Vídeo:

Entrevista:

Thiago: … perguntas bem gerais. Começar, não. Sempre eu vou fazer perguntas bem gerais…

Mariana Manhães: Ótimo.

Thiago: … e a gente vai delimitando, tá?

Mariana: Tá.

Thiago: Mas eu vou com uma mais específica, assim, porque me intrigou bastante você ter saído de psicologia e ter começado a fazer trabalho com arte eletrônica.

Mariana: Tá.

Thiago: Me explica como foi o processo, como surgiu isso, da onde foi?

Mariana: Então, eu vou contar desde criancinha, pode ser? Eu sempre quis trabalhar com arte. Não tem nenhum artista plástico na minha família. Minha mãe foi cantora um tempo. O máximo que eu cheguei perto na família de arte foi isso.Mas eu senti que o meu caminho era aquele. Mas aí aquele negócio, né? Chega época de vestibular e “Ah, meu Deus”. Eu cheguei a passar para desenho industrial na PUC, mas eu, graças a Deus, não fiquei, porque eu não seria o que eu ia gostar de fazer. Aí eu passei para psicologia, porque minhas tias são psicólogas e eu me interessava. Passei e fiz o curso. Teve um período em que eu quase larguei. Eu fiz na UFF. Lá tem um curso de cinema. Eu quase fui para cinema, mas enquanto eu fazia, enquanto eu estava na faculdade, eu já sabia que não ia trabalhar como psicóloga. Eu já sabia que era só para me formar em alguma coisa. E eu descobri o Parque Lage – alguém me falou. E eu comecei a fazer cursos lá e fui descobrindo a minha linguagem. Me formei. Aí eu pude me dedicar mesmo a descobrir qual seria o meu caminho dentro da arte. Descobri o vídeo – não lembro nem mais como – e comecei a explorar isso. Eu fiquei dois anos mais ou menos, um pouco mais, na aula da Iole de Freitas, que foi quem me ajudou. Engraçado que a Iole tem um trabalho totalmente diferente. Mas ela tem um curso que as pessoas frequentam, que são artistas que discutem o que estão produzindo. Ali foi que eu descobri e comecei a fazer esses trabalhos que usam imagens do cotidiano. Então, eu pego janelas, portas do meu ateliê, bules, coisas que a minha mãe coleciona e eles conversam. O trabalho todo é uma conversa. Acho que não é porque eu fiz psicologia que eu me interesso por isso, mas eu acho que tem um interesse meu em observar essa comunicação, essa troca que existe entre as coisas. Imaginar coisas. O meu trabalho tem palavras que são importantes: invenção, imaginação. Isso tudo está em mim, e foi assim que eu acabei saindo, nunca atuando como psicóloga.

Thiago: Enveredando direto para a arte, né?

Mariana: É, é.

Thiago: Mas como é que.. por que tecnologia para conseguir dar a expressão para esses objetos e para esse tipo de conversa?

Mariana: Porque eu não sei. Foi o caminho que eu encontrei…

Thiago: Entendi.

Mariana: Eu não consegui… Eu gosto muito de pintura. Eu adoro trabalhos em pintura, mas eu confesso que quando eu comecei a trabalhar… primeiro que as primeiras aulas que eu fiz de arte e tudo… Acho que todo mundo, de uma certa maneira, começa pelo desenho. Vai e tenta pela pintura, né? E não foi diferente comigo. Eu comecei fazendo cursos de desenho, tentei alguma coisa de pintura mas depois tinha que lavar o material e eu não queria, sei lá. Mas eu gosto, me interesso muito, mas não era o meu caminho. E aconteceu meio naturalmente. Eu pensei em fazer um trabalho, na época, foi mais ou menos em 2004, e eu fiz o meu primeiro trabalho com vídeo, que é uma cristaleira com vários monitorizinhos mostrando objetos de dentro de uma cristaleira, só que eles se movimentam e falam. Mas quando eu pensei esse trabalho, eu não tinha imaginado fazer ele com as animações. Eu ia testar, fazer um vídeo. Vários vídeos com os objetos, e os objetos ficariam só rodando em torno do próprio eixo e aparecendo dentro da cristaleira. Só que para fazer isso eu tinha que passar por um programa de edição, para poder gravar uma fita VHS (eu estou ficando velha). Aí quando eu fiz, eu esbarrei em alguma coisa. No mouse, fiz um… e o objeto fez um movimento que eu “porra, é isso o que eu quero fazer!”. E também foi natural. Eu coloquei minha voz falando um idioma imaginado e, então, aconteceu. Esse trabalho foi para o Rumos [Itaú Cultural] em 2006.

Thiago: Que foi a tua estréia, assim, como… ou não?

Mariana: A estréia mesmo foi na Funarte em 2004. Foi mais ou menos junto à Funarte. Na verdade, foi em uma exposição que teve no Parque Lage, em 2004, no qual eu mostrei um objeto pequenininho, que era só uma leiteira chinesa que ficava também falando, chamando, mas tudo nessa língua inventada. Esse foi o primeiro objeto que eu mostrei. Logo depois eu entrei no Projéteis da Funarte. Aí eu mostrei esse projeto da cristaleira, que já era com as animações também. Esse anterior também. E eu fiquei nisso. Me interessa pegar esses objetos e transformar. O [Gaston] Bachelard chama de “imagens imaginadas”. Eu acho que é bem isso.

Thiago: E me explica um pouco do processo criativo, assim, tipo, o que é que te leva a imaginar… tanto esse linguajar, quanto o movimento que dá. Como é que funciona esse processo? E como você vê que… e como você consegue inserir a tecnologia nesse todo processo?

Mariana: Eu vou, então, eu vou contar só antes… esse barulho está te incomodando?

Thiago: Não, tudo bem.

Mariana: Se você quiser, eu fecho a janela.

Thiago: Não, não. Pode deixar.

Mariana: Eu vou contar mais um pouquinho de antes, da história, porque antes eu só trabalhava com as imagens. Dos monitores, dentro de uma situação. Uma cristaleira, ou esse objeto pequenininho que tinha uma base de madeira. E, logo que eu comecei a fazer isso, pensei: “Não, mas eu não quero que o vídeo seja uma coisa passiva no trabalho”. Eu não conseguia imaginar aqueles personagenzinhos só ali dentro, parados. E eu comecei a pensar como é que eu poderia usar as imagens, os vídeos, de maneira que eles atuassem no comportamento de uma obra. E foi aí também que começou uma parceria com o meu pai. Porque eu pensei em um trabalho, chamado “Movido Movente”, de 2005, que é como se fosse uma hélice, e dois bules falam. Um circuito eletrônico percebe as vozes e liga um ventilador em cima deles. Então, a estrutura move para um lado, e o outro faz a mesma coisa movendo para o outro. Foi a primeira vez que eu fiz um trabalho com o uso mesmo de uma máquina. De uma máquina orgânica. Eu perguntei para o meu pai: “Pai, dá para fazer um circuito que perceba isso e tal?”, “’E, eu acho que dá.”. Aí foi para o Salão da Bahia. O meu trabalho ganhou uma visibilidade. Eu vou contando a história porque por meio do que aconteceu é que eu consigo ir explicando o porquê das coisas.

