“Vivemos um momento de maturidade”, diz Cariry

  • Entrevista de Rosemberg Cariry a Revista de Cinema

    Fonte: http://revistadecinema.uol.com.br/pagina_conteudo_listagem.asp?id_pagina=65&func=1&id=1656

    O 8º Congresso Brasileiro de Cinema e Audiovisual (CBC) acabou na semana passada, após muitas discussões e resoluções que clamam por uma grande melhoria dentro do cinema e audiovisual nacional – especialmente na convergência digital e com associação com a televisão. Mas há ainda muita coisa a se fazer; muitas medidas a serem colocadas na prática. Para o presidente do CBC, Rosemberg Cariry, cujos dizeres eram sempre lúdicos e lúcidos, o Congresso foi um sucesso, rendendo discussões férteis e resoluções de grande estima. O mais importante, porém, foi o estado democrático atingindo pelo nosso audiovisual, permitindo que tão diferentes entidades se reunissem no mesmo teto para discutir o futuro do cinema. “O 8º CBC é uma demonstração de maturidade política e cultural do cinema brasileiro e isso só é possível, porque temos, na outra ponta, o diálogo aberto, o exercício democrático”, afirmou. Em entrevista para a Revista de CINEMA on-line, Rosemberg Cariry contou um pouco dos principais sucessos do 8º CBC e do que deve se esperar pela frente.

    Segundo sua opinião, quais foram os principais pontos debatidos nesse Congresso?

    Entre os assuntos mais importantes, posso citar: a convergência digital; a relação cinema e TV colocada em novos paradigmas; os novos arranjos produtivos; os fundos regionais de desenvolvimento audiovisual; a criação de redes populares de exibição; e a necessidade do fortalecimento de distribuidoras e programadoras de conteúdo audiovisual brasileiro em todo o país. Foi uma discussão muito fértil.

    E quais as principais resoluções?

    A necessidade das salas de cinema em todos os municípios do país (no mínimo uma sala multiuso em cada município brasileiro, o que implica em 5.564 novas salas); a utilização da banda larga para o conteúdo brasileiro; a criação de TVs Regionais Públicas com conteúdo audiovisual independente; a desoneração da carga tributária sobre os insumos e serviços do audiovisual; e a ampliação dos recursos e dos instrumentos próprios de financiamento da atividade. A questão da preservação dos conteúdos digitais e a formação forma consideradas ações prioritárias. A isso se soma recomendações para a desburocratização dos processos institucionais e aperfeiçoamento dos processos de aprovação e avaliação dos projetos culturais, tendo em conta o pacto federativo e a diversidade cultural, dentro de um pensamento sistêmico, sempre buscando o desenvolvimento sustentável do audiovisual. Por fim, temos toda uma agenda legislativa a acompanhar: o PLS 116, os PLs 6722 (Procultura), PL6835 (Plano Nacional de Cultura), PL 5798 (Vale Cultura), as PECs 416 (Sistema Nacional de Cultura), PEC 49 (Cultura como Direito Social), PEC 324 (Ampliação dos recursos destinados a cultura pela união, estados e municípios). Solicitamos ainda mudanças na Lei 8.666, adequando-a à natureza das atividades artísticas e culturais, a regulamentação do Capítulo 5 e do Artigo 221, da Constituição Federal, a renovação da PL 102 – artigo 1º do Audiovisual e finalmente, a prorrogação pela ANCINE, até após a eleição presidencial, da Consulta Pública sobre a IN22. São muitas as resoluções, todas elas de grande importância para o cinema e o audiovisual brasileiro. Acredito que o 8º CBC trabalhou com questões contemporâneas, dentro de uma visão bem ampla e transformadora.

    Você acha que o 8º CBC atingiu as expectativas?

