Vídeo:

Entrevista:

Thiago: Conta um pouco do Marginalia. O que é o Marginalia? Como ele está estruturado? Quem são as pessoas? Quais são os projetos? Você falou da expansão também. Já inclui a expansão no meio… tudo.

Pedro: O Marginalia é um grupo de arte e tecnologia daqui de Belo Horizonte. Somos compostos por três membros: eu, Pedro Veneroso; André Mintz; e Aline Xavier. A gente tem dois escopos de atuação no grupo: um deles é esse da produção autoral em arte e tecnologia mesmo, que é um pouco focada, atualmente, em computer vision e práticas desse tipo; e trabalhamos com uma pesquisa do audiovisual estendendo nossas individuais – porque eu e o André temos essa base no audiovisual. A Aline também… ela entrou um pouco mais tarde.

Thiago: É, tanto que eu nem vi a Aline no site.

Pedro: Pois é, a gente ainda não colocou isso. Está faltando. Mas, enfim… o segundo escopo de atuação são as atividades de extensão, que não são voltadas para o próprio grupo, mas para a comunidade, que é atualmente uma comunidade mais local, mas este ano a gente está expandindo um pouco.

Thiago: Entendi. Você falou dos projetos autorais e que vocês têm embasamento audiovisual e etc. Quais são os trabalhos? Como vocês trabalham o audiovisual, pensando também na arte digital e coisas do tipo?

Pedro: Tá. A história do Marginalia brevemente… Oficialmente, o grupo nasceu em 2008, só que desde 2006 a gente trabalha junto. Então, de uma certa forma, desde 2006 a gente se considera como sendo o original. E desde lá eu comecei uma séria de fotomanipulações… na verdade, fotomanipulações não. Fotografias de longa e múltipla exposição, que eram fotomanipulações in loco, e não feitas na pós-produção. Essas fotos deram origem a um vídeo que a gente fez junto, e o Marginalia nasceu quando pensamos em qual seria a próxima etapa depois desse trabalho. O que a gente poderia fazer com essa estética da fotografia de longa e múltipla exposição? Como é que poderíamos transpor isso para um outro meio?

Thiago: Que seria o audiovisual?

Pedro: Seria a instalação audiovisual interativa, que é o Marginalia 1.0 beta, que é a primeira que a gente fez.

Thiago: Que é…? Dá uma descrição, assim, mais ainda do…

Pedro: A instalação? Formalmente, você entra em um quarto completamente escuro e esse quarto, na verdade, tem projeções no chão e nas quatro paredes. E a medida que o visitante vai iluminando com lanternas esse espaço, consegue ver os vídeos sendo revelados na área que está sendo iluminada.

Thiago: Ele fica projetado, mas só se consegue ver a partir do momento que se pega a lanterna e aponta?

Pedro: Isso.

Thiago: Entendi.

Pedro: É projetado em uma tela preta, e aí é feito uma máscara..

Thiago: Ah.. entendi. E isso ficou exposto aonde?

Pedro: Isso ainda não ficou exposto…

Thiago: Entendi.

Pedro: O protótipo ganhou o Festival Conexões Tecnológicas, em 2008. Aí, depois, a gente ganhou o Filme em Minas em terceiro ou quarto na categoria novos formatos, em outubro. Enfim, novas categorias… Aí, agora, a gente está fazendo a instalação no formato final, porque o protótipo era só uma parede, uma coisa bem sutil. Era o primeiro projeto do grupo, e tal.

Thiago: Entendi. E agora vocês estão estruturando para que isso seja feito em algum centro, em algum… que isso seja aberto ao público, né?

Pedro: Isso. Aberto ao público.

Thiago: Porque isso era só ideia… idéia não, né? Tipo, vocês já tinham conseguido desenvolver o protótipo, mas o protótipo ainda não estava…

Pedro: Não estava pronto. Não era uma instalação, não tinha como exibir. E agora a gente está terminando isso para no final do ano conseguir exibir em Belo Horizonte, numa cidade do interior primeiro…

Thiago: Qual que é? Você sabe?

Pedro: A gente está pensando em Cataguazes, mas isso ainda não está definido.

Thiago: Entendi. E isso faz parte de vocês terem ganhado o prêmio, tanto do Conexões Tecnológicas, quanto do Filme, né?

Pedro: É. Sim, foi o mesmo projeto nos dois.

Thiago: E é financiamento de cada um dos dois? Como é que é?

Pedro: Não. O Conexões Tecnológicas é um prêmio. Um prêmio não muito alto, na verdade. Não é para incentivar tanto a produção, mas é realmente para premiar. Pelo menos na forma como eu li. E o Filme em Minas é um prêmio realmente para produção. Eles dão um incentivo real, e você tem uma obrigação de apresentar. É o produto final.

Thiago: E a obrigação de apresentar é em uma cidade do interior, é isso?

Pedro: Não, não. Isso daí é uma coisa que a gente fez a mais.

Thiago: E por quê?

Pedro: Porque o Filme em Minas, na verdade, depende da Lei Rouanet para você conseguir receber o dinheiro, captar através do Filme em Minas. Quando a gente escreveu o nosso projeto para a Lei Rouanet, escrevemos um pouco maior, pensando nessa itinerância.

Thiago: É. Como se fosse uma contrapartida, né?

Pedro: É. De uma certa forma. Mas também para conseguir aumentar um pouco esses parceiros dentro de Minas Gerais.

Thiago: Entendi. Nossa, que estranho. No próprio edital do Filme em Minas, você tem que pensar no projeto para Lei Rouanet, para que você consiga ganhar…

Pedro: … primeiro. Geralmente, né? Pelo menos o processo que a gente fez. Primeiro a gente ganhou o Filme em Minas, e depois enviamos para a Lei.

Thiago: Ah, entendi, entendi.

Pedro: Na verdade, ele fica parecendo um prêmio um pouco separado.

Thiago: Você dá um embasamento maior quando foi fazer para a Lei Rouanet, é isso?

