domingo, 14 de março de 2010

Cultura Digital

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/ Labblog 30/10/2009 - 10h44

Rede é regulação e nada mais. Entrevista com Alexander Galloway

publicado por Henrique Costa

Alexander Galloway

Alexander Galloway

Um dos principais pesquisadores das redes digitais e da sociedade de controle, Alexander Galloway  é professor associado do Departamento de Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York e autor de Protocol: How Control Exists After Decentralization e Gaming: Essays on Algorithmic Culture (ambos ainda sem tradução para o português).

Ele também escreveu para publicações online, como a CTHEORY e a Nettime, além de ter participado de coletivos de Mídia Tática.

Nesta entrevista exclusiva ao Fórum da Cultura Digital Brasileira, Galloway comenta sua teoria do protocolo e explica porque a internet é mais controlada do que supomos. “É fundamentalmente redundante dizer internet regulamentada. A internet é regulação e nada mais.”

Galloway estará presente ao Seminário Cidadania e Redes Digitais com Langdon Winner e Tim Wu.

Em seu livro “Protocol”, você descreve os protocolos como um instrumento de controle que não é exercido por pessoas, corporações ou governos. Também a interatividade, pensada no início como libertadora, acaba por resultar, na sua opinião, em ainda mais controle. Como essas questões se articulam, quem são os beneficiários deste controle e como estabelecer, nos seus termos, um “contra-protocolo”?

Há conotações nefastas para este termo, controle e, claro, não estou inteiramente evitando-os, no entanto, o principal objetivo de um conceito como “protocolo” é enfatizar o aspecto organizacional, o controle como uma tecnologia ativa de organização. É disso que a cibernética se trata: controle e comunicação em conjunto. Eu tenho usado o conceito de “tragédia política da interatividade” para descrever como a interatividade, que se sustentou até há poucas décadas atrás como o grande objetivo de uma mídia emancipada, agora é hoje a infraestrutura básica da tecnologia global. Em outras palavras, não há nada de emancipatório na interatividade hoje.

Na verdade, há um novo tipo de interatividade online, a interatividade do corpo, o valor codificado que ela produz quando é capturada, massificada e digitalizada por sistemas de monetização. Isto é o que a interatividade significa hoje. Um corpo é sempre “cybertyped”, ou seja, é sempre rotulado com um certo conjunto de marcadores de identidade afetiva. Não se trata simplesmente que um corpo deva estar sempre falando, ele deve estar sempre “falando-como-algo”. Sempre que um corpo fala, ele sempre fala já como um corpo codificado com uma identidade afetiva (gênero, ética e nacionalmente digitado, e assim por diante), determinada como tal por várias infraestruturas recíprocas e pela formação da identidade. Isto é parte do que eu estou tentando explorar sob o conceito de “protocolo”.

No Brasil, assim como em países como a França, recentemente surgiram iniciativas no âmbito legislativo de criar restrições à internet, obrigando, por exemplo, provedores de acesso a denunciar práticas como “downloads ilegais”. Que cenário você prevê para a liberdade de expressão na internet?

Saliento que o protocolo está fora tanto dos poderes comerciais e jurídicos não para afirmar que esse tipo de poder não exista. Muito pelo contrário: eles existem. No entanto, reduzir a lógica da infraestrutura da máquina para a lógica dos governos e corporações é falso. Máquinas em rede tem sua própria lógica, e pelo menos no início esta lógica era altamente resistente a antigas formas de poder exercido por antigas formas de soberania. O que estamos vendo hoje, no entanto, após esse período inicial de organização em rede, é uma reinvenção da soberania no âmbito de redes, uma “centralidade-de-rede” se você preferir. É por isso que uma das entidades mais poderosas do planeta pode ser uma entidade de rede: o Google. É por isso que o novo sistema de comando jurídico global pode ser um comando de rede: o Empire.

Como você interpreta a ideia de um marco regulatório civil? Você acredita que o Estado tem um papel na formulação de políticas públicas para a rede?

É fundamentalmente redundante dizer “internet regulamentada”. A internet é regulação e nada mais. Basta olhar para os protocolos. O “C” no TCP/IP significa “Control”. Eu sou contra a ideia, que ainda é bastante comum, de que a internet é uma força que, fundamentalmente, elimina regulação, hierarquia, organização, controle, etc. Redes distribuídas nunca estão “fora de controle” – este é o pior tipo de ilusão ideológica. A questão fundamental, portanto, nunca é se existe ou não controle, mas de preferência perguntarmos: Qual é a qualidade desse controle? De onde ele vem? Ele é dominado pelos governos, ou é implantado no nível da infraestrutura das máquinas? Não tenho a pretensão de responder à questão sobre o poder do governo, pois há décadas e séculos de textos dedicados aos excessos do poder estatal. Ainda podemos ler esses livros. A minha contribuição é meramente ao nível da infraestrutura e da máquina. Qual é a especificidade da organização informacional? Esta é a questão básica da protocolo.

Com base em seu conhecimento sobre o contexto da internet no Brasil, como você vê a atuação de grupos de mídia tática, ativistas e pesquisadores e qual seria uma proposta de defesa da internet livre no país?

