Vídeo:

Entrevista:

Thiago: Já está gravando, tá? Fernando, então, explica um pouco para mim o que você faz. Qual é o foco do seu trabalho, de onde começa, para onde vai, o que questiona, o que não questiona… dá um geralzão, assim, do que é.

Fernando Rabelo: Tá. Bom, é claro que eu tenho umas coisas que são completamente misturadas. Primeiro porque a minha formação é de desenho. Eu comecei em Belas Artes com desenho, pintura… grafitei também… ilustração, fiz muito desenho de ilustração. Eu comecei com isso e, dentro desse processo, passei a trabalhar em empresas que estavam começando na época, em 97, 98, que eram de multimídia. Então, fui fazer CD-ROM, primeiro site, comecei a fazer animação para internet e entrar um pouco no meio digital. Eu peguei o desenho, somei com o digital e comecei a fazer coisas com o digital. Mas isso como uma técnica para a ilustração, não era uma coisa de pensar sobre o que era o meio, o que representavam todas essas coisas. Era mais seguir o mercado…

Thiago: É o “fazer”, né? O ganha pão ali…

Fernando: É o “fazer”, com certeza. Dentro disso, eu fiz um mestrado na Belas Artes, aqui de BH, e comecei a entender mais sobre o poder do pensamento, da crítica, de como organizar as coisas e como isso pode refletir em uma obra. Daí fui para outro patamar. Como um conceito artístico pode chegar dentro da tecnologia e não ficar igual como ficava no início, que era mais repetir a técnica?

Vinha o [Adobe] Flash, a gente aprendia. Aí vinha outro Flash e a gente aprendia esse com outras coisas. Mas o conteúdo era sempre o mesmo. Era um site que tinha que fazer para alguém ou uma animação. Ficava bacana, mas é a questão da técnica pela técnica mesmo. Fazer rápido, com qualidade e essa coisas que são mais de mercado.

Depois do mestrado, eu comecei a experimentar e vi que tinha alguma coisa comigo – acho que todo menino tem isso – de querer conectar uma coisa com a outra que não tem nada a ver. Lembro que quando eu era pequeno, peguei uma espingarda de brinquedo e uma mãozinha que fazia uns ganchos, que era de criança, e juntei uma coisa com a outra. Ficou horrível. Ficou uma arma que tinha uma mão. Era uma ideia de como conectar as coisas, que é muito interessante, de criar um objeto a partir de objetos existentes. Para mim, que era menino, achava divertidíssimo, mas muitas pessoas diziam “o que é isso? estragou dois brinquedos para fazer um esquisito?”. Acho que tinha a ver com essa ideia, que é recorrente para caramba na questão da arte. Se for olhar [Marcel] Duchamp, o cara foi o criador disso, praticamente, do objeto próprio, do ready-made e desse conceito de ficar fazendo coisas diferentes.

A minha base era mais isso. Dentro disso, passei a incorporar os equipamentos eletrônicos. Comecei a gostar, estudar mais, experimentar também e foi uma coisa que me revelou para fazer os primeiros trabalhos, que é o Contato Qwerty que é esse teclado aqui. Ele ainda está em processo, pois foi desmontado em uma instalação e não foi remontado.

Thiago: O que é o teclado?

Fernando: Isso aqui, na verdade, é a lâmina de um teclado aberto que eu coloquei entre um sanduíche de acrílico e fui tirando os fios. Eu tinha feito esse daqui em 2005 para o FILE, na primeira vez.

Thiago: É, eu vi isso!

Fernando: Ele ficava na parede e vinha com esponjas de Bombril. Você encostava em duas e fazia a projeção. Se bem que depois disso eu fui aprimorando. Essa primeira foi na própria parede. Depois eu construí essa coisa aqui [o suporte de acrílico], que eu exibi no Chile, e depois com os fios cortados…

Thiago: Tá, mas qual era a idéia dessa obra?

Fernando: A idéia era deixar todo o sistema aberto, inclusive teclas. Nessa peça de acrílico você vê o teclado, os componentes. E nesse eu brinquei, coloquei objetos e tal, mas deixar tudo aberto e mostrar que um teclado aberto com um fio com Bombril na ponta pode ser uma instalação, uma coisa tecnológica, de fato ligar arte e tecnologia.

Thiago: Mais focada em ready-made. Mas um coisa de… não ready-made, mas de… de…

Fernando: Não é o objeto, não é tanto o espetáculo…

Thiago: … pelo o objeto, né?

Fernando: É mais o raciocínio de como você pode fazer, e deixar aberto. O cara compra um teclado, um fio, um Bombril e faz uma instalação que, se você for olhar, não custou nem R$ 400, nem R$ 300. Comprar o Bombril, dependendo do Bombril, não vai chegar nem a R$ 100. Cabos, não sei quanto. Não é questão do material. Não é questão de ser barato também não. Mas é questão de associação das coisas. Em vez de você jogar um teclado fora, o que eu posso fazer com esses teclados? Dá para você abrir? A internet é cheia de informações de gente que abre o teclado para fazer piso sonoro, não sei o quê… pensei em transferir isso para mão. Comecei a pesquisar, então, na hora em que você toca duas [pontas dos fios], seu próprio corpo faz o contato. Você, ali, que está…

Thiago: … ligando…

Fernando: … ligando e desligando o circuito que antes era só uma tecla. Você nem sente. Às vezes, você aperta “A”, “B”, “C”, “D”…

Thiago: Ah, entendi. A pessoa segurava de um lado e segurava de outro, fechava o circuito e teclava uma tecla do teclado, é isso?

Fernando: Isso. Ou então, esses dois fios que saem daqui são o “A”. São duas lâminas. Um fica com a lâmina de cima e outro com a lâmina de baixo. E quando você encosta os dois [fios], fecha com a mão, você digita o “A” e isso é uma imagem. Na hora em que a pessoa segurava, passava pelo corpo dela – ou dava a mão para outra e a outra segurava outra esponja lá – a corrente e fechava o circuito. Na verdade, é um jogo muito básico, mas que fica interessante pela proposta de como você associa as ideias. É um negócio tecnológico, de como se faz a lógica de uma tecnologia. É mais do que uma coisa de se dizer “ah, não, é nova… um novo aparelho”. É para ser menos escondido e justamente tem a ver com esse conceito do mimoSa e do Etienne [Delacroix], que estávamos falando um pouco antes. Ele deixa tudo aberto e vai construindo com as pessoas. Uma questão da tecnologia, para ela não dominar as pessoas e não parecer sempre como nova, é saber como ela funciona, um pouco dela, né? Ou até mesmo para dar esse desprezo e essa desprendida tecnológica.