Thiago: Não, tranquilo.

Mariana: Eu vejo um objeto desses, eu imagino… é como se a máquina fosse um vocabulário possível para ele, sabe? É meio abstrato o que eu vou falar, mas é como se a língua deles, a linguagem deles, acontecesse através desse organismo que se move por causa deles. E eles interagem só entre eles. Isso também é uma coisa importante. Tem gente que acha que o meu trabalho é interativo. Ele não é interativo em uma maneira objetiva. É claro, ele interage porque o público, de uma certa forma, se insere naquela situação na qual tem coisas ali que estão conversando. Ele não entende muito bem o que está acontecendo, mas sabe que tem alguma coisa, alguma comunicação que ele não entende de primeira, mas tem algo acontecendo ali. Ele se insere no trabalho, mas ele não é um trabalho interativo, em que a pessoa faz um movimento… não tem sensor de movimento. É, os trabalhos são autistas, eles só conversam entre eles.

Thiago: Que interessantíssimo, né? Não, é sério, porque você deu um tipo de interatividade entre o maquinário e entre os objetos que você não encontra, tipo. Sem a arte eletrônica acho que isso não seria possível, entendeu?

Mariana: É, é, não seria possível não.

Thiago: E eu pego… eu quero pegar… você falou uma expressão muito boa que é o “maquinário orgânico”…

Mariana: É. Isso uma vez falaram…

Thiago: Eu queria que você falasse um pouquinho… é, explicasse um pouco porque é que você acha que a sua obra se enquadra nesse tipo de expressão?

Mariana: Isso é uma pessoa, não fui eu que inventei. Foi um crítico que fez uma curadoria de uma exposição e falou: “Mariana cria máquinas orgânicas”, e eu adotei essa expressão porque é ótima. “Máquina orgânica” é porque ela realmente funciona como um organismo, apesar de eu usar circuitos eletrônicos, arduino e tudo, para fazer os movimentos. A obra acontece de maneira analógica. Eu não sei o que vai acontecer no trabalho. Você viu o pânico quando faz um barulho diferente, a cara que eu fico? Porque eu não sei o que ele está fazendo. Já aconteceu de trabalho simplesmente não fazer o que eu quero. Na véspera do transporte vir buscar a obra, o trabalho não está fazendo o que eu quero. E eu tenho que entender que quando eles estão no mundo, eu não tenho mais controle. Eu estou exagerando, mas é claro que a gente dá uma mexida. Até porque me interessa que o trabalho funcione. Se ele ser um defeito, vamos dizer assim, defeito no sentido de: “pô, pifou”… aí… (risos) sabe? Então, eu vou, eu vou trabalhar nisso. Mas tem muita coisa que, também, durante o processo, vai sendo incorporado. Tem um trabalho meu que foi para o CCBB de Brasília a dois anos atrás, que quando a gente ligou, ele fez um movimento que foi incorporado depois. Ficou muito interessante na obra. Isso é interessante porque não é só o funcionamento da obra que é orgânico, que é analógico, que acontece em tempo real. Está ali, eu não sei, aquele circuito naquela hora pode interagir de um jeito e acontecer Y, ou pode acontecer X, mas o próprio fazer da obra é orgânico. Porque a gente vai trabalhando, eu vou trabalhando com o limite dos materiais. Quando eu pego um motor de forno de microondas, eu sei que ele tem um limite para aquilo ali. Eu vou trabalhar com aquilo. Motor de forno de microondas gira para um lado e para o outro. A primeira vez que eu vi isso, aquilo podia ser um problema naquela situação, mas não foi. Aquilo vai sendo usado. É um trabalho que é um organismo, que eu não sei o que é que vai acontecer, não é pré-programando. Eu não consigo. Às vezes, eu vejo as pessoas: “Ah, o que é que vai acontecer agora?”, as pessoas me perguntam na inauguração. “E agora?”, “Ah, ele vai girar quantas vezes?”, eu não sei. Ele pode não girar nunca mais! É, o processo de fazer o trabalho é orgânico.

Thiago: Puts, muito engraçado, né? É que enquanto você estava falando e tal, eu lembrei da entrevista que eu fiz o com o José Carlos Silvestre, em que ele fala muito da “estética do erro”, que é quando você explora o maquinário, quando você explora um programa de uma determinada máquina até o seu limite. É que você consegue encontrar outras formas que ela não foi feita para, mas está dentro do programa dela, entendeu?

Mariana: É.

Thiago: Que eu acho que é o Flusser que fala muito sobre isso.

Mariana: Eu acho que é.

Thiago: E ele trabalha muito, o José Carlos, com essa “estética do erro”, né? E você falando que a parte do orgânico, assim, é o erro ao extremo. Tipo, que você não consegue nem ter controle do que é que é aquele programa, né?

Mariana: É, é.

Thiago: Porque o que acontece ninguém sabe.

Mariana: Não, assim, para você ter idéia. O trabalho, quando a gente liga a primeira vez, a gente não sabe o que vai acontecer. Você tem uma idéia. Claro, eu parto de uma intenção. E o que prevalece é a minha intenção, porque senão, também, eu ligava um monte de motor junto e era a obra. Não é isso. Eu tenho uma intenção. Tenho uma intenção de movimentos a serem realizados, e tudo… mas só que a verdade é que você não tem controle sobre uma máquina. Pelo menos, as minhas eu não tenho. Eu trabalho o tempo todo com esse limite. Quando você liga ele vai fazer um movimento que, de repente… Já aconteceu isso! Os trabalhos que são dessa exposição do MAC de 2007, aconteceu uma coisa engraçada. No ateliê, a gente ligou e: “tá bom”, o trabalho foi acontecendo e tal e funcionou ali daquele jeito. Quando a gente chegou no MAC, o piso é acarpetado, e os trabalhos andavam pelo museu . A gente teve que…

Thiago: Segurar, né? Com uma correntinha…

Mariana: Botar uma âncora neles, porque senão eles iam andar até o ponto de desligar e cair em algum lugar, sei lá. Então, assim…

Thiago: Genial!

