Donna Haraway, Hari Kunzru e Tomaz Tadeu (org.)
Autêntica Editora, 2009 (Coleção Mimo)

Nós ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do humano (Tomaz Tadeu)

“Pois uma das mais importantes questões de nosso tempo é justamente: onde termina o humano e onde começa a máquina? Ou, dada a ubiquidade das máquinas, a ordem não seria a inversa?: onde termina a máquina e onde começa o humano? Ou ainda, dada a geral promiscuidade entre o humano e a máquina, não seria o caso de se considerar ambas as perguntas simplesmente sem sentido? Mais do que a metáfora, é a realidade do ciborgue, sua inegável presença em nosso meio (“nosso”?), que põe em xeque a ontologia do humano. Ironicamente, a existência do ciborgue não nos intima a perguntar sobre a natureza das máquinas, mas, muito mais perigosamente, sobre a natureza do humano: quem somos nós?

Primeiramente, a ubiquidade do ciborgue. Uma das características mais notáveis desta nossa era (chamem-na pelo nome que quiserem: a mim, “pós-moderna” não me desagrada) é precisamente a indecente interpretação, o promíscuo acoplamento, a desavergonhada conjunção entre o humano e a máquina. Em um nível mais abstrato, em um nível “mais alto”, essa promiscuidade generalizada traduz-se em uma inextrincável confusão entre ciência e política, entre tecnologia e sociedade, entre natureza e cultura. Não existe nada mais que seja simplesmente “puro” em qualquer dos lados da linha de “divisão”: a ciência, a tecnologia, a natureza puras; o puramente social, o puramente político, o puramente cultural. Total e inevitável embaraço. Uma situação embaraçosa? Mas, cheia de promessas, também: é que o negócio todo é, todo ele, fundamentalmente ambíguo” (in págs. 10-11, Nós ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do humano)

“A imagem do ciborgue nos estimula a repensar a subjetividade humana; sua realidade nos obriga a deslocá-la” (in pág. 13, Nós ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do humano)

“A ideia do ciborgue, a realidade do ciborgue, tal como a da possibilidade da clonagem, é aterrorizante, não porque coloca em dúvida a origem divina do humano, mas porque coloca em xeque a originalidade do humano” (in pág. 14, Nós ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do humano)

“Primários são os fluxos e as intensidades, relativamente aos quais os indivíduos e os sujeitos são secundários, subsidiários” (in pág. 14, Nós ciborgues – o corpo elétrico e a dissolução do humano)

Você é um ciborgue”- um encontro com Donna Haraway (Hari Kunzru)

“A era do ciborgue é aqui e agora, onde quer que haja um carro, um telefone ou um gravador de vídeo. Ser um ciborgue não tem a ver com quantos bits de silício temos sob nossa pele ou com quantas próteses nosso corpo contém. Tem a ver com o fato de Donna Haraway ir à academia de ginástica, observar uma prateleira de alimentos energéticos para bodybuilding, olhar as máquinas para malhação e dar-se conta de que ela está em um lugar que não existiria sem a ideia do corpo como uma máquina de alta performance. Tem a ver com calçados atléticos.” (in pág. 23, “Você é um ciborgue”- um encontro com Donna Haraway)

“Nossos corpos, nutridos eplos produtos da grande indústria de produção de alimentos, mantidos em forma sadia – ou doentia – pelas drogas farmacêuticas e alterados pelos procedimentos médicos, não são tão naturais quanto a empresa Body Shop que nos fazer crer. A verdade é que estamos construindo a nós próprios, extamente da mesma forma que construímos circuitos integrados ou sistemas políticos – e isso traz algumas responsabilidades” (in pág. 24, “Você é um ciborgue”- um encontro com Donna Haraway)

“As feministas ao redor do mundo têm tirado proveito dessa possibilidade. O ciberfeminismo – não é um termo que Haraway utilize – está baseado na ideia de que, em conjunção com a tecnologia, é possível construir nossa identidade, nossa sexualidade, até mesmo nosso gênero, extamente da forma que quisermos. Em contraste com o feminismo baseado na proibição do assim chamado “movimento da correção política”, que se concentra em tentar policiar a sexualidade e em legislar contra comportamentos “inapropriados”, as ciberfeministas deleitam-se em uma perversidade polimorfa. Elas formam uma igreja ampla e aberta (afinal, tudo é permitido): suas expressões vão desde sérias análises históricas das relações entre mulheres e a tecnologia até as afirmações do grupo australiano de arte VNS Matrix de que o clitóris é um instrumento para lançar as mulheres em um ciberespaço de uma ordem superior. Haraway não é nenhuma fanática do tipo “boba-feliz” da tecnologia – ela critica duramente os tecnoutópicos, incluindo alguns daqueles que podem ser encontrados em revistas que, como a Wired, cobrem o estilo de vida high-tech. Mas tampouco é adepta daquilo que ela chama de “tecnofobia incondicional” de grande parte da política feminista. Como dizem as ciberfeministas do webzine Geekgirl, ‘as garotas precisam de modems’.” (in pág. 26, “Você é um ciborgue”- um encontro com Donna Haraway)

