Vídeo:

Entrevista:

Thiago: Fala um pouquinho do contexto do seu trabalho, tipo, o que você acha que está acontecendo aqui no Brasil em termos de cultura digital, em termos de arte digital, focado também nesses aparelhos do cotidiano (celular, câmera digital) e como o seu trabalho está enquadrado nesse contexto do que está acontecendo por aí.

Claudio Bueno: O meu trabalho se apropria em geral de tecnologias previamente incorporadas no cotidiano – isso uma parte do meu trabalho, que acho que é a parte que mais lhe interessa nesse caso…

Thiago: É, mas pode falar do seu trabalho em geral também…

Claudio Bueno: Então, por exemplo, no último ano, de 2009 até agora no início de 2010, a minha pesquisa teve concentrada no uso do que é chamado de mídias móveis. O uso de aparelhos celulares e que, na verdade, mistura high tech com low tech. Eu tenho, ao mesmo tempo, os aparelhos de celulares tão miniaturizados, tão tecnológicos e digitais misturados, em geral, com aparelhos de televisão, piano, enfim, acionando outros mecanismos eletrônicos. Eu acho que a cena brasileira é ao mesmo tempo diversa, mas é também muito pequena. A gente tem uma mistura que ainda não se define muito bem, me parece meio difuso, no sentido de que a gente tem artistas que vieram do vídeo, como experimentação do vídeo, sendo novas mídias nos anos 90 e fim dos anos 80, 90, e artistas experimentando também o que são as novas mídias hoje. As novas mídias mudam. O que era vídeo antes hoje passa a ser internet, celular e qualquer outra coisa assim. Ao mesmo tempo a gente tem vertentes que vão para uma ideia de reciclagem – você deve ter entrevistado o pessoal do Metareciclagem…

Thiago: Não, ainda não.

Claudio Bueno: … ou vai entrevistar -, mas tem uma linha que é educacional, enfim, tem várias vertentes da própria produção audiovisual também. E o meu trabalho está um pouco mais focado nas instalações interativas. Hoje, o que compõe o cenário, na verdade, de uma articulação, de onde é que você pode circular dentro de arte e tecnologia, eu poderia dizer o Rumos Itaú Cultural, ou o próprio Prêmio da Funarte que a gente comentava agora pouco, que está aberto; o Prêmio Sérgio Motta; o MIS – o LabMIS, na verdade -, então é esse circuito que ainda é muito restrito, mas ao mesmo tempo tem um dado interessante que no último ano eu tenho – e em mídias móveis eu tenho o Arte.Mov, por exemplo, em Belo Horizonte…

Thiago: Patrocinado pela Vivo, né?

Claudio Bueno: É, patrocinado pela Vivo, e que agora está expandindo para o país, está um pouco mais amplo. É muito interessante porque, por exemplo, no último ano os meus trabalhos aconteceram também, além de eu ter conseguido o prêmio do Rumos, ter sido indicado para o Sérgio Motta e ter feito a residência do LabMIS e tudo, eu também expus em outras situações como o Paço das Artes, agora acabou ontem uma exposição que foi na galeria Luciana Brito, que é um circuito de uma arte que não dialoga com a prática de tecnologia, por exemplo, e essa exposição aconteceu. Eu vejo o próprio contexto da arte em um caminho sendo permeado por essas práticas, que também vão sendo  absorvidas pelo próprio circuito artístico e ao mesmo que se deve também diferenciar o que está em uma prática artística e do que desvia dela, do que não pretende ser arte e que às vezes é incluído por uma questão de que é experimentação e, então, acaba entrando nisso…

Thiago: Mas tem exemplos disso, de coisas que não eram feitas para ser arte, mas que acabaram entrando nesse circuito artístico de…?

Claudio Bueno: Sei lá, às vezes tem uma oficina de vídeo para uma comunidade carente.

Thiago: O que é bastante do que o LabMIS faz agora, né? Estão com bastante oficinas…

Claudio Bueno: Tem muitas oficinas, mas as oficinas do LabMIS tem um outro perfil que é complementar à formação de quem está trabalhando com artes digitais. Essa é quase, assim, de dizer: “olha, você pode produzir um vídeo e se automanifestar.” Em que medida? Ele fica em uma linha tênue entre trabalho social e um trabalho…

Thiago: Mais artístico e conceitual, né?

Claudio Bueno: Exato. Depende um pouco também da proposição quase formal de quem está dando essa oficina e de quem está propondo esse trabalho.

Thiago: Entendi. Mas pelo que você está falando, então, há uma cobertura maior de entender a arte e tecnologia, de entender a arte digital nos processos não só restritos, por exemplo, ao LabMIS e Rumos Itaú Cultural, mas, por exemplo, pegando outras galerias…

Claudio Bueno: Começa a se abrir um pouco mais. Mas ele ainda não é muito facilmente permeável.

