O mal do arquivo: Derrida e a Cultura Digital Brasileira

Post publicado em http://culturadigital.br/acervodigital/2010/08/06/o-mal-do-arquivo-derrida-e-a-cultura-digital-brasileira/, escrito por Rogério Santana Lourenço

Imagem do Paradoxo Boyle

“A democratização pode sempre ser medida por esse critério essencial: a participação e o acesso ao arquivo, sua constituição e interpretação”
Jaques Derrida, o Mal do Arquivo.”

O Brasil é um paradoxo. Por uma série de motivos e razões, teve sua história permeada por fatos que constituíram sua população como uma das mais receptivas do planeta. Ao mesmo tempo, essa história é contada por distâncias, afastamentos, silenciamentos, violência e ignorância. O papel do Estado, ainda não tão bem compreendido quanto o papel do Governo, tem grande responsabilidade nessa contradição. Estamos aprendendo o que é governo, mas penso que há ainda um longo caminho para compreendermos o que é Estado. Ao longo de tempos diferentes, os Estado brasileiro têm sistematicamente ignorado grande parte de imensos problemas que nos constituem como país. A reforma agrária, o monopólio das comunicações, o analfabetismo ou o trabalho escravizado são alguns. Outros, como os direitos do povo indígenas, ou quilombolas, o acesso à educação fundamental, estão sendo tratados.

São muitos os problemas, e muitas as soluções, e isso, o número de soluções, é em si, um novo problema , quando não se articulam os esforços para solucioná-los. Ocorre que uma discussão muito importante para nossa identidade, é o papel de suas instituições. As instituições podem ser de diversos tipo, governamentais, não governamentais, particulares ou públicas, com ou sem fins lucrativos. Em todas essas possibilidades, estamos falando de pessoas coletivamente organizadas.

Desde Novembro de 2009, o Fórum da Cultura Digital Brasileira, deu iniciativa a 226 formas de possibilidades. Algumas mais concretas que outras, mas todas possíveis.  Estamos num momento onde a pletora de ações dissolve o rumo das coisas. Assim, um paradoxo, outro, se coloca: a quantidade de frentes que a cultura digital abre tem se tornado tão ampla quanto a agenda abaixo:

  1. Digitalização de Acervos
  2. Laboratórios de criação artística e tecnológica
  3. Direitos Autorias
  4. Plano Nacional de Banda Larga
  5. Televisão Digital
  6. Mídia Livre
  7. Culturas Tradicionais
  8. Liberdade Religiosa
  9. Liberdade de Gênero
  10. Educação Livre
  11. Software Livre

Para fins de comodidade, mas não de importância, o item Digitalização de Acervos, assunto primário desse blog, vem como primeiro. Ocorre que só deste, foram elencados 12 itens, no início do ano, como desejáveis, e que de fato, tiveram, ainda que não muito visíveis ou publicizados, seus desdobramentos. Certamente não foram incluídas nessa lista aspectos fundamentais. Acima estão as que são mais visíveis, desta perspectiva que aqui escreve.

O Filósofo Jacques Derrida, disse uma vez que o acesso ao acúmulo de informação social, seus arquivos, são um índice do quanto essa sociedade compartilha seus valores, os materiais e os morais. A lista acima é um exemplo de uma sociedade nascente na América Latina movendo-se rumo a seu devir. Isso, o devir, é agora o que nos faz móveis, e o movimento é não linear. Essa possibilidade, que o digital tem, permite que os arquivos que estão sendo pensados, as televisões, as produções, enfim, a cultura, seja, ou lute para ser, um pouco mais livre. É complexo, muito complexo, talvez seja o tal efeito das redes…muito descentralizado, mas com pouca direção… O que, talvez não seja nem bom nem mal, se soubermos lidar com o outro nome do complexo: a diferença.

O que antes parecia impossível, lidar com a diferença de milhões ao mesmo tempo, argumento utilizado por muitos, hoje em dia não se sustenta. Um exemplo disso é o projeto Metavid, cujos autores, além de fornecerem inspiração para este post (com a frase de abertura) deram um exemplo concreto do que pode ser feito com XML, vontade política e participação coletiva. O Metavid funciona como uma espécie de observatório dos representantes do povo dos Estados Unidos, na medida que disponibiliza as transcrições das sessões realizadas e gravadas pelo canal CSPAN, uma televisão privada, mas que tem uma missão pública. Algo que ainda estamos aprendendo como equacionar à nossa maneira, por aqui.