Thiago: Ou até para conseguir fazer coisas novas com aquela coisa que é velha, né?

Fernando: É. Isso que, para mim, tem a ver com o sentido da arte e da tecnologia como um pensamento sobre, entendeu? Como uma crítica. E eu gosto muito de trabalhar com a ironia também. Acreditar que a tecnologia vai resolver o processo humano, e não sei o que lá, não vai resolver porra nenhuma. Se o homem vai usar para a guerra ou qualquer coisa depende dele. A tecnologia está a serviço humano. As indústrias criam um monte de aparelhos para você consumir. Não tem nenhum processo humano aí. A parte humana, para mim, está nesta questão da arte, que é onde tem o embate. Por isso que eu acho que muita arte tecnológica que está sendo exibida em galerias não tem nada a ver.

Thiago: Por quê?

Fernando: Porque é muito isso: a tecnologia pela tecnologia. Você vai lá em uma mesa touch e diz “é legal, essa mesa touch faz o som”, mas e aí? O primeiro impacto é “eu vou ficar maravilhado, porque isso é touch”. Dá uma sensação bacana, mas você não sabe o que está acontecendo ali dentro. Se for tentar olhar, peraí: cadê o fio? Onde está a projeção? O que é? Você não consegue desenvolver… isso no meu pensamento. O contato é até certo ponto. Depois desse ponto… como ele programou? O que ele fez? Você não sabe. O artista não está lá. Você não consegue perguntar. A maioria das coisas estão no backstage. Isso, para mim, é de ainda perpetuar a mesma regra de mercado, que é esconder tudo nos aparelhos, nas coisas, para você ficar maravilhado em primeira mão e depois se tornar um usuário do negócio. E não um participante, que pode criar e fazer outras coisas juntos.

Thiago: E a ideia é que todas as suas obras tenham a parte de hardware toda aberta? Para se entender o que está por trás?

Fernando: Não é uma via de regra, mas ultimamente todas elas tem isso. Elas são muito abertas. Inclusive elas vão evoluir para se abrir mais. Na primeira vez, o Qwerty ficava na parede. Ainda tinha o computador, mas ficava dentro de uma caixa. No Chile, a caixa já foi transparente, então, você via o computador, todas as ligações, onde e que cabo ligava ao quê: USB, conversor, P2. E lá dentro tinha uma tela com o programa, que dava para ver as conexões dentro do programa.

Thiago: Que programa era?

Fernando: Nessa época, eu usava o Isadora. Eu tenho uma versão dele que não é free não. Tem o Pure Data que estou usando agora, que é uma versão open dessa mesma coisa.

Thiago: E está dando?

Fernando: Dá, mas ele não está dando tanta resposta. O Pure Data foi feito, primeiro, para fazer som. Para composição de música, efeitos e tal, ele é genial. Agora, para vídeo, ele ainda tem problemas quando você tem que carregar muitos vídeos e ter uma resposta rápida entre vídeo e interface. Se você tem que tocar no Bombril e fazer tocar um vídeo, tocar em outro e tocar um outro vídeo, ele tem a tendência a cair e executar uma operação ilegal, errada. Já o Isadora não. Ele é completamente estável.

Thiago: Mas é proprietário?

Fernando: É proprietário. E eu não faço muita distinção. Eu não tenho uma bandeira software livre não. Quando tem a ver com um sistema de educação, eu acho que tem tudo a ver software livre. Você tem que desenvolver porque tem a ver até mesmo com o desenvolvimento…

Thiago: … educacional mesmo, né?

Fernando: Educacional, tecnológico. Está tudo aberto ali, você pode modificar. Você vai criando suas próprias coisas a partir do que você já tem. Não é algo que se perde, né? Isso para a educação é fundamental. Agora na parte de criação, em empresas e sei lá o quê, tem horas que você vai precisar de um software mais robusto. Se bem que muita gente usa pirata. Eu investi, na época, US$ 350 no software. Dá o quê? R$ 700, R$ 800 e é um software aberto também, então você pode criar dentro dele um programa e passar para outra pessoa se quiser. De graça. Você pode controlar suas próprias coisas a partir da licença que você tem. Você pode distribuir seus programas. Se você cria um Contato Qwerty, por exemplo, eu posso criar um arquivozinho e distribuir para quem quiser abrir e usar.

Thiago: Entendi.

Fernando: Isso se replica de uma outra forma. Eu só achava que esse software era bem mais visual. Ele economizava igual o Pure Data e outros parecidos, como o Max. A curva de aprendizado do programa era bem menor do que desses daí, porque você não tem que ficar decorando o que tem que escrever dentro da caixa. Você tem todas as variáveis abertas. Você só arrasta e tudo está lá. Não quero pensar se eu tenho que escrever “osc:,ww” aqui para ele transformar uma coisa dessas. Isso é de programador ainda. É um meio termo ainda de programação e de visual. O outro não, é completamente visual. A sua cabeça fica voltada para o que você quer fazer, não em como entender aquele sistema, entendeu?

Thiago: É bem mais fácil, né? No final das contas, acaba reduzindo tempo, pensamento…

Fernando: Você vai otimizando a criação. Liberta a criatividade. Quando eu vi primeiro, pensei assim: “Uau, esse programa aí é muito bom!”.

Thiago: Você usa ele para todas as outras obras ou não? Agora você está trabalhando com PD, né?

Fernando: Eu uso ele pra muitas coisas. E nesse negócio da pesquisa… Você quer uma cadeirinha aí, bicho?

Thiago: Não, não. Pode ficar tranquilo.

Fernando: Esse negócio que foi a pesquisa em Amsterdã, eu criei o software de controle do panorama com o Isadora também.

Thiago: E o que foi a pesquisa na Alemanha?

Fernando: Na Holanda, você fala?

Thiago: É, a que você acabou de comentar…

Fernando: Foi uma pesquisa que começou em 2008. Foi uma bolsa. Eles até convidavam, antes, artistas que ganhavam o Vídeo Brasil. Uma das bolsas do Vídeo Brasil era desse mesmo lugar, que era o Video Academy e World Wide Video Festival, na Holanda. Eu tive a chance de… o cara me convidou, o Tom [van Vliet], para fazer uma residência lá de dois meses. A residência era para ir para lá, ver o que era, conhecer a academia, o espaço, o processo e propor algo em cima do que eu tinha entendido sobre a estrutura deles.

