Menino pobre

Estava brincando;

não me recordo com o quê,

mas de uma coisa

o tempo não me fez esquecer;

sentada no banco do carro a garota rica

pra mim sorria com os lábios,

num olhar generoso;

não sabia o que fazer,

se falava,

se encarava,

se dava um bom dia;

fiquei sem jeito,

por não ter jeito no meu corpo magro;

disfarcei;

o coração na boca;

era demais para um menino pobre e só;

com  amigos, na rua de cima,

amigos de bola entravam de sola;

buscando alternativas, sonhava,

andava e andava, em busca de horizonte;

o nascer do dia era minha esperança,

antes que o anoitecer me fizesse adormecer.

No alto da serra

Fiz o meu ninho

no alto da serra

vou lá de vez em quando

vislumbrar quem está em terra

odiando

amando

                        subir ao ninho num impulso

                        fazer-me pássaro num fluxo

                        num acelerar do meu pulso

                        repousar num influxo

meus olhos contemplaram

casas

árvores

prédios

pessoas

afastado de tudo

num abraçar com as mãos

                        não há tédio as nuvens refrigera-me atoa

                        como um alpinista

                        que supera o próprio esforço

não há solidão

tudo é um novo

a cada passear das nuvens

                        sombras na terra.

                      

Céu

Dia de verão, manto azul,

nuvens de algodão doce,

doce o açaí,

doce o refrigerante,

doce o sorvete,

doce o beijo dos amantes.

Quem dera que o mel

das palavras,

das falas

pudesse inundar o povo,

num involucro das favas,

abelha que se desfez da arrogância,

menino da infância,

se enche de esperança

num olhar mais renitente,

encher o peito da gente

elevando-nos até o céu.

Retrato

Se penso em ti,

penso logo

nos cabelos,

teu olhar,

teus lábios pedindo um beijo,

teu acalanto;

de súbito, te vejo a me contemplar;

teu rosto diz um não…

como um retrato outdoor,

frio,

gelado;

quando a mulher gosta de verdade,

esquece a vaidade, e logo sorri;

como quem vê algo agradável;

ah, se me conhecestes bem?

verias que aqui bate um coração,

pacifico,

brando,

que conhece a essência,

essência de menino…

No fim do caminho

No fim do meu caminho,

uma arvore florida;

agradou-me tê-la nas retinas;

por caminhos espinhosos já andei,

que me fizeram sangrar,

disso eu sei;

no sol causticante

pequenas sombras,

do meu corpo

refletiu a penumbra;

cansado de bater a porta,

sem que ela alargue,

os meus sentidos calaram;

eu resolvi ouvir, muito mais do que falar;

não tive opção,

numa luta por dentro

meus sentimentos travaram,

aquilo de mais rico em mim.

Vultos

Passa as ruas passam as gentes

numa festa findo ano

povo consumo povo urbano

acreditar nas luzes com planos

ter na memoria uma alegria

envolta de fantasias

penumbra do amor das famílias

inventam suas próprias trilhas

em compras ao preço

do que é novo

borbulho do povo

entre sons que se entre cruzam

entre luzes que piscam

vultos enevoados

esperança

criança

a dança

onde da janela ver

ano que já vem

permeando os sonhos de alguém

e crer e crer…  

Mariposa

Chuva de vento temporal

                       ventos ventania

                       refresca o calor do dia

                       infernal

por vezes surge uma mariposa

                       se fazendo esposa

                       da luz da lâmpada

                       encandecida  

gira e gira ao redor

                      fazendo círculos elipses

                      num voo alucinado

                      pesando encontrar o sol

apago a luz num eclipse

                      que faz a mariposa

                      alçar outro voo  

                      trilhar outros caminhos

em busca de outra luz.

Papelão

Procurei um guia de ruas,

Dentro das caixas de papelão,

Não consegui encontrar não;

Só livros e inúteis revistas;

É interessante quando tentamos encontrar,

Coisas que precisamos e não conseguimos achar;

Às vezes surge uma barata;

Meu Deus quanta arruaça!

Só por causa de um inseto;

Pega o sapato, o chinelo;

Taca nessa mal dita, que se esborracha!

Gira

Ando de um lado pro outro

dentro da quitinete

mas o relógio não gira

gira apenas o sol no alto do céu

mundo tudo gira em torno de alguma coisa

gira os satélites e a lua em torno da terra

gira a terra azul em torno do sol

gira o sol em torno da via láctea

gira a via láctea em torno de aglomerado de galáxias

giram as crianças em torno das mães

gira meu computador em torno da internet

giro eu em torno de mim mesmo

gira o girassol o furação

relógio é implacável

inexorável

pra quem espera as horas passarem.

Vaga o sol

Vaga o sol com suas luzes

pisca no para-brisa dos carros,

incauto e andarilho,

pensamentos vagos,

quer andar nos trilhos;

trilhos sem cruzamentos sem cruzes,

pensamentos desalentos

trilha o caminho certo no incerto.

Por vezes surge do bolso

um pouso de passarinho,

afastei com meu celular,

a mente quer pensar,

mas pensar em quê?

Só me resta o caminho,

só me resta o contemplar,

amar e amar

o que está para acontecer

– entardecer.