Dia 16:47

  • 1110 Tons de cinza : notas sobre a ocupação do mercado e a mexicanização dos circuitos de salas de cinema no Brasil

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    Em cada país ou em escala internacional , o capital exerce pressão para fora, a partir do centro – em outras palavras, seus lugares históricos de origem – para a periferia. Ele tenta continuamente estender-se em novos domínios, converter setores de reprodução simples de mercadorias, em novas esferas de produção capitalista de mercadorias, suplantar, pela produção de mercadorias que até então só produziam valores de uso. O grau em que este processo continua a ocorrer, ainda hoje, perante nossos olhos, nos países altamente industrializados, é exemplificado pela expansão, nas duas últimas décadas, das indústrias que produzem refeições prontas para servir, máquinas distribuidoras de bebidas e assim por diante. (Mandel, Ernest In O capitalismo tardio. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p.31)

    Mais recentemente, houve uma polêmica acesa no ambiente cinematográfico-audiovisual brasileiro, por ocasião do lançamento do filme Cinquenta tons de cinza , que entrou em 1110 salas, com apenas 237 cópias, num aparente desrespeito ao que esta disposto no Decreto n.o 8.386/2014 . Esta estratégia mercadológica rendeu a empresa Universal um faturamento da ordem de R$ 38 milhões para um público de 2.857.766, segundo os dados do Boletim Filme B n.o 900. Por isso, a atualidade do pensamento do crítico Paulo Emilio Salles Gomes, que no seu seminal texto Cinema: trajetória no subdesenvolvimento (1996) desenvolveu as teses sobre a situação colonial do cinema no Brasil, onde ele afirma que o subdesenvolvimento não é um estágio, mas sim um estado (1996, p. 85). Talvez as teses sobre o subdesenvolvimento não sejam as mais adequadas para entender o atual estágio civilizatório em que nos encontramos, mas, elas ainda se sustentam em alguns setores da atividade econômica e cultural no Brasil. Afinal, somos um gigante que acordou, como otimisticamente anunciava a propaganda do uísque do João Andarilho? E, claro estamos entre as 10 maiores economias do mundo. Um apetitoso mercado em ritmada contínuo de expansão, durante um período de 10 anos (2003-2012). Agregou-se uma Argentina ao consumo de bens e serviços tradicionais, onde o audiovisual pode alcançar uma parte deste quinhão.

    Entretanto, precisamos recuar um pouco no tempo, com a finalidade de entender a verdadeira dimensão do problema da ocupação cultural cinematográfica e audiovisual que estamos presenciando no espaço mercadológico ecrânico nacional. Este que tem se caracterizado como um terreno descampado que permite ao ocupante uma mobilidade que o mesmo desconhece na sua pátria-mãe, mesmo sabendo que o capital não tem pátria, mas os filmes têm, felizmente. A ocupação do mercado audiovisual brasileiro tem se dado de maneira horizontal e vertical de maneira sistêmica desde sempre. Esta situação subordinou a produção nacional ao ritmo imposto pelas grandes corporações que controlam a produção e a circulação dos conteúdos em escala global. Na verdade, desde os anos 90, os mercados de sala de cinema, home vídeo, Tv paga, Pay-per-view, games, Internet e outros são grandes fornecedores de conteúdo importado. O que de fato acontece é que estes produtos chegam ao nosso mercado praticamente sem nenhuma barreira de defesa da produção brasileira propriamente dita. Mesmo em mercados altamente regulados, como a China, por exemplo, a presença das empresas transnacionais do audiovisual apresenta um efeito devastador, o que tem gerado inclusive ruídos na harmônica relação diplomática sino-estadunidense. Basta lembrar o caso Homem de Ferro 3, mais recentemente, onde os chineses resolveram não enviar uma parte dos lucros que o filme tinha gerado por ocasião do seu lançamento na China .

