Além do azul e do vermelho: a ‘onda rosa choque’ da #culturadigital

ONDAROSA

“A onda rosa-choque contra o poder careta, verticalizado,
excessivamente burocratizado, tecnocrático, insensível e opaco
parece estar ocorrendo agora, com novas cores
além do azul e vermelho, bem mais misturadas,
remixadas com as diversas tonalidade ideológicas
que assumiram as ruas.”

(Sérgio Amadeu da Silveira, sociólogo, no prefácio)

 

Foi lançado este mês o livro a “A Onda Rosa-Choque“, que apresenta “reflexões sobre redes, cultura e política contemporânea”. Rodrigo Savazoni, o autor, participou ativamente da coordenação da plataforma CulturaDigital.br no período 2009-2010, e é um dos fundadores da Casa de Cultura Digital SP, iniciativa precursora em espaços coletivos de co-working e empreendedorismo digital.

Com sua experiência no tema, Rodrigo reúne no livro artigos, ensaios, entrevistas e textos acadêmicos compilados nos últimos três anos, e que tem como tema a relação entre política e cultura digital. Esse assunto ganhou ainda maior relevância a partir dos levantes de 2011, como a Primavera Árabe, o 15M, na Espanha, e o #OccupyWallStreet, nos Estados Unidos. Os artigos, muitos deles, buscam refletir sobre esses acontecimentos, em comparação com a conjuntura brasileira, e descrevem a conformação de novos movimentos político-culturais que emergiram como um dado novo da realidade nacional, principalmente a partir dos efeitos do Governo Lula e do Ministério da Cultura de Gilberto Gil e Juca Ferreira (2003-2010).

O livro foi publicado com a licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0 International, que permite cópia e distribuição do material em qualquer meio ou formato. Aproveitando esta oportunidade, republicamos aqui o capítulo “Uma Reflexão sobre as redes”, que reproduz entrevista com Savazoni produzida a partir de provocações de Batman Zavarese, no Catálogo 2011 do Festival Multiplicidades de Arte e Tecnologia.

 

UMA REFLEXÃO SOBRE AS REDES – Rodrigo Savazoni

Como você vê o impacto digital na cultura? 

Fiz essa pergunta para várias pessoas durante a feitura do livro CulturaDigital.Br, mas lendo e pensando a respeito, cheguei à con- clusão de que não é a melhor forma de encarar a questão, pois a ideia de impacto é insuficiente.

Por quê? Porque a ideia de impacto coloca a digitalização como algo externo à cultura. Ou seja, existiria o processo de transformação tecnológica e existiria uma cultura dada, como elementos distintos. Não acredito nisso. Para mim, o processo de transformação tecno- lógica reside na cultura, conformando-a. Então, a tecnologia não determina a cultura, mas é justamente por meio da evolução dos meios técnicos e dos usos que deles fazemos (inclusive ao criá-los) que a nossa história como seres humanos se escreve.

Isso é engraçado porque, se formos pensar assim, a própria ideia de cultura digital revela-se bastante limitada. Porque o que existe é a cultura e ponto. Uma cultura em constante mutação devido ao infinito engenho humano. Isso abre perspectiva para que a gente entenda que todas as tecnologias, que coexistem atualmente, são válidas e consti- tuem a nossa cultura. A tecnologia xamânica do índio xinguara é tão relevante e importante hoje quanto a plataforma escrita em .php que roda o Facebook. Portanto, cultura e tecnologia são indissociáveis.

A digitalização, no entanto, para não fugir completamente à sua pergunta, operou uma divisão muito profunda nos processo de produção, circulação e fruição dos bens culturais em relação ao que o planeta se habituou nos últimos dois séculos. A desmaterialização, a desintermediação ou reintermediação e as práticas colaborativas promovem uma ruptura e um hack, uma fissura enorme, na indús- tria da cultura. Daí porquê compartilhar músicas virou argumento para uma guerra cibernética. Por esse raciocínio, o digital acelera absurdamente o processo de transformação da sociedade.

Qual a importância das redes de compartilhamento? Estamos diante de um novo olhar transversal para buscar conhecimentos?

Compartilhar talvez seja a palavra mais importante disso tudo que estamos vivendo. É muito bonita a emergência de um tipo de tecnologia baseada na ideia solidária de troca entre pares, na pers- pectiva de que juntos fazemos melhor. Isso opera uma mudança no interior do mundo ocidental ao mexer com valores muito sólidos, que fundam o pensamento liberal (o econômico e o político), como acreditar que o ser humano é essencialmente autointeressado. Essa ideia fortíssima de que eu, para fazer o bem para os outros, preciso primeiro garantir o meu. A regulação adviria naturalmente do cho- que dos vários interesses individuais contrapostos. Essa é uma ideia que deu errado e levou o planeta a um colapso.

De alguma maneira, gosto de pensar que a criação da internet veio para pôr fim, de uma vez por todas, nessa hiperindividualização que os povos do ocidente inventaram e impuseram ao mundo. Sem dúvida, o movimento software livre, a ideia de código aberto, de partilhar rápido e sempre, dá outro sentido para nossa prática e ela hoje influencia não só a engenharia de software mas toda nossa cultura.

A partir de sua frase: “sabemos que as ideias sobre este nosso mundo acelerado ainda não decantaram”, pergunto se o Brasil terá ousadia para compreender os desafios da cultura digital?

É uma questão bastante complexa. Lembro de conversas com o professor Laymert Garcia dos Santos, autor do importante livro ‘Politizar as novas tecnologias’, no qual ele professava a urgência de convencermos o país de que é preciso pular no trem da história e realizar o desafio de construir uma sociedade produtora de tecnologias adequadas ao nosso contexto.