Quando eu cheguei lá, tinham várias coisas bacanas. Várias máquinas antigas também, mas eu me interessei muito por um sistema lá de panorama analógico, que eram dez videocassetes conectados em dez projetores. Os videocassetes tinham um mecanismo – que eu esqueci o nome dele – que sincronizava os vídeos para poder tocar. Na verdade, não era videocassete. Era vídeocassete, mas depois foi para DVD. Quando eu cheguei lá, estava no processo de sincronização de DVDs. Nesse caso foi assim: bacana o sistema, mas meu trabalho era quase todo digital. Eu teria que gravar dez DVDs para colocar lá dentro, então, para mim, o desafio maior era como fazer esse mesmo sistema funcionar digitalmente. Essa foi a primeira ideia. Dentro desse processo, teve uma busca pelo mínimo de hardware possível para fazer um sistema digital – até mesmo por ser mais fácil de replicar e de entender como o sistema funciona. Então, desenvolvi com um computador e com três placas Matrox Triple Head. Todo esse sistema tem no site http://www.hiperface.com/panorama.html. Tem o passo-a-passo do que eu fiz na época.

Desenvolvi um sistema de projeção digital e, dentro disso, comecei a trabalhar propostas de interação com essas imagens, desde uma webcam, que vai duplicando essas imagens – você consegue fazer mais de 3.000 imagens de câmeras, da mesma webcam, mas todas fragmentadas em um mosaico. Fiz uma brincadeira tipo Big Brother panorâmico, que é completamente rodeado de imagens de você mesmo a partir de uma webcam.

Teve um outro vídeo também, que era um de cinco minutos, e eu fui editando, mas espacialmente. Editei os primeiros 20 segundos do primeiro quadro, e depois os outros segundos aqui, os outros segundos aqui… então, eu fui editando o vídeo espacialmente em um espaço panorâmico. Você vê o vídeo…

Thiago: … andando.

Fernando: Andando.

Thiago: Que da hora!

Fernando: São vários loops, mas você só compreende vendo ele todo. É como transformar um vídeo em uma linguagem panorâmica.

Thiago: O engraçado é que é trabalhar o vídeo, que já é uma animação, em uma realidade animada, né? Porque ele vai andando, assim, e você só consegue ter noção do que é acompanhando o movimento do vídeo. É espacial, não só como a projeção que é parada, né? Doido!

Fernando: Justamente. Minha cabeça estava efervescendo nessa hora. Era muita coisa. Era o novo e o velho ao mesmo tempo. É vídeo, mas ao mesmo tempo são outras linguagens, outra forma de ver. Se você está olhando para frente, você não está vendo nas suas costas. Não é aquela questão do cinema sentado. É um espaço bem bacana de se trabalhar. Por isso, também, me chamou atenção tentar trabalhar com esse tipo de coisa.

Thiago: Pois é. É total uma outra linguagem. Agora que você falou, ainda, inclusive do movimento… é total uma outra linguagem. É engraçado isso.

Fernando: Aí, dentro desse processo, o Tom mostrou o resultado dessa pesquisa para o Jan Hiddink, que é um dos organizadores do 5 Days Off. E ele me convidou para fazer uma performance no festival. A gente ia montar o panorama. Pela primeira vez saiu da escola para ser exibido em algum lugar. Fizemos a exibição no ano passado, em 2009, nesse festival.

O que a gente fez na performance? Era um software que eu desenvolvi com o Isadora que analisava o canal direito e esquerdo do compositor. Um cara que tocava junto comigo, que era o Paul Borchers, um compositor alemão… alemão, não, holandês. (Vixe, se deixar eles escutarem isso, eles ficam putos). A gente conversou bastante no início, pois eu tentei explicar que isso não é um live, porque na verdade ele que vai desenhar o visual. Se ele entender como desenhar a música, o negócio vai ficar bacana. Porque, em tempo real, ele vai regulando a imagem disso. Na verdade, ele vai controlando as partículas pela freqüência dos canais direito e esquerdo.

Thiago: Então, calma aí, o cara ficava discotecando e, enquanto isso, ele ficava controlando as imagens que estavam passando lá, pensando que estava tentando…?

Fernando: É. Ele chegava no sintetizador e colocava no canal direito um grave, “bóm bóm bóm” e ficava tudo vermelhão e saía uns formatos de bola. Se ele diminuísse o grave, ficava mais amarelo. E se ele diminuísse o canal esquerdo, a grossura dessa linha podia ficar maior ou menor. Você pode fazer ela linear ou pulsar. Ele tem as variações do desenho nos sintetizadores dele. Com um sintetizador é muito legal, porque sintetizador trabalha em cima de onda, então, ele é bem visual.

Foi muito interessante esse processo. Nós criamos ambientes que tinham a ver com coisas abstratas, mas a gente ainda procurava algo de real. Então, tem uma parte que é fire [fogo], outra que é chuva. A chuva são uns pontinhos amarelos que vão caindo e, de repente, ele controla e vai rodando muito rápido, ou devagar, às vezes só cai um fio. Você fica deslocado espacialmente mesmo. O outro é só parado. Você vê a mesma coisa três vezes, outros não, fazem circular. Então, a gente foi editando um pouco. “Esse aqui é bacana, esse é parado, depois a gente põe um circular para mexer”.

Aí, fomos ao festival fazendo isso. Foram cinco dias. Eram sessões que eram interativas, assim, em tempo real, em que ele fazia a música na hora; e sessões automáticas, em que ele já tinha gravado uma música e as pessoas só acompanhavam. Uma vez dessincronizou e foi muito engraçado, porque a música que a gente pensou para uma cena foi para outra, então, os desenhos mudaram. A composição da sala muda, né? Porque as linhas, as coisas vão reagindo diferente. E até isso para a gente foi interessante, porque só a mudança de música também. Os tracks desorganizaram uma vez e isso aí gerou também outras sensações do mesmo grafismo.

Thiago: É, do mesmo grafismo. Que doido, que doido! Mas eu vou voltar um pouquinho ainda… você está trabalhando… depende, né? Não sei, aliás, se você está trabalhando exatamente nisso, mas vendo sua bancada, você está completamente reciclando parte de maquinário de hardware…

Fernando: Sim, sim, sim. Isso porque essa questão do panorama foi uma coisa muito mais de pesquisa mesmo. Foi um processo que eu recebi lá. Eu ganhei, o cara me convidou, então, foi em cima de um trabalho meu com a programação…

Thiago: … de uma outra necessidade…

Fernando: … de uma outra necessidade. Nesse caso, tem esses trabalhos com hardware também. Esse aqui foi um que – ele agora vai estar sem bateria -, mas eu fiz para um projeto, que foi o Marginália, de pesquisa de desenvolvimento de coisas experimentais, que não tinham muito compromisso. Foi um grupo aqui de BH, o Marginália Lab.

Thiago: Com o [Pedro] Veneroso e o [André] Mintz?

Fernando: É, com o Veneroso e o Mintz. Eu dei oficinas lá também e, além disso, mandei um projetinho que era pra fazer isso. O projeto se chama Deslocamentos e eu fiz junto com o Sérgio Mendes.

