Pintainhos

Eu levantei da cama como uma

águia salta para o voo

A todo tempo temos

algo novo

Quando de repente…

escutei um pio

um não

dois

pio, pio…

Dois pintainhos

sem abrigo sem ninho

piando na minha porta

ciscando no chão

(coisas de vizinho)

Tudo bem…

 são pequeninos

enquanto eles não crescem

e façam cocô no meu corredor

pelas minhas costas.

 

Toda semana é Santa

Toda semana é Santa

Nas mãos que trabalham

Nos pés que se apressam         

no passar das horas cotidianas

pois Deus não

chama

alguém atoa

Davi

Gideão

todos estavam ocupados

na sua labuta

A todos que se movem

na sua luta:

O descanso é sagrado!

Cristo por quase dois dias

descansou

para depois

ser arrebatado.

 

Alento

A brisa da manhã se revigora

na coragem dos dias

Casas que se abração

no lume que lumia

Se cada dia for uma

canção

que seja espontânea

no peito que ama

e diga:

– Canto para todos que

acreditam com coragem

no amanhã

Que em cada sorriso uma

bela mensagem:

– Melhores dias virão!

Porque

viver, viver, viver

é mais do que pesa

a arrogância do ter.

Na fritura da chuva

Na fritura da chuva

eu me expus

lavar todos os problemas

que o dia induz        

E os carros que expiram

as poças d’água

suja a roupa lavada

Uso o guarda-chuva de

parapeito

Será que isso não é culpa

do prefeito?

Mas é que os carros

os carros pulam feito

pulga.

Explicação do inexplicavel

Letra

sílaba         

palavra

Parece tão simples

como simples é a fala

Mas a fala é simples?

 

Traduzir o pensamento

no aparelho fonador

o desencadear de neurônios

o que parece espontâneo

leva em conta o humor

 

E o humor é variável

chuvas repentinas

Também o que se vê

nas retinas

altera o pensamento

 

Como o que se lê

depende do humor

pode ser fina flor

ou chama de fornalha

 

a palavra que só fala

o que no teu peito embala

pode ser nada ou tudo

 

a informação

expressa

como letra de canção

depende

do que faz dela o uso

único

em cada um.

Linha férrea fecha

Linha férrea fecha

Só tem a estrada

Que o asfalto

Multiplicou

Os caminhões

Tão altos

Mercadorias mil

Tudo que se plantou

Em braços fortes

Que na boleia

O frete tratou

E as locomotivas

Dos trens

Enchem-se

Da ferrugem

Dos museus

O que foi saída

No passado

Minguou.

Que canção eu farei?

Que canção eu farei

para o fim do verão?

Cantarei estridente

como as cigarras

ou como as sementes

buscarei a luz

num de repente?

Tão espontâneo

como a criança

que estende

a mão

para o presente?

 

Antes de tudo

peço calma!

Para Humanidade

que mata a alma

fazendo-se

surdo e cego e mudo.

Maria

E quando reluz

a luz do dia

são Marias

mães de filhos

do futuro

Além dos portões

e dos muros

são dadivas de Deus

que nos deu

este nome

Milhões de sobrenomes:

Maria, Maria, Maria…

Piso os azulejos

Piso os azulejos

simetricamente

Pensei em mania

Mas é só uma maneira

inconsciente de ajustar

a incerteza e fantasia

da imprecisão dos dias

Penso que sou único

isso me basta

E sinto que sou eu

e todo mundo

Isso me renova

e me faz fecundo.

A luz

O corredor iluminado

perto da porta

A parede com tintas

sobrepostas

E a lâmpada que

pisca tantas vezes em um

segundo

Sessenta velas de luz

incandescente.