Pedro: Sim.

Thiago: Entendi, entendi.

Pedro: Mas não é isso. É uma coisa complexa.

Thiago: Porque é realmente doido, né? Você tem um tipo de edital, um tipo de premiação, que te dá um aval legal, mas mesmo assim você precisa sair correndo atrás de Lei Rouanet para conseguir viabilizar, né? Tipo, meio doido.

Pedro: Pois é. Depende de uma aprovação. Não está garantido. Você passou no Filme em Minas, e você não garante que recebe o dinheiro. Eles incentivam você, te ajudam, apóiam no processo todo, só que não tem garantia, né? Mas enfim…

Thiago: E vocês conseguiram fazer toda a captação? Ser aprovado pela Lei Rouanet e etc?

Pedro: É. A captação dos recursos foi pelo Filme em Minas, que é só uma parte do projeto.

Thiago: Ah, entendi!

Pedro: Ficou faltando uma outra parte que a gente ainda não captou.

Thiago: Entendi. Mas há previsão de quando vai conseguir fazer essa projeção em Cataguazes?

Pedro: Uma delas em Cataguazes, possivelmente. Mas ainda não…

Thiago: Estava pensando em Contagem, não sei porque. Eu falei Cataguazes que é a cidade certa, mas estava pensando em Contagem. Que é por causa também da Fábrica do Futuro lá, né?

Pedro: Sim. É. Principalmente, na verdade.

Thiago: E eles são parceiros? Alguma coisa assim?

Pedro: De uma certa forma. Sim, a gente colabora com pessoas em comum.

Thiago: Mas não em projetos específicos que vocês estão…

Pedro: Não. Marginalia e a Fábrica do Futuro não confluem necessariamente.

Thiago: Entendi. E essa versão que você tinha falado que era o protótipo beta 1.0..

Pedro: Marginalia 1.0 Beta.

Thiago: Tem a previsão de quando vai deixar de ser beta, primeiro? E segundo, mudar de versão?

Pedro: Pois é, na verdade o título provavelmente vai mudar. Não vai virar Marginalia 1.0 simplesmente, porque quando a gente fez esse projeto, não tínhamos o grupo, e o projeto acabou definindo até o nome dele. E a intenção era ir evoluindo nessas versões, mas fazer instalações, de uma certa forma, desenvolvendo o mesmo raciocínio. E a coisa mudou totalmente. A gente está..

Thiago: Em outra coisa…

Pedro: É. Exatamente.

Thiago: Indo para onde?

Pedro: Indo para onde? Eu acho que a questão é essa. Não, de uma certa forma, é o mesmo raciocínio. Porque ainda tem computer vision. A gente ainda usa as mesmas ferramentas que a gente usava antes, só que o escopo conceitual da coisa vai mudando. Sabe por quê?

Thiago: Por quê?

Pedro: Porque primeiro a gente pensava realmente em elaborar essa instalação para as versões 2.0, 3.0, e tal, como variações sobre um mesmo tema, de uma certa forma. E isso, agora, já está totalmente… é, pô, o Marginalia se tornou um grupo, né?

Thiago: Mas que são essas pessoas ainda, né?

Pedro: São essas pessoas.

Thiago: Você está falando muito de computer vision. Explica um pouquinho o que é e como vocês usam isso?

Pedro: Computer vision… Então, é reconhecimento… na verdade, vou começar pelo jeito que a gente usa computer vision, que eu acho que vai ficar mais claro. A gente usa, de uma certa forma, como sensor. Um jeito de captar um input. E computer vision, na prática, é isso, em termos gerais. Um exemplo. No caso da Anamorfoses Cronotópicas, a outra instalação do Marginalia Project. Essa você chegou a ver? Que é uma…

Thiago: Dá uma… descreve um pouco pra mim.

Pedro: O trabalho foi baseado no vídeo “The Fourth Dimension” do [Zbigniew] Rybczynski, e ele usa aquele mesmo efeito. Na verdade, é uma tentativa de fazer o mesmo efeito que o Rybczynski usa nesse vídeo só que em tempo real. E isso foi um experimento que o André fez em 2008 e tal, e acabou virando uma instalação também, que envolve computer vision.

Thiago: E como é que essa instalação é?

Pedro: Nossa, explicar é um processo… vou tentar resumir. A primeira linha do vídeo mostra o frame mais atual, e cada linha subseqüente mostra um frame anterior. Então, tipo, o frame atual do vídeo, temos 480 linhas de altura, e ele mostra 480 instantes diferentes em cada linha, nessa progressão de tempo.

Thiago: Nossa…

Pedro: Então, tipo, se eu faço um movimento da esquerda para a direita, esse movimento vai ser refletir em uma instalação gradativamente.

Thiago: Entendi.

Pedro: Então, o computer vision… O Anamorfoses não foi um bom exemplo. A gente não usa..

Thiago: … o computer vision.

Pedro: A gente, basicamente, só faz um processamento de dados de vídeo. Mas no Marginalia 1.0, aí a gente usa computer vision, porque a gente precisa saber exatamente onde está sendo projetada a luz para conseguir reconhecer onde essa imagem será afetada na projeção. Então, na prática, o computer vision entra como ferramenta nesse…

Thiago: … como ferramenta para você conseguir fazer a projeção…

Pedro: Para conseguir reconhecer isso.

Thiago: Entendi, entendi, entendi. E você acabou de falar dessa obra, que tenta imitar uma, não um efeito em tempo real… Quais outras obras vocês estão fazendo? Porque, assim, eu estou tentando organizar os meus pensamentos enquanto eu estou falando. Quais dessas obras, quais outras obras que vocês trabalham, que vocês tentam usar a arte e tec…. não a arte e tecnologia, mas tentam usar a tecnologia para reproduzir uma determinada coisa que antes seria muito mais complexo de se conseguir fazer? Porque parece…

Pedro: Quais outras…?

