte e Tecnologia”, vamos dizer assim, mas também não é um conceito…

Thiago: Mas por que você não gosta do conceito de arte digital?

Cicero: Ah, porque eu penso que se é arte é arte, acabou, entendeu? A é arte é arte, pronto. Não interessa se é digital, se é pintura, se é pedra, se é enxada, se é cuspe, se é merda, entendeu? É arte, é isso. Ou Tunga, ou caga, joga carne podre, é a arte. É uma questão da diluição do objeto. E aí por que digital, entendeu? É uma coisa complexa. Você pode dizer: “a arte inova os meios”, “a arte em meios digitais”, “a arte…”

Thiago: “A arte em novas mídias…”

Cicero: Mas eu entendo a posição dada, por exemplo, da representante do Conselho Nacional de Políticas Culturais, que vai dizer: “temos que manter esse nome porque de certa maneira é um pouco o que fez a fotografia, um pouco o que fez o cinema”, entendeu? O cinema se tornou um instrumento tão poderoso que ele chegou a ser a única arte, a única forma artística do Ministério da Cultura que tem a sua própria agência de fomento com milhões, para você ver o poder dos caras. Por que a escultura não tem? Não tem a ANSCULT? Por que a fotografia não tem a ANSFOTO? Não tem. É óbvio julgar, são públicos mais fracos, são públicos mais… você não tem o espaço avassalador dos cinemas – que a mídia digital tem uma grande possibilidade de entrar. Você pode ter espaços de dispositivos digitais onde você vai ter o cinema se integrando. O cinema começa a se integrar com as mídias digitais de uma maneira interessante. Você vê aí o resultado de vários lugares… assim, é isso. Não sei se eu respondi as suas questões todas…

Thiago: Na verdade, eu queria saber mais também, tipo, do processo, do documento do Fórum, da elaboração dele, para onde foi encaminhado, o que vai se esperar, porque daí a gente teve a Conferência Nacional de Cultura…

Cicero: Bom, aí a gente teve essas várias reflexões, chegamos a digressões e conseguimos finalizar e focar. A gente fez vários encontros no Brasil e isso foi bem rico. Acho que consegui, junto com pessoal aqui do Fórum todo, a gente conseguiu reunir muita gente bacana com apoio do Ministério da Cultura. Aqui em São Paulo, São Carlos, na UNICAMP. Aqui em São Paulo a gente fez três encontros no Estado: um no Mackenzie, que foi uma representatividade de peso, de pessoas, desde o Minstério da Cultura até representantes da área de arte digital que estão aí, como você mesmo falou, nessas intituições, estão aí há muito tempo. Cada um trouxe um documento, eu anexei esses documentos ao documento geral, e foi muito importante. Acho que esse debate deu uma diretriz. Deu uma força para área que a gente até não imaginaria que teria, que conseguirira reunir isso tudo de uma maneira tão interessante…

Thiago: Tá, mas esse documento serviu de base justamente para as pré-setoriais da Conferência Nacional de Cultura ou foi mais…

Cicero: Então, aí o segundo processo foi: a gente fez outros eventos fora. Fez em Juiz de Fora [MG], no Rio [de Janeiro] e em Belém [PA]. O de Belém foi uma surpresa. Foram mais de 200 pessoas no Museu de Arte Moderna lá do Estado Federal [a reunião aconteceu no museu da Universidade Federal do Pará]. Lotou, pessoal no chão e… debate. Muito debate. Quatro horas assim… estavam eu, Daniel Hora; Alcione, do Ministério; a gente recebeu assim… E você vê como a arte digital tem uma demanda. Eu reuni, escrevi todos os relatos… a gente gravava. Depois, eu transcrevi todos esses materiais das demandas das pessoas, de cada uma que ela trazia, e quando ela podia me entregar escrito, ela me entregava por escrito. Eu tenho os nome das pessoas… eu reuni esses documentos. Depois, dividi em eixos. Consegui dividir em quatro grandes eixos: Produção, Circulação, Fomento e tudo mais e Educação… esses grandes quatro eixos. Peguei todas essas demandas de cada lugar que eu trazia e separei nesses quatro eixos, encaixei e criei um documento. Escrevi esse documento.