Thiago: Mas parece que é uma tendência, né? Porque, como você falou, tipo, muitas pessoas que querem uma experimentação de vídeo estão caindo na arte e tecnologia, pensando em tecnologia e pensando no digital também.

Claudio Bueno: Eu acho que um não elimina o outro. “Vou continuar produzindo um vídeo”, “vou continuar pintando” e “vou continuar produzindo, investigando novos meios”, na medida em que quando ocupa uma parte muito grande do social, começa a produzir sentido público, social, simbólico das práticas artísticas. Na medida em que começa a produzir esses sentidos, então, faz sentido que um artista se aproprie dele. Muitas vezes isso é visto como uma… a três dias atrás, eu estive com uma artista, pintora, que tinha uma resistência muito grande em aceitar o que eu estava colocando ali como minha prática artística. Às vezes, tem uma rigidez em aceitar essa prática com tecnologia, quando no fundo eu não estou pretendendo que parem de pintar. Eu estou pretendo que as coisas aconteçam juntas, e que essa também é uma forma de…

Thiago: Se expressar…

Claudio Bueno: … de viver o nosso presente. Muda a forma de perceber ou de estar no mundo hoje.

Thiago: Que no fundo são complementares, né? Uma coisa que eu estava até falando com o Cícero [Silva]. Ele foi – eu não sei se você conhece ele – delegado…

Claudio Bueno: De Arte Digital para o…

Thiago: É, para a Conferência Nacional de Cultura e trabalhou também no Fórum Brasileiro de Cultura Digital e etc. E uma das coisas que ele estava falando é justamente de usar a arte digital para a apropriação de espaços públicos, por exemplo a Funarte, e inserindo com o contexto ali da região, como se fosse um processo de reurbanização da região focado na arte digital. Por quê? Porque a arte digital é uma que engloba diversas vertentes e, tipo, você consegue fazer uma pluralidade melhor e uma intervenção maior. E que é mais ou menos isso que você está falando, que os processos artísticos são complementares. Não é uma coisa que quebra com a outra.

Claudio Bueno: É, não é um ou outro. Cada um vai também entendendo quais são os seus limites ou possibilidades de atuação, produção de sentido e produção dos seus trabalhos. Isso é bobagem dizer que é um e não o outro, ou que um elimina o outro. Os meus trabalhos estão focados, por exemplo, em uma pesquisa sobre espaço por meio da utilização dos meios de transmissão. É uma pesquisa sobre questões de espaço que pode ser feita por várias outras pessoas, de outros modos, e a minha linha de pesquisa utiliza os meios de transmissão para compreender essas questões. Por exemplo, o último trabalho que eu apresentei foi o Casa Aberta, em que eu transmitia – ali tem uma… enfim, não vai dar para ver com a câmera -… tinha uma webcam colocada ali naquela mesa, que transmitia a sala da minha casa e eu convidava então de dentro da galeria as pessoas a ligarem, a desligarem a minha televisão com uma chamada de celular. Elas faziam uma ligação e intervinham na minha televisão.

O que é isso? Isso é pensar, por exemplo, que tem várias formas de entrar para um trabalho como esse. Ali na galeria ficava uma sala sendo transmitida com uma imagem muito estática, muito parada – e que era isso que a gente vê aqui, esse fundo que a gente vê -, que nada de muito interessante acontece, mas que indica para a gente, por exemplo, as imagens das pessoas que se transmitem online hoje. Tem exemplos de vários sites, desde o mais atual agora, que é o Chat Roulette; JustinTV; enfim, tem vários… o Cam4, que é mais pornográfico, mas que são pessoas comuns que se transmitem online, se masturbam, enfim…

Thiago: Estão ali, né? Do cotidiano voltado para o…

Claudio Bueno: Estão ali transmitindo situações muitas vezes desinteressantes, que não mereceriam ser transmitidas. O trabalho convida a pensar que situação nova é essa que se configura, seja do espaço da residência, do tipo “eu me transmito por quê?” ou “eu transmito a minha sala por quê?”. Para habilitar uma presença? Para eu estar conectado? Para parecer que eu estou acompanhado? Quando a Isabela não está trabalhando aqui comigo, eu estou aqui sozinho? Se eu me conecto ou se alguém de dentro da galeria liga a minha televisão é quase que também dizer “olha, tem mais alguém aqui junto”. Essa presença do outro que às vezes também pode ser entendida como uma presença em demasiado, do celular que eu não desliguei e que pode tocar enquanto a gente estiver falando, de um email que chegou antes de você chegar e que eu posso estar pensando nele, dessas presenças externas que acabam entrando no ambiente que seria, então, fechado, sem essas transmissões, que seria só o espaço das paredes e que essas paredes de concreto já não limitam mais, já não delimitam mais o espaço privado. Ele é permeado pelas outras presenças.

