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Entrevista _ Ivani Santana

Quando começou sua parceria com os GTs e a RNP?
Ivani SantanaA parceria do GTMDA – Grupo de Trabalho de Midias Digitais e Arte – começou no final de 2008 para a elaboração do projeto que foi submetido a RNP. Iniciamos o projeto em 2009 e fomos contemplados também em 2010 para a realização da segunda fase. De qualquer forma, o mais importante é pensar que o GTMDA é fruto da relação iniciada em 2005 quando elaboramos o espetáculo de dança telemática VERSUS que ocorreu com dançarinos em Brasilia e em Salvador, enquanto a música era gerada em João Pessoa. Esse espetáculo foi concebido para o lançamento da Rede Ipê e para a festa de homenagem dos 10 anos do Ministério de Ciência e Tecnologia. Desde então, foram realizadas várias obras artísticas dessa natureza utilizando a Rede Ipê, algumas com a parceria do LAVID – Laboratório de Vídeo Digital, coordenado pelo Dr. Guido Lemos, e outras produzidas pelo Grupo de Pesquisa Poéticas Tecnológicas: corpo, imagem (GP Poética), naquela eepoca era chamda de Grupo de Pesquisa Poética Tecnológica na Dança. Em parceria com LAVID foram realizados: “(In)TOQue” (2008), entre Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, e o “e_Pormundos Afeto” que teve estréia em 2009 entre Fortaleza, Barcelona e Natal e, recentemente, entre Buenos Aires, Barcelona e Salvador. Esse último espetáculo contou também com a colaboração do grupo catalão Konic Thtr. O GP Poética, coordenado por mim, criou os trabalhos “Por onde Cruzam Alamedas” (2006) e outras performances telemáticas pelo convite recebido do grupo espanhol “en lugar de creación”, a saber: “Proyecto Passo” (2006) entre Sevilha/Espanha, Salvador/Brasil, Arizona/EUA, obra apresentada na Bienal Internacional de Artes de Sevilha; e “Nukonén, Passo ao Chile” (2007) no qual participaram os mesmos países e ainda o Chile, apresentado no Festival Itálica.

A ideia de fazer uma performance envolvendo artistas em lugares diferentes veio antes ou depois destas parcerias?
Muito antes. Em 2001,  estudei na Ohio State University/EUA como artista convidada para fazer uma residência artística no Environments Lab coordenado pelo Prof. Johannes Birringer. Nesse período participei da ADaPT: the Association for Dance and Performance Telematics, o qual produzia várias sessões de telemática que eram realizadas entre 5 universidades dos EUA. Quando retornei ao Brasil, tentei dar continuidade ao trabalho em telemática, mas, aquela época, não haviam condições tecnológicas para atuar nessa vertente artística. Só retornei a essa pesquisa quando fui convidada para realizar VERSUS em 2005.

Sobre o GT MDA, como funciona a interação? Você coloca as necessidades artísticas e o grupo tenta adaptar a ferramenta, ou é a apresentação que é feita levando em conta as limitações e facilidades da ferramenta?
A ARTHRON é uma ferramenta desenvolvida a partir da estrutura que concebi para fazer o VERSUS. De certa forma, posso dizer que o ARTHRON é uma ferramenta tecnológica que reproduz a forma como crio nessa campo, ou seja, a possibilidade de chavemamento de imagens, do jogo de camadas, da troca de cenas, etc. Sendo assim, com o intuito de facilitar a operacionalidade técnica exigida no espetáculo que fizemos em 2005 fez com que a ARTHRON tivesse certas características, comparando-se a uma mesa de corte e edição, ou seja, temos como gerenciar todas os inputs com os outputs remotamente. De forma mais clara, temos várias entradas (imagens captadas por câmeras, imagem pré-gravada) e várias saídas (telas de projeção nos vários pontos conectados, o streaming para o usuário) e podemos gerenciar que imagem vai para qual ou quais saídas. A forma estética que escolhi para trabalhar, que é bem diferente de como era na AdaPT que apenas transmitiam as imagens, de certa forma, como um broadcast normal, vez com que essa demanda fosse criada de gerenciamento de imagem e determinou o rumo de desenvolvimento da ARTHRON. Claro que, somamos a isso o próprio expertise do grupo do LAVID em transmissão de imagem em tempo real em alta resolução. Como meu interesse está na composição da imagem, em trabalhar em camadas, de forma que as “informações”, o conteúdo de cada captação obtido nos vários pontos sejam articulado tornando-se apenas uma imagem. Para isso, tenho que trocar as imagens que são projetadas atrás dos dançarinos a cada cena ou momento.

Os croquis foram criados na primeira fase do processo criativo e demonstram como cada cena já é construída levando em consideração que imagem estará sendo transmitida em qual tela e qual a relação estabelecida com os dançarinos. A partir desses desenhos começamos a pensar nas composições possíveis entre os corpos remotos. Esses croquis foram muito importante no processo do GT MDA porque era uma forma de aproximar as ideias entre o Konic Thtr e nós no Brasil.