Thiago: Não sei. Eu estou perguntando, tipo, abrangente, para você conseguir me falar onde se enquadram outros projetos do Marginalia, entendeu?

Pedro: Mas dentro do pensamento de produção artística?

Thiago: Dentro do pensamento de produção focada em tecnologia. Tipo, você tem umas tecnologias disponíveis hoje que agilizam o processo, que disponibilizam que você faça outras coisas que antes era impossível conseguir fazer e pensar. Pensando nisso, então, como o Marginalia, tipo, quais outros projetos do Marginalia conseguem envolver tanto a produção audiovisual, e como as tecnologias estão conseguindo influenciar esse tipo de coisa e reproduzir determinadas coisas que não eram feitas?

Pedro: Isso eu tenho que pensar pra responder, na verdade.

Thiago: Por quê?

Pedro: Porque merece, assim, pensar um pouco…

Thiago: Não, mas fica à vontade.

Pedro: Não, porque eu tenho que analisar a produção do Marginalia. Na verdade, eu não sei. A facilidade da tecnologia é totalmente evidente, né? A gente tem um computador em casa, então essas instalações todas que a gente faz, e qualquer loucura que a gente imagina, ela é um passo mais perto de ser realizável, por conta dessas coisas. Mas, nos nossos trabalhos…

Thiago: É complexo pensar nisso, né? É porque para Giselle [Beiguelman] é muito mais fácil saber, justamente por ela ser de uma outra geração, que é o que ela muito fala.

Pedro: A Giselle tem toda uma carreira… então…

Thiago: Não, mas acho que não é nem isso. E ela fala isso inclusive na entrevista. Fala que tem duas gerações, e essas duas gerações se conflitam em um determinado ponto, porque a geração dela foi autodidata, tipo, do começo ao fim. Foi mexendo mesmo, e fazendo. A gente é autodidata de uma determinada… de uma outra vertente, porque a gente já tem manual, tutorial, tudo o que a gente quiser. Tem curso também para conseguir fazer. Então, a gente vai aprendendo, querendo ou não, é autodidata, porque você está fuçando na internet, procurando, mas muito mais fácil. Para ela pensar nas influências que a nova tecnologia traz para a produção dela, para a produção do que é que ela está fazendo, é muito mais evidente, porque ela consegue mensurar o esforço que foi para conseguir… sabe, para gente é muito mais complexo.

Pedro: É muito mais. Para mim, na verdade, é tremendo. Porque eu tenho 22 anos e eu vivi esse processo todo da internet todo no Brasil, do computador pessoal e tal. E eu vivi isso quando estava crescendo. Para mim, o mundo existe mais ou menos dessa forma. Eu não sei, quando eu estou produzindo, pensando dentro do Marginalia…

Thiago: E o que você acha que o Marginalia traz, por exemplo, para produção artística aqui de Minas Gerais? O que está sendo feito…? Você sabe o que é que está sendo feito aqui, no estado? Em Belo Horizonte?

Pedro: Em Belo Horizonte, tem muitas pessoas interessadas em mexer com arte e tecnologia, mas tem pouco espaço para isso acontecer, aparentemente. Acho que o Marginalia está tendo um pouco a função de fazer isso acontecer, movimentar um pouco a coisa em Belo Horizonte.

Thiago: Como?

Pedro: Com o Marginalia Lab, que é esse laboratório de arte e tecnologia. Que com isso a gente abriu…

Thiago: … o escopo, assim.

Pedro: É. A gente abriu a produção do grupo mesmo. A forma como a gente trabalhava internamente, e tentou fazer um laboratório a partir disso. É a coisa bem colaborativa mesmo, de ir procurando ajuda das pessoas que estão próximas. A ideia era construir essa comunidade de pessoas relacionadas, para já saberem quem chamar.

Thiago: … e como estruturar os próximos projetos e coisas do tipo?

Pedro: É isso. Foi bem legal até, porque durante o laboratório tiveram vários proponentes, né? E a gente abriu o laboratório para colaboradores, não teve tantas inscrições de colaboradores. Isso não funcionou tão bem quanto a gente esperava.

Thiago: Engraçado, né? Porque quando eu conversei com você por email, você me deu uma lista de pessoas que estavam trabalhando com arte e tecnologia, tipo, no geral ainda, partindo para o audiovisual, gambiologia, para som até, que eu fiquei abismado. Eu falei: “Meu, se uma pessoa me dá tantas indicações assim, imagina o quanto está sendo feito em todo o estado?”.

Pedro: Pois é. Mas aí é que está. Eu te dei aquelas indicações porque o Fred Paulino colabora com o Marginalia pontualmente, ele deu uma oficina com a gente no ano passado. Então, tipo, é um parceiro do grupo de longa data, assim. E o Fernando Rabelo a mesma coisa. Também deu uma oficina no ano passado lá.

Thiago: Ah, entendi.

Pedro: E as outras pessoas foram os proponentes dos projetos, do Lab mesmo. Tiveram duas pessoas trabalhando com som, teve gente trabalhando com tipografia, estilismo, várias coisas.

Thiago: É porque eu acho engraçado você ter falado que, tipo, abriu a inscrição para colaboradores e não ter sido preenchido, não ter muitas inscrições.

Pedro: A gente não conseguiu fazer a coisa ser estruturada direito. Acabou que isso, inicialmente, era uma coisa que interessava muito a gente, e no final do projeto, até pela infraestrutura que conseguimos montar, porque era um projeto super baixo orçamento e tal, aí a gente não…

Thiago: … não conseguiu vingar, não conseguiu…

Pedro: … a ideia não foi para frente mesmo.

Thiago: Entendi. Tem planos de fazer isso de novo?

Pedro: Esse ano tem o Lab de novo, patrocínio da Vivo de novo. Aí ele vai ser internacional esse ano. Bem maior, menos residentes, mas uma atenção maior para esses residentes e para esse sistema de colaboração, de um modo geral.

Thiago: Então, a ideia é que se consiga trazer pessoas de outros países para passar um tempo aqui… Tem plano de fazer o contrário também? De mandar pessoas do Brasil para outro lugar?