Na verdade, isso aqui é uma tela, que é um computadorzinho desses netbook mais vagabundos, muito barato. Ele tem essa tela giratória, gira a tela para baixo. Nós ligamos ele, colocamos o conteúdo nessa tela e na medida em que eu controlava aqui, para frente e para trás, mexiam as rodinhas que fazem ela andar. E o conteúdo vai deslocando na mesma relação em que vai deslocando a tela. A pilha está fraca, mas o conteúdo vai mudando de acordo com o deslocamento do objeto. É uma brincadeira de interface física e digital. Como uma interface física vai deslocando, desloca também a digital.

Thiago: Só deixa eu fazer uma pergunta para ver se eu entendi o processo. É como se fosse, sei lá, você pega um quadro…

Fernando: Se deixar, eu vou falando, cara. Eu sou tipo assim…

Thiago: Ótimo, melhor ainda. Mas você pega, tipo, um quadro e a telinha fragmenta esse quadro. Enquanto você vai pra frente, ele vai subindo naquele quadro e quando você vai pra trás vai descendo. É como se o quadro estivesse projetado, por exemplo, no chão e isso aqui fosse uma lente?

Fernando: É. Nesse caso, é um protótipo com um computador muito ruim. A gente não conseguiu colocar multimídia, nem áudio direito, porque o computador não processava. Se tiver um computador melhor, isso também fica muito melhor. Pode colocar entrada pra webcam, várias coisas. Nesse aqui tinha uma página de internet. Era uma página grandona e o scroll da página ia subindo e descendo na medida em que você deslocava o objeto. Às vezes, você faz isso com o mouse, mas a sensação da mão é diferente do que você ver na tela. E a ideia mais básica era justamente colocar o mouse como a rodinha. O que fazia ele deslocar mesmo era o mouse. A coisa mais básica do mundo. Se eu colocar o mouse de cabeça para baixo, ele roda.

Thiago: Ah, entendi! Na verdade, quando você andava mesmo, rodava a bolinha do mouse e ia descendo. Que doido, que doido!

Fernando: É o deslocamento de um objeto para uma outra função que te dá outras características. Tem pessoas que falam assim: “Mas o que é isso? É um iPad? É um não sei o quê? O que é? Como ele está rodando?” E algumas pessoas, “Ah, é um mouse…”. E na hora que vê que é um mouse, ri para caramba. Esse tipo de reação para mim é mais importante do que o objeto em si. É quando você aproxima a tecnologia. “Pô, é um mouse. Está muito próximo. E eu achava que era algo muito distante, uma programação…”

Thiago: …ou saber mexer no hardware mesmo. De colocar uns negocinhos.

Fernando: Algo que você nunca viu. A ideia é sempre estar nessa brincadeira, que, para mim, sei lá, vamos dizer que é uma função bacana que eu achei dentro dessa questão de arte e tecnologia, da questão vir para…

Thiago: … de questionar também o acesso, né? De você entender um pouco sobre o que você está mexendo, que não está tão longe mesmo da tecnologia.

Fernando: É, que ela não é só baseada na indústria. A indústria faz um monte de coisa. Olha o tanto de tralha que tem aqui. Isso só existe porque é industrial. Então, eu vou pegando e vendo como é. Como esse objeto aqui. Esse daqui eu não consigo explicar muito o significado todo das coisas, porque eu acho que isso às vezes nem tem. Mas tem um processo que está aí interno que é isso de abrir.

Isso aqui é uma tábua de bater carne mesmo. Isso daqui é uma câmera Mavica, uma dessas câmeras mais antigas de disquete, e ela está toda aberta. Você controla só apertando os botõezinhos aqui. Além disso, a câmera funciona. Eu a abri de uma forma para que ela ficasse completamente funcional, mas ao mesmo tempo com esse design, com características que… peraí, deixa eu ver se consigo focar aqui enquanto eu falo.

Thiago: Deixa eu sair daqui para não ficar tudo preto.

Fernando: Olha aí, vou focar na sua cara. Ah, passou. É que eu tenho que ir com o dedo. Aí, ó.

Thiago: É o meu dedo? Ah, é a câmera.

Fernando: É que eu tenho que ir e voltar aqui. Eu não estou muito bom para isso, não. Aí, agora foi. Ele tem um efeito, que eu acho legal, que é o… esse daqui, que é o invertido. Aí, tem toda essa brincadeira. Eu vou descobrindo elementos nela como… a própria câmera. A câmera fotográfica você nunca faz isso, você nunca vê a lente e o fundo ao mesmo tempo. Você está sempre se vendo…

Thiago: … sempre o contrário, né?

Fernando: Sempre o contrário. Isso daqui é uma brincadeira até de revelar o narciso que existe entre a gente, que existe com a tecnologia. Fica se vendo com o efeito também. Isso para mim mostra até mais a ironia, “colocar um efeito… porra que doido”. Tem a ver com isso. O equipamento está aberto e você está maravilhado com essa questão, e ao mesmo tempo ele está funcionando e você se vendo. É meio que um espelho. Para mim também é uma brincadeira desse tipo.

Thiago: É, total, né? Isso daqui é bateria do quê?

Fernando: É a bateria da própria câmera.

Thiago: Da própria câmera, tá. E esse hardware aqui também, né?

Fernando: Você vê que todos os botões, liga e desliga, ficam obscuros, porque estão nessa interface que você nem sabe o que é direito e que ficam escondidos atrás desse equipamento. A gente não tem nem acesso para saber, mas nesse caso, desmontando, você vê onde é cada botão. A ideia é deixar bem aberto até com essas coisas nada a ver. Não é a questão do design em si. Até tem uma brincadeira, umas colagens, uns adesivos que vem com eles. Não é o design do objeto em si, mas sim essa questão de ele estar aberto. Ele estar martelado ali até a essência do hardware, que é onde ele funciona com o mínimo. Se acontecer qualquer coisa aqui, ele vai estragar.

Thiago: Nesse caso, eu achei mais interessante, tipo, a ultilização inclusive de uma coisa que nem é tão – não está nem mais acessível esse tipo de câmera, nem se vende mais esse negócio – transformado em uma outra coisa, outra significação. Foi o que você falou: transformação da tecnologia, total. Uma coisa que você considerava completamente ultrapassada e que você dá uma nova significação e que você mostra como você pode fazer e trabalhar com esse tipo de coisa. Baseado nisso, pegando todo esse conceito, como você saiu da criação de desenho, grafismo, CD-ROM e tal e não sei o quê para trabalhar com isso? Para pegar esse tipo de foco, de resignificação de hardware?

Fernando: De hardware? Eu não sei, cara.