Mariana: São coisas que acontecem. Inclusive, estão suscetíveis a mudanças no espaço. Quando eu faço um trabalho, e vai para alguma instituição, para algum colecionador, vai junto um manual de instalação e de manutenção. Eu acho que isso é importante, porque se o meu objetivo é que o trabalho continue funcionando, eu faço isso fico mais tranquila. Porque você não sabe, também, quem é que vai estar lidando com aquilo. Eu acho que é legal. E a gente coloca essa observação, que o trabalho tem que ter certas condições para funcionar daquele jeito. Claro que se a pessoa quiser colocar… por exemplo, trabalhos que funcionam com vento – que tem algumas coisas que eu fiz com ventilador. São estruturas que se movimentam só com o soprar de ventiladorzinhos pequenos. Se ele colocar em um lugar que venta, ele vai funcionar de outro jeito. Pode, inclusive, dar algum problema no trabalho, mas aí, também, né? Mas tem muita coisa.

Thiago: Não, e você falou uma coisa muito legal também, que é: as suas obras, elas conversam entre si, né? A máquina conversando com máquina. Eu queria que você explicasse um pouquinho melhor qual é esse processo? E porque máquina conversar com máquina e não, por exemplo, deixar os sensores ali para o público interagir? Essa interatividade entre máquina e máquina e não humano-máquina?

Mariana: Deixa eu ver com é que eu posso falar disso. É…

Thiago: Principalmente, porque é isso, né?

Mariana: Eu não tenho muito o porque.

Thiago: Porque eu vi um dos seus trabalhos, que acho que era o das jarras, inclusive, que elas conversavam entre si, né?

Mariana: Isso.

Thiago: Que você ligava eles entre si, depois você desligava..

Mariana: Esses trabalhos eram assim… é uma coisa que depois eu comecei a fazer com essa exposição do MAC. Eu imaginei que eu poderia fazer trabalhos… porque, o que acontece? Os primeiros trabalhos que eu fiz, que eram máquinas orgânicas (esse que eu falei que funcionava tipo uma hélice; o vídeo fala, aí o circuito sente), tinham um som e ligavam alguma coisa, no caso era o ventilador. Depois foi aperfeiçoando, ou ficando cada vez mais complexo, ao ponto de ter comandos sonoros. Em paralelo à voz, tem uma nota musical, então, o circuito percebe se é dó, mi ou sol e liga ou o motor 1, 2 ou 3. Aí eu pensei: “Não, já que está ficando tão complexo, então, e se eu fizer um plug que ligue… já que é por som, então, um trabalho vai conversar com outro”. Anota dó de um pode ir para o outro, pode fazer alguma coisa acontecer no outro trabalho, no vizinho. Eles funcionam ou sozinhos ou em simbiose, que é o caso desses trabalhos do MAC, Liquescente, que vão agora para essa exposição em Dortmund. E agora, o que eu estou fazendo, já é uma pesquisa que vai além do som. Ele vai pela imagem. Dependendo do comportamento do trabalho, do vídeo, na imagem, na tela, ele vai andar para um lado, vai andar para o outro. Qual era a sua pergunta mesmo? (risos) Era o quê?

Thiago: Da conversa máquina-máquina e não humano-máquina e interatividade?

Mariana: Eu não sei. Eu sou uma pessoa meio esquisita. Você vê pelo meu ateliê que eu me isolo. Eu gosto de lugar isolado. Então, eu acho que é algo meio meu também que vai para o trabalho. Interação não é o meu forte. Eu não sei. Quando eu penso, eu não consigo imaginar o trabalho conversando com o público. Eles estão falando um idioma deles, sabe? Então eu acho que é o público é que tem que tentar entender, se inserir naquilo. Porque isso no meu trabalho… claro que tem outros trabalhos que são interativos. Eu não estou falando que: “Ah! Não, não pode!”, mas, no meu caso, eu acho muito mais interessante essa conversa entre as coisas que você observa, que você observa e não sabe direito onde é que você está ali, qual o papel que você está cumprindo ali naquela situação onde tem duas portas falando, e elas se mexem. O que é isso? O que está acontecendo? Como é que faz, sabe? Isso me interessa mais, pelo menos nesse momento e até agora. Eu acho que pelo menos por enquanto…

Thiago: Não está interessada, né?

Mariana: É.

Thiago: Entendi.

Mariana: Não tenho interesse de fazer uma coisa interativa com o público, de movimento, de um sensor de… sabe? Pelo menos por enquanto não.

Thiago: E eu vou fazer uma pergunta que é meio difícil responder, imagino. Se fizessem para mim, eu não ia saber responder se eu fosse artista… Não, tipo, qual é o grande questionamento dos seus trabalhos? O que é que você acha que está…

Mariana: Que pergunta, hein?

Thiago: Eu falei. É porque me intrigou muito. Quando eu conversei com o Fernando Rabelo, ele me deixou muito claro que ele tinha um foco absurdamente claro de tudo o que ele queria questionar ali, do que queria fazer. Daí eu falei: “Pô, esse é o tipo de coisa que é um tipo de pergunta legal de você saber de determinado artista”. Porque você fala: “Eu tenho mais tendência a fazer isso. Tenho mais.. Ah..”. Então eu acho que o questionamento que eu estou fazendo é mais por causa disso, entendeu?

Mariana: “O grande questionamento do meu trabalho?”

Thiago: É. Não é questionamento, mas de saber o caminho, assim, sabe? Por que você está se sentindo confortável de fazer no momento, e etc?

Mariana: Eu acho que essa coisa da não interação, eu acho muito legal. Eu, realmente, não consigo pensar diferente. Nesses trabalhos eu não consigo pensar numa coisa que fale direto, que seja interativo, tipo um robozinho, né? Eu acho que isso é interessante. Acho que, na verdade, eu sei mais o que não é o meu trabalho do que o que ele é.

Thiago: E o que não é o seu trabalho?

Mariana: O meu trabalho acho que não é essa coisa de robozinho, interativo. Não estou falando que outros trabalhos sejam, mas no meu caso ele não é. Tem gente que acha que ele é um brinquedo, mas ele não é. Uma vez já me falaram: “Ah, o seu trabalho é como se fosse um Tamagotchi gigante”. Então, já falaram isso também. É um trabalho, deixa eu ver, por exemplo, eu não fico só nesse sentido da tecnologia. Aqui no ateliê, você vê trabalhos que são de foto. Eu acho que sim. Eu acho que são aquelas palavras: imaginação, invenção, é… autismo. Eu acho que são palavras-chaves. Agora, definir exatamente eu não sei, porque quando você faz um trabalho e o trabalho vai para o mundo, você também não tem muito controle. É difícil, porque qualquer coisa que eu falar: “Ah, isso aqui eu acho que, mais ou menos define o que eu faço…” e tudo. E depois vão falar: “Ah, você falou isso….”

Thiago: Não é…

Mariana: E eu não sei se é, sabe? Porque eu acho que, também, um artista, ele está… se eu soubesse o que é, acho que eu iria parar de fazer tudo. Eu morro de inveja de quem sabe o que está fazendo. Porque, às vezes, eu até sei. Eu acho que provavelmente eu sei, lá dentro, mas eu não consigo dizer com palavras o que é. Eu acho que é isso. Eu acho que o artista, quando ele encontra…

Thiago: Ele para de produzir, talvez, né?