Pedro: Não. Por enquanto não.

Thiago: Não?

Pedro: Dentro do Lab, não.

Thiago: E onde vai ser o Lab? Vai ser aqui mesmo?

Pedro: O Lab vai ser na av. Brasil, área central de Belo Horizonte, que é ali pra baixo.

Thiago: Mas já tem um local definido também? Quando vai ser aberto?

Pedro: O local definido… a gente acabou de assinar contrato, então ainda vai demorar um pouco para ser aberto, mas talvez setembro, por aí…

Thiago: Então a projeção é só para o ano que vem, né? Que começa a fazer toda a parte de residência?

Pedro: Não, segundo semestre.

Thiago: Então, no segundo semestre já começa mesmo? Tanto abrir inscrição quanto…

Pedro: A gente abre junto com o primeiro residente. Aí a gente abre o laboratório.

Thiago: Ah, entendi, entendi. Doido, né? Porque, meu, vai ser uma correria desgraçada para conseguir abrir um espaço com o primeiro residente que está vindo, porque tem que vir o outro edital…

Pedro: Mas até lá a gente tem esses três meses para a produção e tudo mais. Arrumar o espaço.

Thiago: Entendi. É, sei lá… eu acho pesado. Mano, que doideira. Não, mas é interessante saber que aqui, em Belo Horizonte, e isso pode ser um exemplo ainda, um caso, justamente para levar para São Paulo, por exemplo, Rio de Janeiro. Coisas do tipo. De pensar um local, justamente para ter essa troca entre residentes, essa troca de produtores que estão trabalhando com arte e tecnologia, e conseguir focar na comunidade. É o que você falou, tem muita inspiração também no que é feito lá no Medialab do Prado. Aonde entra essa inspiração, como entra essa inspiração, e porque saiu essa inspiração?

Pedro: Eu não sei. A inspiração, pelo meu lado mais assim, vem um pouco do Interactivos?’10 mesmo. Porque o Interactivos é um evento muito importante. Ele chega até você. Então, acho que… pensar como se construiu o Marginalia nesse espírito do Interactivos, um laboratório por um período muito curto, né? E o Marginalia já tinha a intenção de ser um laboratório longo, só que, usando aquela ideia dos colaboradores, de ter a convocatória de colaboradores, de ter uma revista também, como o Interactivos tem chamada para artigos.

Thiago: E o Marginalia conseguiu lançar a revista?

Pedro: A gente acabou de lançar a revista.

Thiago: Pô, que legal. Depois eu quero ver.

Pedro: Está no nosso site.

Thiago: Continua… a parte da influência do Medialab do Prado, por exemplo.

Pedro: Do Medialab do Prado… Pois é, eu acho que vai um pouco por aí. Esse tipo de modelo dessas atividades meio esporádicas que acontecem eventualmente, que a gente transfigurou. O Marginalia Lab, se for pensar, é um Interactivos adaptado para uma realidade que funciona, em Belo Horizonte, e que a gente também está experimentando. Na verdade não funciona. A gente está tentando descobrir o que funciona, enquanto a gente faz a coisa. Um projeto meio experimental, nesse sentido…

Thiago: E quais os ganhos você acha que, por exemplo, trazer um… não um Medialab do Prado, mas um conceito de Medialab para aqui, para Belo Horizonte, o que é que isso acarreta? Porque trazer residentes de fora?

Pedro: Aí tem essa outra questão, também, que uma das coisas que a gente estava querendo para esse ano era fazer o Interactivos em Belo Horizonte. Fazer exatamente o Interactivos, trazer o modelo espanhol…

Thiago: Qual que é o modelo espanhol?

Pedro: Pois é, esse evento que acontece por duas semanas. No caso, a gente estava pensando em abrir uma convocatória para oito colaboradores – e aí, uma parte tem que ser reservada para o público nacional e outra parte internacional… para proponentes, né? E colaboradores abre também o mesmo número do modelo espanhol – não sei se são trinta, mas é um número bem grande. Eles dão um apoio mínimo aos colaboradores, um apoio maior aos proponentes, essas pessoas se encontram e durante o workshop Interactivos eles desenvolvem projetos para serem finalizados ao final desse evento e expostos. E aí o evento tem essas outras questões, que acontecem simultaneamente, a chamada de artigos. Agora em Madrid vai ter o LabtoLab também.

Thiago: O LabtoLab é uma vertente disso aí?

Pedro: O LabtoLab eu acho que, na verdade, é por outro lado. Foi incorporado à atividade, mas não é relacionado exclusivamente ao Medialab. Parece que é uma junção de cinco laboratórios europeus.

Thiago: Entendi.

Pedro: Mas eu posso estar errado nisso [e são mesmo. Neste último encontro que aconteceu em junho, foram cinco oficiais e mais dois laboratórios convidados].

Thiago: Não, não, tranquilo. Entendi. E o conceito é… o conceito não, a ideia é justamente trazer isso daí para BH?

Pedro: Não cada uma dessas coisas. A gente vai fazer uma adaptação no final do Interactivos – provavelmente ele não vai ser feito no modelo espanhol, mas é bem mais próximo disso do que o Marginalia Lab, que é um laboratório de tecnologia.

Thiago: E qual que ….

Pedro: É a coisa, realmente, de pegar uma comunidade de interessados em Belo Horizonte durante um período intenso, juntar todo mundo e pessoas interessadas na América Latina, em todos os lugares do mundo; trazer todo mundo para cá e colocar para produzir junto. Acho que a motivação, de uma certa forma, do projeto, de um modo geral, é esse. Realmente fazer as pessoas ficarem juntas, não necessariamente fisicamente no mesmo espaço…

Thiago: Mas produzindo, né?

Pedro: Mas produzindo… Sempre trocando enquanto se produz.

Thiago: Vou fazer uma pergunta que talvez não tenha uma resposta, mas é interessante fazer: por que BH?

