Acervos digitais sob a lógica da ativação de redes sociais: articulando estratégias de apoio à digitalização da cultura

Texto do Prof. Dalton Martins (Gestão da Informação – UFG)
Originalmente publicado no blog Lab3P

cluster-organizacao-672x372Enormes desafios ainda cercam o plano da Cultura Digital e o desafiam como um potente espaço de experimentação e produção de políticas públicas que visem a ampliação de espaços de participação e a produção do comum.

Um desses desafios que têm nos inquietado e aquecido algumas experiências nos últimos meses e que parece atravessar esse plano da cultura em suas diferentes manifestações é a questão da digitalização de acervos e o modo como eles têm sido pensados quando se trata de estratégias de socialização, apropriação e circulação da informação digitalizada.

Tradicionalmente, os acervos têm sido tratados a partir de uma lógica de organização que os entende como repositórios de objetos digitalizados, sejam eles em diferentes mídias, formatos e formas de acesso. Sendo entendidos como um repositório ou mesmo uma biblioteca digital, os acervos passam a ser construídos com a preocupação central no armazenamento, organização, preservação e distribuição de seus conteúdos. O acervo, portanto, adquire nessa compreensão uma dimensão logística e acaba sendo construído a partir de princípios e padrões técnicos que terminam por dificultar e, até mesmo, inibir a participação em sua construção de pessoas que não são iniciadas tecnicamente em seus modos de organização e acabam, em alguma medida, a se tornarem apartardas do sentido social da digitalização desses acervos.

Sem dúvida, os recursos técnicos que são utilizados quando da organização desses espaços visam sua eficiência e se preocupam em garantir modos que facilitem a gestão dos conteúdos. No entanto, esse modo focado na gestão se distancia consideravelmente da preocupaçao com o sentido social de construção desses acervos e a possibilidade de produzí-los como um espaço que não apenas articule conteúdos digitalizados, mas envolva de partida pessoas, instituições, formas de organização que extrapolem a noção de público e privado movidas pelos desejos de encontro com o outro que se interessa pelo projeto que também é o meu projeto, desejos deprodução do comum que promovam a ampliação da potência singular de atuação, que revelem o inesperado e que transformem a construção dos acervos num processo de encantamento pela arte de estabelecer conexões entre conteúdos e imaginários socializados.

Novamente, voltamos aos desafios que cercam o plano da Cultura Digital. Como, portanto, pensar maneiras de produzir acervos digitais que sejam pensados e organizados a partir da preocupação em ativar redes sociais que construam coletivamente o sentido desses acervos, produzindo estratégias de organização, circulação da informação, compartilhamento e facilitando seus modos de funcionamento através de diferentes e complementares estratégias de apropriação e uso de seus conteúdos? Como pensar em acervos que sejam construídos a partir da lógica da colaboração e da produção do comum que orienta e pauta o interesse daqueles que se movem e se convocam a árdua tarefa de selecionar conteúdos, digitalizar e compartilhar em formato digital?

É em busca de produzir experiências e acumular vivências que nos auxiliem a encontrar caminhos para responder a essas perguntas que o Laboratório de Políticas Públicas Participativas da Universidade Federal de Goiás tem trabalhado na experimentação que relatamos a seguir.

Uma das primeiras experiênciais que a área de Cultura Digital do Ministério da Cultura tem promovido em direção a construção de uma Política Nacional de Acervos Digitais é o edital dePreservação e acesso aos bens do patrimônio Afro-brasileiro, realizado em parceria com aUniversidade Federal de Pernambuco. O edital selecionou 20 iniciativas que propuseram projetos de digitalização de acervos relacionados a cultura Afro-brasileira.

De maneira a pensar a construção desse acervo a partir das questões que discutimos acima, nos propusemos a organizar um projeto de experimentação que leve em consideração alguns elementos que consideramos fundamentais para a ativação e a potencialização de uma rede social das iniciativas participantes desse edital:

  • estratégia de encontro, afetos e o sentido de pertencimento: ao longo desta semana, as iniciativas se encontrarão e passarão 3 dias juntos discutindo seus projetos, apresentando suas ideias, debatendo desafios, produzindo coletivamente estratégias de articulação de seus acervos, formas de compartilhamento, uso de vocabulário comum e, sobretudo, constituindo um plano de articulação comum onde seus acervos se tornam conteúdos complementares de um bem maior que é a própria cultura afro-brasileira;
  • a produção de vocabulário de categorização comum e a abertura de um plano semântico de compartilhamento: a partir dos textos dos projetos construídos pelas próprias iniciativas, realizamos uma análise semântica que permitiu identificar os principais conceitos estruturantes das propostas, tais como pessoas, locais, manifestações, datas e eventos que pautam o sentido dessas propostas. O objetivo dessa construção é ofertar aos participantes desse encontro presencial já formas de categorização de seus conteúdos digitais que dialogam diretamente com o texto de referência de seus projetos, permitindo não só facilitar a categorização dos conteúdos como criar vinculos que conectem diferentes projetos a partir dos mesmos conceitos. O plano do vocabulário compartilhado abre uma potência enorme de ser trabalhada na construção do comum entre essas iniciativas e, considerando a estratégia de digitalização de acervos, torna-se um meio privilegiado de construção de sentido que conecte diferentes experiênciais e crie caminhos de navegação entre elas facilitando a apropriação da diversidade de conteúdos a serem digitalizados. Você pode visualizar na galeria de imagens (ver no post original) como ficou esse primeiro mapa de vocabulário produzido a partir do texto dos projetos;
  • sistema de informação que evidencie o plano social de articulação em detrimento do espaço logístico de armazenamento de conteúdos: um cuidado importante a ser tomado na criação do acervo é o ambiente onde ele será disponibilizado. Há diversos softwares que apoiam a construção de repositórios digitais. Porém, a sua grande maioria são sistemas que se preocupam com os aspectos de gestão dos conteúdos e raramente apresentam possibilidades de interação social, como comentários, compartilhamento em redes sociais e conversação em torno e a partir dos conteúdos. Com essa preocupação, nada mais lógico do que utilizar uma das mais potentes redes sociais da cultura digital brasileira como o próprio ambiente de disponibilização desses conteúdos, o próprioCulturaDigital.BR.  Foi criada uma área especial para essa experiência que agregará todos os blogs individuais das iniciativas participantes do edital, facilitando a navegação nos acervos blogados e a interação social não só entre os participantes, mas entre todos os usuários da própria rede da Cultura Digital. Além disso, esse espaço também fornecerá navegação a partir das categoriais criadas e compartilhadas pelas iniciativas, facilitando a navegação temática em torno dos conteúdos e das próprias iniciativas;
  • sistema de informação de integração e busca descentralizada: de maneira a promover uma lógica de funcionamento ainda mais descentralizada e facilitar a integração a esses acervos de outras iniciativas que não tenham participado do edital e queiram disponibilizar seus acervos para compor essa lógica de agregação e darem maior visibilidade e acesso ao que produzem, planejamos para 2015 a produção de um espaço de busca federada e descentralizada, que permitirá qualquer blog que atender a requisitos técnicos mínimos de compatibilização com a política do acervo a se conectar nessa busca e tornar seus conteúdos também indexados e possíveis de serem encontrados no mesmo ambiente.

Entendemos que essa experiência e esses princípios relatados nos permitam ampliar o potencial social de produção de acervos digitais e que essa maneira de trabalhar possa se tornar uma estratégia de apoio para a construção de acervos considerando a rede como eixo central de articulação.

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