Tecnologias para “corporificar” experiências em vídeo: entrevista com a artista digital Mariana Manhães

Post publicado por Thiago Carrapatoso em: http://culturadigital.br/artedocibridismo/2010/08/06/a-preservacao-de-vasos-falantes-em-museus/

Existe um limiar entre o que deve ser estruturado com sentido lógico e o que deve ser um mundo lúdico em algumas obras de arte. Há as obras políticas, militantes, e há aquelas em que a beleza ou a imaginação puxam o espectador para uma outra vivência.

As obras de Mariana Manhães trabalham com o lúdico e usam as tecnologias (hardware mesmo) para “corporificar” as experiências em vídeo. Os trabalhos da artista são construídos a partir de objetos do cotidiano (como bules e açucareiros), um baita trabalho de edição (ela me mostrou a timeline em um editor de vídeo e, meu, são milhares de recortes de uma mesma imagem para compor um gesto de um objeto) e liberdade à imaginação para fazer os sons – ou vozes.

Os trabalhos não nasceram para ser interativos. Por mais que eles se movimentem e pareçam chamar o público para participar, como diz a própria autora, eles são autistas.

Eu vejo um objeto desses, eu imagino… é como se a máquina fosse um vocabulário possível para ele, sabe? É meio abstrato o que eu vou falar, mas é como se a língua deles, a linguagem deles, acontecesse através desse organismo que se move por causa deles. E eles interagem só entre si. Isso também é uma coisa importante. Tem gente que acha que o meu trabalho é interativo. Ele não é interativo em uma maneira objetiva. É claro, ele interage porque o público, de uma certa forma, se insere naquela situação na qual tem coisas ali que estão conversando. Ele não entende muito bem o que está acontecendo, mas sabe que tem alguma coisa, alguma comunicação que ele não entende de primeira, mas tem algo acontecendo ali. Ele se insere no trabalho, mas ele não é um trabalho interativo, em que a pessoa faz um movimento… não tem sensor de movimento. É, os trabalhos são autistas, eles só conversam entre eles.

Mariana ainda tem cuidado de criar manuais de preservação para as suas obras. E é algo que todos os artistas, principalmente os que mexem com tecnologia, poderiam ter. A preocupação de Mariana não é apenas para que a obra esteja em funcionamento quando exposta em uma galeria ou adquirida por um colecionador. Ela está pensando no futuro, quando possivelmente algumas pessoas usadas em seus trabalhos não possam mais ser substituídas.

E isso é um ponto também importante para os museus que começam a se interessar por esta vertente artística. As obras não devem ser apenas expostas, como se fosse somente problema do artista se elas parassem de funcionar. Elas devem ter manutenção constante. É uma lástima ir a uma exposição como o FILE e ver que, depois de dois dias, diversas obras não funcionam mais. Apenas por não haver a preocupação por mantê-las.

Se para a pintura, escultura e arquitetura existem centros apenas focados para isso, por que não começar a pensar um para a arte e eletrônica?

Comentários (3)

  • Foto de perfil de Alvaro Malaguti

    Galera,

    Muito bacana o vídeo-entrevista e a preocupação com a preservação da arte eletrônica.

    Mas preservação é um problema da arte CONTEMPORÂNEA e não apenas da arte eletrônica. Exemplo: como preservar obras de Ernesto Neto que utiliza materiais orgânicos, como temperos e tuli de lycra que resseca e rasga? O exemplo desta artista é especialmente interessante porque é um caso em que as maiores obras são adquiridas por instituições de arte fora do Brasil e que não comprariam se não tivessem a preocupação em conservar.

    Preservar arte eletrônica é necessário sim e por isso creio que seria muito importante vir a termos no Brasil um centro como o ZKM da Alemanhã, instituição centrada na relação arte/tecnologias/mídias e que combina atividades de documentação, pesquisa e exposição.

    Bom, isto coloca um desafio (ou seria uma tarefa?) para a rede social do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Qual seja: entender os arranjos políticos e instituicionais que permitiram a existência de um centro como o ZKM na Alemanhã. Qual a participação das iniciativas públicas e privadas nestes arranjos institucionais? E outras questões semelhantes e fundamentais para a qualficação das propostas para uma política pública que explore as interseções entre ARTE, CULTURA E TECNOLOGIA.

    Caberia a FINEP apoiar um iniciativa que aponte para um programa mais amplo em arte e tecnologia? Talvez. Só para ver como são amplos os limites das linhas de financiamento desta empresa pública vale lembrar dos discos de Marcus Pereira. Parte deles foram produzidos com financiamento da FINEP (aliás hein, e este acervo produzido com recursos públicos? onde é que está mesmo???).

    Agora, não dá para dizer que existem centros focados na conservação das linguagens “tradicionais” como a pintura, a escultura e a arquitetura. No Brasil? Onde? Bom tudo isso para dizer também que temos que ter cuidado com a segmentação em excesso.

    Fora isso, belíssimo video-post de Thiago. Parabéns!

    • Foto de perfil de Thiago Carrapatoso

      Oi, Alvaro!

      Que bom que você gostou da entrevista! Espero que tenha visto as outras do blog também.

      E você tem toda a razão. Não é somente com a arte eletrônica que devemos nos preocupar. A segmentação só acontece porque a pesquisa é focada apenas nessa área – e é onde mais interessou a Mariana quando conversamos.

      Como você acha que se deve começar a articulação para essa política pública sobre o tema? Ir atrás da Finep? Reunir outras instituições públicas? Fazer laboratórios experimentais?

      O que você sugere?

      Abraços,

      Thiago

      • Foto de perfil de Alvaro Malaguti

        Opa Thiago,

        Perdoe-me pela demora na resposta. A idéia dos laboratórios experimentais em arte, cultura e tecnologia está rolando desde o ano passado, 2009. O trabalho do Cícero como curador do eixo Arte Digital contribuiu muito para colocar isso na pauta. Junto com isso, a conexão das instituições do MinC a uma rede da RNP também despertou/apontou esta possibilidade. Dá para imaginar uma instituição como o Complexo Cultural da Funarte São Paulo conectado a uma rede com capacidade de até 10 Gigabits por segundo!?!?! O lance é que a conexão é apenas uma camada. Uma camada fundamenal para viabilizar experiências distribuídas em rede mas que depende de outras camadas igualmente importantes que ainda não foram iniciadas como a compra de equipamentos, adequação de instalações e formulação de iniciativas/programas para ativar estes espaços. Bom, isto, a idéia, está no horizonte de desejo do Ministério da Cultura. O lance é concretizar. Voltarei a falar mais sobre isso em outro post/comentário.
        um forte abraço.

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