Mariana: Pelo menos eu seria assim, sabe?

Thiago: Mas faz sentido… faz sentido, né? Porque geralmente é a pergunta que nos move, né? Sempre tem aquela coisa que fala que é a dúvida que nos move.

Mariana: Uma vez eu ouvi de um artista: “pô, uma vez eu fui a Paris e um amigo meu tinha sido aluno do Christian Boltanski. E ele tinha um amigo que fazia aula com o Boltanski e tudo, e eu só sei que eu me meti em uma aula lá do Boltanski sem falar francês. Mas uma coisa eu entendi e eu até hoje – engraçado, hoje até repeti isso aqui – ‘o melhor trabalho é sempre o próximo’”. Então, ele falou isso. Acho que é sempre um eterno questionamento: “Não, mas isso aqui não ficou bom…”, sabe? Não dá para você ficar satisfeito. Porque se eu ficar satisfeita com um trabalho, com alguma coisa que eu fiz, eu não vou ter vontade de fazer outro. Sempre tem alguma coisa que… pelo menos eu sou assim, sempre tem alguma coisa que eu vou querer: “não, isso aqui… não, isso aqui não ficou legal. Isso aqui eu tenho que…”. Tem trabalhos meus, por exemplo, que… tem um, então, que foi para uma coleção. Cara, eu queria ter ficado com aquele trabalho! Eu não tinha lugar onde guardar, mas tem trabalhos que eu olho… aquele trabalho tem um negócio que eu não sei o que é , mas eu reciso voltar àquilo, sabe? Eu não sei nem o que é, mas tem alguma coisa ali que me interessa muito e eu não resolvi na cabeça, sabe?

Thiago: Entendi. Mas de querer reconstruir o trabalho que foi feito, de…

Mariana: Não. Um trabalho chamado Palindrômicos – que depois eu posso te dar uma imagem disso para você incluir e tudo – que tem alguma coisa ali nele… Ele é Palindrômico porque são dois – até um deles é esse açucareiro aqui, ó. O açucareiro… eles vão falando e tudo e vão se movimentando também com ventiladores, e quando um passa pelo outro, a imagem troca de um para o outro. Esse trabalho foi muito complicado. Esse que ficou pronto na véspera, foi uma dor de cabeça danada. Mas eu tenho uma relação de amor e ódio com eles, sabe?

Thiago: Amor porque o trabalho realmente também ficou legal e ódio porque foi difícil de fazer?

Mariana: Amor porque tem uma coisa nele que eu não sei ainda o que é, que ainda eu vou voltar. E ódio porque eu sofri muito com ele! Foi um trabalho em que eu sofri muito… quando eu ouço o vídeo de registro do trabalho me dá taquicardia! Eu fico…

Thiago: Nossa, um trauma, praticamente, né?

Mariana: É um trauma, mas eu amo aquele trabalho! Não que ele tenha ficado bom, porque se ficasse bom eu também não ia querer voltar. Mas eu acho sempre que tem alguma coisa que tá, assim, pô, a pergunta de: “Ah, qual é o grande questionamento?” Eu não sei. O dia que eu descobrir eu acho que eu vou fazer outra coisa.

Thiago: Voltar para a psicologia, né?

Mariana: Vou, né? Aí eu vou precisar de análise.

Thiago: Não, mas você comentou também que você não trabalha só com a tecnologia, você faz foto, você faz vídeo…

Mariana: É.

Thiago: Me fala um pouco desse processo, também, desse tipo de trabalho que não é só tecnológico, que não tem mais esse…

Mariana: Eu trabalho com imaginação. Basicamente, a imaginação é o que rege o que eu faço. Eu vejo uma situação que pode ser… Eu acho que um artista está sempre se reinventando. Quando alguma coisa vira uma regra, você tem que parar para pensar o que você está fazendo, porque as coisas não podem ter uma regra. Eu agora, por exemplo, eu estou revendo coisas que lá de trás. Quando eu comecei a produzir, que eu fiz uma exposição lá no Parque Lage, participei com um pessoal que fazia o curso da Iole de Freitas, eu trabalhei, de alguma forma, com a arquitetura da sala que eu estava ocupando. É uma instalação chamada “Portas” e eram essas duas portas que ficavam se movimentando e a sala tinha toda uma arquitetura favorável a esse trabalho. Eu não pensei no trabalho para a sala, mas ele conversou com ela, então, me interessou. Eu, agora, por exemplo, estou resgatando isso depois de 6 anos. A imaginação é o que rege o que eu faço. As fotos, por exemplo, eu imagino uma conversa, mas naquela situação, uma foto eu acho que é o trabalho. Ele não é um projeto, é a foto em si. Uma série de fotos que eu fiz para o MAC Niterói de uma ilha que faz parte da paisagem do museu, que é aquele panorama, aquela coisa linda e tem uma ilha estranhíssima na frente, a ilha dos Cardos. E eu transformei essa ilha em um animal que fica dando cambalhotas. Eu dei o título de “Ilhota“, porque eu penso, eu sofro, às vezes, com os títulos pois eu acho que têm que falar, ter alguma coisa do trabalho. Tem trabalhos que eu resolvo em desenho, sabe?, já estou feliz com aquilo. E ao mesmo tempo, tem coisas que eu só consigo pensar com máquinas, com coisas que interagem, maiores, mais complexas, que eu não tenho controle total. Porque o desenho você tem um controle. Não é total, porque você também tem os materiais ali e tudo, mas tem um pouco mais de controle. Foto também. Mesmo assim, não total, mas tem coisas que só se resolvem em uma máquina. Não sei se eu respondi o que você perguntou, porque eu vou falando…

Thiago: Não, está respondendo, está respondendo.

Mariana: É.

Thiago: É que, na verdade, também, eu fiquei interessado em saber qual é o processo criativo. Eu estou vendo você falar: “Não, nesse daqui eu só quero foto”, ou então: “Não, nesse daqui eu quero vídeo”, “Não, nesse daqui eu quero fazer um mecanismo que, meu, sei lá, bate o vento, o cara começa a dar cambalhotas aqui”, sabe? Tipo…

Mariana: Tem trabalho que eu começo pensando: “Não, isso daqui eu acho que vai por foto. O caminho é uma foto”. Agora, por exemplo, eu estou com uma série de fotos que eu não estou conseguindo resolver. Eu tenho a idéia, mas eu não sei. Eu estou achando que a foto não vai bastar. Eu não sei o que eu vou fazer. Eu tenho uma idéia e, às vezes, vou imediatamente, já penso: “Não, isso daqui vai dar uma foto”. Vou e trabalho na foto. Faço uma imagem imaginada, tiro uma foto, modifico. O que não é diferente do que eu faço com as imagens no vídeo. Eu pego um vídeo, pego um objeto, um açucareiro, um bule, e faço com cordinhas uma coisa bem precária, depois fatio esse vídeo e faço. Quer dizer, eu estou alterando a velocidade do vídeo, até que aquilo se torne gesto. Até que aqueles movimentos do objeto se tornem gestos, e, então, eu crio uma nova imagem a partir de uma imagem que já existe.

