Arquivo de 13 de dezembro de 2010

Insensatez

Madrugada soou

o grilo cantou

mas que insensatez!

não existe grilo na cidade grande…

então vou ao jardim zoológico pra ver galo e elefante

vou ver o pavão

vou ver o carcará

o sabiá

o gavião

o mico leão dourado

a ararinha azul

vou ver como é uma casa de fazendinha

pobrezinha com umbuzeiro

vou ver o terreiro

e nele brincar com imbuas

depois vou atravessar a rua entre os carros e pegar o metrô.

Doçura

Durante muito tempo morei no nordeste

a abertura e doçura de suas meninas

durante muito tempo morei no nordeste

minhas mãos tremulas por ter matado um passarinho

durante muito tempo morei no nordeste

riam de mim

da minha fraqueza

fraqueza de menino molestado pela rudeza

me encantava pelo canto dos vaqueiros

seu cantar meio que triste nostálgico

em celebração ao boi

já não podia andar em suas ruas

por exigirem de mim menino

a virilidade lucida de homem

não sabiam que na minha mente obscura

a delicadeza seria a cura

interno dentro de mim

o bem maior ou a loucura sem fim.

La fora bricam as crianças

La fora brincam as crianças,

já não brincam de amarelinha,

pião,

bola de gude,

já não tem no coração a virtude

do que é singelo e belo;

anseiam por coisas novas,

um brinquedo atrás do outro.

 

Na minha infância pobre

quase não tinha brinquedo,

brincava com palitos com os dedos…

 

sempre fui do subúrbio,

no subúrbio eu cresci,

aprendi distante do que se diz “cidade”.

 

Os adultos…ah os adultos!

incumbiam de enfiar preconceitos

pra quem tem singeleza no peito

satisfazer a sua pobreza do defeito,

o defeito de ser adulto.