Pedro: Por que BH? Todos somos de Belo Horizonte, moramos em Belo Horizonte…

Thiago: Mas você acha que, por exemplo, um projeto desse, vinga bastante aqui em BH?

Pedro: Tem essa questão também. O projeto Marginalia, especificamente em Belo Horizonte, estar funcionando tem muito a ver com isso. Ela está pedindo isso de uma certa forma. Isso na cultura de uma forma geral. Os espaços vão aparecendo gradativamente. Belo Horizonte vai se tornando um pouco mais importante e tal. E o Marginalia Lab tem muitas pessoas que a gente sempre vê, interessadas na área, mas elas não têm, às vezes, conhecimento técnico, aí precisam de um colaborador para resolver esse problema. Outras vezes é um colaborador realmente para entrar na concepção da coisa.

Thiago: Entendi. E a ideia… a ideia não, mas o ganho de trazer para BH é justamente conseguir fomentar esse tipo de coisa e conseguir… não criar cultura, mas usar… usar não, mas, tipo, explorar a cultura que está sendo criada já aqui, e conseguir explorar de melhor forma? Porque, assim, o que eu fico pensando é…

Pedro: É, de uma certa forma…

Thiago: Porque tem um conceito muito interessante aí, que é justamente de trabalhar com esse tipo de colaboração e trabalhar com esse tipo de intercâmbio entre artistas e produtores, no geral (pensando em desenvolvedor, pensando em tudo), que pode trazer, tipo… você traz muita coisa para um determinado local que pode não ter procura. Mas você pode ter tanta procura, mas não sanar tanto, entendeu? Do tipo, por exemplo, as demandas que podem ter aqui em BH, não são as mesmas demandas que os caras lá de fora poderiam sanar.

Pedro: Sim.

Thiago: Há como casar tudo isso? Tipo, está sendo estudado esse tipo de coisa? Eu estou perguntando isso porque me interessa. Isso demanda um tipo de mapeamento das coisas que estão sendo feitas aqui, ou das coisas que estão sendo estruturadas aqui, que para a minha pesquisa é ótimo. Por isso é que eu estou perguntando.

Pedro: Você pode repetir a pergunta?

Thiago: A pergunta é, tipo: há como mensurar… para trazer o Interactivos para cá, está sendo mensuradas quais as demandas? Como vai ser explorado isso?

Pedro: Tanto no Interactivos quanto no Lab isso já acontece. E o Lab, atualmente, com esse nosso know-how do ano passado, a gente já sabe. Esse grupo das pessoas que já estão produzindo por causa do Lab do ano passado, a gente já sabe quem são, no que é que elas estão interessadas. Geralmente essas pessoas trabalham em grupos também, com outras pessoas, então, a gente sabe que tem para onde crescer.

Thiago: Entendi.

Pedro: Em determinadas áreas, e a gente pretende focar nisso.

Thiago: Entendi. Como é a produção aqui de BH? Você tem alguma ideia, assim? Porque, por exemplo, lá em São Paulo, que foi como eu falei, é muito mais focado… é muito mais focado, não, tem de tudo, claro, mas entre os artistas que eu conversei, eles ganharam mais destaque, tipo, considerando pelos prêmios que têm por ali (Instituto Sergio Motta, Rumos do Itaú Cultural, enfim, e coisas do tipo), é muito mais em software do que em hardware. É muito mais pensar como você consegue trabalhar, no caso de web, como ferramenta, para você conseguir determinada coisa. Tem questionamentos que são por fora, também. Eu conversei com o Cláudio Bueno, ele fala: “Ah, eu trabalho com estética de transmissão, com questionamento mais de transmissão e com questionamento de espaço”, mas para tanto ele foca em software. Tipo, “Ah, desenvolver um aplicativo”, aplicativo não, um mecanismo que você pega, manda uma mensagem para o seu celular, você consegue controlar um piano. Aqui em BH, você acha que é mais forte a produção em audiovisual, ou mais para web, mais… porque assim, BH tem uma história muito grande em termos de audiovisual. Minas Gerais inteiro tem uma produção muito grande, uma história boa. Por isso é que eu estou questionando. Vendo a arte e tecnologia, vendo todo esse conceito, todo esse “oba-oba”: Oi Futuro, que está vindo; Vivo Lab. Você vê que começam a surgir diversas iniciativas. O que está saindo dali? Você tem toda aquela bagagem histórica, chega a arte e tecnologia e continua sendo o desenvolvimento daquilo?

Pedro: “Desenvolvimento daquilo?”

Thiago: Desenvolvimento desse tipo de produção audiovisual… entendeu?

Pedro: Pois é, então, vamos pensar em Belo Horizonte. Belo Horizonte tem o Lab Midia, que é o laboratório que era do [Rodrigo] Minelli, ele coordenava junto com da Regina Mota, que é o laboratório da comunicação. Na verdade, o Marginalia Lab tem essa aproximação com o Lab Midia, por conta do Minelli, que coordena também o Arte.Mov, que é um festival de mídias móveis aqui em Belo Horizonte. Eu acho que por esse viés, por ter um laboratório que tem essa veia de arte e tecnologia imbuída nele, na comunicação, de uma certa forma, aproxima. Porque é onde, na universidade federal, tem vídeo, na escola de comunicação, aqui em Minas Gerais.

Thiago: E tem fomento por parte da universidade, também, para esse tipo de produção?

Pedro: Pois é, não. Na universidade não.

Thiago: Nada?

Pedro: É porque, agora, tem o curso novo da UFMG de artes digitais especificamente. O Chico Marinho que está muito envolvido, mas eu não sei, realmente, como anda. Mas aí também tem esse núcleo na Belas Artes, por conta do curso de artes digitais e da produção anterior também, porque o Chico Marinho já tem muitos anos que está dando esse pontapé inicial em artes digitais na Belas Artes, mesmo sem ter o curso antes. Na arquitetura, aí tem o Cabral, que… ficam sempre uns espaços na universidade, tentando fomentar as coisas e uns eventos, como o FAD.