    Sim, acho que vivemos um momento histórico decisivo, pois nesse encontro estava representada toda a diversidade do cinema brasileiro, com entidades de todos os estados brasileiros. Conseguimos realizar um verdadeiro pacto federativo em torno de idéias comuns e aprovações de pautas consensuais. O 8º CBC é uma demonstração de maturidade política e cultural do cinema brasileiro e isso só é possível, porque temos, na outra ponta, o diálogo aberto, o exercício democrático. Vivemos uma democracia de fato e este país se prepara para realizar a sua destinação de grandeza, onde o audiovisual jogará um papel muito importante.

    Como serão atendidas as pautas do 8º CBC?

    Tivemos, durante todo o congresso, além de mais de 380 representantes de entidades de todo o país, as presenças do presidente e de diretores da ANCINE (Manoel Rangel, Mário Diamante, Glauber Piva e Paulo Alcoforado) que participaram de todo o processo e de toda a discussão. O mesmo aconteceu com a SAv e lá estavam, além de Newton Cannito, muitos diretores e técnicos desta secretaria. O ambiente foi cordial e produtivo. A maioria das questões postas pelos congressistas são questões legítimas e apontam para transformações positivas para o cinema e o audiovisual brasileiro. A ANCINE, através do Manoel Rangel, já acenou que muitas das propostas serão atendidas. O Newton Cannito também recebeu o documento e incorporará as resoluções do 8º CBC no aperfeiçoamento do Fundo de Inovação do Audiovisual. A presença de Tereza Cruvinel, da TV Brasil, foi também significativa e, através do Silvio Da Rin, estão avançando as novas propostas para ocupação da grade da TV Brasil com conteúdos independentes. Realmente acho que vivemos um momento de maturidade. É preciso que se diga: a ANCINE e a SAV nunca deixaram de receber uma comissão do CBC e muitos dos avanços que temos se deu através deste diálogo. Acredito mesmo que teremos mudanças significativas para o cinema brasileiro. Precisamos continuar mobilizados. Depois da conquista do indutor regional e de inovação no FSA, a luta agora é para que o FSA seja uma realidade em todas as regiões do país, com aportes de recursos regionais aos recursos federais, de tal forma que possa funcionar como uma carteira de atendimento contínuo.

    Quais os próximos passos após esse Congresso?

    O CBC novamente afirma-se como uma entidade de âmbito nacional a serviço do cinema e do audiovisual brasileiro, representado a união das mais diversas entidades e dos diversos elos da cadeia produtiva. Temos hoje uma boa interlocução com a ANCINE, com a SAv, e com o Congresso Nacional, o que nos permite lutar pelas reivindicações do cinema brasileiro. Também temos um bom diálogo com o FAC, uma convivência civilizada. O grande desafio, neste momento, é fazer a transição do CBC para o seu novo papel, quando ele passa por transformações importantes para atender às novas necessidades do cinema e do audiovisual brasileiro. Hoje, o CBC não é uma supra-entidade que reúne todas as entidades e representa todo o cinema brasileiro, em todos os fóruns. O CBC, a exemplo da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência – SBPC, é uma entidade nas qual estão filiadas mais de 80% das entidades representativas do cinema brasileiro e age sempre que chamada pelo coletivo. De dois em dois anos, como faz a SBPC, fazemos um grande congresso nacional, debatemos as questões do momento, traçamos planos e estratégias para o desenvolvimento do audiovisual independente brasileiro, sempre respeitando a diversidade e o pacto federativo, numa perspectiva de curto, médio e longo prazo. Uma entidade como o CBC é um modelo único em todo mundo e é fruto da maturidade política do cinema brasileiro, insisto em dizer. Precisamos lutar para conservá-lo. Agora, estamos preparando a transição. Acho que cumpri o meu papel e tem nomes bem representativos, dos diversos setores, que se colocarão à frente da entidade e a conduzirão com responsabilidade e senso histórico. Vida longa ao CBC! Dou por comprida a minha missão, depois de concluída a transição.

    Por Gabriel Carneiro

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