Thiago: O que é mais ou menos o conceito de cibridismo que a Giselle [Beiguelman] trabalha, né? Ela fala que é a linha tênue entre o você estar online e você estar offline, entre você está desligado ou não. É mais ou menos isso, né? Você falar que está acompanhado, desligado, você não estar, o que você está ali, né? Porque enquanto você está aqui, aí de repente ligam a TV, você fala: “pô, tem alguém ali”!

Claudio Bueno: Você não sabe quem é exatamente, mas está ali. Isso também tem uma situação importante, que é uma mudança, por exemplo, da própria forma, do próprio espaço político do que se entende por casa, por residência. A gente tem duas situações: uma que é a minha, que moro sozinho, sem nenhuma obrigação de constituir uma família, em que a minha casa fica vazia por um tempo grande; e uma outra é de uma casa cheia, que tivesse uma família, em que o pai, em uma situação patriarcal, já não tem mais controle sobre o que o filho acessa. Se antes o filho abria a porta da sala e dizia “vou pra rua”, hoje ele está fora e dentro ao mesmo tempo. Ele está se relacionando com alguém online, falando com todos os amigos – e isso não vai vir indicado na conta de telefone, então, ele pode fazer isso tranquilamente. Enfim…

Thiago: Trabalha com a privacidade também, né? Porque fica neste limiar…

Claudio Bueno: Privacidade quase dele ali conquistada desse filho. Essa figura masculina da casa, que às vezes a mãe assume, é diluída nesse sentido da perda de controle. A Casa Aberta está um pouco por esses caminhos. Acho que isso é uma das situações.

Thiago: E você falou que trabalha com espaço. Eu queria que você descrevesse um pouco sobre qual é o conceito de espaço trabalhado. Que tipo de espaço?

Claudio Bueno: Eu penso o espaço por dois modos.Um é dele verticalizado, que podia ser entendido como um lugar como é a residência. Ela é um lugar que tem características próprias, tem um funcionamento próprio, tem um domínio do privado. Então, compreender de que forma esses espaços atuam com a presença das transmissões é uma situação. Uma outra é pensar a questão de espaço interativo. Esse exemplo da televisão é um deles, em que com um dispositivo móvel, por exemplo o celular, eu posso ligar ou desligar TV; eu posso derrubar um prédio colocando um explosivo que eu vou disparar remotamente; estourar, ativar ou transportar um piano. Esses espaços interativos também me interessam. De que modo o espaço é afetado? O espaço e a intenção dele agora não só como um lugar específico, mas um espaço de fluxo ou um espaço afetado pelas transmissões.

Thiago: É, porque eu vejo dois espaços enquanto você está falando. Parece que tem aí o espaço privado ainda, em que você fica recluso na casa, aquela coisa mais estabelecida; e o espaço público ainda que é uma coisa completamente orgânica, em que você não tem nenhum controle sobre o que pode ser feito ali. E mesmo sendo…

Claudio Bueno: … que é o da rede, por exemplo, né?

Thiago: É!

Claudio Bueno: A minha casa está sendo transmitida, na verdade, online. Ela está na galeria, mas está online e está aqui em casa. Esse espaço da rede também me interessa, do tipo, o que é colocar um trabalho de arte na rede, por exemplo? Colocar um trabalho de arte ali é submeter o trabalho a um público que não é o especializado da galeria. Por muitas vezes, dentro do chat do JustinTV (que é por onde eu estava transmitindo), a gente via ali um comentário, que era: “que imbecil! Como assim transmitir da sua casa? Como assim permitir com que as pessoas mudem os canais da sua televisão?”. Pessoas indignadas ali colocando situações como essas. Como você relaciona com esse público não especializado com o público da galeria? Esses diferentes espaços também me interessam. A Pipilotti Rist tem um caso famoso em que ela disponibiliza todos os vídeos dela no YouTube.

Thiago: Quem é? Desculpa.

Claudio Bueno: A Pipilotti Rist. Ela é uma artista do vídeo, uma expoente. Ela esteve há pouco tempo, no final do ano passado, no MIS e no Paço, com vários trabalhos. Uma das questões é que ela disponibilizou os trabalhos dela no YouTube. Ela cai nessa mesma situação. Uma pessoa que vê o vídeo dela e diz assim “eu vi o clipe na MTV que é muito melhor do que esse vídeo do que estão chamando de artista”. Como assim? “Essa mulher é uma artista?”.

Thiago: O que ela é, né?

Claudio Bueno: O que ela é? “Por que o vídeo dela tem 20 mil visitações e é essa porcaria, que é uma menina que durante o vídeo cai?” – que é um trabalho da Pipilotti falando do ruído, da TV…

Thiago: O que você acha disso? Dessa disponibilização do trabalho artístico – focado nas novas mídias, no audiovisual – nesse meio não especializado? Parece que é uma democratização da arte mas não democrático, uma coisa que fica muito na ambigüidade, assim.