Thiago: “FADIU”?

Pedro: FAD. Festival de Artes Digitais.

Thiago: Ele está aqui também?

Pedro: É daqui.

Thiago: É daqui?

Pedro: Sim.

Thiago: Hum, tá, continua. Nossa, eu jurava que era em outro lugar, mas tudo bem.

Pedro: O que mais? O próprio Arte.Mov. Enfim.

Thiago: É, porque são diversas iniciativas que estão começando daqui, por exemplo…

Pedro: Eu acho que tudo isso ajuda um pouco a reiterar que a produção é muito heterogênea. O laboratório na FAFICH tem essa veia talvez mais para audiovisual. E, na verdade, não é um laboratório de arte e tecnologia, é um laboratório de audiovisual, objetivamente, então a coisa entra sutilmente.

Thiago: É FAFICH que você falou?

Pedro: É. FAFICH.

Thiago: O que é?

Pedro: Nossa… Faculdade de filosofia….

Thiago: Da UFMG?

Pedro: Da UFMG.

Thiago: Tá.

Pedro: Eu não sei a sigla.

Thiago: Não… eu consigo achar. Eu só preciso saber onde é para eu conseguir procurar. Entendi.

Pedro: É, cada lugar tem um nome desse.

Thiago: É que em São Paulo o da USP é FFLCH.

Pedro: É verdade. Eu lembro. Ah, o que mais? Pois é, aí essa é a questão, produção totalmente heterogênea. Aí tem o Fernando Rabelo e o Fred Paulino, nesse política mais gambiológica, low-tech. Mas eu não sei… Aí estão aparecendo várias pessoas novas, também por conta do Marginalia. Tem várias pessoas da vídeoarte que, também, é um grupo bem conectado. Está ficando bem conectado, eu acho.

Thiago: Também por causa da cidade, né? Porque não é que nem em São Paulo que cai no buraco negro de São Paulo.

Pedro: É, você sabe de tudo o que está sendo lançado. Você conhece todas as pessoas. A cidade não é muito grande.

Thiago: Mas até me surpreendi com a a cidade. Achei que era bem menor. Mas não, dá uma enganada… Então, agora eu vou ampliar um pouco o escopo, porque eu sempre pergunto isso para todo mundo que eu entrevisto. É de saber qual a opinião sobre a arte digital aqui no Brasil inteiro? Porque você consegue ver diversos tipos de produção, que nem, tipo, consegui achar vocês, por mais que eu perguntasse para Giselle [Beiguelman], tem meios para conseguir. A Marginalia eu já conhecia antes, por causa do Arte.mov. Mas você vê que estão surgindo diversas iniciativas aqui, que não se comparam. A qualidade é muito maior… muito maior não, ou se equiparado com o que é feito lá fora. Que nem o Cicero Silva, que foi o coordenador de Arte Digital do Fórum Brasileiro de Cultura Digital, ele me falou até – e eu estou me baseando até bastante nele, justamente por ele ter tido essa visão fazendo o fórum. Porque aqui a produção é pouca, mas a qualidade é boa. Se compara ao que é feito em Nova Iorque, o que é feito na Espanha, o que é feito na França, enfim. O que é que você acha que está vindo aí? Qual é o diferencial brasileiro, qual que não é ?

Pedro: O diferencial brasileiro?

Thiago: Tem diferencial?

Pedro: É, eu não acredito tanto nisso, nessa coisa de diferencial por cultura necessariamente.

Thiago: Então, tem diferencial? Você acha que tem um específico assim?

Pedro: Eu acho que, na verdade, todos o grupos de todos os lugares do mundo vão ter seu próprio diferencial…

Thiago: Quer entrar?

Pedro: Eu acho que sim.

Thiago: Porque eu estou vendo você tremendo…

[troca de lugar]

Thiago: Eu vou voltar a pergunta. O que é que você acha que esta sendo produzido de arte digital aqui no Brasil? Você consegue ver características? Você consegue ver, enfim, saber o que é, tipo, ver tendências? Ou não? Ou ver se você tem singularidade, ou não? O que é a arte digital hoje aqui no Brasil?

Pedro: Eu vou falar mais de Minas Gerais, que é o que eu estou mais próximo, até mesmo pelo Marginalia Lab. Mas que é essa questão do heterogêneo mesmo. Cada um é muito específico, todos os projetos são bastante específicos, e foram 10 projetos selecionados para o laboratório no ano passado, e cada um em uma área completamente diferente. Eu acho que, de uma certa forma, tem um pouco essa cara a produção. Ela tenta, de um modo geral, abarcar muitas áreas. Eu acho um pouco difícil, nesse sentido, conseguir encontrar esse ponto de identidade de uma cultura ou de um povo que sobressai.

Thiago: Não, porque a arte digital, pelo menos o que eu tenho visto, consegue misturar diversas vertentes artísticas, e eu acho que isso é o legal dela. Você consegue trabalhar o audiovisual, texto, imagem, tudo a mesma coisa. E você não está criando algo esquizofrênico, ou não. Esse é o legal, mas você consegue ver… eu não sei como é aqui. Lá em São Paulo você consegue ver diversas iniciativas que estão acontecendo por lá. E eu acho que isso também chega aqui, não tem como não chegar, né? Enfim, não tem restrição de acesso, nem algo do tipo. Mas você consegue ver um tipo de produção, por exemplo, você pega gambiologia… Gambiologia é uma coisa que é muito pensada aqui, que não é pensada tanto lá fora, eles não se preocupam tanto em requestionar o hardware, e dar uma outra significação para uma coisa que é antiga, quanto é feito aqui. Talvez por nossa tendência social, não sei o que é. Mas existe esse tipo de preocupação e exploração. Pela tua visão, pode ser de Minas, pode ser de… enfim. Tipo, focando em Minas, focando no Brasil inteiro, o que você vê nessa produção arte tecnológica daqui?