Houve um momento, durante o governo Lula, a partir daquilo que Gilberto Gil colocou na pauta política nacional, por meio de seus discursos, que parecia que seríamos capazes de encarar com a gran- diosidade necessária esse desafio. Mas isso foi derrotado por um olhar neodesenvolvimentista que enxerga cultura e natureza, no máximo, como ativos para o crescimento do PIB. Ou seja, a aposta em uma economia criativa baseada na produção de propriedade intelectual e na exploração dizimadora da biodiversidade. Essa é a nossa catástrofe.

Por outro lado, temos no Brasil uma vigorosa comunidade de compartilhamento associada ao software livre, os movimentos de cultura livre vêm ganhando cada vez mais força, há apoio de gen- te poderosa para essas causas, então é possível que venhamos a compreender e a realizar nossa missão histórica. Hoje, me parece, o cenário não é tão positivo. Seria preciso uma mobilização muito mais forte para produzirmos os deslocamentos necessários. E tudo muda tão rápido…

Gilberto Gil, ainda Ministro da Cultura disse: “trabalho para que governos não sejam necessários um dia”. Esta liberdade transgressora é o que se vê na essência da internet. Qual a importância, por exemplo, da cultura hacker?

Primeiro, é preciso entender o que é a cultura hacker. Não é o que lemos nos jornais. Por isso, é preciso clarear o que é um hacker e por que é a ética desse agente que molda o nosso tempo.

O termo hacker se refere, inicialmente, aos experts em programação e em segurança de sistemas computacionais, mas hoje se refere a todos aqueles que compartilham uma “ética baseada na liberdade do conhecimento e do compartilhamento dos códigos”.

Crackers são os invasores que buscam saquear senhas de acesso e distribuir vírus para cometer crimes. Muitos dos crackers nem sequer são programadores. Hackers são aqueles que reorganizam o interior da tecnologia, portanto, a cultura.

A importância dessa cultura para o que vemos hoje é absolutamente fundamental. A Internet foi criada por hackers, o Google foi criado por hackers, o Facebook foi criado por hackers, os movimentos sociais contemporâneos, desde Seattle, no fim dos anos 1990, são formados por muitos hackers. Os Anonymous fundem o ativismo tradicional e o hacktivismo criando uma nova e poderosa força global, que pretende disputar mentes e corações em todo o planeta. Ou seja, não há como entender o nosso tempo sem entender a cultura hacker.

Na Casa da Cultura Digital, espaço que ajudei a construir em São Paulo, articulamos o Garoa Hacker Clube, que é o primeiro Hackerspace do Brasil, um clube onde se “brinca” com tecnologias e também a comunidade Transparência Hacker, que mais recentemente comprou o Ônibus Hacker, um ônibus modificado para ser um laboratório móvel e percorrer o país difundido a ética hacker. Hacker é o que somos.

Gil, no seu segundo ano de governo, bombardeado pelos meios de comunicação de massa por conta do projeto de regulação do setor audiovisual, fez uma aula inaugural na USP onde se assumiu como um ministro-hacker. É esse ministro, músico tropicalista, que vai retomar a utopia do fim do estado, que, afinal, é o horizonte de toda filosofia política realmente transgressora e libertária.

Transgressão e liberdade ganham novo vigor com a difusão da ética hacker.

E o remix na criação?

A recombinação é outro elemento central da cultura contemporânea. Toda cultura é resultado da recombinação. A arte é, por essência, recombinatória. A ciência também.

Com a digitalização essa condição recombinante ficou mais explícita, mais evidente, principalmente porque começamos a trabalhar os fragmentos, os arquivos digitais, na composição dos nossos discursos, e os meios técnicos trouxeram muitas facilidades para se fazer isso. Apenas com um computador e uma boa conexão de Internet eu posso inventar um mundo. Isso é muito bacana, porque amplia e muito as nossas potências criativas.

O que é remix? Saque e dádiva. Troca. Tudo junto e misturado. O que é meu é seu e é nosso. Enfim, só não gosta disso o pessoal que vive de produzir direitos de propriedade intelectual, as grandes corporações e uma meia dúzia de artistas que ficaram ricos de forma obscena. Para a evolução humana é um grande ganho.

Num exercício de futurologia livre, com tantas possibilidades tecnológicas, até onde você acha que vamos chegar?

Não faço a menor ideia. Mas muitas coisas que achamos que são futurologia, na verdade, já ocorrem. Logo mais, com a mudança da tecnologia de acesso a Internet, a mudança no protocolo IP, pode- remos ter todas as máquinas conectadas à rede, sua cafeteira e sua geladeira, o portão da sua casa, estarão conectados; as cidades inteligentes estão sendo desenhadas, a inteligência artificial, embora não seja exatamente o que a ficção científica projetou (robôs bonitinhos que façam o trabalho doméstico), é uma realidade, o Craig Venter e a Google estão sequenciando nossos genes sabe-se lá para o que fazer com eles (transformar o ser humano em um conjunto de informações compartilháveis?), enfim, nem o céu mais estabelece um limite…

O que eu gostaria de ver, no entanto, é a humanidade se voltar para pensar politicamente e de forma crítica quais tecnologias queremos e quais não. Gostaria de ver o poder dos laboratórios ser controlado pelo comum, pelas maiorias, que hoje não opinam nem influenciam nas decisões relevantes que estão sendo, a maior parte delas, tomadas por corporações transnacionais. Gostaria de ver nossa capacidade de invenção e elaboração destinada ao desenvolvimento de tecnologias limpas, renováveis, que fizessem do planeta um lugar habitável e agradável. Tecnologia não é neutra. É uma escolha política e foi para evidenciar isso que criamos o Festival #CulturaDigitalBr.

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