Arquivo de novembro 2010

Vultos

Passa as ruas passam as gentes

numa festa findo ano

povo consumo povo urbano

acreditar nas luzes com planos

ter na memoria uma alegria

envolta de fantasias

penumbra do amor das famílias

inventam suas próprias trilhas

em compras ao preço

do que é novo

borbulho do povo

entre sons que se entre cruzam

entre luzes que piscam

vultos enevoados

esperança

criança

a dança

onde da janela ver

ano que já vem

permeando os sonhos de alguém

e crer e crer…  

Mariposa

Chuva de vento temporal

                       ventos ventania

                       refresca o calor do dia

                       infernal

por vezes surge uma mariposa

                       se fazendo esposa

                       da luz da lâmpada

                       encandecida  

gira e gira ao redor

                      fazendo círculos elipses

                      num voo alucinado

                      pesando encontrar o sol

apago a luz num eclipse

                      que faz a mariposa

                      alçar outro voo  

                      trilhar outros caminhos

em busca de outra luz.

Papelão

Procurei um guia de ruas,

Dentro das caixas de papelão,

Não consegui encontrar não;

Só livros e inúteis revistas;

É interessante quando tentamos encontrar,

Coisas que precisamos e não conseguimos achar;

Às vezes surge uma barata;

Meu Deus quanta arruaça!

Só por causa de um inseto;

Pega o sapato, o chinelo;

Taca nessa mal dita, que se esborracha!

Gira

Ando de um lado pro outro

dentro da quitinete

mas o relógio não gira

gira apenas o sol no alto do céu

mundo tudo gira em torno de alguma coisa

gira os satélites e a lua em torno da terra

gira a terra azul em torno do sol

gira o sol em torno da via láctea

gira a via láctea em torno de aglomerado de galáxias

giram as crianças em torno das mães

gira meu computador em torno da internet

giro eu em torno de mim mesmo

gira o girassol o furação

relógio é implacável

inexorável

pra quem espera as horas passarem.

Vaga o sol

Vaga o sol com suas luzes

pisca no para-brisa dos carros,

incauto e andarilho,

pensamentos vagos,

quer andar nos trilhos;

trilhos sem cruzamentos sem cruzes,

pensamentos desalentos

trilha o caminho certo no incerto.

Por vezes surge do bolso

um pouso de passarinho,

afastei com meu celular,

a mente quer pensar,

mas pensar em quê?

Só me resta o caminho,

só me resta o contemplar,

amar e amar

o que está para acontecer

– entardecer.

Condicional

Por muito tempo morei na varanda,

exposto meu rosto tímido;

como vergonha do que não tenho;

não fiz o que minha cabeça mandava,

fui calado contido,

dentro de mim mesmo;

o borbulho da rua da vida ladeira;

encoberta,

pelo egoísmo,

cheio de ismos;

 

no porão uma igrejinha;

onde os outros descarregavam profecias,

fantasias, fantasias;

verdades que aparentavam no olhar,

o desabafar de suas carências,

onde a essência da fé,

visão da utopia;

sim, sim – não, não;

essa condicional, eu disse um não.

Minha casa

Fiz a minha casa guardada em meus sonhos.

Já comprei os tijolos,

onde o pedreiro

é o vento,

cimento e alicerces,

incertos imprecisos;

já planejei

os quartos,

o telhado,

pra nestes versos

não sair molhado

pela enxurrada;

com minha amada,

dançar uma valsa,

a valsa do amor,

sem vergonha ou pudor.

O verão se anuncia

O verão se anuncia;

calor do sol

à luz do dia,

entardecer;

findou-se o meu dia numa caminhada;

Vi um flamboyant com suas cores vermelhas,

ao lado de um pé florido de flores brancas;

mostrando,

trilhando a calçada;

vi noutra rua, maquinas a concertar o esgoto;

um cadeirante, na sua cadeira caminhante,

rodando em minha frente;

entre a poeira e o vento mormaço,

o trator de aço

cortou um pé de arvore;

eu vejo o espaço,

estreito,

defeito,

na calçada;

como solucionar

os carros,

os cadeirantes?

Momento

Não eu não alcanço!

estiro a mão pra pegar o concreto

dos meus sonhos

mas não alcanço

o navio num balanço se afasta

se torna um vulto na miragem do dia

como a vida procrastina!

sombras, vultos

olhares já não estudo

minha esperança

 

menino cadê a infância?

que outrora escutava o burburinho

com medo da vida e das pessoas

por trás da porta pela fresta eu olhava

as conversas de adultos que eram trapaças

ingenuidade na flor da dança de menino

como um quadrado cortado ao léu

menino cadê seu brinquedo?

homem cadê seu mundo?

se perdera em algum lugar

por trás do véu.

Que não fere

Como passei por desertos em minha juventude

desertos insertos,

vazios, não os de areia.

No meu sangue perneia

a vontade de correr,

até o corpo relaxar da inquietude;

tenho um ímpeto de quem nasceu no sertão,

uma explosão,

que não fere,

olhar humano.

Sinto no espirito de quem toca piano;

um toque no agudo, outro no grave

como harmonia suave

de quem ama a vida,

não importa

a porta fechada,

da palavra solta no ar.

Meus ouvidos ouviram,

mas, no coração não deixaram entrar.