“[citando Haraway] A tecnologia não é neutra. Estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de nós. Vivemos em um mundo de conexões – e é importante saber que é que é feito e desfeito” (in pág. 32, “Você é um ciborgue”- um encontro com Donna Haraway)

Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX (Donna Haraway)

“Um ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção.” (in pág. 36, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“O sexo-ciborgue restabelece, em alguma medida, a admirável complexidade replicativa das samambaias e dos invertebrados – esses magníficos seres orgânicos que podem ser vistos como uma profilaxia contra o heterossexismo. O processo de replicação dos ciborgues está desvinculado do processo de reprodução orgânica. A produção moderna parece um sonho de colonização ciborguiana, um sonho que faz com que, comparativamente, o pesadelo do taylorismo pareça idílico. Além disso, a guerra moderna é uma orgia ciborguiana, codificada por meio da sigla C3I (comando-controle-comunicação-inteligência) – um item de 84 bilhões de dólares no orçamento militar. Estou argumentando em favor do ciborgue como uma ficção que mapeia nossa realidade social e corporal e também como um recurso imaginativo que pode sugerir alguns frutíferos acoplamentos. O conceito de biopolítica de Michel Foucault não passa de uma débil premonição da política-ciborgue – uma política que nos permite vislumbrar um campo muito mais aberto.” (in págs. 36-37, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“O ciborgue é uma criatura de um mundo pós-gênero: ele não tem qualquer compromisso com a bissexualidade, com a simbiose pré-edípica, com o trabalho não alienado. O ciborgue não tem qualquer fascínio por uma totalidade orgânica que pudesse ser obtida por meio da apropriação última de todos os poderes das respectativas partes, as quais se combinariam, então, em uma unidade maior. Em certo sentido, o ciborgue não é parte de qualquer narrativa que faça apelo a um estado original, de uma ‘narrativa de origem’, no sentido ocidental, o que constitui uma ironia ‘final’, uma vez que o ciborgue é também o telos apocalíptico dos crescentes processos de dominação ocidental que postulam uma subjetivação abstrata, que prefiguram um eu último, libertado, afinal, de toda dependência – um homem no espaço. As narrativas de origem, no sentido ‘ocidental’, humanista, dependem do mito da unidade original, da ideia de plenitude, da exultação e do terror, representados pela mãe fálica da qual todos os humanos devem se separar – uma tarefa atribuída ao desenvolvimento individual e à história, esses gêmeos e potentes mitos tão fortemente inscritos, para nós, na psicanálise e no marxismo. Hilary Klein argumenta que tanto o marxismo quanto a psicanálise, por meio dos conceitos de trabalho, individuação e formação de gênero, dependem da narrativa da unidade original, a partir da qual a diferença deve ser produzida e arregimentada, num drama de dominação crescente da mulher/natureza. O ciborgue pula o estágio da unidade original, da identificação com a natureza, no sentido ocidental. Essa é sua promessa ilegítima, aquela que pode levar à subversão da teleologia que o concebe como guerra nas estrelas.

