Arquivo de janeiro 2013

Eu bebo a realidade

Eu bebo a realidade

de goles em goles

num líquido efervescente

naturalmente

acidulante

aromatizante

misturando

passos apresados

a boca seca que bebe a água

o suor que molha a camisa

o ônibus lotado

o dinheiro contado

eu bebo a realidade

tenho que bebê-la

para que o sonho

que se sonha

não seja apenas uma sombra

seja iluminado

por esse sol do dia a dia.

Como falam as árvores?

Como falam as árvores?

Falam através dos pássaros

seus porta-vozes

Curió

Sanhaço

Bem-te-vi

Gaturamos

na cidade ou nas matas

ressoam a alma das árvores

som dos seus cantos

 

Mas, há árvores

silenciosas

onde só se escuta o som do vento

sobre as copas

chamando pela vida

a vida da vida

do chão erguida.

A ave da noite escureceu tudo

A ave da noite escureceu tudo

asas carregadas de nuvens

preparando suas comportas

ave haverá

o derramar

 

Avia menino!

Sai do terreiro!

Essa vai descambar!

nas telhas de barro

nas lajes

nos sobrados

 

Antes disso o abafado

na casa de Dona Nininha

mulher do José

tinha casa de farinha

o fogão a lenha

o pote de barro

 

A cidade grande também

é sertão

a mesma vastidão

com o asfalto e o cimento

no clarão do sol

sem a sequidão

do outro sertão

 

Com um mesmo lamento:

a chuva veio

ou não veio?

O menino olha outro menino

O menino olha outro menino

Diz: Quer brincar?

E se tornam amigos

sem do outro desconfiar.

 

Menino brilho de esperança

energia que não se cansa

uma bola a rolar rolar

sem sentir o tempo passar.

Troquei meus móveis velhos

Troquei meus móveis velhos

tão velhos

que davam dó.

O fogão a geladeira,

coisas de um homem só.

Agora olho da janela

rumores dos vizinhos

e o mundo da tela do computador,

abas de sites no Windows,

informações que saltam em um segundo

do outro lado do mundo.

O tempo e o movimento IV

Digo da paz sem guerras,

mas, há a guerra do cotidiano

do dia a dia

no tempo,

onde a desigualdade caminha de lado

com a realidade,

que aparece nas manchetes dos jornais,

na comoção pública

vidas no flagelo

onde o ser que nunca teve quer ter,

mesmo que isso implique em roubar

no movimento

de matar;

a sociedade e suas chagas

abertas,

mas, a cidade ainda tem portas que abrem

para a vida

no rumor das ruas

no aperto das mãos

dos casais,

das pessoas

que buscam o bem fazer,

nas crianças que correm

contra o vento nas calçadas

e o tempo

desliza

para novas brisas.

O tempo e o movimento III

Mas, o que seria da cidade sem as pessoas,

os bancos, os prédios públicos,

as estações de trem,

o movimento das coisas?

Uma cidade desalmada

deserta de humanos

não viveria de si mesmo,

a cidade

sem seus fazedores.

Mas, o tempo nela ainda existiria,

o movimento do céu sobre a terra,

mas, a terra gira,

assim

só a solidão do vento

como um Vesúvio sobre Pompéia,

uma bomba sobre Hiroshima

a vida ausente é triste

o tempo ensina,

mas, enquanto a paz perdura necessária é mantê-la,

de nada existiria o Corcovado, O Pão de Açúcar,

a beleza dos montes, do mar

do Rio de Janeiro sem pessoas a contemplar e habitar.

O tempo e o movimento II

no vento que burila o fogo,

nas ondas do mar,

nos ramos das árvores que sacodem,

o movimento

denuncia a existência

da vida

que se espreguiça ao ar,

que balança os cabelos,

que move os moinhos,

bate silencioso o tempo

desliza por entre as nuvens

ou mal ou bem

circulam no planeta

nas ruelas estreitas,

onde acordo às 4 horas da manhã

e me arrumo para o trabalho,

que encaminha no destino

informações,

o celular que toca o rádio

informa das ruas da cidade,

as veias da vida

onde ainda circulam os carros

nas minhas pálpebras quase adormecidas.

O tempo e o movimento I

Chuva que alivia o calor no final da tarde

sobre o vapor do cimento, do asfalto,

verão, estação das chuvas,

chuva que cai repentina

e o tempo no tempo

veloz o relâmpago

troveja o trovão

explosão de ar

que se move

em movimento no céu,

as nuvens em movimento

carregam vapor,

água

imprescindível a vida,

fecunda a terra,

terra

encharcada

ribeiros de água

da cidade

vai junto com o lixo

a chuva necessária,

reflete a ação

da natureza e do Homem

ação-reação

o tempo e o movimento

Guarda-chuva

Bate espectro de luz no asfalto

na calçada,

expurga tudo que se mostra

aberto ao sol,

40 graus que evaporam

as poças d’água.

 

No temporal as pessoas

encolhem-se,

no que acolhe

guarda-chuva,

chuva aguardada,

deu aviso prévio.

 

Mas, os políticos

não sabem planejar…

Prevenção,

não sabem?

 

Porque a prevenção

que não se vê,

não dá votos!

 

E o que você

vai fazer?

Não tem boca?

Não tem olhos?