Claudio Bueno: É polêmico e ambíguo. Eu acho que tem que estar disponível. Essa ideia de fechado – a própria ideia de reserva técnica ou de acervo de galeria – é um trabalho que fica ali guardado, embutido, que não era para ser visto. É só para o privilégio de um cara que um dia tem dinheiro pra comprar uma grande obra. Não é para todo mundo ver. Isso é um pensamento muito ruim. Eu acho que tem que ser disponibilizado mesmo. Acho que tem que estar online. Isso cai em uma proteção, em uma insegurança do artista de, assim, “pô, mas eu gostaria de vender esse vídeo. Se eu disponibilizo, então está para todo mundo”. Ele perde um valor como produto. Vira o que ele deve ser, que é uma produção pública. O artista não produz, pelo menos idealmente, não produz…

Thiago: Para si próprio, né?

Claudio Bueno: É, para ele. Mas para produzir um sentido para fora, por isso também que a gente vê as exposições. Exposição é também um momento de abertura desse trabalho. A gente tem alguns casos em que o cara produz para encontrar com Deus. Produz para ele e para o encontro dele.

Thiago: O processo criativo, né?

Claudio Bueno: É, assim, é outra situação muito específica, mas em geral é artista… usando a frase de outro artista muito legal, que tens uns 31 anos, o Vitor César, que diz “o artista é público”. É um pouco dessa ideia. Eu acho que tem que colocar mesmo.

Thiago: E por que você escolheu o celular para ser a ferramenta para, por exemplo, conseguir mudar o canal da sua televisão? Você conseguiria fazer por outros meios isso, não necessariamente usando o celular. Por que o celular?

Claudio Bueno: O celular tem me interessado como pesquisa a sua relação um pouco mais orgânica do que uma decisão muito precisa. Diferentemente de eu escolher, do tipo, “sou um pintor e serei pintor”. Eu estou lidando com meios de transmissão. Eu tenho um trabalho sobre internet, tenho esses com celular… O celular me interessa pela ativação remota de um espaço, por propor um outro uso também desses dispositivos que, em geral, prometem determinadas coisas, do tipo, “connecting people“, “simples assim“, “viver sem fronteiras“, e não sei o quê. Pensar que situação é essa e se é isso mesmo, se estamos vivendo mesmo…

Thiago: … sem nenhuma fronteira ou se a fronteira está meio escondida…

Claudio Bueno: … ou como isso vem para a gente. Ele tem um discurso em torno dele. Nenhum dispositivo é neutro, ele vem embutido de uma histórinha dele. O celular tem, por exemplo, um uso que em geral é estritamente privado – eu ligo para você para combinar uma reunião, ou eu ligo para alguém que manda uma mensagem afetuosa para outra pessoa -, colocar isso também em espaço público, essas mensagens – que é um outro trabalho que é o Estrelas Cadentes, que estava no MIS.

Thiago: Ah, que era que você mandava o SMS e estourava o balão e saía a estrela…

Claudio Bueno: Pensar, então, nessa mensagem em um uso para a produção do espaço, que era um espaço que ia ficando contaminado por aquele brilho todo no chão. Ou o próprio trabalho da Giselle [Beiguelman], que já foi entrevistada, que as pessoas no trânsito podiam enviar mensagens, e essas mensagens eram exibidas no Eletromídia. É tirar um pouco as pessoas desse fluxo liso, chapado e homogêneo e produzir ali alguma espécie de pertencimento dessa pessoa a esse fluxo, a esse espaço que ela está passando. Ela faz parte desse espaço e compõe também esse espaço. Todas essas coisas me interessam. Me interessa também o sentido que é do deslocamento, que é por exemplo, se hoje a gente vive em um momento em que você é solicitado para estar em vários lugares ao mesmo tempo e você tem um celular, aí cito novamente a Giselle – que ela fez o fast/slow scapes, por exemplo -, em que ela vai na janela de boatscapes, carscapes ou railscapes, enfim, de carro, de ônibus etc, ela vai gravando a paisagem com o olhar que tenta capturar essa paisagem. Ela grava com o celular dela, que está ali no bolso. Qual é a diferença? Ela não está enviando essa imagem para eu ver, mas estar com o celular o tempo todo é também um sentimento de presença do outro. Apesar de estar o tempo todo em deslocamento, talvez o que assegure para ela um vínculo com o lugar mais ou menos seguro, que é o lugar da residência, o lugar que seria o Brasil quando ela está em Berlim, seja o celular, que seja a ponte dela de contato com essa outra realidade, o que faz ela andar o tempo todo com esse dispositivo. São questões que também não tem nada fechado, mas que a ideia de deslocamento também me interessa. Ou do cara que vem da Zona Leste [de São Paulo] todos os dias e que fica por duas horas na Radial Leste, por exemplo. Como isso também pode se dar pra ele, enfim…

Thiago: Mas isso é um trabalho que você está fazendo ou está pensando em fazer?