Thiago: Entendi.

Mariana: Com foto é a mesma coisa, só o processo é diferente. Vai ser uma foto na parede, seja lá onde for. Tem uns trabalhos que eu tenho que são só vídeos também.

Thiago: Mas você já conseguiu expor também só esses trabalhos, né? Tipo, não é de ficar…

Mariana: Já, já.

Thiago: Entendi. Porque, na verdade, o vídeo você usa também nesse processo para fazer a parte tecnológica, né?

Mariana: É, uso vídeo o tempo todo.

Thiago: É, está junto. Eu estou perguntando isso porque, entre as pessoas que eu entrevistei… mosquitinho chato… entre as pessoas que eu entrevistei, você é a única que tem trabalho, também, além de tecnologias, assim, de envolver tecnologia. Por isso que eu falei: “Nossa, como é que se dá o processo criativo?”

Mariana: Mas, você sabe o que é que eu acho engraçado? Eu implico um pouco. O pessoal fala: “Ah, porque você trabalha com arte e tecnologia”. Pintura também: tinta a óleo é uma tecnologia. A gente meio que banalizou no sentido de: “tecnologia é a televisão de LCD” e não sei o que… Pô, eu trabalho com motorzinho de forno microondas. Tudo bem, é uma tecnologia? É, mas é low-tech. É algo diferente do músculo eletrônico que é aquele fiozinho que – não sei nem se reparou no trabalho lá em baixo – é o que faz alguns movimentos no trabalho. Vou te mostrar depois. Aí é o momento high-tech do meu trabalho. Então, assim, tem o high e tem o low. Eu acho engraçado isso porque, pô, a foto que eu faço é uma tecnologia. Porque se não fosse o computador e um programa para fazer esse tipo de edição em fotografia, eu ia então usar o desenho? Mas o lápis que a gente compra hoje, a lapiseira e tudo, é uma tecnologia também. Quantos anos levaram para fazer isso?

Thiago: É, tecnologia vem de técnica, né?

Mariana: Exatamente.

Thiago: Vem do artesão.

Mariana: Tem uma frase tão legal que eu esqueci agora. Como é que é? É assim: a constante procura de um meio para servir um determinado fim. É algo assim. E é por aí, né? Quer dizer, uma lapiseira é uma tecnologia…

Thiago: Entendi.

Mariana: …sabe? Eu acho que…

Thiago: É, mas é legal esse tipo de percepção.

Mariana: Eu implico um pouco porque eu considero o meu trabalho, um híbrido, não só no sentido de mistura de materiais, mas também híbrido porque eu não considero o meu trabalho como um trabalho de tecnologia. Pelo menos comigo já aconteceu de eu participar de exposições que têm games e tudo – o que eu acho legal, mas o meu trabalho passa por aquilo ali, mas também não é aquilo. Também não é como uma pintura, um trabalho de um artista que trabalha com pintura ou, sei lá, com escultura. Ele está ali no meio do caminho, sabe?

Thiago: Mas você fica confortável de deixar a sua obra no meio, por exemplo, de games e coisa do tipo?

Mariana: Olha, já aconteceu…

Thiago: Ou você acha que ele é meio deslocado?

Mariana: Depende de como a curadoria é pensada. Se a curadoria é inteligente, fica bem.

Thiago: Entendi, entendi. Faz sentido.

Mariana: Né?

Thiago: Porque eu fico imaginando quando se trabalha com a coisa meio híbrida, é muito difícil conseguir ver qual é o trabalho do lado e achar que tem a ver, sabe? E achar que…

Mariana: Não, eu participei de uma exposição em Berlim, em que a sala que eu estava ocupando era… era um trabalho grandão e eram fotos, tinha uma instalação do lado… mas trabalhos completamente diferentes do meu, e… conversaram muito bem.

Thiago: É, legal.

Mariana: E há situações em que não tinha nada a ver. Você chega lá… “porra”, “Caramba!”, era para ter mais a ver e não tem. Acho que depende. Essa exposição em Berlin, que foi maravilhosa, que é “Os Trópicos“, que passou pelo Brasil. Foi CCBB Rio, São Paulo e depois foi para Berlim. Eu só fui para essa de Berlim, que é a curadoria do Alfons Hug, e essa sala minha era o “Drama Urbano”… era Drama Urbano? Não era… tinha um nome, assim, e tinha tudo a ver. Então, era fantástico como é que..

Thiago: Casava ali?

Mariana: Tinham fotos do Caio Reisewitz. Como é que conversavam era incrível. Você vê uma boa curadoria. Agora, tem curadores que…

Thiago: Não rola, né?

Mariana: É, se o curador pega porque, sei lá, vai… não sei.

Thiago: Melhor não entrar em detalhe.

Mariana: Mas uma boa curadoria…

Thiago: Resolve?

Mariana: Com certeza resolve.

Thiago: E você falou também do – eu vou enveredar um pouco mais para a tecnologia porque faz parte do projeto – low tech e high tech. Como é que funciona para você esse tipo de seleção? Você pensa nisso?

Mariana: Não, eu não penso nisso.

Thiago: Porque eu fico imaginando, tipo, você vê o motorzinho do negócio de microondas, você sabe que ele faz assim e assim, mas o que é que leva a escolher determinada coisa para compor tal obra?

Mariana: Olha, é o que eu falei antes. Eu tenho uma intenção, um trabalho, senão, fazia, pegava um monte de motor, ligava para ver o que é que acontece. E não é o caso. Eu tenho uma intenção, que é construir uma determinada lógica de funcionamento que vai ser a conversa entre “duas janelas”, né? Eu tenho uma idéia de o que eu quero de movimento. Eu vou buscar o que pode realizar. Agora eu estou fazendo um trabalho que a gente tinha pensado em usar um determinado tipo de motor que já vem pronto. Na verdade, um motorzinho que é uma coisa que você compra no Saara. E você liga ali. A gente tinha colocado um tubo, mas aquilo não aguentou. O motor é muito fraco. A gente usou um motor de parabrisa, que é muito mais forte. Então, eu vou, sabe…

Thiago: Testando…

Mariana: E ao mesmo tempo, para usar esse motor de parabrisa, eu tive que abrir mão de uma outra coisa que esse aparelhinho que eu tinha comprado dava. Você o tempo todo você vai adequando: “Ah, não. Isso daqui é o limite. Aqui não dá para ir além disso. Ah, então tá bom.” Tem coisas que eu não abro mão: “Não, isso aqui não, isso aqui eu não quero”. Aí a gente vai trabalhando por outro lado. É uma coisa meio de limite. Por isso que é orgânico, porque aí você vai: “Não, isso aqui não dá mais”, “Isso daqui está no limite”, “Isso daqui”, “Vai quebrar, não vai dar”.