Em novembro de 2009, foi realizado um evento em São Paulo que foi o I Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital. No último dia – em um sábado, não me lembro a data -, todos os curadores dos eixos produziram um documento e entregamos isso para o Ministro [da Cultura] Juca Ferreira. Ele, então, recebeu esse documento que a gente produziu – e ele é colaborativo, eu só organizei, na verdade, e introduzi algumas questões teóricas que você pode discordar, concordar, enfim, mas estão lá, são questões do campo. Esse documento foi, agora em 2010, um dos documentos usados e que deram subsídios à formulação na pré-setorial. A gente teve agora em março a Conferência Pré-setorial de Arte Digital, da Conferência Nacional de Cultura, em que eu era delegado no estado de São Paulo de Arte Digital… Foram eu, o Hermes [Hildebrand], de São Paulo, que a gente estava presente lá – e tem mais uma pessoa, acho que é o Lucas Bambozzi que foi eleito, representando o estado de São Paulo -, e nessa pré-setorial a gente, então, trouxe a formulação das nossas demandas para o Ministério da Cultura, documentos que foram elaborados ao longo dos anos para a formulação dessa pré. Um dos documentos que a gente usou e que serviram de modelo para o que deveria ser feito foi o do Fórum. E era o documento mais representativo das demandas. A gente tinha outros documentos, mas eles eram de um estado específico, que trazia uma demanda para aquele estado, citava o nome literalmente. E aí a gente conseguiu capturar ali muitas proximidades. Eram muitas coisas próximas. Acho que no fundo a gente pode sintetizar e ter as mesmas.

Thiago: As mesmas demandas no final, né?

Cicero: E aí foi isso, esse foi o resultado final.

Thiago: E agora que foi feita a Conferência Nacional de Cultura, quais seriam os próximos passos?

Cicero: Agora, o próximo passo foi a formação do campo. A gente conseguiu ter uma demanda, apresentar isso na Conferência e a área então, passa, enfim… foi aprovado no Conselho Nacional de Políticas Culturais o setor de arte digital. Ele deixou de ser só um de grupo de trabalho, um GT. Agora tem um processo de criação de uma cadeira permanente. Você tem uma representação do Conselho Nacional de Políticas Culturais que vai ter uma cadeira, que vai ter um colegiado – isso é o mais complicado, o colegiado você tem que ter 81 delegados no país que vão representar, eleger cinco, se eu não me engano, pessoas, ou dez, ou seja, suplentes, esses dez então formam o colegiado da área. Esse colegiado produz políticas culturais, políticas públicas, para a área de arte digital. É um conselho que vai avaliar projetos, direcionar, analisar o que está sendo feito no campo de arte digital. Então, esse é o próximo passo: a criação do colegiado. Esse colegiado é criado pelo Ministro a partir da demanda da sociedade. A gente está esperando se o Ministério da Cultura vai avaliar como demanda ou não e tudo o mais…

Thiago: Isso aí é resultado, então, só no próximo Governo…

Cicero: Sim.

Thiago: Porque não tem nem como fazer isso por agora…

Cicero: Mas é a…

Thiago: Você acha que se mudar de Governo, tipo, já era tudo isso que foi feito?

Cicero: Eu acho que não, assim… o CNPC é o CNPC. Ele é eleito por dois anos… agora, para os próximos dois. Então…

Thiago: Não tem interferência…

Cicero: Pode ter, mas não acredito. É que surgiu da sociedade civil. A gente não tem filiação partidária. Você tem pessoas, inclusive, que participaram das reuniões que tem outros eventos, participam de outras coisas que até são vinculadas a outras representatividades diferenciadas: Partido Verde, ou que não são ligadas ao Governo. Como eu, no caso, que não sou… Eu penso que não será tão fácil assim…

Thiago: Quebrar ou descontinuar todo processo…

Cicero: É, a gente tem uma coisa da sociedade civil, que veio ali de baixo. A gente tem essas relações, não são políticas, elas são do campo. A gente pensa em dez, 20 anos. No campo da fotografia, os caras não estão ali politicamente. Os caras do cinema também estão pensando para os 20 anos para o cinema no Brasil… Como é que você vai descontinuar? Hoje em dia é difícil vir um Collor de novo, “vamos fechar!”, “vamos arrebentar com tudo”…

Thiago: Que bom! Outra coisa que eu queria perguntar também é que a gente sempre teve uma conversa muito boa com a RNP por causa do Savazoni e etc. E eles disponibilizavam uma conexão aqui na Funarte, inclusive, muito boa para se trabalhar, muito boa para se ter, da rede nacional, da rede Ipê. Queria pensar um pouco nessa conectividade, pegando também um pouco no Plano Nacional de Banda Larga e como isso está relacionado com a arte e desenvolvimento da arte e tecnologia aqui no Brasil. O que você acha, tipo, tanto da conexão da RNP, que é a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, que está focada também nessas instituições públicas, desenvolvendo uma conexão boa para pesquisa, quanto pegando o outro lado, que é a Política Nacional de Banda Larga, a interferência disso na produção do fazer artístico brasileiro, entendeu?