Claudio Bueno: Não, isso faz parte da minha pesquisa de mestrado, que tem o título provisório de “Lugar e Mobilidade” em que eu penso nessas questões do deslocamento, espaço público e privado, de redes que se anunciam a partir do uso de dispositivos. O caso do trabalho do Antoni Abad, por exemplo, do canal*Motoboy, em que ele distribui os celulares para um número de motoboys e que eles documentam o cotidiano em um processo inverso do que seria um audiovisual de documentário, em que você vai afim de investigar o que está acontecendo, qual é o seu trabalho neste momento e dizer “bom, deixa eu entender o contexto das artes e tal”. No momento em que ele dá o celular para os motoboys é o próprio motoboy produzindo esse contexto do que seria o motoboy. É uma voz que não é da mídia, nem do boca-a-boca do tipo que a gente fala assim “o motoboy é um inferno”, “motoboy no trânsito é um caos”, “tinha que proibir de passar no corredor”, então, eles produzem uma outra voz ali, que é a própria deles dizendo “olha o banco fecha às 16h, às 15 para as 16h o cara me pediu para entregar um documento e se eu não entregar, ele não vai me contratar mais”. Então, quem está ferrando quem ali? Eu que peço para o cara entregar dez minutos antes de fechar, sendo que eu podia ter ligado duas horas antes e ter dito o que precisava, ou o próprio…

Thiago: … o próprio motoboy que não conseguiu…

Claudio Bueno: É ele quem vai se matar e vai correr para caramba para conseguir entregar. Enfim, esses trabalhos também fazem pensar em tudo isso.

Thiago: Pensando também nesse contexto, que a gente tem falado muito dos diferentes usos do celular – focado não só na arte e documentação, enfim, no uso do celular em geral -, qual a influência desse tipo de aparelho na produção artística, na produção tanto audiovisual – ou na artística mesmo, como é o seu caso? Pois você não usa o aparelho para produzir conteúdo audiovisual. Pelo menos, nos trabalhos que eu vi, não é mais a produção por meio desses aparelhos, mas é o celular como interface para se atingir alguma coisa da obra artística.

Claudio Bueno: Exato.

Thiago: Como você acha que foi esse impacto? Porque com a ubiquidade do celular você tem uma outra percepção do que é essa mobilidade, do que é esse… não essa interface, mas esse mecanismo que existe, entendeu? O celular pensado como um mecanismo. Qual a influência dele na arte digital e na produção artística? O que você acha?

Claudio Bueno: Eu acho que ele é uma interface que não é só de comunicação verbal, oral e imagética. Os caras embutem essa câmera aqui para conseguir vender. Isso é evidente. Daqui a pouco a minha câmera de 5 vira de 12 [megapixels] para conseguir vender. Para mim, o dado principal é de que ele é um dispositivo de transmissão, que pode ser de comunicação, mas pode ser também de ativação de coisas remotamente. É isso que eu venho tentando pensar, nesse uso dele como um dispositivo de transmissão. Terminando esta ideia… terminando não, acrescentando, somando a essa ideia de comunicação e produção de imagem… porque isso no geral a gente não nota. Está tão automático que o celular é para eu receber mensagem, é para eu ligar para alguém. Esse é um ganho da minha produção que é de pensar nesse uso dele. Daí eu penso no uso como transmissão no sentido de que modo ele reverbera no espaço, que são um dos vários modos que a gente vai ver dos trabalhos.

Thiago: Quais outras mais obras suas, que esse das… como é que é o nome? Das estrelas…

Claudio Bueno: Estrelas Cadentes.

Thiago: Estrelas Cadentes e o Casa Aberta eu vi. Tem algum outro tipo de trabalho que você…?

Claudio Bueno: Tem o Transporte, não sei se você viu.

Thiago: Não, acho que esse eu não vi.

Claudio Bueno: Esse estava em um evento agora em uma residência artística no fim do ano, em dezembro. Não sei se a sua câmera captura a tela…

Thiago: Aqui, pelo menos, pega.

Claudio Bueno: Pega? Então, que é esse daqui. Eu vou rodar ele um pouco.

Thiago: Ah, é o do piano!

Claudio Bueno: É, você viu o vídeo?

Thiago: Não, eu só vi as fotos.

[vídeo]

Claudio Bueno: Ele é curto.

Thiago: Mas, aí, qual que era o processo?

Claudio Bueno: Aqui, então, começaria eu contando, mas não precisa. Como eu estou aqui ao vivo, né?