Thiago: Entendi.

Mariana: Então, é isso. É high e low porque tem…

Thiago: É porque depende do que a coisa exige, tipo…

Mariana: É, pode ser um motor de portão de garagem… eu acho que é mais ou menos high, né? Apesar de ser bastante parrudo e tudo. É uma coisa que a gente nem percebe que existe no mundo, né? Mas é uma coisa high-tech. Você tem controle remoto, você tem que saber lidar com aquilo ali na hora de construir alguma coisa com aquele motor. Mas era aquilo que servia para fazer. Então, se eu descobrisse uma outra máquina que servisse, eu iria usar outra máquina.

Thiago: Não, e eu acho que isso faz total sentido pelo discurso até que você tinha me falado. Pela sua entrevista aqui, pelo que você me falou, faz sentido. Porque, tipo, não é a tecnologia pela tecnologia, sabe? É como você consegue determinado fim. Você está usando a tecnologia e tentando esperar os limites para chegar naquilo, né?

Mariana: Eu não vou dizer que eu não parto de um material, porque tem coisas que a gente descobre no meio de uma pesquisa. O meu trabalho envolve muita pesquisa de material. Muita. Às vezes, a gente está pesquisando na internet e vê: “pô, isso daqui é um negócio que eu não vi antes. O que é isso?”. Você acha, vai comprar um troço pela internet – porque a gente compra muita coisa pela internet – aí vê ao lado uma foto: “O que é isso?”. Você vai atrás, acaba comprando um para experimentar e vendo o que é, como aquilo funciona. Às vezes, aquilo provoca alguma coisa, ativa alguma coisa para um trabalho. Mas eu não parto, assim: “Ah não, eu quero usar esse material aqui”. Não parto do material. Eu parto de uma intenção. E o material e a intenção vão juntos. Se moldando um no outro até acontecer…

Thiago: Compor.

Mariana: É, até acabar.

Thiago: Entendi. Você falou que pesquisa muito material. Você publica isso em algum lugar, tipo, você faz o…?

Mariana: Não, mas é uma coisa que a gente até pensa futuramente.

Thiago: Porque, nossa, ia ser legal. Seria muito legal.

Mariana: Eu vou falar até ara ficar na entrevista, mas meu pai, que é o meu engenheiro, que faz toda essa pesquisa de material. Pesquisa eu também faço, mas é ele que faz a programação, monta os trabalhos. A gente também tem uma outra pessoa que trabalha junto com a gente de assistente. Então, sim, tem uma ideia de, no futuro, juntar isso em uma publicação. Mas, por enquanto, é só uma ideia. Se aparecesse alguém que quisesse ajudar nisso, seria muito legal. Algo que a gente acha bem interessante, porque é muita coisa que a gente achou.

Thiago: Eu acho que estamos em um cenário artístico-cultural relacionado à arte e tecnologia que, meu, para viabilizar esse tipo de coisa, eu acho que rola, entendeu? E eu acho que seria muito interessante ter um tipo de publicação desse que explora os materiais, sabe? De pesquisa de material, mesmo.

Mariana: É.

Thiago: Para você saber o que pode ser feito.

Mariana: É. Eu acho que até antes dos materiais: como é feito isso? Até antes do final: “ai, não, isso aqui…” ou “esse motor aqui faz isso”. Eu acho que como é feita essa pesquisa, como é pensado isso, como é elaborado.

Thiago: É. Para desmistificar, né?

Mariana: Porque é algo que, realmente, toma muito tempo e eu acho que é interessante. Você está falando que a gente está em um momento de arte e tecnologia. Eu acho interessante porque, por exemplo, a gente vê muitos museus que não estão preparados para isso. Eu não sei se uma pesquisa dessa poderia ajudar, mas, por exemplo, os museólogos – não só aqui, mas em outros lugares… Até tem algumas publicações aí que – não minhas, mas de outros -… tem uns livros aí sobre a dificuldade de restaurar uma obra do Jean Tinguely. Porque não tem um registro. E le não deixou nada por escrito dizendo qual era a intenção dele, o que é que ele queria, aquele motor ali fazer qual ruído e tal. É dor de cabeça para os museólogos. E a gente não está preparado. Tem ótimos museólogos aqui, em vários museus, mas quando eles vêem um trabalho assim como o meu: “Ah”, sabe? “Não! Ai meu Deus!”, sabe? É interessante porque deveria começar a ser pensado um plano para preparar… Eu acho que quem descobrir isso vai ganhar muito dinheiro! Acho que o cara que fala: “eu vou me especializar…”…

Thiago: Em “adaptações de museu para obras tecnológicas”

Mariana: O cara vai ganhar dinheiro. Porque todo mundo vai chamar.

Thiago: É verdade.

Mariana: Todo mundo vai chamar.

Thiago: Mas é que aqui no Brasil já dá para ver que está tendo um movimento. A Funarte…

Mariana: Tem. Eu estou exagerando.

Thiago: … o MIS lá de São Paulo investe bastante. Eu acho que é um processo.

Mariana: Mas é recente.

Thiago: É bem recente, é bem recente. É verdade.

Mariana: Eu até me considero, graças ao meu pai que faz isso, organizada, porque vai esse manual [junto à obra]. Tem muito artista que não faz isso. O museólogo tem que chegar e perguntar, fazer as anotações. Eles tem lá um diário de bordo de cada artista e tal e não sei o quê. É importante. Porque o que a gente faz, daqui a 10 anos, como serão a reposição de peças? Qualquer um que esteja fazendo agora. O Bill Viola. Ele tem lá um estoque de televisões de tubo para aquele trabalho dele que tem o reflexo da mãe dele morrendo com o filho nascendo. Quando acabar a televisão de tubo, ninguém mais vê aquele trabalho.

Thiago: É verdade.

Mariana: Né? O Buda, do [Nam June] Paik, também. Vai acabar aquela televisão um dia. Não vão ter mais como consertar. E aí, né? Nesses meus manuaizinhos, de uns tempos para cá, eu passei a colocar, até inspirada nesses livros de museologia e tal. Da dificuldade de dizer, justamente o que o Tinguely não deixou nada por escrito ou registro do que é que ele queria ali e tal… Eu deixo ali por escrito: “Ah, eu quero que…”, assim, tem um registro. Quero que seja o mais parecido o possível. Eu sei que vai ter uma reposição de materiais no futuro e tal. Então, eu deixo um texto por escrito avisando isso.

