Arquivo de setembro 2012

A natureza nos cobra

A natureza nos cobra de todos os dissídios,

de todo o silêncio inerte,

o que não foi cumprido,

o amor preso na palma da mão…

De todas as preces

no orvalho da manhã.

Por isso ela nos faz sentir na pele

a lei que nos impele

a mordida na verde maçã.

Dentro de uma gaveta

Dentro de uma gaveta

papéis de contas

que já não servem mais.

 

Um dia que eu não veja

carros,

balburdia,

poluição

e entrar dentro de eu mesmo

pelas portas dos meus achados.

 

Mas, ecoa dentro de mim todo

o frêmito

da semana que passou

entre papéis virtuais

rasgados

e páginas esquecidas de versos.

 

Bem dizia o Quintana:

-Poemas não devem ser datados…

Por trás destes versos

há um homem avesso a fama.

A mais simples

Vivo como alguém traçando um caminho

as vezes afoito

as vezes absorto

num caminho encoberto pela vegetação

procuro uma ação

e as vezes me surpreendo

que

a atitude

para a solução

é a mais simples possível.

Do crescimento

Ninguém se torna algo que nunca foi.

Não somos metamorfoses ambulantes,

somos seres multiformes:

somos como uma semente, guardando uma árvore.

O crescimento depois,

depende

da terra,

da água,

do sol,

do clima

e fatores externos, diminuindo

ou

ajudando o crescimento.

Nada de carma!

As coisas se formam,

não nascem prontas no destino.

Necessário é o imaginar,

sonhar,

ter amor,

agir,

e a lua e o sol brilharão ao nosso favor.

A espera do sol

Um velhinho às cinco da manhã

pega a vassoura

varre a calçada

ligeiro

em passes curtos

varre e varre no despertar rotineiro

o velhinho careca

mostrando energia

como alguém que desperta

na manhãzinha

e diz: estou vivo!

antes do nascer do sol

 

ter a consciência de que nascemos todo dia

seguindo a luz como um girassol

a mão humana tem necessidade de preservar-se ativa

o vento faz os seus circuitos

na estatura do dia

levando a marcha da humanidade

arrebatando pensamentos

despertamento lento

a espera do sol

estrela que caminha no céu

e tudo corre atrás do seu caminho

um pássaro que voa a despertar do ninho

voa e gira o mundo num incansável carrossel.

 

A cidade encheu-se de sorrisos

A cidade encheu-se de sorrisos.

Olho um canto na rua e lá estão eles,

numa tentativa de serem espontâneos,

olhando pra mim,

tão brilhantes

com um número estampado.

Tão criativos

que só cabem no cartaz,

sobre muros,

postes,

calçadas,

humildemente pedindo

aquilo que eu tenho

sem preço,

mas, ardorosamente cobiçado:

o meu voto.

Sôfrego

Tempo perdido em meio a preocupações,

tempo perdido a espera do ônibus,

na fila do banco,

no engarrafamento do trânsito,

a espera de algo que não vem.

 

Como um trem

que partiu antes de se embarcar.

 

E muitas vezes vivemos repetindo:

-Não tenho tempo!

 

Mas, há instantes que compensam

todos estes atropelos:

como um sorriso doce e singelo de uma criança,

dentro do ônibus, depois de um estafante dia de trabalho,

em meio ao sôfrego tempo perdido

ter uma flor no deserto surgido.

Sete de Setembro

Eu olhando o relógio digital

vi o tempo passar.

Mas, não senti o tempo em mim.

 

Como o deslizar do movimento do planeta

que gira mais rápido do que o som.

 

Som que ouço agora

de uma batucada

de fim de tarde

em pleno sete de setembro

no Rio de Janeiro

no terminar do dia.

 

A música que ressoa liberdade

liberdade do presente

onde ecoa o imutável passado

celebrado onde haja vida

em cidades

feitas de gente

herdeiras

da pátria: o legado

conquistado à luz da luta por justiça.

 

Olhei na rua ao meu redor

Olhei na rua ao meu redor em busca de eu mesmo

e senti um vazio a entrar-me no peito

não um vazio triste e melancólico

mas algo que se dissipa na memória do olhar

e assim antes que o sentimento voe

quero que o que ainda ficou soltar

porque eu escrevo versos

do movimento

das ruas

da cidade

do mundo

no meu pensamento

preso e batendo pra soltar-se

em cada esquina

em cada olhar

e retratar-me

olhando o reflexo do meu cotidiano

às sombras das árvores

às nuvens que passam

encobrindo o sol

no dia que se dissipa

em versos capazes

de sair das letras transformando.

Velas e bielas

Ouvi uma conversa

entre dois homens

que falavam de velas e bielas

apontavam carros de luxo

os últimos lançamentos

automobilísticos.

 

O automóvel como status.

 

Não percebem os homens

que ele está ultrapassado.

 

Será peça de museu…

 

Todo mundo preza o que é seu.

 

A cidade e as ruas

não suportam a poluição do ferro e da borracha

o que é hoje status

será sujeito as traças.