Thiago: É, ia ser estranho.

Claudio Bueno: Mas, basicamente, se você conseguir capturar aqui fica mais fácil de explicar. Então, as pessoas no espaço expositivo, existiam dois números, dois aparelhos de celulares lá e as pessoas eram convidadas a transportar o piano. Quando elas ligavam para um número, ele ativava para subir, e no outro ele ativava para descer. O celular, ao invés de usar o pulso elétrico dele que faria vibrar, eu uso esse pulso elétrico para ativar o motor. Eu digo pro motor “olha, chegou uma informação”. O motor, no caso, era essa talha elétrica que recebia um comando – aqui tinha mais um circuitinho eletrônico, aqui em cima, que transferia a informação para o motor e fazia o piano subir ou descer. Essas explicações são super analógicas do motor, da placa eletrônica, mas associado a esse celular que ativa esse…

Thiago: Mas dá pra destruir o piano, ali? Ficar apertando para baixo e “ahhhh, ploft”.

Claudio Bueno: Ele quebrou em alguns pontos. Não caía tão forte por uma questão de segurança. A primeira proposta dele era aos poucos ir quebrando, mas isso teria que produzir – e o trabalho foi produzido em 15 dias – um dispositivo de proteção daquela área que ocuparia um espaço muito grande para que as pessoas não chegassem perto do piano no momento em que ele batesse no chão com muita violência e voasse piso.

Thiago: … pedaço de madeira…

Claudio Bueno: Mas pensar em, por exemplo, se o celular está associado a uma ideia de mobilidade, o piano talvez seja o inverso disso. Se o celular pode estar em qualquer lugar, o piano pertence a algum lugar. Ele está sempre definindo uma arquitetura. Se ele está em uma sala, ele tem a presença dele.

Thiago: Ele está em uma sala.

Claudio Bueno: Ele está em uma sala, é! Então, era também uma situação de peso, de fragilidade. Você ficava quase que embaixo dele no momento em que ele ficava descendo ou subindo. O que é transportar um grande volume com um aparelho celular? Você estar diante de um piano de 400 quilos, com aquela estrutura que balança quando é movimentado – e ela balança porque ela tem que balançar, porque se ficasse muito rígida ela quebraria, então, quando você movimenta a estrutura balança – sugere ali também um risco desse transporte. E aí pensando sobre as noções de interatividade. Ela não é uma interatividade nem gratuita, nem muito… envolve uma responsabilidade de quem interage, do tipo, “meu, e se quebrar comigo?”

Thiago: Nossa, é verdade, é uma puta responsabilidade!

Claudio Bueno: Eu tinha previsto tudo. Eu nunca tinha suspendido um piano, entendeu?

Thiago: O legal que eu gostei também é que dá uma brincadeirinha com o conceito de mobilidade, né? Você está vendo ali a mobilidade do celular…

Claudio Bueno: Mas que ela não sai. Acho que tem dois lados bem legais: um é esse, que é um transporte, um deslocamento que permanece no mesmo lugar, ele não…

Thiago: Não está em todos os lugares, não é aquele plano, aquele eixo Y, né?

Claudio Bueno: É, e é assim, ele está o tempo todo em deslocamento, se movimentando. É um incômodo por meio desse peso, dessa coisa que não sai desse lugar. É um incômodo da ideia de mobilidade. Tem uma frase da Anne Galloway que diz assim “mobility is only free when is freely choosen”, então “a mobilidade só é livre quando é livremente escolhida”. A ideia de mobilidade vem associada a uma ideia de liberdade plena. Posso estar em qualquer lugar, olha que maravilhoso. Porque, no fundo, a mobilidade tem o seu incômodo. Se você viaja a trabalho e tem 10 viagens, uma seguida da outra, e não pode voltar pra casa, isso não é tão bom assim. Ou no caso dos refugiados, que mudam de um lugar para o outro, é por uma obrigação. Eles não mudam em busca da residência. Eles não mudam porque querem. Eles mudam para não serem mortos, para não serem capturados por milícias. É também pensar a mobilidade como um incômodo, não só como…

Thiago: … algo que é associado a coisas boas.

Claudio Bueno: É pensar nesse cara que a gente vem da Zona Leste para o centro e fica duas horas no trânsito. Pô, eu preferia ficar em casa, preferia ficar parado…

Thiago: Mas até eu que moro na Zona Sul levo duas horas pra conseguir chegar ao trabalho… é a mesma coisa.

Claudio Bueno: É que hoje se misturam muitas situações. Mistura a ideia de você poder estar em qualquer lugar ao mesmo tempo e você poder escolher estar em algum lugar. Eu escolher “bom, quero passar um mês em Nova Iorque e eu vou ter o Skype, tenho celular, então quem quiser me encontrar, vai me encontrar em Nova Iorque”. Está tudo bem, tenho o meu e-mail, meu Skype, meu celular, está tudo certo. Agora na medida em que você é requisitado a estar nesses vários lugares…

Thiago: Muda um pouco o contexto e o conceito, né?

