Arquivo de novembro 2011

Medo

O medo anda comigo

Dentro do meu umbigo

Desde do despertar na infância

Medo que se acabe a esperança

 

Medo do cruzamento da rua

Medo da espada nua

E crua

Que cresce como vácuo no entardecer

Medo de morrer

 

Antes que haja o amanhã

Medo da violência vã

Medo de ser inundado

De ser mal amado

 

Medo do vazio no peito

Sem ter alguém por perto

Medo do incerto

Medo de só me tornar resto

 

Medo de ter medo no amar

Na sala de estar

No corredor

Medo de exaurir-se o amor.

Não sabia o que era o Natal

Quando criança não sabia o que era o Natal,

sabia o que era o arder do cansanção,

os pássaros e o som da mata era minha canção.

 

Sabia o que era o frescor da sombra do umbuzeiro,

o céu e a terra, dois mundos;

o som dos romeiros ecoando lá no fundo

da fé cega, os curandeiros…

 

Vultos da memória na minha tenra infância.

O medo que me impuseram, um velho de barba,

andarilhos, eremitas do sertão…

 

O medo andou comigo desde criança,

aprender por cabeçadas erradas.

 

Aprendi a olhar as feições, rostos dissimulados;

crescia comigo a força da resignação,

da infância que ficou lá longe…

na essência pura e simples, minha intuição.

É jazz, é blues!

Juntar os fragmentos do cotidiano

Somar os planos

Num mundo urbano!

O homem tocando jazz

Dando ritmo a praça

Toca de graça?

Toca de graça?

O bolso sem um tostão

Voam os pés!

Voam os pés!

Sinal vermelho

Agora são pedestres

Que se enfiam nos ônibus

É jazz, é blues!

É jazz, é blues!

É jazz, é blues!

Na calçada

Na calçada, num lado da cidade,

procurei um pombo branco.

Não encontrei!

Onde estão os pombos brancos cor da paz?

 

Só vi pombos cinza, como a calçada;

parece-me que eles se camuflam,

como camaleões.

 

Parece-me que os animais do Homem  hospedeiro

para sobreviver

vestem-se das mesmas cores onde habitam,

como os pombos se pintam com as cores

do chão.

Mulher, d’onde vem tua virtude?

Mulher, d’onde vem tua virtude?

Teu DNA, tua atitude?

Quando o ego do teu seio é atingido

penetra o som nos teus ouvidos,

 

absorve no teu coração

a dor, a opressão…

de um insulto que bateu nos teus nervos…

não se faz de desentendida, nem o deixas preso.

 

Então, soltas a voz

no teu gesto espontâneo do teu peito

o cólo cheio de sentidos,

 

faz ouvir ao outro nos ouvidos

quem se achou de ofender, sem direito

-o ventre que pariu a todos nós.

De vez em quando

De vez em quando alguém

cochicha em meus ouvidos:

“você pode!”.

É minha alma me fazendo acordar e me renovar.

Faço versos do que penso e sinto.

Assim, sem mistificação,

sem a preocupação da aparência culta e difícil;

prefiro a clareza

do que a turva água vazia.

Faço questão da simplicidade

em abordar temas diversos, do meu dia-a-dia.

Transparecendo o que realmente importa,

a comunicação que bate meus sentidos, minha porta.

A beira de um rio

Uma vez eu me sentei à beira de um rio.

E senti uma calma, uma amplitude…

Percebi o quanto é sagrado um rio.

 

Foi à beira do São Francisco!

De onde vinha tanta água meu Deus?

(Pensei comigo mesmo)

 

Imaginar que tudo começou de uma pequena

gota, um fluxo pequenino,

e ver que muitos não respeitam essa veia.

 

D’onde vem do pulso do coração da terra

-A montanha, a planície

se ergue da superfície;

 

a vida acende a chama,

da vida sagrada que flui do peito,

o corpo terra que em terra se tornará.

Era uma noite chuvosa

Era uma noite chuvosa, eu me lembro,

                     a moreninha ia passar por ali.

Atmosfera abafada, meu coração a sair,

                     queria ver aquela menina que me olhou…

                      (a adolescência) hormônios a pipocar

pelos poros…

Num sonho de menino a divagar,

                      num namoro tímido, eu imaginava,

                      mas por que eu não falava?

Por que não disser um simples: oi?

 

Agora tudo se foi…

Minha paixão passou como a chuva,

                       no meu horizonte fez-se uma curva,

a turba dos anos que não voltam mais.

Aprendi a ouvir

Aprendi a ouvir, ouvir…

Muito mais do que falar.

Falar através das letras

de versos soutos ao ar!

Não o grito surdo,

mudo,

inútil…

Reluto!

Pois meu pensamento relembra

no amor que passou sem acontecer.

No sol que beija o céu ao amanhecer

e penetra no azul estendido… bonito!

As ruas

As ruas se inflacionam de cinza e preto

De veículos automotores.

Atravessam o caminho, dificultam a passagem

Das pessoas, atores

No asfalto,

Motores

Rocam…

Pedem ultrapassagem!

Nesse entediar de duas cores,

Num embebecer, 

Sufocar

Os amores

Intocáveis, a beira do caminho.