Condicional

Por muito tempo morei na varanda,

exposto meu rosto tímido;

como vergonha do que não tenho;

não fiz o que minha cabeça mandava,

fui calado contido,

dentro de mim mesmo;

o borbulho da rua da vida ladeira;

encoberta,

pelo egoísmo,

cheio de ismos;

 

no porão uma igrejinha;

onde os outros descarregavam profecias,

fantasias, fantasias;

verdades que aparentavam no olhar,

o desabafar de suas carências,

onde a essência da fé,

visão da utopia;

sim, sim – não, não;

essa condicional, eu disse um não.

Minha casa

Fiz a minha casa guardada em meus sonhos.

Já comprei os tijolos,

onde o pedreiro

é o vento,

cimento e alicerces,

incertos imprecisos;

já planejei

os quartos,

o telhado,

pra nestes versos

não sair molhado

pela enxurrada;

com minha amada,

dançar uma valsa,

a valsa do amor,

sem vergonha ou pudor.

O verão se anuncia

O verão se anuncia;

calor do sol

à luz do dia,

entardecer;

findou-se o meu dia numa caminhada;

Vi um flamboyant com suas cores vermelhas,

ao lado de um pé florido de flores brancas;

mostrando,

trilhando a calçada;

vi noutra rua, maquinas a concertar o esgoto;

um cadeirante, na sua cadeira caminhante,

rodando em minha frente;

entre a poeira e o vento mormaço,

o trator de aço

cortou um pé de arvore;

eu vejo o espaço,

estreito,

defeito,

na calçada;

como solucionar

os carros,

os cadeirantes?

Momento

Não eu não alcanço!

estiro a mão pra pegar o concreto

dos meus sonhos

mas não alcanço

o navio num balanço se afasta

se torna um vulto na miragem do dia

como a vida procrastina!

sombras, vultos

olhares já não estudo

minha esperança

 

menino cadê a infância?

que outrora escutava o burburinho

com medo da vida e das pessoas

por trás da porta pela fresta eu olhava

as conversas de adultos que eram trapaças

ingenuidade na flor da dança de menino

como um quadrado cortado ao léu

menino cadê seu brinquedo?

homem cadê seu mundo?

se perdera em algum lugar

por trás do véu.

Que não fere

Como passei por desertos em minha juventude

desertos insertos,

vazios, não os de areia.

No meu sangue perneia

a vontade de correr,

até o corpo relaxar da inquietude;

tenho um ímpeto de quem nasceu no sertão,

uma explosão,

que não fere,

olhar humano.

Sinto no espirito de quem toca piano;

um toque no agudo, outro no grave

como harmonia suave

de quem ama a vida,

não importa

a porta fechada,

da palavra solta no ar.

Meus ouvidos ouviram,

mas, no coração não deixaram entrar.

O mar é o horizonte!

Caminhar pelos caminhos da cidade,

                           é como andar pelas minhas veias;

                           o mar é o horizonte!

respirar fundo, cheio de ideias, 

navegar,

                           os sonhos não podem cessar!

 

o dia nasce, o ponteiro do relógio não para,

                           sem fazer distinção entre as pessoas;

umas não podem ficar atoa,

                           outras só querem ver do dia, a cara!

sentadas em seus automóveis,

                           tanto faz se faz sol ou chove!

 

Mas eu procuro, ao longo dos dias,

o abraço apertado, o pulsar da harmonia,

que não se faz de desconhecida

                           em suas ruas e avenidas;

 

eu ando no ritmo das passadas;

                           descubro trilhas nas calçadas;

faço-me de maleável em suas vias,

                           mesmo que a carência não ajude;

descubro na vida a virtude,

                           de no pouco tirar alegria.

 

Onde está o teu sorriso?

Onde está o teu sorriso?

O teu ajeitar delicado no cabelo,

a tua sutileza no olhar;

mulher generosa, não tenho prosa, só o meu pulsar.

As vezes a contemplar tua beleza,

como uma flor

que desabrochou;

me sinto apenas como um menino,

encantado,

com teu cabelo,

o pelo da tua pele,

leve,

suave,

me salve

do escuro da solidão.

Mulher, não tenho prosa,

só frases que colhi ao chão;

o chão onde pisastes.

Por cada dia

Dia de Zumbi, consciência Negra,

Feriado!

Quem com conhecimento pode

questionar este dia?

Falar em racismo é delicado, principalmente,

quando ele é velado.

Proponho, não sei se exagero, trocar um dia

por cada dia;

se faça um minuto de silencio

nos galpões de fabricas, nas repartições publicas e

ambientes de trabalho;

que se mova o coração na

conscientização dos negros e dos brancos

(os sofrimentos que ainda hoje se mostra;

no passado,

os negros humilhados,

e mortos nos navios e em terra).

E, assim, o respeito humano esteja em nosso cotidiano;

um País na raiz do calor humano;

E o voo do albatroz anuncie

aqui, um País de berço esplendido!

 

Na Colônia

Na Colônia Juliano Moreira,

parei o olhar num quadro suspenso;

meus olhos fotografaram

uma imagem única e pitoresca;

um senhor negro de cabeça branca,

camisa branca e calça preta,

andando pelo caminho da rua estreita;

ao fundo dois montes, de pedra, em formato

de seios tortos;

As cores da imagem me mostraram,

uma beleza,

de singeleza de momento único.

Pareceu-me uma foto do passado;

ou algo que se eterniza no nosso olhar,

sem palavras…

Dia chuvoso

Dia chuvoso, tarde chuvosa;

sai de casa, com o meu chapéu,

entre poças d’água e a calçada, esburacada;

a procura de consulta, que não marquei.

A sala vazia;

cheguei atrasado;

na volta,

o ônibus saltitante;

o homem esquizofrênico com seu crachá.

 

Em outro ponto,

o menino sacodia a mochila

pro lado e pro outro;

o transito devagar,

eu a divagar

no “beijo tácito” de Drummond.