Thiago: É que nem você estava falando. Você saiu do grafismo, saiu de…

Fernando: Esse também tem uma coisa parecida com isso. Você vê que esse é sonoro. É um rádio estragado, está vendo? Ele tem um rádio e uma caixa de som. Nesse caso, eu juntei eles em uma madeira e fui conectando os fios. Além de fazer só as conexões, eu fui brincando também com esse desenho do próprio cabo, das cores dos cabos. Tem umas tintas aqui. Essa parte funciona. Esse sensor funciona. Aqui não é um cabo, é uma tinta, é um tipo um esmalte, mas um esmalte com grafite que faz conexão também. Você desenha e essa linha conduz eletricidade. É brincar com técnica e ao mesmo tempo configurar um desenho. Uma interface que é meio estranha, meio orgânica…

Thiago: Ele toca?

Fernando: Toca. Cada um desses aqui é um sensor de luz. Dependendo de onde eu liguei ele no rádio – a coisa boa dos equipamentos abertos é que você pode tocar, então se eu tocava aqui e ele fazia “vuuuuuuum”, aqui “priiiiiii”. Eu pegava dois fios e tirava o agudo e o grave pelo lugar deles, conectava os fios e tirava um fio para um sensor. Depois, conectava um outro e tirava para outro sensor. Eles estão todos conectados aqui dentro. Quando dá um excesso de luz, ele vai dando o grave aqui, e o agudo ali…

Thiago: É captação de luz, então? Ele começa a tocar pela luminosidade.

Fernando: É um sensor de luz. Se eu ligar aqui agora, fica “péééééé”, porque está recebendo luz. Se eu apago a luz, vai dar uma outra freqüência: “tó-tó-tó-tó-tó”, que é a frequência de luz que ele está captando. Você pode tocar. Eu exibi isso aqui com uma lanterna e as pessoas ficavam de longe descobrindo onde que estavam os sensores e com isso fazendo os ruídos. Tem gente que brincava com sequenciador, e ficava “tititititi tutututu tititi tututu” e outros ficavam só brincando mesmo.

Mas aí tem esse negócio: a interface está aberta, está aí, a caixa de som, não sei o quê, rádio estragado. Na hora, é completamente jogável. É uma tecnologia porque se toca com luz, mas isso tudo é uma coisa obsoleta e que já está aí há um tempo.

Thiago: Isso você fazia naquela época?

Fernando: Não, isso daqui foi depois de 2005. No FILE, quando eu fiz o Contato Qwerty, que foi o divisório de começar a trabalhar mais com interfaces de hardware, de abrir os equipamentos.

Thiago: Então, a sua primeira obra foi o Qwerty?

Fernando: É. E até o Qwerty foi evoluindo também. Coloquei no sanduíche de acrílico… acrescentando, somando coisas ao longo do tempo. Claro que também foi modificado. Acho que não tem nada que é a obra, que não pode ser tocada e modificada.

Thiago: Que bom. Legal. Eu vou puxar um pouco para a minha pesquisa também e ver o que você acha. Minha pesquisa foca muito mais na ubiquidade tecnológica – e isso você já questiona inclusive, o que significa isso -, mas mais focada também na produção audiovisual a partir de aparelhos que estão com você. Eu trabalho muito com o conceito de cíbrido, que a Giselle [Beiguelman] trabalhou também – aliás, eu trabalho com o conceito que ela criou, que ela desenvolveu -, que é estar on e offline, em um limiar muito difícil de conseguir mensurar. Você está online e offline ao mesmo tempo. O que você acha desse tipo de produção que trabalha com mobilidade, com celular, com transmissão também… isso influencia no seu trabalho? Abrindo um pouco mais a questão, como você vê o panorama da arte digital aqui no Brasil? Abrindo bastante a questão.

Fernando: Além desse processo meu, que é uma coisa autoral, eu sou também associado e da direção consultiva de uma ONG aqui de BH, que se chama Oficina de Imagens. E o foco deles é educomunicação. Trabalhar comunicação com essas potencialidades midiáticas de equipamentos e essas coisas todas que estão aí no dia-a-dia. A primeira – e era uma dessas coisas que a gente já tinha feito antes -, foi vídeo com celular, porque era um equipamento que estava com as pessoas. Igual ao que você falava, você está on e offline. Ele está no seu bolso. É celular, é câmera, é vídeo, grava áudio e tem até como tocar alguma coisa, mandar foto e tal. Se bem que a utilização dele normal não é para você entender o celular como celular. Muita gente compra um celular com várias características e só faz chamada, mas você tem como aprender vídeo com o celular. Mas como? Não tem enquadramento? Não tem zoom? Perspectiva?

Todas as questões que estão envolvidas com imagem e enquadramento estão dentro de um aparelho desses também. Você pode conversar sobre isso. Lógico que não vai tratar de uma forma profissional, mas de forma educacional, sem dúvida. É muito mais fácil. Para você experimentar e utilizar até entrar em uma oficina audiovisual, isso é um salto gigantesco. Antes se estivesse em uma oficina dessa, era uma câmera grande. A gente sempre esquece… se for comparar 5 anos atrás, 10 anos, ou até menos tempo, a diferença já é gigantesca. Fazer um curso de audiovisual com a galera da periferia, por exemplo, que não tem tanto acesso tecnológico, para ter um resultado bacana antes era difícil, hoje não. É cheio de lan house lá dentro. Os meninos já estão acostumados ao uso do computador. Além das lan houses, tem os telecentros, os Pontos de Cultura que já estão enraizados ali. Tem gente ali dentro criando rato de computador nesses meios.

A gente já trabalhou… tenho processos em pontos de cultura também. Tudo isso tem a ver com o que a gente chamava de microdispositivos, que são esses aparelhos que são pequenos e você não sabe o que é direito. Às vezes uma máquina fotográfica ou um celular, uma TV, ou tudo junto, entendeu? Como lidar com isso e crescer aprendendo tecnologia com essas coisas mais acessíveis? Isso faz uma transformação que eu acho enorme. Todo esse processo que a gente fez de ensino, de estimular mais isso, todas as pessoas entenderam bem o processo. Eles gravavam, pegavam o celular por mais que não tinham o melhor.

Tinha uma atividade que a gente fazia, chamada “Os Mapas Narrados”, que era a criação de novos mapas. Quando você vai na internet, por exemplo, e procura o bairro Taquaril, você acha norte do Taquaril, não sei o quê e tal, mas você nunca tem uma visão do bairro como você tem quando está por lá “Aqui é a rua tal…fulano de tal mora aqui”.

Thiago: Mais pessoal, né?

