Quando a noite cai

Quando a noite cai

ilumino-te com minhas letras

que vão ao céu que vai

cintilar cheio de estrelas

 

Infinidades de ondas

como céu de Van Gogh

vejas a tela e olhas

vagas feito odes

 

Cores que cintilam

e quanto mais forte brilham

sobre a luz do horizonte

porque o hoje se formou ontem

 

Daqueles que lutaram

e deram o seu sangue

e sem medo falaram

a verdade longe.

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Baía da Guanabara

Não gosto da expressão: “do outro lado da poça”.

Baía da Guanabara

é o estimável disser.

 

 

É poluída sim, mas não justifica tanto desprezo.

Poça é esgoto,

poça é buraco no chão,

poça é inutilmente, desprezar.


Estamos em uma bela Baía

que o Português confundiu,

num Janeiro,

não menos louvável por um Rio.

 


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Partir

O partir é sempre uma despedida,

o que se fez merecer desta vida.

Arrumar as malas e nas pessoas amar,

e no futuro rever em esperanças

pra trás o que ficou, e o caminho olhar.

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Seca

No caminho

da estrada

se ouvia o silêncio

um preá atravessava correndo

os urubus voavam em circulo sobre a carniça.

 

O seco sertão

se mostrava escaldante

a terra maltratada permeava as nossas vidas

a água do pote vinha da cacimba

 

à noite

o céu

se pintava de estrelas.

 

E a seca persistia

o seco açude

com lama de agonia

onde os animais

sedentos

bebiam

a água barrenta que sumia.

 

Eu sonhava a noite

olhando o céu

com um futuro de brilhos verdejantes

hoje

nas ruas

ouço os autofalantes

e os outdoors que anunciam

liquidações de produtos e férias em hotel.

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Nada sei

Nos altos da consciência, mergulhei

nas águas da simplicidade,

tirei a impureza de restos de arrogância,

soltei um passarinho do coração de minha infância,

sem esperar nada mais,

sem violência,

sem maldade,

só a consciência que nesta vida nada sei.

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Passa, passa como um rio

Passa, passa como um rio

os anos de nossa existência,

pensar e ter consciência

do que nossa boca sorriu.

 

Nos meus passos tem devagar

todo sentimento do mundo,

mundo moribundo,

preso e solto no vácuo sem ar.

 

Sob a luz de ondas e partículas

que se desviam pela gravidade,

a tudo nos invade

até no espaço de uma vírgula.

 

Pobres palavras querem conteúdo

que saem no torcer da pedra,

pingando água e tudo

pra se fazer verdadeira a letra.

 

Letras formam palavras

que o pensamento cava,

plantando uma árvore,

antes que se escureça

                  – e seja tarde.

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Estórias tolas

Eu tenho idades dentro de mim,

quando acordo, tenho a idade da manhã,

como criança sinto o cheiro da maçã,

o dia que se levantou, com o sol assim.

 

Quando de tarde tenho a idade de sombras,

que às vezes no retornar pra casa silenciam,

como uma abertura de porta para o fim do dia,

na viagem de retorno pra casa a cabeça sonha.

 

Se tudo deu certo no trabalho e no caminho,

voltar pra casa e ter um teto como ninho,

o abraço da noite pra redobrar as forças,

por fim, sentir e contar o dia, por estórias tolas.

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Por fé

Há sonhos que nunca envelhecem

transitam entre as pessoas

num voar de asas

como uma prece

flutuam sobre as sacadas dos prédios

é quase palpável aos olhos que não veem

porque a mente voa longe

e não se esquece

aquilo que chamamos por fé

naquilo que não temos

as vezes tão distante

mas temos como certo

tocamos no sonhar da emoção

a alma transpassa o concreto

e o espirito levita nas nuvens do horizonte

como um raio que se descarrega

para depois de alguns instantes ouvirmos o trovão.

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O carro buzina

O carro buzina

muito mais que buzina

o carro mata

e se arrasta

nas ruas e auto estradas

A cidade se povoou até inchar

multiplicou-se

estacionados estão os carros nas calçadas

zumbindo roda e luzes

até se abarrotar

como uma concha de proteção

despejam congestionamento

dá-me congestão

Aperto pra me apertar

dentro dos ônibus

Não será nem hoje nem amanhã

substituição

para os carros.

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Sobre um muro

Vi passarinhos brincarem sobre um muro

de uma casa.

Não eram pardais.

Pensei comigo:

Num mundo duro

ainda

há pessoas como eu

que ainda observam

a frágil natureza sob o céu

entre carros nas calçadas

e o zumbido da cidade

numa tarde

de fim de semana

numa estreita rua

suburbana.

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