Cicero: Bom, assim, a interferência não. Acho que é o impacto mesmo. Vamos pensar, a arte digital – querendo ou não – funciona em rede. Ela precisa de rede. Você pode ter ali algo desconectado, mas basicamente os softwares e as ferramentas, os instrumentos, o locus da produção da arte digital está em rede. Você vai fazer o uso ou não dos softwares livres, obviamente. Você tem muitos softwares livres, então, você não precisa nem depender mais de empresas proprietárias. Hoje em dia, tem ferramentas como Processing, openFrameworks. Eu mesmo criei uma chamada Walking Tools, que é uma suíte de coisas para celular. Tudo open source. Você vai lá e “downloada”, usa na sala de aula, não precisa mais… e são muito ricas, fazem coisas… você sabe. As bibliotecas C são abertas, bibliotecas de Java são todas livres, então, você pode fazer uso à vontade.

Então, tem que estar na  rede, né? Outra, segundo, usa-se para produzir, e para distribuir também. Quanto mais você tiver conectividade, hoje em dia, mais poder global você tem. Vamos falar no plano global, situação de globalização. Isso é um ponto que o Brasil peca terrivelmente. Conexão, primeiro… celulares. Telefonia celular no Brasil deve ser a terceira ou a segunda mais cara do mundo. Perde para a Sumatra! E a gente tem uma exploração. Eu acho que foi um momento importante da abertura do Brasil, mas a gente está no segundo momento. Eu acho que agora é o momento de baixar o preço. A gente tem tecnologias que usa aqui que… a gente é explorado! É o preço mais caro do mundo. Não tem saída. Você vai nos Estados Unidos, pega um plano do iPhone, da AT&T, e paga 49,90 com navegação à vontade e liga para o país inteiro. Outra coisa, nós temos roaming, que é da idade da pedra! É um roubo, um assalto! É cara que não quer mudar o equipamento velho que trouxe da Europa, que distribuiu aqui – que é o GSM, ele vende aqui. O que eles jogam no lixo na Espanha, eles trazem para instalar no Brasil. A gente não pode mais ser assim, entendeu? Ou vamos brincar sério, ou… enfim. Então, a gente tem essas coisas: roaming, isso é o fim! Ligar 021? Nunca vi um troço desses… Você pega Estados Unidos, Europa, você liga… não interessa onde você está. Seu telefone celular é o telefone celular do país. É uma tristeza.

Bom, a telefonia fixa. O cara vai acessar a internet por telefonia fixa… paga uma fortuna para ter um telefone fixo, de taxa. É muito caro em um padrão… Se você vai para fora de São Paulo (que São Paulo não é uma referência) tudo é muito caro pelo padrão de qualidade custo-benefício e também pelo padrão de vida do sujeito. O sujeito ganha um salário “X”, pagar 100 reais é muito para o cara… ou 80 reais, como no Recife, em que os caras pagam cento e poucos reais pra ter 1 mega. É absurdo o preço que eles pagam no Recife ou em Fortaleza. O que eu acho que tem que ser feito é entrar em uma segunda fase. E aí é o país expandir a banda larga. Não sei se vai ser pelo Plano Nacional de Banda Larga – que eu penso que é interessante, que pode ser feito para o público privado também. Não acho que o Estado dê conta, hoje em dia, de fazer. Ele pode deixar fazer. Ele pode fazer um outro acordo, né? Um acordo mais interessante para o país, não simplesmente entregar. “Vamos entregar e você explora aí, que nós somos bugres mesmo, não vamos saber nada, e eu levo o meu e você leva o seu”. Não! Acho que se pensar no país hoje, você tem que pensar nesses acordos. “Você quer vir? Você vai ganhar muito, mas, então, vai ter que fazer X, Y, Z, vai ter que dar contrapartida”. Tem que negociar. Se não quer, vai embora. Faz a gente mesmo, entendeu? E a gente consegue fazer.