Quero aprender muito a partir do contexto brasileiro. Minha sugestão inicial é que, com o aumento do poder do formato de rede, é importante compreender a organização e o controle social em relação às três frentes: o Estado, o setor comercial e o setor industrial. Ativistas de mídia tática já estão conscientes disso e estão mobilizando seus esforços em todas as três frentes. Por exemplo, eu considero o sistema operacional Linux uma vitória dramática no setor comercial, mesmo que tenha muito pouco a dizer sobre o poder do Estado sobre o poder da infraestrutura. Não tenho certeza se  temos visto ainda um movimento “contra-protocolo” muito ativo. Mas este será, certamente, o local da luta que virá.

Um dos principais pesquisadores das redes digitais e da sociedade de controle. Alexander Galloway é professor associado do Departamento de Cultura e Comunicação da Universidade de Nova York e autor de Protocol: How Control Exists After Decentralization e Gaming: Essays on Algorithmic Culture (ambos ainda sem tradução para o português). Escreveu para publicações online, como a CTHEORY e a Nettime, além de ter participado de coletivos de Mídia Tática. Nesta entrevista exclusiva ao Fórum da Cultura Digital Brasileira, Galloway comenta sua teoria do protocolo e explica porque a internet é mais controlada do que supomos. “É fundamentalmente redundante dizer internet regulamentada. A internet é regulação e nada mais.”

1. Em seu livro “Protocol”, você descreve os protocolos como um instrumento de controle que não é exercido por pessoas, corporações ou governos. Também a interatividade, pensada no início como libertadora, acaba por resultar, na sua opinião, em ainda mais controle. Como essas questões se articulam, quem são os beneficiários deste controle e como estabelecer, nos seus termos, um “contra-protocolo”?

Há conotações nefastas para este termo, controle e, claro, não estou inteiramente evitando-os, no entanto, o principal objetivo de um conceito como “protocolo” é enfatizar o aspecto organizacional, o controle como uma tecnologia ativa de organização. É disso que a cibernética se trata: controle e comunicação em conjunto. Eu tenho usado o conceito de “tragédia política da interatividade” para descrever como a interatividade, que se sustentou até há poucas décadas atrás como o grande objetivo de uma mídia emancipada, agora é hoje a infraestrutura básica da tecnologia global. Em outras palavras, não há nada de emancipatório na interatividade hoje.

Na verdade, há um novo tipo de interatividade online, a interatividade do corpo, o valor codificado que ela produz quando é capturada, massificada e digitalizada por sistemas de monetização. Isto é o que a interatividade significa hoje. Um corpo é sempre “cybertyped”, ou seja, é sempre rotulado com um certo conjunto de marcadores de identidade afetiva. Não se trata simplesmente que um corpo deva estar sempre falando, ele deve estar sempre “falando-como-algo”. Sempre que um corpo fala, ele sempre fala já como um corpo codificado com uma identidade afetiva (gênero, ética e nacionalmente digitado, e assim por diante), determinada como tal por várias infraestruturas recíprocas e pela formação da identidade. Isto é parte do que eu estou tentando explorar sob o conceito de “protocolo”.

2. No Brasil, assim como em países como a França, recentemente surgiram iniciativas no âmbito legislativo de criar restrições à internet, obrigando, por exemplo, provedores de acesso a denunciar
práticas como “downloads ilegais”. Que cenário você prevê para a liberdade de expressão na internet?

Saliento que o protocolo está fora tanto dos poderes comerciais e jurídicos não para afirmar que esse tipo de poder não exista. Muito pelo contrário: eles existem. No entanto, reduzir a lógica da infra-estrutura da máquina para a lógica dos governos e corporações é falso. Máquinas em rede tem sua própria lógica, e pelo menos no início esta lógica era altamente resistente a antigas formas de poder exercido por antigas formas de soberania. O que estamos vendo hoje, no entanto, após esse período inicial de organização em rede, é uma reinvenção da soberania no âmbito de redes, uma “centralidade-de-rede” se você preferir. É por isso que uma das entidades mais poderosas do planeta pode ser uma entidade de rede: o Google. É por isso que o novo sistema de comando jurídico global pode ser um comando de rede: o Empire.

3. Como você interpreta a idéia de um marco regulatório civil? Você acredita que o Estado tem um papel na formulação de políticas públicas para a rede?

É fundamentalmente redundante dizer “internet regulamentada”. A internet é regulação e nada mais. Basta olhar para os protocolos. O “C” no TCP/IP significa “Control”. Eu sou contra a ideia, que ainda é bastante comum, de que a internet é uma força que, fundamentalmente, elimina regulação, hierarquia, organização, controle, etc. Redes distribuídas nunca estão “fora de controle” – este é o pior tipo de ilusão ideológica. A questão fundamental, portanto, nunca é se existe ou não controle, mas de preferência perguntarmos: Qual é a qualidade desse controle? De onde ele vem? Ele é dominado pelos governos, ou é implantado no nível da infraestrutura das máquinas? Não tenho a pretensão de responder à questão sobre o poder do governo, pois há décadas e séculos de textos dedicados aos excessos do poder estatal. Ainda podemos ler esses livros. A minha contribuição é meramente ao nível da infraestrutura e da máquina. Qual é a especificidade da organização informacional? Esta é a questão básica da protocolo.

