Arquivo de novembro 2013

Pressa

A pressa é inquietação que norteia

e as horas passam veloz.

O tempo faz suas teias,

a pressa é inimiga atroz.

 

Quanto mais tempo

para querer ganhar,

tudo passa como vento

e não há tempo pra se achar.

 

Aproveitar cada momento bom,

mesmo que a música do ar saia do tom.

Não deixe a vida descer pelo ralo

Não deixe a vida descer pelo ralo

do banho da tarde.

Por que só se fala em desfazer?

A brisa do ar te invade,

você quer rejuvenescer!

Quando caminha na calçada

abarrotada

de carros…

O viver é raro!

Porque você não sente isso?

Enquanto estiver absorto no teu mundo…

e não olha o andar impreciso de um vagabundo

que carrega todo o desdém

de quem vai e vem…

Você não é apenas mais um número!

O trabalho de uma criança

O trabalho de uma criança

é brincar!

E nos seus sonhos

navegar…

Mas olho triste nas ruas e calçadas

crianças maltratadas

vendendo e mendigando

com as pessoas

que fingem não olhar.

E trocam por um trocado atoa…

-vai para um explorador

que pra ganhar a vida

não sente compaixão nem dor.

Embalar

Todos querem o necessário

na vida que necessita de vida,

o que for prioritário,

mais se aviva!

 

Ouço uma canção

que traz esperança,

quanto mais emoção

o embalar de uma dança

 

Vejo-me tocado,

porque quanto mais necessitado

de amor nas entranhas,

no olhar entre prédios:

janelas,

veloz o peito que sonha.

Réstias

A cidade que eu nasci era pequena

e continua pequena

no interior do nordeste

no sertão do nordeste

onde a chuva era pouca

e continua a ser pouca

nascido de parteira

sobrevivente

retirado do ventre

de minha mãe

 

De resquício de recordação

só a mão

que esparrama a farinha

bodes, porcos, galinhas…

e a solidão

ainda menino

cercado de mística

velas para o padre santo

a batina de promessa

a pouca informação

 

E voou rasteiro

sentido no interno

incerto

o cheiro da terra molhada

a serra olhada

 

E era um susto de estórias

a cova

da arapuca

de dizeres do medo

o plantar do milho

da mandioca

o alimento pouco

 

Estendendo os olhos

para o sol

que queima

mas ainda teima

meu mundo de réstias

 

Que o pouco que tenho

sobrevive-me

neste existir excêntrico

porque ainda

existe

meus dedos sob um mundo

esquizofrênico.

Comentário

Amigos leitores, peço a vocês

que se possível, deixem um comentário

para minhas poesias.

Tenho sentido falta de avaliações!

Não posso ter noções

sobre meus textos.

Não posso avaliar a mim mesmo.

Obrigado!

Francisco Dito Filho

Folheio

Às vezes folheio as páginas

Do livro de minha vida

Às vezes quase em branco

Às vezes multicoloridas

Um terminar

Um recomeçar

De sonhos repartidos

O que ouvi

O que vi

Quase semiapagados

Meus olhos

Meus ouvidos

Rumores em minha mente

O que fiz

O que plantei

Hoje é árvore, não mais semente.

Não me poupe a vida

Não me poupe a vida

das mais espontâneas alegrias:

do nascer da manhã

ao fim do dia

 

Não me poupe a vida

do barulho da chuva:

sobre o telhado

e do chão que a suga

 

Não me poupe a vida

da lucidez:

e só de amor

a embriaguez

 

Não me poupe a vida

de sonhar:

mesmo sozinho

na sala de estar

 

Não me poupe a vida

de um sorriso de mulher:

que de tão belo

faz enternecer

 

Não me poupe a vida

do olhar de uma criança:

quando já cansado

encha-me de esperança

 

Não me poupe a vida

de escrever:

no enrugar da pele

quando envelhecer.  

Terra de gente sem palavra

Terra de gente sem palavra

E no poço cava

Sem encontrar

Um fio d’água

 

O vento trouxe

Folhas secas de castanhola

Deu a volta

Você me enrola!

 

Nesta inútil burocracia

Não paga agora

Fica o dito

Para outro dia

 

Um adeus

Paga ao banco

Paga a comida

Com a cota embutida

E o que sobra paga a Deus.

Procurei uma chave

Procurei uma chave

uma chave

onde eu possa ouvir

mais tarde

as batidas dos meus sentimentos

não encontrei

quando de repente despertei:

não existe chave nas batidas

do meu coração e seus movimentos.

 

A porta dos mais ocultos

sentimentos

está na mente

não do pulsar do meu pulso.