Arquivo de abril 2012

O dia amanhece cinzento de nuvens

O dia amanhece cinzento de nuvens.

Nuvens se condensam em água,

escorre pelos telhados.

 

O café se vaporiza perto da janela,

penso em escrever sobre flores,

mas, as flores que eu vejo são de plástico

sem vida, sem brilho.

 

Passarinhos cantam chamando pela vida

à luz clara mormaço,

no silêncio da manhã

recolho-me em casa

ouvindo canções no espaço,

calmas e sutis,

o rádio está desligado.

 

Ligado estou eu

na calma e fresca manhã,

em algum lugar do subúrbio do Rio de Janeiro.

O tanque

Crianças brincam num tanque de guerra

em Latrun, comemoram a independência do lugar,

os Israelitas.

Penduram-se no canhão e nas armas do tanque,

o tanque se fez de brinquedo,

brinquedo que mata,

que destrói

o sonho de brinquedo de outras vidas,

o caminho para Jerusalém,

histórias de guerras,

batalhas e conquistas.

Ferro que se corrói,

pelo sonho de paz das vidas de além.

Umbuzeiro

Há! umbuzeiro de porte imponente

Tu és um oásis neste sertão

Saciando a sede e cansaço das gentes

Árvore amada neste chão


Ao sol tu dás sombra com tua copa larga

Árvore frutífera tão almejada

É tão doce a poupa de teu fruto

Quando te pejas tão belo e maduro


A sombra tão fresca ao sol causticante

Tu és o descanso do caminhante

Erguendo os olhos para os teus ramos


A música suave dos pássaros com seus cânticos

Do nascer do sol ao anoitecer

Tu sempre serás a árvore que dá de beber.


Move-se o ônibus

Move-se o ônibus pela rua congestionada,

somos passageiros neste barco lotado,

voltamo-nos o olhar para tudo que passa,

a atmosfera é inundada de propaganda,

no fim de semana há mais carros;

pela janela do ônibus é um agredir os olhos

de propaganda em cada canto,

em cada espaço,

placas,

Outdoor,

faixas nas faixadas;

o gargalo do trânsito é inundado de nuvens

que se movem fatigadas

na abafada atmosfera

onde se sente a ferrugem

do tempo,

que já não sustenta

o capitalismo egoísta,

porque já surge no horizonte

a esperança de novos ventos.

  

Sonhar

Passamos boa parte de nossa existência

dormindo,

mas, sonhar acordado,

é o que nos move na luz da sobrevivência:

um amor correspondido,

uma viagem para ver o mundo.

 

Sonhar em apascentar a vida, no mundo,

para o amanhã

é um sonho de titãs

para quem vive um trabalho de rotina,

em incertezas ou certezas,

fazendo e desfazendo

no contato com a realidade.

 

Mais vale a amizade

do que uma falsa alegria serpentina.

 

Ciranda cirandinha

sorriso de menina,

vamos todos cirandar.

 

Abraçando o calor da vida na sua beleza

e o menino de minha infância, sonha a observar.  

  

Dizeres que vem

Só o que tenho para oferecer

são versos,

como num quintal à vista,  

pois só o sentimento sabe,

o que o cotidiano trás

por dizeres que vem

e faz em mim portador da paz.

A paz neste silêncio

que vem do meu quintal,

onde o sol faz-se em sombras

sem árvores que atraiam pássaros

como um sonho não recordado

que não tira o descanso da noite,

como um menino que dorme,

ao cólo, no aconchego de sua mãe.

E assim se vive

O que me resta saber

          é o que me resta viver,

por um incessante deslizar do tempo

                        /tempo, tempo – vento, vento/,

vives solto por entre os Homens

           e não tem olhos que reparam em nada.

História ave alada,

          de repente dar-se uma guinada

e mudam o rumo das coisas

         /uma lâmpada que se acende,

uma lâmpada que se apaga/

         e a onda nos pega de surpresa,

de crise em crise

         o mundo gira

e assim se vive,

         com a cabeça cheia de números

transitórios;

         transitam pelos gráficos da economia,

onde cada curva pode ser um desemprego,

         um aumento de gastos no prato.

Prato feito de gordura ou secura

         das bocas avidas para sentir o gosto

do pão do dia-a-dia,

         como um canto de alivio

e um recomeçar a contar

         os dias no calendário

com planos no amanhã,

         porque os dias pedem vida

para aqueles sonhos armazenados.

Correnteza

A doce esperança de um amor

na correnteza de uma queda d’água.

 

Eu nado contra a corrente.

 

É inevitável a queda

para a realidade.

 

O que parecia certezas

é uma ilusão,

a flor da substância de querer te amar

e desejar,

o inalcançável segredo dos teus olhos.

 

Se me acolhesses no seu regaço

como ninho de passarinho.

 

Nos teus braços num entrelaço

e me mostrasses a virtude,

nas tuas mãos cheias de calor

na atitude de acalentar

de amor à plenitude.  

Por mais que se escreva

Por mais que se escreva, por mais que se diga

sobre a necessidade do ato de amor a vida,

nunca é o bastante.

É preciso repetir

aos quatro cantos,

que a vida urge ser vivida

não com a fúria do consumismo,

mais com uma simples relação de troca com cada ser,

com a natureza.

Num abraço com si mesmo e os outros.

Se conscientizar que uma vida vale muito, muito mais do que imaginamos;

é preciso lutar por ela,

como um raio de sol que afugenta toda ignorância,

a substância perversa rodeada de trevas,

como um esgoto

aberto e exposto

contra tudo que deseja a alegria simples e pura da vida.

Tu tens um brilho no olhar

Tu tens um brilho no olhar

que procuras no impalpável,

no intangível,

para que a vida faça sentido.

Um sussurro tu escutas

do vento que sopra no ouvido.

Teu coração bate, bate, bate

e uma onda de calor te invade

nas entranhas do teu corpo,

porque precisas ganhar as horas

do dia-a-dia que transformas

em pão,

em bens.

E a noite vem

e então,

tu repousas do cansaço

e percebes que esquecestes o teu irmão,

teu amigo, tua família,

porque a vida não faz sentido

sem o outro pra repartir o pão,

dos teus sonhos

e os sonhos de teu filho.