A questão é um pouco isso. Pensar no Brasil nos próximos 10 anos, e na arte digital para ela sobreviver, se expandir, ter um papel. Acho que a medida que as redes vão se expandindo, ela [a arte digital] vai também se expandir. A cultura digital também. Ela vai levar a outras referências, desmontar determinadas crenças que a gente tem nas grandes estruturas de mídia. Vai criar outros paradoxos, mas também outras fontes, possibilidades, reuniões de grupos, manifestações sociais… E a arte, obviamente, tem uma possibilidade maior de existir. As redes, como esses projetos que a RNP está tocando de cabear os lugares, são de extrema importância. Tem que ser feitas. Tem que se dar cada vez mais. E eu penso que, por exemplo, as Funartes… uma das coisas que a gente escreveu no documento era que as Funartes deveriam ter acesso livre à internet e uma banda boa, wireless. Você não precisa ter muita coisa. Você precisa ter uns sofás, montar um Media Lab ou não, mas um espaço e wireless liberado. Liberado mesmo, não que nem essas universidades privadas que fazem por aí… põem 1500 senhas, não acessam o YouTube… Isso é tudo imbecil! A gente sabe que isso é um controle político da imbecilidade, que vem do cara formado pela Microsoft. Liberar como em qualquer universidade americana. Você chega lá, tem um sistema de segurança que o cara digita ali…

Thiago: Acho que é nome e e-mail só e já pega o acesso e vai embora.

Cicero: E já deu! E você é responsável por aquele acesso. Você não tem um catcher [identificador de IPs] que você pode pegar o endereço do cara, mas é a vida, sabe? O Brasil ainda é muito atrasado no sentido da lei, no sentido de liberar a internet, porque a lei hoje em dia é tão energúmena… Tem uns caras legais. Tem, tipo, o Ronaldo Lemos, que o cara está lá, no meio desses “dinossauros” dizendo: “calma, você não pode tirar o YouTube do ar”, como fez o juiz em 2007. “Não pode fazer isso!”. É mais sofisticado o processo do que simplesmente… Então, assim, o direito nosso é muito atrasado. Você vai em uma lan house, se você ataca um banco, o banco processa a lan house que é a detentora do IP. Isso aí é da Idade da Pedra. A gente nem está na Idade da Pedra, está antes, está no paleolítico da internet. Porque a lei americana não é o IP, entendeu? Não é mais o IP desde 1994, 1995, em que eles passaram a lei. Não é o IP, é o login e a senha. Se alguém hackeou seu login e senha, é um caso muito grave. Tanto o é que a Google saiu da China por causa disso. Porque a lei americana diz “o seu login e senha são de sua responsabilidade e você vai ser processado por isso”, entendeu? Aquela separação que a Suprema Corte fez foi muito bacana, em 1998, em que eles disseram “não posso processar o sujeito porque a estrada que leva até a casa dele está estragada e alguém se machucou no caminho”. Não é a estrada, é o que foi feito na estrada. Se eu ponho uma barreira, se eu pego a pessoa e bato na estrada, se eu barro a rua com o meu carro… A culpada não é a estrada. O culpado é o sujeito que estava dirigindo o carro. Mas no Brasil não. No Brasil eles processam a estrada. Tem esses marcos. Eu penso que a gente tem que avançar. Acho que o Estado podia avançar, liberar a internet livre em pontos, a cultura, acesso livre, sem pedir identidade, sabe? O cara, o que ele fizer online, ele é o responsável. Ele vai precisar para fazer coisas online… desses protocolos, plugins, senhas, logins. Você, obviamente, tem sistemas de segurança que você pode bloquear, simplesmente, acessos à SSH, se for o caso… O que é isso? É você entrar na rede diretamente nos servidores. Você pode fazer sistemas simples de segurança que evitam grandes tráfegos de dados de maneira ilícita. Você pode fazer isso. O resto você libera…

Thiago: Focado em todas essas…. não dificuldades, mas essa realidade que existe, vou fazer uma pergunta bem ampla, justamente, para você dar a sua opinião e selecionar o que você acha melhor. O que você acha da arte digital hoje aqui no Brasil? O que está sendo feito, o que é legal, o que não é legal? Como você faz o panorama, assim, do que está acontecendo recentemente…

