Sui Generis…

espiritoPorque no paradoxo do que há em mim

Faz-me ser agora e não em outro instante

Como quem foge perdida e recua sem medo

Como quem cedo busca os anseios da alma

Porque sou feita de extremos

Sou plano de elevações,

Vozes de silêncio, sombras de luz,

Sigo de polo a outro em segundos seguidos

Sem rota e sem padrões

Sou música para vários ritmos

Sou caneta pra qualquer leitor

Sou o vento da brisa suave

E a devastação do furacão

Sou amor e amor de novo

Sou o bem de muitos e o mal pra mim

Esperança das convicções

Sou o íntimo perdão com a vingança maquinada

Sou a castidade do sexo e a anarquia do fazer amor

Sou o olhar macabro e o sorriso doce

E poucas lágrimas para muita emoção

Sou o canto de vozes de espíritos

E a busca por explicação

Sou o rosto ante a máscara

Sou até o que não sei que sou

Sou história pra uma vida inteira

E só um conto pra quem me julgou

Porque sou filha das disparidades

E gerada pra um mesmo fim

Analisem-me por tempos e tempos

E ainda não haverá tempo pra mim

Olhe e não se deixe levar pelo que vê

Ouça e duvide do que escuta

Pois num instante estou a me render

E no outro já ganhei a luta

Faça tudo só não tente me entender

Sou imagem especular de total complexidade

Ou me ame sem razões e sem porquês

Ou me odeie por toda sua eternidade.

 

Renaly Oliveira

Prometo

 

promesa

Não prometo o que não posso cumprir
Não faço trilhas que não posso seguir
Não crio rotas que não possa fugir
Não mastigo amargo que não possa cuspir
E que eu vomite palavras em você
Que eu fuja antes de cogitar sofrer
Que desvie caminhos que me levem ao mal
E minhas palavras sejam descumpridas afinal
Pra quê manter a você fidelidade?
Porque crer que pode haver felicidade?
Sorrir pensando ter encontrado a metade
Depois queimar o peito sem dó nem piedade.

Renaly Oliveira

Tango da Morte

Thiago-Mendes6-1000x600

A grande piada da vida,
sendo contada por uma risonha humorista
chamada morte,
e ela me faz rir,
e não me amedronta,
e na caminhada
em busca desse mesmo medo
que a tantos traz alguma razão,
eu sem razão nenhuma quis ser igual,
e entrei na caverna
e vi todas as sombras
que divertem e assombram
os felizes miseráveis,
e eu que pensei que acharia a paz,
mui bela morte me fazes rir demais,
se aqui fosse tão agradável
a criança não precisaria chorar
pra alcançar o palpável,
quero voltar pra o abismo,
quero cuspir na vida,
quero abrir as feridas,
só pra ter certeza
de que isso não é tudo uma grande piada,
e se for
que eu possa dar gargalhadas,
rindo da cara de medo
daqueles que se surpreendem
com o eu dos eus de mim,
e no fim soará um tango
e o meu desfecho será de gozo
tendo a morte em cima de mim…

 

Renaly Oliveira

Atalhos…

Licao-de-vida-um-caminho-a-seguir

Atalhos de ósculos asfixiantes
que me façam perder o caminho e a noção do tempo
Amplexos complexos
que desafiem a lógica e me façam levitar
E que sem caminho, espaço,
tempo ou gravidade,
eu seja complemento e não mais lamento
Que a morte me sorria irônica
por ser eu a mostrar a graça de fazê-la rir
E quanto ao fim,
pode estar perto ou distante demais
só depende de quanta piedade vai sobrar no ósculo
e do quanto dura a pressão do amplexo
e quanto a dor?
que seja de quebrar ossos e não poder gritar
porque só assim pra ser pra vida toda
só assim o inferno é eterno
só assim eu não sei dizer não
porque no fim,
sem inferno não tem diversão
e se fossemos santos
tudo pareceria comum
e tudo não seria nada demais
apenas bons e distantes apertos de mão.

 

Renaly Oliveira

Íris

Portas que se abrem a um passado não tão distante, num tempo antes das madrugadas, antes de esperar o amanhecer nublado, que no presente me surpreende com uma manhã de domingo ensolarada, de um sol incandescente de propostas indecentes e indecorosas pra quem está no escuro, trabalhadas numa loucura sem par, apenas o par psicodélico da visão azulada que procura em vão tesouros em janelas de porões de quintais, no qual a vida brinca de viver, como se não fossemos mortais, como se não houvesse amanhã, e eu te pergunto: há?

Sigo para corpos que se jogam e cabeças que racham sob a pressão de ideias, e ainda assim considero melhor me lançar à loucura, e gostar do que se é, alimentando vícios que nos escondem do dia, e como servos da noite que se encontram entre gerações, que sem explicações se esperam, e que faz com que eu me contagie da coragem e me lance ao abismo sem medo, me assuma também filha adotiva de lampião, que não tema a seca que há em nossos corações, porque ele me sabe desde tempos em que nem eu mesma sabia que seria. Viu-me crescer e cresceu comigo, na minha escrita, numa trajetória de insanidades partilhadas e de testemunhos de quando aos 15 anos de idade eu vendi o amor, e sem que fosse muito diferente de mim, vítima da mesma maldição. Hoje não importa mais, porque isso muitas vezes nos parece bênçãos, que pintam corpos cansados com imagens que chocam, que a maioria não entende e mais uma vez trazem a espera.
Sem expectativas, lembro como foi um dia, me oferece uma bebida, acende um cigarro, nos condena ao inferno de ponta cabeça, como faz desde o princípio, me trás um dejavu, e num desatino de plena lucidez, eu vou, porque não consigo conter o riso e azul ainda é minha cor favorita.

Renaly Oliveira