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A cultura digital e o descarte de eletro-eletrônicos

quinta-feira, novembro 19th, 2009

Felipe Andueza, analista ambiental, pesquisador do coletivo Lixo Eletrônico (núcleo criado com o objetivo de ampliar a discussão pública sobre o descarte de tais materiais no Brasil) em entrevista ao BioDigital comenta sobre a necessidade de atentarmos para os resíduos “tecnológicos”.

1) Como podemos relacionar a Cultura Digital Brasileira com o consumo e obsolescência planejada dos eletro-eletrônicos?
Felipe: A obsolência planejada é mundial, não é um fenômeno daqui. O Brasil apresenta algumas peculiaridades no consumo e utilização de eletrônicos. Esses aparelhos são mais caros, relativamente, do que em outras partes do mundo, a sociedade brasileira em geral não acha que um eletrônico velho ou obsoleto é lixo necessariamente. Há um costume de repassar, reutilizar ou até mesmo guardar. Isso é melhor do que jogar no lixo doméstico. Há um grande desafio: a fatia do mercado ilegal no consumo de eletrônicos no país é altíssima, o que significa que a simples obrigatoriedade da indústria de recolher e reciclar seus produtos não solucionará a questão do lixo eletrônico, pois todos os consumidos ilegalmente estarão fora desse ciclo reverso, e poluindo, contaminando da mesma, ou de pior forma.

2) No Brasil qual o principal problema relacionado à indústria de eletro-eletrônicos?
Felipe: São vários problemas graves: a ausência de uma coleta que atinga a grande produção de resíduos eletro-eletrônicos no país, a grande fatia de mercado de produtos ilegais e a falta de programas ambientais focados na análise de ciclo de vida do produto como são aplicados nas matrizes dessas indústrias.

3) Quais os impactos que o descarte e manipulação do chamado lixo eletrônico podem causar às pessoas e ao meio ambiente?
Felipe: Nos seres humanos, podem causar um sem fim de doenças relacionadas à intoxicação por metais pesados, polímeros retardadores de chamas e até mesmo por silício particulado no ar. Ao meio ambiente pode causar uma série de distúrbios ecológicos causados pela intoxicação de animais, plantas e outros seres vivos, além da poluição de recursos hídricos, solos e diversos biomas.

4) Práticas como remix, metareciclagem, reciclagem e reaproveitamento têm sido incentivadas pelo governo de alguma forma? ou vc as enxerga mais atrelada a iniciativas coletivas livres?
Felipe: Vejo que o Poder Público em geral começou a se interessar pelo tema por todas as potencialidades de atuação que os resíduos eletrônicos possuem. Também vejo uma série de iniciativas da sociedade civil de reutilizar, ressignificar eletrônicos, principalmente os equipamentos informáticos que tem grande possibilidade de mudança social. Quem está atrás mesmo é a indústria que ainda engatinha na correta destinação de eletrônicos ou bem-vindos programas de responsabilidade socioambiental, a tendência é a fabricação de eletrônicos menos agressivos ao meio ambiente, mas as milhares de toneladas de produtos já fabricados, consumidos e com alto poder tóxico estão espalhados pelo mundo e onde quer que terminem, contaminarão águas, solos, animais, plantas e pessoas.

5) Qual a sua perspectiva com relação ao ciclo do consumo-descarte dos eletro-eletrônicos no Brasil?
Felipe: A perspectiva é que o consumo continue aumentando, e que o descarte aumente com alguns picos: programa de trocas de geladeiras, substituição de celulares digitais comuns pelos que acessam internet tipo blackberry ou iphone, obsoletos das mais diversas naturezas. È um cenário preocupante num país onde não há coleta seletiva de eletrônicos nem obrigatoriedade da indústria tomar responsabilidade pelos tóxicos produzidos, mas que apresenta uma grande oportunidade: o fato de aumentarem os eletrônicos obsoletos e descartados e do consumo em geral, aumenta a percepção social de que esses produtos são um grande problema ambiental e isso não só pressiona o Poder Público como a Indústria.