Fernando: A gente começou a ir com o celular. Cada um com o seu tirando foto do caminho que fazia entre a escola e a casa para compor isso no mapa. Nós imprimimos tudo, porque as fotos eram pequenininhas, e desenhamos o mapa só com fotografias de celular, onde cada um pôde contar a história do seu espaço – e você via o espaço de todo mundo em um grandão. Isso já existe hoje, tendo computador, né? Se você olhar nesses panoramas, coisas assim. Mas isso é uma questão mais física mesmo. Compor, colar, fazer o quadro para pessoa ter o domínio do espaço e gostar daquilo. As pessoas geralmente não entendem. Elas estão no espaço, mas ele é incompreensível. Vira uma questão de ir e voltar só. Você não tem a relação de “pô, aqui mora fulano de tal, aqui mora outro cara, esse cara é bacana, esse cara ali não é bacana, aquele ali era ditador não sei aonde”. Você não tem essa relação. Acaba que isso [as oficinas] amplificava e com uma forma simples. Por isso, eu acho que essas tecnologias tem muito a ver até com a curva de aprendizado mesmo. Porque a tecnologia se desenvolveu rápido, só que o ser humano dentro dela só está sustentando igual a burro de carga. Eu acho. Para mim é isso, vira burro de carga da tecnologia até quando vem esses processos e você vê a liberdade. As pessoas conseguem se comunicar, se sentir melhores, vão fazer vídeos com celular, entrevistar não sei quem… movimentam as coisas. Elas produzem produtos culturais que tem a ver com o dia-a-dia, a autoexpressão. Isso até descarrega um pouco essa pressão. Quando você comunica é outro passo. Você não está só produzindo, está comunicando. Aí já é diferente. É igual você sair com o celular e gravar uma pancadaria da polícia na rua… dez pessoas gravam. Hoje em dia, você tem imagem de tudo. Tudo o que acontece tem imagem. Se a polícia chega e desce o cacete em todo mundo e todo mundo está gravando, e essas imagens saem publicadas, sempre fica… você vai na UFMG, que teve um caso que invadiram a reitoria, está tudo lá, de imagem. Em São Paulo, manifestação de não sei o quê, a maioria das imagens está lá.

Thiago: E como você vê esse tipo de artefato na produção artística? Porque, assim, claro, você faz por exemplo um mapa que você estava descrevendo agora. É uma produção artística no final das contas.

Fernando: Mas muito mais de comunicação e educação.

Thiago: É, comunicação e educação. Total. Mas no fim o resultado pode ser considerado?

Fernando: Eu acho que o lado artístico é um pouco diferente desse outro, porque é como você vai utilizar isso também. Se você usar essa máquina para gravar mesmo ou para fazer um vídeo, como que é isso? Como você vai entender a máquina para fazer…? O artístico para mim é dez vezes maior que o educacional ou outra coisa, porque ele é mais perigoso, mais arriscado e se ficar no meio do caminho você não está fazendo nada artístico.

E hoje em dia esse limiar é muito grande. É muito equipamento, muita coisa, muito efeito de Photoshop, de computador, muita câmera, muito pequenininha. Às vezes, a produção de sentido ali é uma só. Ela ainda é homogênea. Os artistas que conseguem sair disso são os que conseguem entender essas mídias e trabalhar elas com…

Thiago: … uma outra coisa.

Fernando: …uma outra ideia ou com facilidade, né? Já que hoje em dia temos câmeras pequenas – várias, você compra dez, grava dez imagens ao mesmo tempo. A câmera é pequena, então, você pode colocar em pequenos lugares que você não conseguiria antes, como fazer uma entrevista dentro de um buraco de esgoto, entendeu? De fora para dentro. Uma câmera não cabe em um buraco de esgoto, mas a pequenininha cabe. Como você vai inovar o enquadramento e não sei o quê junto com essa tecnologia, que é a arte como tecnologia e não a tecnologia como arte?

Thiago: É como se o artista pegasse aquela mídia, aquele meio, aquele artefato e conseguisse mostrar uma nova experimentação, um novo “eu não vou fazer com aquilo, pois depois outra pessoa conseguiria usar”?

Fernando: É, eu não sei se ia ou não conseguir usar. É entender o aparato mesmo. Um dos caras que trabalha sobre as questões de tecnologia, microdispositivos e equipamentos e essas ambiguidades todas é o Flusser. Para mim, o Flusser é um paradigma que até hoje ninguém conseguiu parar. Só se fala do Flusser e vai falar dele até… porque ele é o cara que fala disso.

Se você com uma máquina fotográfica, ela vai ditar o que você está fazendo pelas inúmeras variações que tem. Você faz um monte de coisas, mas dentro da variação dela. Chegam pessoas que abrem, destróem, constróem uma outra máquina que consegue dar vários clicks por segundo, ou com o espelho ela faz duas imagens, eu não sei… que trabalha o que é uma máquina fotográfica com uma outra perspectiva porque ela não está presa no hardware.

Thiago: Entendi.

Fernando: Entendeu? Não é em função do hardware, da tecnologia que ele está fazendo. Ele está fazendo isso em função de uma imagem que ele quer, e se essa imagem não é possível de acordo com essas câmeras automáticas, você vai fazer o quê? Vai ter que arrumar um meio. O que eu acho do artista que tem a ver com arte e tecnologia hoje em dia é isso. Como você vai arrumar este meio? Não é mais jogo de consumo ou de educação. Já é outro jogo, que eu acho que é mais alto: como essa tecnologia está sendo absorvida pela arte? É uma questão, para mim, crítica. Se eu vou em um evento de arte e tecnologia, vejo um monte de gente que faz touch table. Até no Fantástico tem. Tudo tem touch table. Claro, ela é magnífica, mas fica todo mundo usando com esse fim de ser uma touch table. Pô, por que não coloca isso na educação, então? Em escolas que estão em defasagem. Está cheio de menino saindo da escola porque não tem nada interessante. Com uma touch table você pode fazer um projeto mínimo de R$ 2.500…

Thiago: … ou menos até.

Fernando: … que ensina o “bê-a-bá” com som. Coloca isso em uma escola de primeira a quarta série para experimentação, com hardware e software livres. Ensina como fazer para todo mundo, replique e tenha um sistema de educação diferente. Por que isso não acontece? Ainda está muito “ah, eu sou um artista, eu vi no manual como fazer um, vou lá no festival de arte para exibir a minha mesa touch table que eu fiz aqui no Brasil”. Estou replicando uma tecnologia, ela cria ramos e é boa. Pode ser que venha alguém que ache bacana e isso realmente faça uma mudança na cabeça, mas tem que saber o que é. Para o que está fazendo isso…

Thiago: Pegando todo esse discurso, então, o que você acha da produção de arte e tecnologia, arte digital brasileira de agora?