Claudio Bueno: Muda o conceito da própria ideia de mobilidade.

Thiago: Saquei. E o que mais você está fazendo com o celular agora? Ou com outros mecanismos que sejam presentes no cotidiano, que seja uma coisa mais corriqueira…?

Claudio Bueno: Tem uma outra situação que é, na verdade, do celular quando vem embutido com o GPS. Tem um game que eu estou desenvolvendo agora, que foi aprovado no Rumos, que é chamado Campo Minado.

Thiago: Acho que eu li alguma coisa sobre…

Claudio Bueno: Pode ser.

Thiago: Eu não lembro.

Claudio Bueno: Campo Minado, o que é? Ele fala um pouco do uso de mapas em demasiado, como se ele também desse conta do espaço. Um mapa em geral procura dar conta, diz assim “olha, aqui está o espaço que você vai percorrer”. No GPS você diz “eu quero ir daqui até… a Mooca”.

Thiago: Ele faz todo o traçado te seguindo.

Claudio Bueno: E te indica. É um pouco essa ideia de um mapa que te indica um ponto A ao B. O Campo Minado lida com isso. Ele te indica até onde você deve ir… mas a ideia do Campo Minado é não garantir que você vai chegar do ponto A ao B mesmo que você tendo o mapa. No meio do caminho você tem minas, campos minados, que se passar por cima deles, você perde o jogo. Por exemplo, pensar que daqui até a Mooca eu vou ter o motoboy, o trânsito, alguém que pode me roubar no farol, um buraco na rua, um pneu que furou ou, enfim, eu tenho uma série de nuances que permeiam esse mapa e que ela não é revelada. Eu tenho uma rua que mudou de mão, enfim… e que não é revelada no mapa convencional. É uma ironia ao mesmo tempo de uma ideia de mapa que não garante que você chegue no outro lado. As pessoas vão estar em um trecho de um…

Thiago: … de um traçado ou alguma coisa…

Claudio Bueno: … de um traçado, um bairro, e elas tem que cruzar do ponto A ao ponto B com o celular na mão, com o mapa indicando onde elas devem ir, e existem pessoas online que estão vendo exatamente onde ela está, então, ela está agora no cruzamento X e Y, e ele vai posicionando esses campos minados no percurso dela.

Thiago: Que doido!

Claudio Bueno: É um jogo que associa que a ideia de realidades mistas, do virtual e do físico acontecendo juntos, um dependendo do outro e desse cara que fica online vendo o cara onde ele está e a partir disso posicionando esses campos minados. Aí, evidentemente, tem uma série de regras, que não precisam entrar aqui, e que então definem “ah, você não pode mover o campo minado em menos de um minuto porque isso impossibilitaria do cara…”

Thiago: … chegar e atingir…

Claudio Bueno: … para criar uma dinâmica ali desse jogo. Então, é isso, acontece no espaço urbano e na internet ao mesmo tempo. E em um momento pontual, no dia 20, vai acontecer o jogo e as pessoas são convidadas e vão para lá para jogar.

Thiago: E é no dia 20 mesmo? Quando é que vai ser? Já tem data marcada?

Claudio Bueno: Não, estou terminando o projeto, então…

Thiago: Você me avisa, pelo amor de Deus? Porque é genial, genial, genial…

Claudio Bueno: Aviso. Isso tem a ver também com o grupo que é chamado de Blast Theory, que eles desenvolveram um game muito… se chama Can you see me now?, mas que é uma espécie de pega-pega na rua, desse modo onde os jogadores online pegam os jogadores na rua – um corre atrás do outro, mas um é virtual e o outro é físico – e que foi desenvolvido na Universidade de Nottingham, na Inglaterra. Então, a inspiração ou o procedimento também vem daí. Mas eu aviso quando tiver!

Thiago: Por favor.

Claudio Bueno: Mas é muito legal! Você dá conta de um monte de coisa durante o desenvolvimento. Você se dá conta de um monte de coisas, por exemplo, como calcular o deslocamento das pessoas, de angulação, porque a Terra é redonda e não plana. Isso é muito louco, porque o cálculo disso você faz assim:  tem que por um ponto no centro da Terra e desse ponto saem duas retas, ponto A e ponto B. Então, como calcular esse trecho?

Thiago: Ah, agora eu entendi! Você não pode calcular assim, né? Você tem que calcular inclinado… putz, que doido…

Claudio Bueno: Você se dá conta quando você está fazendo, programando e tal… Tem um programador trabalhando comigo nisso, que é um cara super legal, cabeção, que é o Álvaro Maia, que está me ajudando nesse processo de realizar esses cálculos e tudo. E o último dado para a gente colocar aqui que é importante é da ideia dos trabalhos serem produzidos sempre colaborativamente.

