Arquivo de abril 2011

Menina dos olhos

Eu não falo palavrão,

simplesmente não falo.

Pode-se pensar de mim

que não tenho a malícia dos adultos

ou das crianças como hoje é de costume.

No insulto prefiro o silêncio que cala,

pois o silêncio acalma a alma

e na simplicidade desfaz a clava

que insiste em me perturbar.

Prefiro falar e declamar o verbo amar,

porem, podem dizer de mim:

Aí um puritano bestil!

que não pega a espada vil

e vive nesta fala pura assim,

nos insultos de um velho malicioso

que insiste em me servir maldoso

por trás de um balção, protegido em vão.

Ando a procurar o que há de mais singelo

calçado de sapato ou chinelo;

amar a beleza de uma canção

como alguém que encosta a cabeça

numa janela, esperando da vida a sua beleza;

prefiro a probreza de beber na fonte que mina

e ver os pássaros, os montes, dos meus olhos a menina.

O rio de Curumau

O rio de Curumau passa caudaloso de lixo;

o nordestino descobre seu nicho,

uns depositam na ponte seu resto,

outros depositam no rio seu não presto.


Jogue no rio poluido do alto!

Não quero poluir o rio, o asfalto!

A ignorância sobra em cada lar.

Descubro meandros do “eu” nordestino,


que quer ser o pioneiro,

chegar na frente primeiro;

imaginar seu destino.


O Rio já saturado nos seus rios,

não suporta o povo no alheio;

minha desilusão mora na rua,

sem fogo a carne fica crua.

O que tenho?

O que tenho?

Um pão dormido e vinho,

água de filtro de barro;

posso filtrar o que passo

sem definir minha vida num compasso.


Imaginar no presente não sei;

direi que o que me mexe

é o que tenho no coração.


Direi da vida numa canção,

que a esperança é o que me remete.


Aguardar o pouso de um passarinho

indiferente ao carro que passe;

definir qual é o meu ninho.

Encharcado

Escondi-me da chuva numa árvore,

senti os odores do asfalto molhado;

um cavalo a galopar miragem,

o tempo que parou pra mim, encharcado.

 

Vi e revi minha vida em um segundo;

na chuva de outono passam as estações.

O barulho da chuva me lembra canções

me fazendo alheio ao grande mundo.

 

Meu passo apressado desconfiado

do futuro porvir que procuro no andar

que deixa marcas em mim “descalço”.

 

O coração sente o pé a afundar

na areia da praia do mundo,

onde o asfalto toma seu lugar.