Arquivo de dezembro 2010

A garota bonita

A garota bonita

sorriu um sorriso feio

em dois mil e nove

no inverno

a garota bonita pareceu alguém distante

que não sabia que eu podia me impressionar

tenho paixão pela beleza

do jeito espontâneo e delicadeza

a garota bonita do ônibus especial  

mas pra mim todas as garotas são bonitas

a mulher e a colher

alimentando a criança

generosidade a flor da pele

que posso mais disser de mulher?

Bem me quer mal me quer…

mulher e colher de doçura

que alimenta de amor a fome

dos homens.

Ouvindo trovões

Estou aqui

ouvindo trovões

no que resta do dia

chuva de verão

o cheiro do molhado

ouço o pinga-pinga

as águas lavando

melando o chão

não há água no banheiro

não há água no chuveiro

prendo a respiração

retorno

o mormaço entra pelo nariz

as águas escoam para os riachos

ou esgotos

ao relento

hoje

amanhã

sim o trânsito vai estar lento

como lento esta meu pensamento

as poças d’agua

nos buracos da rua

dirão que já chegou a estação.

 

Insensatez

Madrugada soou

o grilo cantou

mas que insensatez!

não existe grilo na cidade grande…

então vou ao jardim zoológico pra ver galo e elefante

vou ver o pavão

vou ver o carcará

o sabiá

o gavião

o mico leão dourado

a ararinha azul

vou ver como é uma casa de fazendinha

pobrezinha com umbuzeiro

vou ver o terreiro

e nele brincar com imbuas

depois vou atravessar a rua entre os carros e pegar o metrô.

Doçura

Durante muito tempo morei no nordeste

a abertura e doçura de suas meninas

durante muito tempo morei no nordeste

minhas mãos tremulas por ter matado um passarinho

durante muito tempo morei no nordeste

riam de mim

da minha fraqueza

fraqueza de menino molestado pela rudeza

me encantava pelo canto dos vaqueiros

seu cantar meio que triste nostálgico

em celebração ao boi

já não podia andar em suas ruas

por exigirem de mim menino

a virilidade lucida de homem

não sabiam que na minha mente obscura

a delicadeza seria a cura

interno dentro de mim

o bem maior ou a loucura sem fim.

La fora bricam as crianças

La fora brincam as crianças,

já não brincam de amarelinha,

pião,

bola de gude,

já não tem no coração a virtude

do que é singelo e belo;

anseiam por coisas novas,

um brinquedo atrás do outro.

 

Na minha infância pobre

quase não tinha brinquedo,

brincava com palitos com os dedos…

 

sempre fui do subúrbio,

no subúrbio eu cresci,

aprendi distante do que se diz “cidade”.

 

Os adultos…ah os adultos!

incumbiam de enfiar preconceitos

pra quem tem singeleza no peito

satisfazer a sua pobreza do defeito,

o defeito de ser adulto.

Natal

Natal

nata do comercio

nada se compara ao Natal

 

o povo envolto em compras

não se lembra quase que nascera

pequenino o Homem que mudou o mundo

 

oriente se ocidentaliza

as pessoas que vivem de brisa

tristes e solitárias

sentem um vazio

no bolso e no corpo

carregam ainda no dorso

a cruz da pobreza

 

já dizia o “profeta” Gentileza

“gentileza gera gentileza”

toquem a música

“Jesus alegria dos homens”

de Bach.

O que fica

Quando fim do ano se aproxima

               como que uma folha seca se soltou

ainda há mais folhas na arvore

               vento a balançar

               flores pra desabrochar

frutos hão de crescerem  

aquilo que semearam

 

há os que têm arvore vigorosa

               de matéria que não é eterna

há os que têm arvore no discernimento mundo

               destes o esquecimento não vai apagar

               deixarão um legado

nunca ficará anulado

 

               não uma estatua em praça publica

algo em pedra para ver o invisível

sólida

muda

surda

 

               algo de geração em geração

               eterniza-se porque criaram algo novo

 

cada ano um renovo

               o som de umas Palavras

mudaram e mudarão o mundo.

Me abraces

Me abraces mulher

antes que seja tarde

antes do ocaso

e o sol escureça

e não haja mais amanheça

me abraces com carinho

teu perfume eu sentir o cheiro

nos teus braços macios

quentes de verão

me abraces mulher

não me deixes assim em vão.

Porta

Quantos desejam apenas uma porta

porta de oportunidades

porta de liberdade

porta de entrada

porta de saída

pra vida

vida eu te quero viver

dizer de ti o quanto puder

pois tu hás dentro de mim

e dentro de ti eu sou

vaso de jasmim

queimado pelo sol.

Entre dois mundos

Quando criança tinha medo do escuro

era menino puro

acreditava em tudo

por não me contarem historias

        criei na mente um mundo mudo

        sem poder me expressar

        um simples medo

uma vertigem

 

vivia a imaginar

a me encantar com as formigas

        encantado como eram unidas

embrenhava no micro e olhava no macro

        cresci com esse dilema

como pode alguém tão simples

pensar num céu de estrelas?