Thiago: Era isso que eu ia perguntar.

Claudio Bueno: Tem alguém que “starta”, que concebe a ideia, que está envolvido, por exemplo, no meu processo de pesquisa e tudo, mas eu nunca consigo desenvolver nada com tecnologia que seja sozinho, tipo “eu resolvo tudo”. Desde a mulher que vai estampar as camisetas que as pessoas vão usar no dia do jogo até o Álvaro que vai programar e que está trabalhando muito junto comigo. Eu preciso, então… são muitas peças no jogo. Essa ideia de um cara sozinho resolver tudo – é como seria, por exemplo, na pintura, que você vai e é uma situação ali muito individual, um embate teu com a pintura -, esse embate existe com o próprio projeto, mas ele não existe…

Thiago: … no processo todo…

Claudio Bueno: É, no processo todo. Ele é sempre coletivo.

Thiago: E pensando em colaboração e pegando mais um trecho… pegando mais um contexto de interatividade, para encerrar e fazer a última pergunta. Arte digital possibilitou que você trabalhasse interatividade de uma forma nunca vista antes. Mesmo se você pega a arte cinética que começaram a trabalhar da década de 50 para cá, você vê uma evolução na interatividade com obras de arte. Acho que o digital expandiu isso até não poder mais. Por que trabalhar com a interatividade e como o digital influencia nisso?

Claudio Bueno: Porque os meus trabalhos envolvem a participação do outro. Me interessa esse público, essa pessoa que vai se relacionar com o meu trabalho. O porque talvez esteja mais ou menos por aí. O trabalho quando surge demanda quase que a presença do outro, que o outro modifique o trabalho, produza novos sentidos para o trabalho. Isso é uma parte. A outra pergunta é como eu vejo a interatividade no digital. No digital eu acho que tem uma noção principal que é a de rede. Acho que é de eu estar aqui, mas poder estar conectado com outro cara do outro lado, seja isso via celular, seja via satélite, seja via internet a construção de redes online, redes sociais e por aí vai. O digital tem esse… além evidentemente de eu poder inserir o código mesmo de programação. Eu posso mudar tudo. As coisas open source, por exemplo. Eu posso baixar o programa e o aplicativo – aí, então, um exemplo prático – um aplicativo que eu estou desenvolvendo agora para o celular, para o jogo. Eu estou desenvolvendo em uma plataforma que é o Android, que é produzido pelo Google. Ele permite que eu crie uma interface entre o meu aplicativo e o GPS embutido no celular. Eu consigo produzir essas articulações do meu aplicativo que vai usar o GPS do celular, que a programação do aplicativo vem de um outro cara que já fez um outro, mas que eu vou ter que modificar o meu e que, enfim… O digital também permite essas manipulações de códigos. É tudo isso. É uma noção de rede, de código e de uma interatividade – aí juntando os dois, do digital e da interatividade – que permite modificar a própria base do trabalho. Se você pega, por exemplo, um bicho da Lygia Clark, você tem formas que você pode colocar e manipular, mas são formas limitadas. Agora com o digital você poderia dizer para o cara que ele pode fazer três dobras. Ele não precisa fazer duas só. Mas, muitas vezes – isso também no meu trabalho – a interatividade vem de modo bem simplificado. Eu nem sempre uso tudo isso da interatividade, que na verdade são problemas. Tem vezes que você demanda tanto do outro cara que o trabalho perde o sentido poético, estético, conceitual. Porque daí parece que está tudo na interatividade, e no fundo não é disso que você está falando. Se você está falando de interatividade, “ah, eu quero que o cara entre, eu quero que o cara use o parangolé, eu quero que o corpo do cara esteja dentro”. Aí faz sentido. Agora, se você tem um trabalho da TV, “ah, é só ligar e desligar”, não tem que ter o controle completo de todos os canais e não sei o quê, não sei o que lá. Não me interessa isso, entendeu?

Thiago: Há um limite para tudo isso, né?

Claudio Bueno: Me interessa a presença da pessoa dentro da minha casa. Me interessa essa possibilidade da pessoa quase que se teletransportar para o outro lado. Me interessa essa entrada no espaço privado. Então, isso é mais importante para mim do que o…

Thiago: É apenas uma ferramenta do que explorar exatamente, tipo, qual o limite que existe da interatividade na obra artística.

Claudio Bueno: Exato, não está dentro da minha pesquisa explorar limites da interação com o digital.

Thiago: Entendi.

Claudio Bueno: É isso.

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Com a ajuda de Heloisa Selles Moraes na transcrição. Ela transcrevendo, eu editando.