Pedro: O que é que eu vejo? Mas ainda nessa questão de traço, assim, muito específico…

Thiago: Não de traço, mas de característica?

Pedro: Não sei, eu acho que é uma produção, no Brasil, emergente. Acho que essa é a característica, na verdade. E talvez por ser emergente, ela seja tão heterogênea, e eu não consiga visualizar tantos traços.

Thiago: Entendi. Emergente a partir do… porque você pode pegar emergente que, tipo, está começando na parte de infraestrutura, a ser produzido, a “algumas pessoas estão começando a pensar nisso”…

Pedro: Por aí. Eu acho que as coisas estão começando a chegar até as pessoas por um baixo custo e facilmente, e cada vez mais. Ainda não está no ideal, mas, enfim, as coisas caminham nesse sentido. As pessoas com acesso a mais tecnologia… “mais tecnologia” é um conceito meio…

Thiago: É, porque é a democratização, né? Se você vê pelo baixo custo e, enfim, você consegue ter mais acesso.

Pedro: Democratização é uma palavra muito melhor…

Thiago: E baseado nisso… ainda bem que você tocou nesse assunto, porque também é a outra pergunta que eu sempre faço, e daí a gente já começa a encerrar. Começa a encerrar não, daí a gente já encerra. Como eu falei, minha pesquisa era muito focada também – era e continua sendo, em parte – para produção feita com celular, com câmera digital. Como você acha que esse tipo de mecanismo, esse tipo de aparelho, focado na democratização da tecnologia, do acesso tecnológico, como você acha que isso influencia na produção artística contemporânea?

Pedro: Artística de um modo geral, latu senso?

Thiago: De um modo geral.

Pedro: Eu não sei. Eu acho, na verdade, não só celular, né? Tudo. Tanto camcorder, Mini DV, e tal, tudo está tão perto, assim. É fácil, realmente, você produzir uma imagem. Eu não sei. Eu estava até vendo o Photoshop CS5, com aquele processo deles de content-aware, tipo fill? Você preenche uma área com reconhecimento do conteúdo das áreas externas.

Thiago: Nossa, ãm…

Pedro: … das áreas circundas, na verdade. De uma certa forma é isso. Mas, enfim, aí você cria umas fotomanipulações surrealistas bizarras, tentando, sei lá, apagar um prédio da paisagem. Dá uns bugs assim, e a coisa é criada… mas eu não sei porque é que eu comecei a falar disso…

Thiago: Eu até entendo de onde você saiu justamente para conseguir ver esse tipo de fabricação de…

Pedro: Acesso. É isso, acesso às tecnologias. Porque é esse o ponto. O meu trabalho em fotografia, desde sempre, é com fotomanipulação. Eu trabalho nessa esfera que o Photoshop está começando a automatizar a coisa. Eu trabalho isso há muito tempo. De uma certa forma, o Photoshop substitui uma série de trabalhos muito manuais que eu tinha que fazer nessa versão nova. A minha facilidade para fazer aquilo é muito maior. Acho que é nesse sentido da democratização, sabe? Até nessas coisas.

Thiago: Sei. Até na parte do software, né?

Pedro: Que chega até você mesmo, do poder que você tem sobre o conteúdo que você produz. Você tem como produzir conteúdo. Você não tem que comprar uma câmera toda potente e tal.

Thiago: Baseado nisso eu vou fazer uma outra pergunta que eu sempre matuto, que é fato. Antigamente, se trabalhava muito com código bruto, né? Tipo, você não tinha interfaces que conseguiam ficar entre a raiz: o computador, o usuário, o produtor, ali. Hoje em dia, você vê que a interface está cada vez melhor e cada vez ficando mais fácil, automatizada, né?

Pedro: E uma questão com relação a interface… porque o Marginalia tem um pouco essa perspectiva também de pesquisa da interface, para tentar descobrir uma interface lúdica. É um dos viéses que a gente trabalha. Coisas com a lanterna… de você descobrir uma forma de interagir com aquele conteúdo diferente mesmo. De uma certa forma, a interface com o usuário, ela se amplia muito, né? Com essa coisa da instalação, e coisa e tal. O que é isso?

Thiago: É o meu celular. As pessoas que ficam mandando mensagens. Mas fala um pouco mais da interface. Eu queria saber – já que você entrou no assunto falando que a Marginalia trabalha com isso – qual outro projeto, além da lanterna, vocês trabalham com interface? Porque isso é uma coisa que está me interessando muito agora, tipo, por isso que eu estou…

Pedro: Mas aí… Pois é… eu vou pegar o meu computador, então…

Thiago: Não, tranquilo.

Pedro: No começo do Marginalia, nessa história do vídeo e tal, a gente usava computer vision para criar essa interface, conseguir fazer ela funcionar.

Thiago: Entendi.

Pedro: Aí a coisa foi evoluindo e já vira uma experiência totalmente diferente. Assim, acho que a produção do grupo deixa de se focar tanto nisso, a partir de um determinado ponto…

Thiago: Focar na interface?

Pedro: É. Assim, não era exatamente um foco, mas era um dos pontos de interesse.

Thiago: E de preocupação?

Pedro: E de preocupação. Só que esses trabalhos começam a não funcionar com a necessidade de existir uma interface para intermediar esse tipo de compreensão. A gente tem projetos estritamente hardware – atualmente, não realizados, como projetos. Essas coisa que a gente está pensando, envolvem um aspecto muito maior, eu acho.

Thiago: Mas focado, por mais que não seja o ponto principal, ainda há preocupação nessa interface entre homem-máquina e coisa do tipo, ou não?

Pedro: É. Preocupação com interface homem-máquina sim. Mas interface como mediação entre o sujeito e um conteúdo, não tanto. Porque nem todo projeto nosso passa a ter um conteúdo realmente para ser mostrado dentro desse projeto. Conteúdo, assim: um pedaço de um vídeo, uma fotografia. A coisa, a instalação em si vira o projeto, né? Então, de uma certa forma eu acho que a interface desaparece, apesar de ela ainda existir.

