Arquivo de março 2011

O fruto

Sinto-me como um pé de frutos esquecido

escorado num muro alto, os seus frutos caindo

desperdiçados e apodrecendo no chão;

mas ainda pulsa o desanimado coração

 

que no peito esvaziado, sentindo-se pobre coitado,

na aparência se mostra apertado

como se na vida perdesse o valor.

Mas um pé de frutos quando podado

na sua dor

 

regenera-se como um parreiral,

produz o vinho que envelhecido

para os que são entendidos

nobre se torna, no que parecia mal.

 

E como na vida se dá valor ao novo,

ideias, preconceito do povo,

onde o novo parece viçoso

por ser em boa quantidade

esquecem do que com o tempo,

no paladar é qualidade.

Cimento armado

Já não conto os dias e sim as horas,

pois o tempo me encurta na minha vida sacrifício;

olho pra cidade e só vejo os edifícios,

o cimento armado como sinto agora.

Cidade e multidão na vida de consumo;

só penso agora em meu rumo,

minha face de homem anseia por carinho

e nem uma mulher a ver em mim sozinho.

Meu peito, minha vida, meu pulsar

parece um distanciar da noite

onde sinto os açoites

das coisas que deixei passar,

pois quando nos tornamos adultos e mais sensatos

o amor não enche o prato,

o prato do coração na melancolia

e como passam os dias, como passam os dias;

coisas a me engendrar no vulto de uma asa,

que me faz decolar além do palpável e visível,

convívio humano por trás do grosso vel.

A porta de saída do sonho vai dar em nada.

Servir

Opostos estremos que nos faz espantar,

que nos deixa perplexos nessa vida que num vulto passa.

A sociedade dá valor ao super, ao mega, enquanto esquecemos

o que de mais singelo pequeno e que nada paga,

dar a mão a alguém que caí e não consegue se levantar

e amar e amar, pois no amor verdadeiro não há valor;

não há nada que compre um sentimento

que num momento nos faz abrir um sorriso espontâneo.

A satisfação de servir e ser recompensado,

rompendo o egoísmo humano, o cadeado.

 

A cidade borbulha na necessidade de servir;

no grito da van para o passageiro,

no grito do camelô, o alto falante;

cada um a vender o seu peixe

na busca incessante por dinheiro

antes que o mar inunde ou seque

e tudo se acabe num terremoto

e não haja mais o povir.

Menino

No caminho pra escola o sol ia nascendo devagarinho,

grande e vermelho despontando no horizonte

e meus pensamentos estavam nos montes;

indefinível momento de menino que sai do ninho.

A camiseta, a mala surrada;

eu subo a escada, o corredor.

Meu pensamento ainda levitava,

já não ouvia o professor.

Meus olhos misturavam a janela, troncos de árvores,

o sol que entrava na sala;

meu canto na carteira, os odores,

o medo de ser chamado, de atrair a atenção.

Tinha vontade de correr até relaxar

e navegar o vento que sopra,

assobiar uma canção.

Ninguém

Eu rumino o futuro

e regurgito no prato

do presente que me servem.

Ninguém pode me acusar de não ter tentado;

eu não fiquei mudo de coração puro

nem pedi uma prece que me rezem,

do presente que me servem.

Ninguém pode me acusar de não ter tentado;

meu tempo é de aceitar a realidade,

pra que esconder o jogo

o jogo da vida,

pois do mal só se tira maldade

do presente que me servem.

Ninguém pode me acusar de não ter tentado.

Tentar tirar do nada

e ninguém pra estender a mão;

não tenho medo do pão escasso

só quero pra mim meu regaço

antes que digam novamente o não.

É ré maior…

É dó menor…

Minha vida é um triste solo de violão.

Anoitece a esperança

Anoitece a esperança

daqueles que um dia criança

tinha a sensibilidade na pele.

Cada dia um dia novo que se revela;

a tecnologia aproximou as pessoas de forma virtual.

Acabou a reciprocidade e o calor das idades,

tomou lugar a barganha no mundo atual,

inundando de egoísmo a doce amizade.

Quem dera que voltasse as vias da esperança,

onde eu um dia criança na força da justiça,

vestido de padre na promessa de minha mãe

subindo a estrada julguei-me único.

No cheiro da batina me sentia puro,

confiei que o buscar ser o primeiro não colhe e não seria o arfam;

tinha em mente que o menino confiar em outro menino seria o futuro.

Mas a realidade me caiu muito duro,

num País de excluídos luto por não ser só protótipo,  

pois de mim eu sei e reconheço minha arte esquizofrênica.