Fernando: Nossa, isso é muito difícil de falar. O mais difícil é porque eu não acompanho tudo. A arte e tecnologia, hoje em dia, todo mundo…

Thiago: Por quê? Você não acompanha tudo por interesse ou porque é muita coisa e você não consegue?

Fernando: Tá. Umas coisas eu vou selecionar e outras nem por interesse. É desinteresse, na verdade. Eu penso “ah não, isso aí está a mesma coisa”. Algumas coisas não. Você quebra a cara e isso é normal também. Eu fui com desinteresse. Eu olho assim e falo “está bom, essa mesa aí mais uma vez, esse negócio mais uma vez…”. Mas outros não, “esse cara aí já conseguiu, avançou, já tem um diálogo diferente”, entendeu? Uma maneira diferente de tratar que não é essa. Meu olho já está resgatando isso. Então, para mim fica difícil de falar.

E a outra é a produção mesmo. Lá em São Paulo tem, sei lá, quatro escolas que trabalham com arte e tecnologia. Tem galerias com artistas sobre arte e tecnologia. Você vai sabendo, por exemplo, sei lá, pelo Prêmio Sergio Motta. Você vê os artistas e quem está trabalhando com isso nas pontas, vamos dizer. Aí dentro das pontas tem pessoas, lá no meio, que são muito mais bacanas que um artista que está na ponta porque trabalha de uma outra forma. Não está trabalhando para uma galeria ou para o museu. Está trabalhando porque gosta de ver como junta… esse encontro aí que recupera câmera de, sei lá, projeção de oito milímetros. Você encontra pessoas do nada. No meio de um lugar tem um cara que recupera uma câmera com uma tecnologia que ele só não produz porque ele não é um cara que vê isso como meio de produção. É como um técnico, um cientista maluco que fica ali inventando. E chega um artista e pensa “olha que bacana o que esse cara inventou”, coloca uma coisa dentro e aí vira um novo objeto, entendeu?

Thiago: Entendi.

Fernando: Aqui no Brasil tem a mesma coisa, mas tem, claro, pessoas que estão procurando fazer isso.

Thiago: Saindo um pouco…

Fernando: Não é nem saindo, mas vendo mesmo. É você entender o meio, ver como se pode trabalhar e como isso reflete de uma forma. É como a gente está falando, para mim é um peso maior falar em arte e tecnologia, senão fica muito na brincadeira ainda. É uma feira de ciências, que é bacana em seu aspecto de experimentação, mas se for tratar como arte e tecnologia… senão você vai banalizar. Cada vez a gente vai banalizar o tema até…

Thiago: Se bem que tem diversos termos para a mesma coisa: arte e tecnologia, arte digital, cyberart…

Fernando: … webarte e não sei o quê. É, arte com 4K, arte de arquivo de um byte, arte de programação. Dentro disso, tem pessoas que se destacam por uma linguagem bem pura, porque a maioria deles domina. Tem uma coisa que a Giselle [Beiguelman] sempre fala, e eu concordo com ela, são as gerações diferentes. O pessoal que eu acompanho junto comigo, que já era programador, sabe programação, fazer circuito, faz tudo a mesma coisa. Outros que não sabem programar – que os mais antigos já não sabiam -, mas sabem como organizar todas as ideias, mas não sabiam como botar a mão na massa no computador ou no celular. Faziam uniões, um artista e um cientista (a maioria deles, se você for olhar, todos tem um artista e um cientista) e a gente vê o nome do artista e não do cientista. Mas sempre tinha alguém programando ou fazendo robô, só que ele quase não aparecia. Isso também para mim já é uma incógnita deste meio. “Cadê quem faz isso daqui também”? Não é sacanear, mas tem que mostrar também.

Thiago: Ah, em termos é sacanear, porque você pega toda a autoria do negócio que não foi você quem fez, né?

Fernando: É, você entende como fazer, mas não foi você que fez. Isso o Arlindo Machado fala. Você não consegue traduzir a interface que você quer às vezes. Um cara que programa pode não entender o seu pensamento. O trabalho vai amadurecendo até ficar uma coisa bacana quando tem essa união. Você vai vivendo com o programador ou com outra pessoa. Já trabalhei também com essas transições até chegar uma hora que pensei “Não vai ter como”. Se eu for pedir para um cara desmontar o negócio “Desmonta aí pra mim, coloca um pouquinho aqui, um pouquinho pra lá e pinta de rosa aí”. É difícil, entendeu? E por que pintar de rosa? Por que colocar esse arame? Essa imagem? É uma coisa que tem a ver com a cabeça, né?

Thiago: Acaba sendo muito mais complexo do que você aprender a fazer logo. Tentar entender e fazer, né? É isso que é engraçado. Isso que você acabou de falar acaba sendo muito interessante, porque isso é um processo que vem (pelo que eu acompanhei, não sei se tem algo anterior a isso) da década de 60, vindo de NY, inclusive com o E.A.T. (Experiments in Art & Tecnology, ou alguma coisa assim), que eles começam a misturar tanto a parte de cientista, matemático, engenheiro, programador e não sei o que mais, com artista. E a ideia era justamente conseguir fazer esse casamento para você conseguir explorar ainda mais. Acho até que no livro que eu estava lendo é citado um grupo brasileiro, mas não consigo lembrar o nome dele. Mas, enfim, um cara conseguiu tirar fotos de uma determinada localidade por meio de um satélite que estava no espaço. Só por essa junção que ele conseguiu compor uma obra de arte com isso. Só pela junção entre artista e tecnólogo. Pelo que você está falando, você é contra.

Fernando: Ãm?! Não! Não é contra. Não.

Thiago: ou não? É isso que eu ia te perguntar.

Fernando: Não. Eu só quero descobrir onde está o tecnólogo na arte que era produzida com esses dois juntos, entendeu? Não é que eu sou contra. Ninguém tem como dominar todo conhecimento. Se junta por isso. Um cara sabe para caramba como fazer circuito, então, você se junta para fazer essas coisas. Mas isso não aparecia nos títulos do trabalho, nos nomes dos artistas… e tem. Sempre tem um técnico que está ali por trás do cara que não aparecia. Eu acho o trabalho bacana, muito bom… mas por que o cara não aparece? “Ah, não, eu me juntei com fulano de tal”, mas ele não é artista também, sendo que os dois criaram uma obra de arte? Então, para mim, a crítica está é nesse processo. Tudo é muito lindo, bacana, e eu perguntava “cadê seu programador? Cadê o cara que fez também?”

Thiago: E eles respondiam?

