Arquivo de janeiro 2014

Minha vida não é nada

Minha vida não é nada

é uma frustração

calada

que rompe o calor

do dia

como vento

ventania

é como a maresia

do mar

como porta aberta

que não há

como um amigo

que se cala

a uma pergunta

como mãos separadas

e adjuntas.

Poesias não são descartáveis

Poesias não são descartáveis

elas permanecem

e não perecem.

Enquanto estiverem na memória

e fazem história,

de um poeta.

A gente se habitua

A gente se habitua

andar nas calçadas

pelas ruas

e ceder pra o

automóvel

como um

andrógeno

andante

e não ver

o sólido

e constante

circular dos

já cansados

circulantes

no rodar

pela cidade

sem solução

do homem

e do automóvel

que já não se cabem.

Nem sei dizer

São tantos os porém

são tantos os porquês

coisas que eu nem

sei dizer

só resta a atitude

de quem quer vencer

ser movimento

mais ouvidos

meus olhos

comovidos

de quem em

nós

deseja

o bem.

Minhas mãos esquálidas

Minhas mãos esquálidas

são ávidas em querer

em fazer

planos de nuvens calmas

e tecer superfícies

claras e simples

como os versos que

se seguem:

dizia minha avó:

nunca é tarde

pra ser feliz!

coisa que eu

sempre

quis

mas o concreto

é duro

a pedra é dura

não mais que depura

meus pensamentos

auréola de ventos

que saem no meu mover

e tentar meu pensamento

tecer

ainda que os ventos circulem

no meu corpo

onde é simples porto

das ondas que ondulam

nas parabólicas

notícias que

entram pelos órgãos

e sobem encefálicas.

Cantiga de verão

Desfizeram-se os males

em mãos calejadas de sol

neste verão

de arrebol

fizeram-se altivas

as cantigas

tão repetitivas

de um ano que nasce

que passe

e se reparte

nas minhas cantigas

que geram esperança

nas minhas pupilas

de girassol

de girassol

procurando luz

no sol

que reluz

a vibração motora

do coração

e digam e redigam

e digam e redigam

esta canção

porque não é lamento

que ao sopro

se espalha ao vento.

A lagartixa

A lagartixa

Se estica

Encolhe

Espicha

Grudada

Na parede

Camuflada

Onde

Se

Esconde

Onde?

Atentado

Militares dão tiros para o alto

em homenagem a um presidente

morto.

Não deveriam atirar nem para o céu nem

para o chão.

Atirar para o céu é atentado a Deus!

Atirar para o chão é atentado ao Homem!

O verão emudeceu

O verão emudeceu

aqui num bairro de subúrbio

do Rio de Janeiro.

Não se ouve cantos de pássaros,

algazarra de pardais,

rumor de vizinhos

às 2 horas da tarde

em uma casa dos fundos.

Tudo é torrencial

nos meus dedos,

no meu corpo

recém-chegado do bar

onde comprei água tônica

gelada.

Vejo na tv o inverno no norte:

Que contraste!

Ver o gelo da neve

neste verão

e penso que tudo não

é dificuldade nos mais abastados,

nem no que gela, nem no que ferve…

Quanto a mim me resta o mais absoluto

silêncio nefasto.

Os mais velhos sabem

Um grupo de homens conversa na praça

Um grupo de crianças fazendo pirraça

E os pombos ciscam cá, ciscam lá…

Se assustam, com um bêbado fedendo cachaça

 

Este verão é abafante

Um cavalo atravessa a rua

Passa um carro

A se arrastar

E os vendedores de água

Andam entre os carros

Sem se importar com a lua

(Digo o sol)

Que bateu cinquenta graus

 

Mas os mais velhos

Sabem

Que vivemos tempos difíceis

E a natureza humana não se importa

Com a Natureza global

 

Agora é ano de Copa

O lucro de rolar a bola

É alegria

O futuro do futuro

São outros dias.