Thiago: Mas isso é legal. É um tipo de preocupação que ninguém, pelo o que eu entrevistei, teve.

Mariana: Ah, mas eu sou neurótica! Eu sou neurótica, é por isso que eu….

Thiago: Não, mas pelo menos é uma boa neurose, né? Porque ter esse tipo de registro é interessante.

Mariana: Não, por isso que os meus personagenzinhos falam para caramba, gritam. Ninguém se entende nunca. É uma conversa em loop, que nunca acaba. Sou eu. Ó, está aí a intenção do meu trabalho. É o motivo de eu estar fazendo isso. Para eu tentar me entender!

Thiago: E por falar em tentar entender e motivo de trabalho, você se preocupa com estética com relação às suas obras? Tipo, você se preocupa em fazer um design, por exemplo, para os seus…

Mariana: Não, não tem design.

Thiago: …eu não vou falar robozinho porque não é robozinho, mas é um robozinho também, não sei.

Mariana: Não, não tenho, O design é algo que você pensa a forma, né? Para adequar ao uso. Na verdade, ele tem uma forma ali que… por exemplo, esse trabalho do MAC, ele tem uma forma ali, que na verdade foi acontecendo na hora de se montar…

Thiago: E eu acho engraçado é que tem uma expressividade, aquilo, que eu… “meu, acho que foi pensado isso daqui”. Não deve ter sido… porque parece…

Mariana: Não foram. Olha, inclusive, se você olhar, eu faço alguns trabalhos que são semelhantes. Eu gosto de falar que eles são gêmeos, mas eles não são idênticos. Eu tenho alguns trabalhos que são muito parecidos e você vê que um é um pouco diferente. Meio jogo dos sete erros, mas ao mesmo tempo é uma coisa que acontece. Esses trabalhos se plugam. Eu tenho alguns que são assim. Eles são muito parecidos, mas se você olhar tem um detalhe ou outro, e isso vai acontecendo naturalmente. Esses trabalhos do MAC, um deles é meio torto. Mas é porque o tubo de PVC rachou de um jeito que não… estava serrado errado e eu achei legal e ficou, sabe? Não é uma preocupação. Eu não fico me preocupando. Eu, pelo contrário, não gosto é de maquiar.

Thiago: Por quê?

Mariana: Eu não gosto porque eu quero uma coisa que seja funcional no trabalho. Colocar um pedaço de arame porque é mais interessante, fica uma forma e tal, aquilo não sei, não me interessa. Tem até materiais que eu quero usar, por exemplo, espuma. É um material que eu acho tão legal. Queria usar, sempre quero usar, sempre que eu vou trabalhar: “Ah, vou usar a espuma”. E eu não consigo usar a espuma porque eu olho assim e: “essa espuma está fazendo o que aí?”, “Vou tirar”. Eu ia usar agora em um trabalho que tem um efeito acústico – também não gosto dessa palavra “efeito” mas, enfim – eu ia usar agora uma espuma para tampar um som que sai de um auto-falante, só que ela não estava funcionando. Eu: “Ah, vou tirar”. Vou fazer isso de outro jeito para funcionar. Então, não me interessa. Pelo menos, até agora não.

Thiago: É doido isso, né? Porque você quer usar o material mas não consegue de jeito nenhum nessas obras.

Mariana: É. Outro dia me falaram… Aliás, tem um amigo nosso que fala: “Arte tirana”. Nossa. Pesado, mas é verdade.

Thiago: A gente começou a falar agora dos museus e tal, que eles não estavam preparados para a tecnologia, então eu vou à grande pergunta – bem grande mesmo. Sobre o contexto que a gente está vivendo em arte e tecnologia. O que você acha? Como é que está? Opinião, tipo, pode ser a mais geral possível, mas é legal ter esse tipo de registro, de saber. E onde o seu trabalho se enquadra em tudo isso.

Mariana: Eu acho engraçado que às vezes eu acho que o meu trabalho se enquadra em vários segmentos. Ora eu acho que não se enquadra em nenhum, porque volta àquela história de que ele tão coisa nenhuma e coisa total. Eu confesso que não sou muito de acompanhar. Eu sou muito reclusa. Mas cada vez eu vejo mais exposições voltadas para essa questão do uso da tecnologia. Eu mesma, agora, estou fazendo um mestrado aqui na Escola de Comunicação. É que eu tenho muita dificuldade com palavra falada. Eu não consigo. Eu imagino muito bem, mas falar eu acho que as palavras sempre são muito limitadoras. Por isso mesmo que eu não gosto de falar. Dizer: “Ah, isso no trabalho é isso”. Não gosto. Porque eu tenho implicância. Está sendo para mim um desafio. Porque eu estou fazendo o meu projeto de pesquisa, que é: “Arte e Tecnologia: do dispositivo à metacomunicação”. Eu estou enlouquecendo porque eu não consigo escrever as coisas, sabe?

Thiago: Nossa, sei mesmo…

Mariana: Né? Mas é interessante porque meu projeto foi aceito na Escola de Comunicação. Eu acho que mostra não sei o quê, mas está apontando que tem uma coisa que está… Você vê? Tem festivais de arte e tecnologia cada vez em mais lugares e tudo. A gente vê muita gente. Hoje mesmo eu li – eu não lembro mais quem -, mas eu li em um jornal que alguém está partindo agora para um trabalho mais cinético e tudo. Apesar de não estar usando uma tecnologia nesse sentido de… é…

Thiago: Do maquinário, do hardware, né?

Mariana: … maquinário. Mas, assim, está partindo para uma coisa diferente, né? Por que não? É uma tecnologia sim, né?

Thiago: Não, mas é muito engraçado. Eu acho que hoje… você está comentando um negócio de comunicação. Hoje, esse negócio de tecnologia está muito mais enveredado pela comunicação e cultura do que era antigamente, né? Antigamente você falava de tecnologia e era aquela coisa de exatas, de engenheiro, muito restritivo e não tão amplo.

Mariana: É. Eu não consigo me imaginar sem o Google.

Thiago: É.

Mariana: De vez em quando eu falo para as pessoas, como era a minha vida antes do Google? Como é que as pessoas viviam? Porque, antes de você vir aqui, eu entrei no seu blog, eu vi o que você fez. E tudo. Então, as pessoas buscam, sabem mais de você do que você mesmo. É assustador isso.

Thiago: É assustador…

Mariana: É assustador. Eu, por exemplo, não me rendi ainda à… A única coisa que eu tenho é um YouTube, que eu tenho um canal. E tenho o meu site que é importante, né? Eu acho que o artista tem que ter um lugar para divulgar, porque na internet as pessoas te alcançam. Vira e mexe alguém me escreve. Já foi uma pesquisadora do Canadá, escreveu, também, e queria saber um pouco mais e tal. Acho que é importante, acho que tem que ter um…

Thiago: Canal de comunicação, né?