Entretanto, vale ressaltar que as possibilidades alcançadas pela ARTHRON determinam a forma como operamos as câmeras, trocamos as imagens, etc., e isso influencia na forma como o storyboard é escrito e como devem ser as orientações para os dançarinos . Sendo assim, trata-se de uma fricção entre a tecnologia e a arte. Não há um condutor, mas a troca mútua. As possibilidade técnicas determinam interesses artísticos e nossas propostas criativas estimulam e impulsionam o desenvolvimento de partes, elementos, até então não pensados.
É uma troca interessante, sadia e enriquecedora para os dois lados: o artístico e o tecnológico.

O que mudou no seu trabalho, na arte que você produz, a partir desta interação com esta tecnologia?
Utilizo as ideias da telemática também em ambiente cênico, ou seja, a possibilidade de um corpo dançar com outro não proximo. A foto abaixo é do espetáculo Le Moi, Le Cristal et L’Eau (2007), concebida durante a residência artística no Centre Choregraphique National, em Aix-en-Provance, França, com a qual fui contemplada no Monaco Dance Forum (2006). Nessa imagem, podemos ver a dançarina sozinha naquela parte do palco, mas dançando com uma outra na imagem. Além disso, a idéia de composição, de criação de significado a partir da construção de imagem, ficou mais apurada depois desses 5 anos investigando a telemática. Os binômios presente/ausente, real/virtual, próximo/distante, ganharam outros entendimentos tanto filosóficos e estéticos, como práticos, na forma de criar.

Com relação ao cenário maior, como você acredita que a tecnologia contribui para a arte em geral, hoje?
Propiciando outras possibilidades de construção signica que geram outras formas de fruição. A perpectiva é colocada em cheque, o digital traz outras formas de ver, apesar de ainda continuar muito preso a idéia do quadro, da tela, da superfície plana. Agora com as novas possibilidades de imagem tridimensional e com o cinema 4K provavelmente daremos um salto, uma nova forma de experimentarmos a experiências estéticas. Acho importante ressaltar que essas obras não propiciam apenas uma retroalimentação apenas dentro do campo da arte com mediação tecnológica. Essas experiências estéticas provocam novas sensações que acabam repercutindo nas obras, nas artes que não se utilizam de tecnologia, mostrando que o mundo é uma grande rede de informações que transformam todos os sistemas, todos os individuos de forma mútua, implicada.

Além da dança, você visualiza outras possibilidades e tendências de interação entre arte e tecnologia? Quais?
Todo e qualquer campo artístico possui artistas explorando a mediação tecnológica. Nessas explorações surgem outras configurações inéditas como frutos dessa relação estética com as novas mídias, como a arte transgênica, por exemplo.

Sobre o evento mais recente, na Argentina (2010): a performance foi a mesma apresentada em Fortaleza no final do ano passado? Se não, quais foram as diferenças/semelhanças?
Apenas o conceito não mudou. De resto tudo foi transformado, muito impulsionado pela mudança de dançarinos, de espaço, de condições. Essa é uma característica do meu trabalho. Jamais consigo fazer um espetáculo igual ao outro ( e nem desejo), pois, por trabalhar com improvisação, portanto com as condições e decisões de cada dançarino em tempo real, por considerar o espaço físico imperativo na construção da obra, qualquer pequena mudança, altera tudo. E isso foi o que aconteceu de 2009 para esse ano. O konic  teve a possibilidade de realizar o trabalho em um ambiente para chroma key, ficamos com 3 dançarinos no nosso grupo brasileiro (eram 2 em 2009), o robô utilizado em Natal foi substituido por um Lego NXT e foi operado no ponto de Salvador, apenas para citar algumas modificações. A obra, quanto conceito, amadureceu. Enquanto em 2009 a tecnologia era uma preocupação maior, pois era a estréia artística do ARTHRON e articulando dois países e não mais cidades brasileias, agora em 2010 tivemos mais tempo e maior foco na questão conceitual, artística e estética. As possibilidades de afeto e de comunicação em diferentes situações, questões conceituais fundamentais do trabalho, puderam ser mais trabalhadas, ganharam novas metáforas mais interessantes e assim por diante.

De uma maneira geral, como é o feedback do público ante às apresentações de dança telemática?
De surpresa. Há uma mistura de ansiedade e perplexidade diante das relações entre os corpos remotos e as composições imagéticas. As vezes não deixamos claro qual corpo está em presença física, propiciando uma ambiguidade proposital para questionar  o que realmente é a ausência. Mas, as vezes, acontecimentos muito simples chamam a atenção como na Argentina quando as dançarinas, a brasileira Sol Gonzalez e a espanhola Carme Torrent, ficam sentadas em seus espaços conversando. Essa foi uma das partes mais apreciadas segundo depoimento do público na conversa após o espetáculo. As dançarinas fizeram ações simples como cochichar, rir, e falar uma com a outra, mesmo sem som, sem uma fala real e audível. Esses atos simples de uma comunicação entre duas pessoas fez com que todos considerassem essa cena como a melhor parte onde a ideia de afeto e comunicação foi estabelecida.

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