4. Com base em seu conhecimento sobre o contexto da internet no Brasil, como você vê a atuação de grupos de mídia tática, ativistas e pesquisadores e qual seria uma proposta de defesa da internet livre no país?

Quero aprender muito a partir do contexto brasileiro. Minha sugestão inicial é que, com o aumento do poder do formato de rede, é importante compreender a organização e o controle social em relação às três frentes: o Estado, o setor comercial e o setor industrial. Ativistas de mídia tática já estão conscientes disso e estão mobilizando seus esforços em todas as três frentes. Por exemplo, eu considero o sistema operacional Linux uma vitória dramática no setor comercial, mesmo que tenha muito pouco a dizer sobre o poder do Estado sobre o poder da infraestrutura. Não tenho certeza se temos visto ainda um movimento “contra-protocolo” muito ativo. Mas este será, certamente, o local da luta que virá.

14 comentários para “Rede é regulação e nada mais. Entrevista com Alexander Galloway”

  1. Tweets that mention Cultura Digital » Entrevista com Alexander Galloway -- Topsy.com Disse:

    [...] This post was mentioned on Twitter by danielhora, Gilson Pôrto Jr. Gilson Pôrto Jr said: RT @tweetmeme Cultura Digital » Entrevista com Alexander Galloway http://bit.ly/I183b [...]

  2. Cultura Digital » Internet livre é princípio. Entrevista com Tim Wu Disse:

    [...] Entrevista com Alexander Galloway [...]

  3. Cultura Digital » O mito da tecnologia fora de controle. Entrevista com Langdon Winner Disse:

    [...] Entrevista com Alexander Galloway [...]

  4. diba Disse:

    “A internet é regulação e nada mais.”

    estas informacoes sao o ponto de vista dele??? … ou de outras culturas e classes tambem?

    O GOVERNO NAO PODE CONTROLAR O TRAFEGO DA INFORMACAO.

    Imagina na coreia do norte, naquela revolucao sobre as armas nucleares. Onde o presidente MANDOU desligar TODAS as formas de comunicacao externas. Imagina aqui no brasil. Vai ser facil para o governo. Apenas apertar um botao e acabou tudo. POLITICA e’ UMA COISA e TECNOLOGIA E’ OUTRA … continuem com a politica … e deixem a tecnologia a rede em PAZ …

    Felizmente UMA pessoa gravou e colocou na net. Sera que ele (o presidente) pensou que o resto do mundo nunca saberia disso … kkkkk … otario mesmo …

    NINGUEM PODE SE BENEFICIAR COM ISSO ….

    Antes de tudo .. DEEM ACESSO A INFORMACAO PARA O POVO POBRE … eles tambem tem o direito de opinar neste tal MARCO ZERO de merda …

    Assim vejo que apenas alguns irao opinar (ou estao preparados para opinar) … estudantes euforicos, playboys, empresarios … etc …

    Ainda e’ muito cedo para um marco … DEEM ACESSO A INFORMACAO PARA O POVO … DEPOIS EXIJAM DELES …

    [Responder]

  5. Fique por dentro Cultura » Blog Archive » Cultura Digital » Rede é regulação e nada mais. Entrevista com … Disse:

    [...] da Universidade de Nova York e autor de Protocol: How Control Exists After … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  6. Galloway: “não há nada de emancipatório na interatividade”. | Trezentos Disse:

    [...] entrevista com Alexander Galloway foi feita por Henrique Costa e está publicada no site do Fórum de Cultura Digital Brasileira . Foram entrevistados também Tim Wu e Langdon Winner e as entrevistas estão disponíveis no site [...]

  7. Paulo Francisco Slomp (slomp) 's status on Tuesday, 03-Nov-09 02:22:27 UTC - Identi.ca Disse:

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  9. Paulo Francisco Slomp (slomp) 's status on Tuesday, 03-Nov-09 02:25:17 UTC - Identi.ca Disse:

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  10. Paulo Francisco Slomp (slomp) 's status on Tuesday, 03-Nov-09 02:28:34 UTC - Identi.ca Disse:

    [...] http://culturadigital.br/blog/2009/10/30/entrevista-com-alexander-galloway/ a few seconds ago from web [...]

  11. Cultura Digital » Seminário “Cidadania e Redes Digitais” Disse:

    [...] Rede é regulação e nada mais. Entrevista com Alexander Galloway [...]

  12. Veja como foi o seminário “Cidadania e Redes Digitais” | Trezentos Disse:

    [...] na última mesa, mostrou como a rede é regulação e nada mais. “O princípio fundador da rede é o controle e não a descentralização [...] As redes são [...]

  13. Do governo: o controle da informação § Mantenha a mente aberta Disse:

    [...] Rede é regulação e nada mais. Entrevista com Alexander Galloway [...]

  14. FaConti (faconti) 's status on Sunday, 15-Nov-09 06:32:01 UTC - Identi.ca Disse:

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