Mariana: … um ponto, tem que ter um pezinho na internet. Mas eu não tenho, por exemplo, twitter. Porque eu sou tão doida que se eu tiver um twitter, eu acho que eu só vou ficar twittando. Eu não vou conseguir fazer mais nada da minha vida. Mas é interessante como é que isso entrou na vida das pessoas. Agora eu estou lembrando de um negócio do twitter. Entrou de tal forma que agora na Copa teve um negócio de “Cala a boca, Galvão”, o mundo inteiro sabia que…

Thiago: Saiu na CNN [na verdade, no The New York Times].

Mariana: … é uma coisa… É um negócio… Porque é tão daqui isso. Ninguém nem sabia o que era Galvão Bueno. E começaram, parece, a divulgar um vídeo que eram uns passarinhos, que… Gente, o poder disso, de estar no mundo inteiro é assustador. É assustador.

Thiago: Mas como você vê o teu trabalho inserido em todo esse contexto histórico? Porque eu acho que é muito interessante ver esse tipo de construção, também, dos trabalhos artísticos. Você falou de arte cinética também. A gente começou a falar sobre um artista que começou a enveredar para arte cinética… É muito louco você ver os processos e ver o contexto sociocultural de cada artista, de cada meio. E é engraçado você ver as semelhanças dessas pessoas que estão começando a produzir agora, entendeu? Por isso que eu sempre pergunto para o artista: “O que você acha do contexto sociocultural que você está vivendo? Como sua obra se enquadra nisso?”, justamente para ver esse tipo de semelhança, que tem.

Mariana: Você está falando isso e eu só fico pensando em uma situação. Eu quero construir um trabalho, mais ou menos já sei o que eu quero – pois é difícil isso também, porque normalmente eu não sei o que eu quero. Mas aí, não, eu acho que tem que comprar esse material, aquele, o motor x e tal. Aí eu vou lá no Saara. Acho que isso é bem interessante para responder o que você está falando. Talvez não responda, mas pelo menos chegamos perto. Aí eu vou lá no Saara, pesquiso: “ah”, compro uma coisinha, compro outra: “não, isso aqui…”, “pô, esse plástico aqui é mais legal do que aquele”, “tá, isso aqui vai funcionar melhor”, blá, blá, blá. “Pô, eu não achei a budega do motor”. Aí vou lá, entro na internet, no Mercado Livre, ou no fornecedor x, y,z, que a gente já tem mapeado – uma lojas lá em São Paulo, na Santa Ifigênia, que também é o máximo -, aí: “ah, não, eu quero 5 motores x, y, z”, “ah, tá bom”. Aí você liga, o cara manda por Sedex. Então, é engraçado porque se fosse a 10 anos atrás, eu não poderia fazer o que eu faço. Eu acho que é esse o contexto. A própria pesquisa. Esse músculo eletrônico que eu trabalho foi graças à internet. Se não fosse a internet, como eu ia saber disso? Eu poderia até ter ouvido falar, ter lido em uma revista, mas como é que eu ia entrar no site do fabricante, escrever para lá, perguntar como é e tal, se dá para comprar? Pesquisa de livro e tal. Aqui no Brasil, a gente sabe que tem pouquíssima coisa. Você tem que comprar pela Amazon. Aí você vai e compra. Eu acho que, pelo menos o meu trabalho, se fosse a 10, 15 anos atrás, eu não poderia fazer.

Thiago: Entendi.

Mariana: Outra coisa que eu acho que é muito importante. Eu não trabalho com protótipos de novas tecnologias. Tem uma tela que eu estou maluca. O dia em que aquilo for vendido na lojinha aqui da esquina, eu vou comprar, que é a tal da tela que é… aquele negócio flexível e tal…

Thiago: Ah, o LED flexível.

Mariana: Pô, eu estou amarradona com aquilo. Mas eu não vou comprar isso agora. Vou pagar quanto?

Thiago: R$ 40 mil reais [suposição].

Mariana: Nem sei se existe já para vender ou se é só um protótipo. Eu me interesso pelo o que eu posso comprar na loja, que é acessível ao consumidor. No caso do meu trabalho. Eu sei que tem artistas que trabalham com outro tipo de tecnologia, com coisas que não existem, que não são acessíveis. É que nem o Nam June Paik que fala isso, que é: “gosto quando é já na liquidação da loja”. Eu estou exagerando, mas é algo que eu posso resolver. As ferramentas estão ali. Não preciso ficar queimando neurônio: “pô, isso daqui tem que falar com o pesquisador lá de não sei onde…”

Thiago: Entendi.

Mariana: Mas esse trabalho que eu faço é possível porque eu estou em 2010. Eu posso comprar coisas pela internet. Eu posso editar no meu computador, porque se eu tivesse que ir para uma ilha [de edição], eu não iria fazer isso. Ia ser caríssimo.

Thiago: Não é prático, né?

Mariana: É, não é prático. Não é viável. Não é um monte de coisa. Hoje você tem um computador. Quando eu comecei a fazer isso, eu lembro que era complicadíssimo. Hoje em dia você tem computadores acessíveis, que fazem edição tranquilamente, mas eu lembro que tinha plataforma gráfica. Quando eu era adolescente, eu curtia e achavaque podia trabalhar com efeitos especiais e tudo. Porque eu também achava que isso podia ser um caminho para mim. Engraçado que o meu trabalho não tem nada de efeito especial. Ele, na verdade, é exatamente o oposto.

Thiago: É isso o que ia falar. Muito pelo contrário, né?

Mariana: Mas eu ficava fascinada com aquelas coisas. Eu vi esses livros, aquilo era uma coisa tão distante, e tinha plataforma gráfica, Silicon Graphics. Era uma coisa tão, tão longe. E agora você tem isso no celular. É um momento que a gente vive que favorece. Pelo menos, eu penso assim. Mas eu acho que isso não é só com esse tipo de trabalho. Acho que isso acontece com tudo.

Thiago: Com tudo.

Mariana: Se trabalhava com tempera, aí passaram a trabalhar com óleo na pintura. Não sei quantos anos atrás. O processo fotográfico agora é diferente. Você tem até a saída. Também é sobre papel, mas você tem um monte de gente que trabalhava antes… não que deixe de existir, espero que não deixe de existir a máquina…

Thiago: Analógica, né?

Mariana: É, analógica. Mas você vê que vai mudando. E algumas coisas só são possíveis por causa dessas mudanças. O meu trabalho, por exemplo.

Thiago: Culminou nisso, né? Que doido. Não, muito bom.

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Com a ajuda de Ligia Souza Aranha na transcrição. Ela transcrevendo, eu editando.