Fernando: Algumas vezes respondiam, outras vezes ficavam calados, ou vermelhos… Por que é isso, né? Tinha essa pergunta, estava na cara. A arte tem a ver com isso, de você chegar e provocar. É bacana, acho super válido, mas tem que ficar no processo, então, que registre ambos. É parceria. É uma arte. É igual chegar um cara desses que, sei lá… Rodin tinha os discípulos dele. A mulher Camille Claudel fazia a maioria das esculturas que era do Rodin. Não tenha medo. A arte de hoje em dia é híbrida. Tem o tecnólogo, o artista e o trabalho é esse. Só que não ficava assim. Tem só “o” artista. “Ué, mas cadê? Quem que sabe fazer isso aqui?” “Você desparafusou e não parafusou?” Essas perguntas são completamente constrangedoras se você chegar e perguntar às vezes, entendeu?

Thiago: Por que ele não sabia responder?

Fernando: Porque tem gente que ainda usa isso para ter nome. A arte, a obra, o não sei o quê, o artista. Eu e o Jarbas [Jácome], que é o outro cara que ganhou o Sergio Motta lá, éramos brincalhões demais com isso. Porque ele também é um cara que vive de programação, faz música, cria as coisas dele e já sabe o que faz com o caminho dele, entendeu? Ele se junta com várias pessoas, cria projetos, mas se tiver que fazer sozinho, ele faz.

Thiago: O Jácome está no C.E.S.A.R, não está? Não era ele que tinha fundado junto com…

Fernando: É o laboCA.

Thiago: La Boca?

Fernando: Laboratório de Experimentação e alguma coisa… uma coisa assim.

Thiago: É, então, estou confundido. Achava que era o C.E.S.A.R. Tem um centro de experimentação também que se chama C.E.S.A.R. Enfim…

Fernando: Talvez, eu acho que ele está também, ele é envolvido… projetos são bacanas, tem que se envolver em todos mesmo. Esse do Marginália só cresce com a colaboração de todo mundo. Conversar, uma ideia, outra ideia, esse processo é enriquecedor demais. Você fazer trabalho em parceria, é trabalho em parceria. Um está alimentando o outro. Então, não tem nada a ver. Se eu estou fazendo um trabalho com o Jarbas, sou eu e Jarbas. Não é só eu com participação Jarbas.

Thiago: Participação especial, né?

Fernando: É eu e ele, ou mais três, ou dez pessoas… somos um coletivo. Se vai representar, vai um, depois vai outro, tem que ter a cara do artista, mesmo sendo dez pessoas, tem um que sempre está ali. É engraçado esse processo. Eu acho uma ironia danada, então, eu brinco com isso, mais do que achar bom ou ruim. Eu sei que às vezes isso incomoda pelas reações. “Ah, então, tem alguma coisa aí”. A pessoa não ficaria com raiva à toa. E não que ela vai ficar com raiva porque não gostou. É o modus operandi que você detecta, tipo um vírus. Detectou uma reação e ela vai ser comum com outras pessoas porque faz parte de um período, uma época.

Thiago: Verdade, verdade mesmo. Vou fazer uma pergunta mais técnica… mais técnica não, mais de conceito. Você considera o que você faz… é porque, assim, na minha ONG, a gente trabalha muito com o Metarec e tal. Na verdade, a Maira [Begalli], que trabalha comigo, trabalha muito com o pessoal do Metarec. Ela que está fazendo toda documentação, etc. E está surgindo… surgindo, não, já surgiu há anos esse conceito de gambiologia, gambiarra, coisas do tipo. Você enquadraria seu trabalho em gambiologia, por exemplo? Esse trabalho baseado em gambiarra…

Fernando: Ah, eu acho que tem rótulo para tudo, né? Cada vez você vai inventar uma nomenclatura, uma subclatura, um gênero que se desdobra em outro, e isso é normal. Eu acho que se quiser falar que é gambiarra, pode ser. Por que não? Está tudo misturado. Tem a estética do precário, o negócio de ser feito a mão. Outra coisa que falam é da POG (Programação Orientada às Gambiarras), que é o Working around programming. É engraçado porque é programar com o que você tem em volta. Isso é gambiarra… programação orientada à gambiarra tem a ver com isso, gambiologia e tal. Eu acho que são essas coisas: sempre existiram, mas alguém inventa um nome e você faz um manifesto, etc. É a mesma coisa do Futurismo, do Realismo e dos outros “ismos” aí. Sempre tem o mesmo processo, mas você tem que inventar um nome, fazer uma moda para o negócio vingar, entendeu? Isso é válido? É válido. É um processo. Eu acho que cada um tem os seus métodos, mas para mim tem coisas que vão valer e coisas que não.

Gambiologia é bacana? É, é bacana, mas depende de como você faz também. Se for ficar reproduzindo os mesmos brinquedos de música, que é uma coisa que já existe desde 95, 96, como os circuit bendings. Aquilo lá é um movimento muito mais de educação tecnológica, de envolver um monte de gente em um workshop para todo mundo ficar feliz fazendo brinquedo, do que para você falar que é artista com um brinquedinho. É artista, é arte, é transformação? É, mas pra mim tem muito mais o valor social, educacional e político do que como obra de arte, entendeu?

Thiago: Entendi.

Fernando: Para mim, este valor supera até uma obra de arte porque você está fazendo um workshop, divulgando conhecimento. Você vai construindo coisas. Eu dei um workshop desses de circuit bending no Chile que a galera no final ficou feliz. Você pega brinquedo de criança, desmonta, faz um ruído. Teve um cara lá que nem dormiu para construir um negócio em dois dias – porque eram só dois dias de workshop. É muito cativante. Muito mais importante do que construir um. Eu acho que você pode, de acordo com sua necessidade, transformar isso em um movimento igual ao Metarec. O Metarec é muito mais antigo e muito mais forte. Em termos tecnológicos, tem a ver com um monte de coisa, né? Não só com reciclar computador, computador para internet… Tem coisas que concordo com o Etienne [Delacroix], que são puramente fúteis. Ele detona todos esses processos e eu gosto dele porque é um cara muito crítico. Até demais. A crítica dele é o ponto onde ninguém quer falar. Ele sempre começa discussões por esse motivo. Por isso que ele é o maldito do lugar. E eu acho ele muito bacana por ser esse maldito, porque ele toca nos pontos mesmo. Por que você está fazendo isso? É para educação? Para política? Ou está fazendo por fazer? Bacana, é só você entender qual é a sua posição. Não é nem para falar se é bom ou ruim, mau ou médio.

Thiago: Só para saber a posição, né? O que você está fazendo mesmo, né?

Fernando: É, o que você está fazendo com isso.

Thiago: Entendi. Eu acho que é isso!

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Com a ajuda de Angélica Duarte na transcrição. Ela transcrevendo, eu editando.