Arquivo de dezembro 2010

Beija-flôr

Peguei semente de tomate

plantei em solo adubado

perto do Velho Chico

 

       aguei todos os dias

       com cuidado

       carinhosamente

 

brotou a semente

ergue-se um tomateiro

queria dividir com o mundo inteiro

       a visão

       num zum zum

       pousou um beija-flôr

       na flôr

que cores!

ave alada

 

       pensei que sairia sem despedir

qual nada

pairou no ar

a me contemplar

 

       suas asas quase imperspectiveis

disse-me um bom dia

       um obrigado

fiquei encantado

de ave tão pequenina

       dar-me um beijo de menina.

Imagem 008

Eternidade

Que digo do tempo?

Rima com vento!

          Por vezes se transforma em furacões,

          que num instante muda a vida de tanta gente.

A velocidade e o tempo,

o tempo não é veloz!

          Contagem que se faz do momento,

mas o momento

pode durar quanto tempo?

Espere um momento…!

O computador está lento…!

Vão se minutos e horas…

 

Nosso corpo pende com a gravidade;

          o envelhecimento se assemelha a doença,

          não me fale em crença!

Nossa vida deveria ser eterna,

onde cada hora deveria ser um momento.

          Por não se tratar de tempo,

 

diriam um instante meu bem…!

E ficaríamos pensando…

A que horas vai passar esse trem?

 
 
 
 
 

 

Madrugada

Acordar de madrugada

na brisa do ventilador,

a mente leve,

o pensar é fácil,

o escrever é um momento longo,

algo que se eterniza

(como a noite parece eterna

ao passear no teclado)

a logica de Descartes parece algo palpável,

um avião passa no céu com o som de suas turbinas,

o ventilador é barulhento disputa com o avião,

a quietude da noite parece algo mágico,

nada é trágico,

tudo são verbos a pegar com as mãos

onde as palavras fluem,

sem enigma,

sem estigma,

estendo a mãos pra eternidade,

aqui um homem que quer e sabe

                     o que é o amor.

Minha mãe

Acordei às quatro da manhã,

pra levar minha mãe

a rodoviária;

pra embarcar às dez;

foram nove bolsas,

nove cargas;

dentro do ônibus lotado,

entre reclamações,

minha mãe achava normal

carregar nove bolsas, malas,

dentro do veiculo cheio;

há quem chame as mães

exageradas…;

por mais que nos aborrecemos,

por mais que brigamos,

por mais que o falar mudo,

se torne torturante;

eu digo,

repito,

e grito:

vai minha mãe, segue adiante!

Menino pobre

Estava brincando;

não me recordo com o quê,

mas de uma coisa

o tempo não me fez esquecer;

sentada no banco do carro a garota rica

pra mim sorria com os lábios,

num olhar generoso;

não sabia o que fazer,

se falava,

se encarava,

se dava um bom dia;

fiquei sem jeito,

por não ter jeito no meu corpo magro;

disfarcei;

o coração na boca;

era demais para um menino pobre e só;

com  amigos, na rua de cima,

amigos de bola entravam de sola;

buscando alternativas, sonhava,

andava e andava, em busca de horizonte;

o nascer do dia era minha esperança,

antes que o anoitecer me fizesse adormecer.

No alto da serra

Fiz o meu ninho

no alto da serra

vou lá de vez em quando

vislumbrar quem está em terra

odiando

amando

                        subir ao ninho num impulso

                        fazer-me pássaro num fluxo

                        num acelerar do meu pulso

                        repousar num influxo

meus olhos contemplaram

casas

árvores

prédios

pessoas

afastado de tudo

num abraçar com as mãos

                        não há tédio as nuvens refrigera-me atoa

                        como um alpinista

                        que supera o próprio esforço

não há solidão

tudo é um novo

a cada passear das nuvens

                        sombras na terra.

                      

Céu

Dia de verão, manto azul,

nuvens de algodão doce,

doce o açaí,

doce o refrigerante,

doce o sorvete,

doce o beijo dos amantes.

Quem dera que o mel

das palavras,

das falas

pudesse inundar o povo,

num involucro das favas,

abelha que se desfez da arrogância,

menino da infância,

se enche de esperança

num olhar mais renitente,

encher o peito da gente

elevando-nos até o céu.

Retrato

Se penso em ti,

penso logo

nos cabelos,

teu olhar,

teus lábios pedindo um beijo,

teu acalanto;

de súbito, te vejo a me contemplar;

teu rosto diz um não…

como um retrato outdoor,

frio,

gelado;

quando a mulher gosta de verdade,

esquece a vaidade, e logo sorri;

como quem vê algo agradável;

ah, se me conhecestes bem?

verias que aqui bate um coração,

pacifico,

brando,

que conhece a essência,

essência de menino…

No fim do caminho

No fim do meu caminho,

uma arvore florida;

agradou-me tê-la nas retinas;

por caminhos espinhosos já andei,

que me fizeram sangrar,

disso eu sei;

no sol causticante

pequenas sombras,

do meu corpo

refletiu a penumbra;

cansado de bater a porta,

sem que ela alargue,

os meus sentidos calaram;

eu resolvi ouvir, muito mais do que falar;

não tive opção,

numa luta por dentro

meus sentimentos travaram,

aquilo de mais rico em mim.