O ciborgue está determinadamente comprometido com a parcialidade, a ironia e a perversidade. Ele é oposicionista, utópico e nada inocente. Não mais estruturado pela polaridade do público e do privado, o ciborgue define uma pólis tecnológica baseada, em parte, numa revolução das relações sociais do oikos – a unidade doméstica. Com o ciborgue, a natureza e a cultura são reestruturadas: uma não pode mais ser o objeto de apropriação ou de incorporação pela outra. Em um mundo de ciborgues, as relações para se construir totalidades a partir das respectivas partes, incluindo as da polaridade e dominação hierárquica, são questionadas.” (in págs. 38-39, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“O principal problema com os ciborgues é, obviamente, que eles são filhos ilegítimos do militarismo e do capitalismo patriarcal, isso para não mencionar o socialismo de estado. Mas os filhos ilegítimos são, com frequência, extremamente infiéis às suas origens. Seus pais são, afinal, dispensáveis.” (in pág. 40, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“O ciborgue aparece como mito precisamente onde a fronteira entre o humano e o animal é transgredida.” (in pág. 41, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“A escrita, o poder e a tecnologia são velhos parceiros nas narrativas de origem da civilização, típicas do Ocidente, mas a miniaturização mudou nossa percepção sobre a tecnologia. A miniaturização acaba significando poder; o pequeno não é belo: tal como ocorre com os mísseis ele é, sobretudo, perigoso.” (in pág. 43, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“As pessoas estão longe de serem assim tão fluidas, pois elas são, ao mesmo tempo, materiais e opacas. Os ciborgues, em troca, são éter, quintessência.” [comparando com Bauman] (in pág. 44, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“De uma certa perspectiva, um mundo de ciborgues significa a imposição final de uma grade de controle sobre o planeta; significa a abstração final corporificada no apocalipse da Guerra nas Estrelas – uma guerra travada em nome da defesa; significa a apropriação final dos corpos das mulheres numa orgia guerreira masculina (SOFIA, 1984). De uma outra perspectiva, um mundo de ciborgues pode significar realidades sociais e corporais vividas, nas quais as pessoas não temam sua estreita afinidade com animais e máquinas, que não temam identidades permanentemente parciais e posições contraditórias. A luta política consiste em ver a partir de ambas as perspectivas ao mesmo tempo, porque cada uma delas revela tanto dominações quanto possibilidades que seriam inimagináveis a partir do outro ponto de vista. Uma visão única produz ilusões piores do que uma visão dupla ou do que a visão de um monstro de múltiplas cabeças. As unidades ciborguianas são monstruosas e ilegítimas: em nossas presentes circunstâncias políticas, dificilmente podemos esperar ter mitos mais potentes de resistência e reacoplamento.” (in pág. 46, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Mas existe também um reconhecimento crescente de uma outra resposta: aquela que se dá por meio da coalizão – a afinidade em vez da identidade.” (in pág. 48, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Chela Sandoval (s.d., 1984) discute, a partir da história da formação da nova voz política representada pelas mulheres de cor, um novo modelo de identidade política que ela chama de ‘consciência de oposição’. Esse modelo baseia-se naquela capacidade de analisar as redes de poder que já foi demonstrada por aquelas pessoas às quais foi negada a participação nas categorias sociais da raça, do sexo ou da classe. A identidade ‘mulheres de cor’ – um nome contestado em suas origens por aquelas pessoas que ele deveria incorporar – produz não apenas uma consciência histórica que assinala o colapso sistemático de todos os signos de Homem nas tradições ‘ocidentais’, mas também, a partir da outridade, da diferença e da especificidade, uma espécie de identidade pós-modernista. Independentemente do que possa ser dito sobre outros possíveis pós-modernismos, essa identidade pós-modernista é plenamente política. A ‘consciência de oposição’ de Sandoval tem a ver com localizações  contraditórias e calendários heterocrônicos e não com relativismos e pluralismos.” (in pág. 48, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“As feministas-ciborgue têm que argumentar que ‘nós’ não queremos mais nenhuma matriz identitária natural e que nenhuma construção é uma totalidade.” (in pág. 52, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Perversamente, a apropriação sexual ainda tem, nesse feminismo, o status epistemológico do trabalho, isto é, o trabalho é o ponto a partir do qual uma análise capaz de contribuir para mudar o mundo deve fluir. Mas a objetificação sexual e não a alienação é a consequência da estrutura de sexo/gênero. No domínio do conhecimento, o resultado da objetificação sexual é a ilusão e a abstração. Entretanto, a mulher não é simplesmente alienada de seu produto: em um sentido profundo, ela não existe como sujeito, nem mesmo como sujeito potencial, uma vez que ela deve sua existência como mulher à apropriação sexual. Ser constituída pelo desejo de um outro não é a mesma coisa que ser alienada por meio da separação violenta do produto de sue próprio trabalho.” (in pág. 55, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“A teórica francesa, Julia Kristeva, afirma, em outro contexto, que as mulheres surgiram como um grupo histórico após a Segunda Guerra Mundial, juntamente com outros grupos como, por exemplo, a juventude. Suas datas são duvidosas; mas estamos agora acostumados a lembra que, como objetos