Seriam muitos, muitos os exemplos de pequenas coisas que não têm tanta visibilidade, mas que estão em curso. Pelo contrário, há, de vez em quando, grandes anúncios, que tenham menor impacto sobre as pessoas. O tempo dirá.

Comentários (4)

  • O texto tem razão ao elencar o papel institucional como preponderante no debate dos arquivos. Não apenas o papel protagonista das instituições públicas e privadas, bem como seu interesse em disponibilizar e realizar a manutenção de arquivos que significam a memória da cultura da qual a instituição participa, mas é importante lembrar que essas instituições também realizam escolhas do que arquivar e manter e o que descartar nesses arquivos.

    Em um texto sobre Arquivos Digitais que está sendo publicado na revista Manuscrítica (USP) discuto essa questão das escolhas de arquivamento institucionais enquanto algo ainda incipiente no contexto de novas mídias e novas tecnologias. É visível o despreparo das instituições para captar arquivos contemporaneamente.

    Mantê-los no contexto atual (ou “digitalizá-los”, que é uma das faces da manutenção) não é o pior dos problemas, uma vez que os técnicos já sabem como digitalizar, estabilizar redes, manter dados, salvaguardar informações de e-mails e contas em geral. O problema está no entendimento de que, dependendo do arquivo (se de escritor, de uma organização, de algum movimento político, etc.), o método de captação feito pelas instituições deve ser diferente e também deve considerar a produção (o ato de produzir itens que compõem esse arquivo) não apenas impressa, manuscrita, datiloscrita, mas também a digitoescrita (noção criada a partir da idéia de produção digital), constituindo um hiperarquivo, conceito que desenvolvo de modo diferente do que tenho visto nas teorias já conhecidas.

    Aponto isso aqui, pois na agenda acima não consta a perspectiva da captação de arquivos do modo (de um modo digital) que aponto, não sei se essa questão faz parte dos “12 itens elencados” (não deu para acessar) ou das “229 formas de possibilidades…” (que também não deu para acessar). De qualquer modo, essa questão me interessa profundamente e venho discutindo-a há algum tempo encontrando-me a disposição para o debate.

  • Foto de perfil de Rogerio Santana Lourenço

    Oi Pablo,

    Suas propostas acadêmicas são sempre bem vindas. Há grupos aqui discutindo assuntos relacionados à documentação. Tendo em vista que a proposta do Fórum esse ano é a autogestão, você também pode criar um grupo e trocar. Pessoalmente, não penso que deva haver discussão, mas sim troca científica, se entendo o que você propõe. Os itens elencados são resultado de um ano de prospecção sobre acervos digitais, e as pautas nesse período ocorridas aqui no Fórum. O http://culturadigital.br/acervodigital/ tem o conteúdo que resultou na lista. Penso que para se ter uma noção do que essa lista significa, cabe olhar como ela foi feita…

    Quanto às escolhas de arquivamento institucionais, elas não são nada novas. Seria interessante você discutir porque a Igrja Católica tem prerrogativa no arquivamento de seus bens garantida no texto do CONARQ, mas nada há (e ai as escolhas) sobre outras denominações religiosas.

    Junto a isso, seria legal, também, e caso você se interesse, problematizar os documentos não escritos, pois uma visita ao Museu Histórico Nacional, aqui no Rio, como em qualquer museu público, evidencia uma quantidade de bens culturais, de certa origem e classe, demarcadas, também, institucionalmente (arte moderna, histórico, naif, popular…) São categorias “mágicas” de separação que substituem o feio preconceito que atribui grau à cultura, classificando as produções em altas e baixas…

    O que fazer com uma

    • Olá Rogério, obrigado pela resposta.

      Quando falo “discussão” refiro-me a trocas também. A questão é que hoje em dia o pessoal está mais acostumado com palavras como “participação”, “colaboração”, etc… Sou do tempo da discussão, debate e diálogo. Tudo cabe na mesma coisa que falei.

      Sua mensagem cortou, mas entendi o que você estava dizendo. Vou em busca das referências que você apontou no site. Abraço;

      Pablo Gobira

  • Foto de perfil de Rogerio Santana Lourenço
Imagem CAPTCHA
*