                      Na verdade esta ocupação vem desde a introdução da invenção do cinema no Brasil, ou seja, desde passagem do Sec. XIX para o XX e aí está até hoje. O mercado de exibição cinematográfico desde então vem sendo ocupado por filmes das empresas estrangeiras e/ou seus representantes aqui localizados. Para se ter uma pálida ideia desta situação colonial, a empresa cinematográfica mais antiga em atividade em solo brasileiro é a Fox Films, que aqui se instalou há exatamente 100 anos atrás, onde permanece em larga atividade presentemente. Basta notar que em 2014, a Fox , ou melhor, os seus filmes faturaram a bagatela de R$ 446.258.961,00 maior arrecadação já registrada na história comercial do cinema no Brasil. O montante representa mais que o dobro do faturamento de todo o cinema brasileiro no mesmo período. Estes são os dados inegáveis da ocupação que tem se dado embaixo dos nossos narizes, faz mais de um século. O fato é que sem uma estratégia de enfrentamento direto com o cinema do ocupante, jamais teremos uma atividade de entretenimento fílmico livre da tutela do Estado e autonimizada, dentro das regras do jogo do capitalismo contemporâneo. Isto mesmo num momento como este em que nunca se produziu na historia, em tal escala. Mas, mesmo assim, não se deve esquecer o fato de que a nossa produção média é baixa em quantidade e em qualidade, isto em comparação com o produto estrangeiro que aqui aporta.

    O nosso mercado de salas consome, nas atuais condições, em média, uns 350 filmes por ano. Em outras épocas, com o número de salas que temos hoje, tínhamos quase o dobro de filmes em exibição nas salas. O efeito concentracionista nunca foi tão palpável como hoje se encontra. Portanto, em tese, nas atuais condições, não adiantaria em nada o mercado ter mais salas de cinema, pois o número de filmes exibidos comercialmente nas salas de cinema permanecerá, praticamente, o mesmo. Precisamos de uma regulação mais ordenadora do mercado já, claro que de uma maneira racional, para que o mercado venha mantendo os níveis de crescimento alcançados anteriormente. Neste cenário, o cinema hegemônico e as suas distribuidoras adquiriram um protagonismo em nível preocupante. Isto se deve a várias questões, pois não podemos nos furtar o fato de que pesa uma inabilidade histórica em garantir o espaço para a produção brasileira e, com isso, garantir uma diversidade de programação, que venha a contribuir para a construção de uma cinefilia universalizante e rica, sob o ponto de vista cultural e artístico. Isto porque hoje, praticamente, todos os países do mundo produzem conteúdo audiovisual. O discurso da diversidade cultural precisa voltar à cena, esta parece uma política que teria uma clara postura anti-hegemônica de caráter globalizante.

                      Além desta questão do subdesenvolvimento, existe um dado novo, que seria uma clara mexicanização do mercado cinematográfico brasileiro. Explicando melhor, por exemplo, um blockbuster anteriormente, nos anos 1990, lançado por uma empresa major ou candidata ao posto, era lançado de maneira simultânea em três países, estes que eram vistos como um único mercado, ou seja, os EUA, México e Canadá. O que se percebe é o fato de que de maneira lenta, mas gradual, o mercado cinematográfico do Brasil está se integrando a este mecanismo de lançamento splah de maneira transcontinental. Pois, não temos uma janela de quarentena para isolar estes mamutes cinematográficos, como tem a França, por exemplo. Na realidade, o mercado de sala já se encontra plenamente mexicanizado, basta ver que três empresas detêm mais de 60% da receita total do arrecadado nas bilheterias, entre elas, não por acaso uma mexicana, a Cinepólis que em cinco anos já se tornou o segundo maior exibidor, superando Severiano Ribeiro, que em 1917 completará 100 anos de atividade.

    Outra questão que rebate de maneira bastante imperiosa é o fator tecnológico, ou seja a digitalização da exibição que se encontra amarrada aos esquemas draconianos de VPF que foram mal mimetizados pelos agentes audiovisuais brasileiros. Neste cenário, onde muitos destes agentes se encontram numa verdadeira sinuca de bico, há um grande clima de incerteza. Isto porque muitos pequenos e médios exibidores estão vivendo um verdadeiro processo de estrangulamento financeiro e operacional, a despeito dos esforços da Ancine, pelo seu braço armado, o programa Cinema Perto de Você. Não se pode esquecer que tanto a Cinemark quanto a Cinepólis, atualmente as duas maiores exibidoras em atividade no Brasil, fizeram seus contratos de VPF diretamente com as empresas da MPAA, nas suas matrizes. O que se nota é que a exibição digital padrão DCI virá varrer os pequenos e médios exibidores que não conseguirem se adequar a tal sistema imposto pelas majors. Pois, as grandes empresas já se adequaram ao DCI, como é o caso da citada Cinépolis já operando a algum tempo de maneira totalmente digital e a Cinemark caminhando a passos largos para tal objetivo.

    André Piero Gatti

    apgatti@gmail.com

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