Cicero: Eu vou falar do que eu conheço daqui e de fora. Eu acho que a gente está em um patamar um pouco, vamos dizer, anterior do que está fora por questões instrumentais. E porque também é pouco difundido da universidade. Você tem um ou dois cursos universitários que falam de arte e tecnologia e vão ter uma visão de produção. Se fala muito, mas ficam só falando. Poucos cursos que fazem projetos e desenvolvem. Porque não tem infraestrutura, que ainda é precária. Você tem computador e blábláblá, mas está se formando. Aqui é pouco difundido, anterior ao que a gente vê fora. Mas o que tem aqui tem um nível bastante sofisticado se comparado ao de fora. São poucos ainda. A produção do Brasil é bem baixa na área. Não é muito siginificativa se comparada com Espanha; Inglaterra; Estados Unidos, que você tem aí a coisa da produção. Mas os Estados Unidos são outro mundo, não tem ralação com aqui. É uma coisa mais comercial e tudo o mais… O Japão tem uma produção de arte e tecnologia, e agora a China começou – e tudo na China é superlativo, então, eles já começam com um lugar com 30 mil pessoas fazendo… O Brasil, em um plano geral, tem a produção muito baixa, mas com qualidade sofisticada. Poxa, a gente tem artistas como a Giselle Beiguelman, a Rejane Cantoni, Leonardo Crescenti, que circulam em um patamar bem interessante. Acho que a gente pode ver… só essas duas para não causar muito problema. A gente tem vários, mas precisa ainda formar um público. Na ECA, a gente tem algumas pessoas ali, mas você vê a Monica Tavares, Gilbertto Prado e a Silvia Laurentiz. Você percebe neles ali intensidade, mas falta um pouco de ferramental, vamos dizer assim, mais espaço para produção, fomento… Imagina se tivesse acesso à internet livre, laboratório superbacana, onde tivessem todas ferramentas de ponta. Eu duvido que eles tenham lá Quad Core, Mac, com todos os softwares para eles produzirem arte digital. Talvez eles tenham um…

Thiago: E se tiverem, também, muitos não sabem o que fazer com aquilo…

Cicero: Não, eu acho que eles saberiam fazer. O problema é que não tem, né? Poucos, tiveram um só… Eu acho que a infra ajuda muito, e depois, obviamente, a produção. Não só lá, a UNICAMP; a Federal de São Carlos… Até está tendo agora um pessoal interessante lá. Eles estão fazendo o Festival Contato de Arte e Tecnologia [é o Festival Multímida de Rádio, TV, Cinema e Arte Eletrônica].

Thiago: Nossa, vou ver!

Cicero: Dá uma olhada. Até conheci no ano passado a Maitê, que é uma das organizadoras da Federal de São Carlos. Bem legal, são superprodutivos e fazem um trabalho… esse Festival Contato está bem interessante. No Recife, o Jarbas Jácome, o pessoal do C.E.S.A.R, o Mabuse, né? Famosos já na área do remix. O Jarbas está fazendo um trabalho, hoje em dia, de altíssimo nível em termos de programação, de sofisticação do que ele está fazendo hoje. É algo comparado a qualquer cara que está no Eyebeam*, em Nova York, tranquilamente. Então, tem uma qualidade, a gente está avançando. Esses artistas são ainda bem jovens, estão começando e vão espalhar isso. Eu vejo que no futuro a gente vai ter uma geração de pessoas vendo isso sendo feito e resignificando a tecnologia. Acho que isso é um papel importante da arte, repensar a tecnologia não no plano econômico, mas repensar a tecnologia no dia-a-dia do sujeito e tudo o mais…

Thiago: Você acha que essa é a base da pesquisa ainda…

Cicero: Acho que o Brasil vai despontar, já despontou esse ano com o convite da Giselle Beiguelman para ser jurada do ARS Eletrônica. Já era da área de comunidades com o André Lemos, depois o Ronaldo Lemos ganhou. A gente está andando. A gente é ousado.

Thiago: “A gente é ousado” é boa… Nossa, está ótimo!

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* ATUALIZAÇÃO (31/05/10, às 15h48): Depois de rever a entrevista, acredito que Cicero pode ter referenciado ao E.A.T. (Experiments in Art and Technology), organização criada no fim da década de 1960 que fazia a ponte entre artistas e engenheiros para desenvolver obras artísticas envolvendo tecnologias.

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Com a ajuda de Vinicius Alencar na transcrição. Ele transcrevendo, eu editando.