Práticas sustentáveis em discussão no Fórum

Foi lançado por aqui na última semana o Blog BioDigital. A proposta do espaço, criado por Maíra Begalli, fundadora e vice-diretora presidente da Veredas, e pela geóloga Claudia Chow, é criar diretrizes para quem quiser optar por ser socialmente responsável na hora de montar um evento. Na metodologia, serão abordadas todas as etapas do processo, como alimentação, cenografia, consumo de energia, de água, comunicação, serviços. E tudo será feito de forma aberta e colaborativa. “Acreditamos no desenvolvimento de soluções plurais e vocacionais para os desafios que envolvem o meio ambiente, na adoção de princípios colaborativos para toda a proposta, na cope(e)ração coletiva”, diz o texto inicial do blog.

Para participar dessa iniciativa, basta entrar no grupo de discussão Biodigital e postar a sua colaboração. Lá, inclusive, já está a primeira versão da metodologia, que receberá colaborações até 12/11 para ser lançado no Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira. No Twitter, as discussões serão marcadas pela hashtag #biodigital. Agora, com a palavra, as autoras do projeto Maíra e Claudia:

1) O que é biodigital?

Maíra e Claudia: BioDigital é uma proposta de planejamento em sustentabilidade para eventos e instituições. A Plataforma do Fórum da Cultura Digital serve como base para a articular a construir essa metodologia livre, colaborativa e honesta que enfatiza o fluxo entre cultura livre, cultura digital, recursos naturais e tecnologia. Mixando conteúdos e práticas, raqueando formatos e possibilidades. Não se trata de estabelecer e/ou manter procedimentos que avaliem e mensurem quantitativamente os aspectos e impactos ambientais, e sim no uso alternativo e aproveitamento de materiais, saúde e segurança dos trabalhadores, valorização da produção local e comunitária, e envolvimento dessas redes no processo do evento/instituição.

A primeira documentação da Metodologia Livre do BioDigital será lancada no dia 18 de novembro de 2009, durante o Fórum da Cultura Brasileira e estará disponível para download em http://culturadigital.br/biodigital. Pretendemos aprimorar tanto os processos e parâmetros, como a parte de sinalização/comunicação e a listagem de fornecedores. A intenção é ao final de cada evento listar as práticas que foram adotadas, os problemas e ganhos que tivermos, possibilitando assim uma contrapartida para nossos colaboradores, fornecedores e possíveis futuros adeptos e replicadores.

2) É possível conciliar responsabilidade ambiental ao baixo custo?

Claúdia: Lamento, mas eu acredito que a era do baixo custo está por acabar. Teremos que superar essa ideia. Tudo tem um custo ambiental e social e isso nunca foi embutido em nenhum produto ou serviço, já passamos da hora de começarmos a pagar por ele. Mas esse custo maior por ser diferente também tende a diminuir quando o maior número de pessoas começarem a optar por ele.

Maíra: E, também, vale ressaltar o que é que entendemos como “custo baixo” e “custo baixo” para que? Por exemplo, de nada adianta optarmos por uma confecção que faz camisetas eco-amigas e não possui seu processo certificado. Não adianta se não envolver economia local, atividades vocacionais…Alguém pagará esse custo. A questão é que hoje quem paga a conta por isso são comunidades em vulnerabidade social, provocada por carência econômica. Citando, pontualmente nesse caso das camisetas, seriam os bolivianos sub empregados em confecções em São Paulo que trabalham sob condições insalubres.

3) Como a empresa que faz um evento pode se certificar que a carne comprada não é proveniente da caça?

Claúdia: Escolhendo o tipo de carne, verificando com o fornecedor a sua procedência e solicitando notas fiscais, certificados que possam comprovar a sua legalidade.

Maíra: E, existem as espécies em vulnerabilidade como: cação, atum, jacaré, cobras, tubarão. Nesse caso vai além de pedir nota fiscal. Mas, há discussões mais abrangentes, como verificar a procedência do boi, por exemplo: se ele não vem de criadouros ilegais, que avançam em terras nativas desmatadas.

4) É possível fazer um evento seguindo as recomendações colocadas no biodigital em cidades menores, com menos opções de fornecedores? Quais as orientações a quem não tem à disposição buffet com alimentos orgânicos, empresa de cenografia socialmente responsável, cooperativa de reciclagem….?

Claúdia: Todas as recomendações do biodigital são apenas diretrizes, mesmo em cidades grandes hj em dia ainda é muito complicado seguir todos os parâmetros ideais. É impossivel ser 100% sustentável, em qualquer lugar do mundo. A ideia principal é dar um norte para quem se preocupa em fazer um evento com menor impacto. Por exemplo: não tem buffet orgânico na sua cidade? Utilize produtos locais e da época, nem sempre alimentos orgânicos são a melhor opção pela distância que se encontram. Muitas vezes estimular a produção local é mais importante que usar os produtos orgânicos. É sempre bom lembrar que oferecemos apenas sugestões e diretrizes. Cada caso é um caso e não existe um modelo ideial fechado a ser seguido.

Maíra: A outra grande preocupacao é derrubar clichês e propostas falaciosas de certificações que acabam angulando o que é impacto ou não é apenas para classificat as empresas X ou Y como consciente. E isso não existe. Vivemos numa estrutura de mercado em que os sistemas são arquitetados sob acúmulos provenientes de exploração de recursos e de mão de obra. Creio que o grande desafio é explicitar tais processos, questionando até que ponto o chamado “lucro” é “lucro”, instigando novas opções de troca.