de conhecimento e como atores históricos, a ‘raça’ nem sempre existiu, a ‘classe’ tem uma gênese histórica e os ‘homossexuais’ são bastante recentes. Não é por acaso que o sistema simbólico da família do homem – e, portanto, a essência da mulher – entra em colapso no mesmo momento em que as redes de conexão entre as pessoas no planeta se tornam, de forma sem precedentes, múltiplas, pregnantes e complexas. O conceito de ‘capitaismo avançado’ é inadequado para descrever a estrutura desse momento histórico. O que está em jogo, na conexão ‘ocidental’, é o fim do homem.” (in pág. 58, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Estamos em meio à mudança: de uma sociedade industrial, orgânica, para um sistema polimorfo, informacional; de uma situação de ‘só trabalho’ para uma situação de ‘só lazer’. Trata-se de um jogo mortal. Simultaneamente materiais e ideológicas, as dicotomias aí envolvidas podem ser expressas por meio do seguinte quadro, que resume a transição das velhas e confortáveis dominações hierárquicas para as novas e assustadoras redes que chamei de ‘informática da dominação’.” [segue a tabela] (in pág. 59, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Tal como ocorre com a raça, as ideologias sobre a diversidade humana têm que ser formuladas em termos de frequências de parâmetros, tais como grupos sanguíneos ou resultados de testes de inteligência. É ‘irracional’ invocar conceitos como ‘primitivo’ e ‘civilizado’. Para as liberais e as radicais, a busca de sistemas sociais integrados cede lugar a uma nova prática chamada ‘etnografia experimental’, na qual um objeto orgânico desaparece como tal em resposta ao jogo lúdico da escrita. Em termos ideológicos, o racismo e o colonialismo expressam-se, agora, em uma linguagem que fala em desenvolvimento e subdesenvolvimento, em graus e níveis de modernização. Pode-se pensar qualquer objeto ou pessoa em termos de desmontagem e remontagem; não existe nenhuma arquitetura ‘natural’ que determine como um sistema deva ser planejado. Os centros financeiros de todas as cidades do mundo, bem como as zonas de processamento de exportação e de livre comércio, proclamam este fato elementar do ‘capitalismo tardio’: o universo inteiro dos objetos que podem ser cientificamente conhecidos deve ser formulado como um problema de engenharia de comunicação (para os administradores) ou como uma teoria do texto (para aqueles que possam oferecer resistência). Trata-se, em ambos os casos, de semiologias ciborguianas.” (in pág. 62, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“A ‘integridade’ ou a ‘sinceridade’ do eu ocidental cede lugar a procedimentos decisórios e a sistemas especializados. Por exemplo, as estratégias de controle aplicadas às capacidades das mulheres para dar à luz a novos seres humanos serão desenvolvidas em uma linguagem que se expressará em termos de controle populacional e de maximização da realização de objetivos, concebendo-se esses últimos como um processo individual de tomada de decisão.” (in pág. 62, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Nenhum objeto, nenhum espaço, nenhum corpo é, em si, sagrado; qualquer componente pode entrar em uma relação de interface com qualquer outro desde que se possa construir o padrão e o código apropriados, que sejam capazes de processar sinais por meio de uma linguagem comum. (…) Nesse universo, a patologia privilegiada, uma patologia que afeta todos os tipos de componentes, é o estresse – um colapso nas comunicações (HOGNESS, 1983). O ciborgue não está sujeito à biopolítica de Foucault; o ciborgue simula a política, uma característica que oferece um campo muito mais potente de atividades.” (in págs. 62-63, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“Richard Gordon chamou essa nova situação de ‘economia do trabalho caseiro’. Embora ele inclua o fenômeno do trabalho caseiro propriamente dito, que está emergindo em conexão com a linha de montagem do setor eletrônico, Gordon quer nomear, com a expressão ‘economia do trabalho caseiro’, uma reestruturação do trabalho que, de forma geral, tem as características anteriormente atribuídas a trabalhos femininos, trabalhos que são feitos, estritamente, por mulheres. O trabalho está sendo redefinido ao mesmo tempo como estritamente feminino e como feminizado, seja ele executado, nesse último caso, por homens, ou por mulheres. Ser feminizado significa: tornar-se extremamente vulnerável; capaz de ser desmontado, remontado, explorado como uma força de trabalho de reserva; que as pessoas envolvidas são vistas menos como trabalhadores/as e mais como servos/as; sujeito a arranjos do tempo em que a pessoa ora está empregada num trabalho assalariado ora não, num infeliz arremedo da ideia de redução do dia de trabalho; levar uma vida que sempre beira a ser obscena, deslocada e reduzível ao sexo.” (in pág. 69, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)

“O espéculo tornou-se, nos anos 70, um símbolo da reinvindicação das mulheres pela retomada do controle de seu corpo. No contexto das práticas de reprodução cibernéticas, esse instrumento artesanal parece inadequado para expressar a política do corpo necessária na negociação das novas realidades que aí surgem. A autoajuda não é suficiente. As tecnologias da visualização relembram a importante prática cultural de se caçar com a câmera, bem como a natureza profundamente predatória de uma consciência fotográfica. O sexo, a sexualidade e a reprodução são atores centrais nos sistemas mitológicos high-tech que estruturam a nossa imaginação sobre nossas possibilidades pessoais e sociais.” (in págs. 74-75, Manifesto ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX)