Maio

Maio iniciou-se com chuva

e frio pelas manhãs, aqui no Rio.

 

Trazendo consigo a porta aberta,

por onde entrou o ano com seus

alaridos de autofalantes e cinzas de abril.

 

Rompeu o calor abafado, que insistia

todos os dias.

 

Maio mês das mães, das mulheres

que ditam e enfeitam as flores

do mês,

do ano.

 

Maio veio para querer amenizar as sombras

das dores,

dos partos nas mães

que geraram filhos.

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Sede da terra

Um homem portando um crachá de idoso

ao pescoço

lavava seus pés sob a chuva na água

para esgoto,

escorre para os bueiros e rios

no término de abril.


A água invade tudo, se ramifica,

limpa o ar e ensopa os corpos,

mata a sede da terra até se fartar

para as pessoas que se esquecem

que a água pode acabar,

como acaba em outros sertões,

deixar de ser potável

pelo uso irresponsável

no esvair da torneira aberta

que a natureza empresta

no insaciável desperdício

como ouro jogado no precipício,

profundo, do seio da terra.


Pois dela depende a manifestação

da vida,

onde dela e nela se manifesta

a criação.

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O dia amanhece cinzento de nuvens

O dia amanhece cinzento de nuvens.

Nuvens se condensam em água,

escorre pelos telhados.

 

O café se vaporiza perto da janela,

penso em escrever sobre flores,

mas, as flores que eu vejo são de plástico

sem vida, sem brilho.

 

Passarinhos cantam chamando pela vida

à luz clara mormaço,

no silêncio da manhã

recolho-me em casa

ouvindo canções no espaço,

calmas e sutis,

o rádio está desligado.

 

Ligado estou eu

na calma e fresca manhã,

em algum lugar do subúrbio do Rio de Janeiro.

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O tanque

Crianças brincam num tanque de guerra

em Latrun, comemoram a independência do lugar,

os Israelitas.

Penduram-se no canhão e nas armas do tanque,

o tanque se fez de brinquedo,

brinquedo que mata,

que destrói

o sonho de brinquedo de outras vidas,

o caminho para Jerusalém,

histórias de guerras,

batalhas e conquistas.

Ferro que se corrói,

pelo sonho de paz das vidas de além.

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Umbuzeiro

Há! umbuzeiro de porte imponente

Tu és um oásis neste sertão

Saciando a sede e cansaço das gentes

Árvore amada neste chão


Ao sol tu dás sombra com tua copa larga

Árvore frutífera tão almejada

É tão doce a poupa de teu fruto

Quando te pejas tão belo e maduro


A sombra tão fresca ao sol causticante

Tu és o descanso do caminhante

Erguendo os olhos para os teus ramos


A música suave dos pássaros com seus cânticos

Do nascer do sol ao anoitecer

Tu sempre serás a árvore que dá de beber.


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Move-se o ônibus

Move-se o ônibus pela rua congestionada,

somos passageiros neste barco lotado,

voltamo-nos o olhar para tudo que passa,

a atmosfera é inundada de propaganda,

no fim de semana há mais carros;

pela janela do ônibus é um agredir os olhos

de propaganda em cada canto,

em cada espaço,

placas,

Outdoor,

faixas nas faixadas;

o gargalo do trânsito é inundado de nuvens

que se movem fatigadas

na abafada atmosfera

onde se sente a ferrugem

do tempo,

que já não sustenta

o capitalismo egoísta,

porque já surge no horizonte

a esperança de novos ventos.

  

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Sonhar

Passamos boa parte de nossa existência

dormindo,

mas, sonhar acordado,

é o que nos move na luz da sobrevivência:

um amor correspondido,

uma viagem para ver o mundo.

 

Sonhar em apascentar a vida, no mundo,

para o amanhã

é um sonho de titãs

para quem vive um trabalho de rotina,

em incertezas ou certezas,

fazendo e desfazendo

no contato com a realidade.

 

Mais vale a amizade

do que uma falsa alegria serpentina.

 

Ciranda cirandinha

sorriso de menina,

vamos todos cirandar.

 

Abraçando o calor da vida na sua beleza

e o menino de minha infância, sonha a observar.  

  

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Dizeres que vem

Só o que tenho para oferecer

são versos,

como num quintal à vista,  

pois só o sentimento sabe,

o que o cotidiano trás

por dizeres que vem

e faz em mim portador da paz.

A paz neste silêncio

que vem do meu quintal,

onde o sol faz-se em sombras

sem árvores que atraiam pássaros

como um sonho não recordado

que não tira o descanso da noite,

como um menino que dorme,

ao cólo, no aconchego de sua mãe.

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E assim se vive

O que me resta saber

          é o que me resta viver,

por um incessante deslizar do tempo

                        /tempo, tempo – vento, vento/,

vives solto por entre os Homens

           e não tem olhos que reparam em nada.

História ave alada,

          de repente dar-se uma guinada

e mudam o rumo das coisas

         /uma lâmpada que se acende,

uma lâmpada que se apaga/

         e a onda nos pega de surpresa,

de crise em crise

         o mundo gira

e assim se vive,

         com a cabeça cheia de números

transitórios;

         transitam pelos gráficos da economia,

onde cada curva pode ser um desemprego,

         um aumento de gastos no prato.

Prato feito de gordura ou secura

         das bocas avidas para sentir o gosto

do pão do dia-a-dia,

         como um canto de alivio

e um recomeçar a contar

         os dias no calendário

com planos no amanhã,

         porque os dias pedem vida

para aqueles sonhos armazenados.

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Correnteza

A doce esperança de um amor

na correnteza de uma queda d’água.

 

Eu nado contra a corrente.

 

É inevitável a queda

para a realidade.

 

O que parecia certezas

é uma ilusão,

a flor da substância de querer te amar

e desejar,

o inalcançável segredo dos teus olhos.

 

Se me acolhesses no seu regaço

como ninho de passarinho.

 

Nos teus braços num entrelaço

e me mostrasses a virtude,

nas tuas mãos cheias de calor

na atitude de acalentar

de amor à plenitude.  

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