Thiago: Mas acha que a interface desaparece como? Eu acho que eu não consegui ver isso.

Pedro: É difícil explicar também o que eu estou pensando… Eu posso ter um minuto?

Thiago: Claro, claro. Fique à vontade. Porque sempre quando se fala de interface… você deu o exemplo da lanterna, a lanterna é uma interface para você conseguir visualizar aquele tipo de conteúdo.

Pedro: Sim, sim.

Thiago: Também é difícil conseguir imaginar que algo deixou de ser interface, ou algo deixou de ter uma interface.

Pedro: No caso, eu acho que a interface eu estou usando mais no sentido da computacional. Uma coisa é interface com a máquina diretamente. Essa máquina computador, que você fornece esse input, ela te oferece um output que, sei lá, pode ser um som…

Thiago: Qualquer coisa?

Pedro: Qualquer coisa.

Thiago: Entendi.

Pedro: Interface nesse sentido, assim. A interface física da coisa..

Thiago: O que eu pensei justamente na lanterna, porque você tinha falado na interface para o conteúdo.

Pedro: Que no caso a lanterna é isso.

Thiago: É, né? Por isso que eu falei. Eu não consigo imaginar que, tipo, não exista esse tipo de interface.

Pedro: Não, mas a interface, ela sempre continua existindo. O que eu estou falando dentro da produção do Marginalia, a interface desse viés computacional.

Thiago: Eu entendi. Eu acho que eu entendi. É porque o… Se você pensar em uma interface homem-máquina… É porque você pensa, tipo numa instalação. Numa instalação você está desenvolvendo uma coisa. Você como produtor, você como artista, você como o que for. Tipo, você está projetando alguma coisa e tem uma interface ali. É porque eu ainda continuo intrigado com a falta de interface para o conteúdo, entendeu?

Pedro: O computacional. Então deixa eu dar um outro exemplo aqui. Um outro projeto nosso que não envolve uma interface computacional at all. Envolve arduinos… um “quer vir a ser” computacional. Tem uma matriz de válvulas (isso é um projeto meio utópico, um pouco… não sei se vai ser realizado), mas essa matriz de válvulas vai liberando gotas, mas quando você passa numa determinada região, gotas param de cair. É uma chuva, e ela vai abrindo esse buraco enquanto você passa. Enfim, a interface no caso aí, ela existe, mas…

Thiago: Não é computacional?

Pedro: É uma interface com a obra diretamente. Eu acho que a interface passa a ser a chuva, talvez, sabe? É o que faz a pessoa conseguir…

Thiago: … ou a ausência de, né?

Pedro: … descobrir como funciona esse sistema interno de regras. É o que faz a pessoa descobrir como é que ele funciona. E não a interface dela com a máquina diretamente, assim, sabe?

Thiago: Entendi, entendi. E agora a preocupação de vocês está muito mais nessa. É isso? No computacional?

Pedro: Não. Ela não está muito mais. Ela não esta muito mais nem em um, nem em outro. Ela começa a ganhar outras perspectivas.

Thiago: Ah, entendi.

Pedro: Porque nasceu desse jeito o projeto das lanternas, sendo uma interface diferente para interagir com um vídeo. Uma forma diferente de ver o vídeo. Interface como meio para um fim externo. Um fim externo à própria obra, no sentido de estar dentro de um equipamento.

Thiago: Eu acho que eu entendi. Eu acho.

Pedro: Eu estou pensando numa esfera virtual das imagens…

Thiago: Uma esfera virtual das imagens… Não, eu acho que eu entendi, entendi. E eu vou voltar um pouquinho, só para terminar de encerrar. Vocês usam produção por celular e câmera digital?

Pedro: Nós, por celular, não. A gente nunca trabalhou com isso.

Thiago: Direto, né?

Pedro: Diretamente não.

Thiago: Mas trabalhou com audiovisual por outras formas.

Pedro: É. Sim. Audiovisual, sempre. Até hoje, todas as obras prontas, trabalharam com audiovisual em maior ou menor grau.

Thiago: Mas todas com audiovisual?

Pedro: Todas com audiovisual.

Thiago: Entendi.

Pedro: Porque, na verdade, o que a gente tem de obras finalizadas, prontas para exposição é o 1.0 e o Anamorfoses Cronotópicas. E os outros são projetos, protótipos, coisas que…

Thiago: Estão começando a se estruturar?

Pedro: Algumas já estão bem estruturadas, mas aí são coisas caras. Sempre fica essa questão. Tem que…

Thiago: “Coisas caras”, o quê? Da própria instalação ou de você conseguir ter acesso para você conseguir desenvolver?

Pedro: Não. Coisas caras de componentes para instalação. A coisa da chuva, por exemplo. Uma matriz de válvulas em uma sala de 10 x 10 metros, imagina o tanto de motores para controlar cada válvula. Sabe, é isso o que eu estou dizendo. Aí você pega, sei lá, 10 mil válvulas, o total dessa matriz…

Thiago: Imagina o custo que dá, né?

Pedro: Sério. É muito caro. A gente até já olhou. Acho que dava US$ 300 mil só de motor para essa instalação.

Thiago: Porra! Só disso, né? A obra total chega a quanto?

Pedro: Ah, mais de um milhão de dólares. Fácil. Mas, tipo, um primeiro esboço também. Eu fiz esse orçamento por alto baseado nesse primeiro esboço. Mas alguém pode dar soluções mais utilizadas para esse sistema. Possivelmente…

Thiago: Desculpa, mas você vai lá no LabtoLab da Espanha, para… ?

Pedro: … para apresentar o Marginalia, e entrar em contato com esse laboratórios. Até mesmo para o evento no final do ano. Para a gente ter esses contatos…

Thiago: Para organizar… Entendi. Acho que é isso, meu.

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Com a ajuda de Ligia Souza Aranha na transcrição. Ela transcrevendo, eu editando.